A concepção do San
Marino se iniciou no momento que o Brasil viveu o plano Collor.
Minha pequena empresa provavelmente
não estaria em condições de em um só golpe assumir a competição do mercado
internacional recém aberto, e meu sonho de viajar o mundo navegando continuava aceso.
Propus à Milena, minha mulher,
realizarmos este projeto.
Sua única condição foi:
"aceito, mas quero todo o conforto que temos em casa. Não sou do tipo de andar
descabelada e mal vestida só porque vivo num barco".
Ela teve a coragem e a generosidade
de me incentivar e acompanhar.
Milena adora viajar e fala 6 idiomas,
é também muito organizada, sabe de tudo um pouco, e ainda por cima boa cozinheira!
A companheira perfeita -
Assim, parei de trabalhar e iniciei
uma nova vida como construtor de um barco, que viria a ser o San Marino.
A exigência da
Milena em conforto e segurança, pouco a pouco foram afastando meus desejos de construir
um veleiro.
Para poder ter uma cozinha com máquinas de lavar pratos e fogão completo, banheiro com
água abundante e sempre quente, lavanderia completa e principalmente espaço para levar
tudo que precisamos, o veleiro teria que ser imenso, talvez uns 80 pés, o que significa
mastreamento proporcional, difícil de manejar e principalmente de reparar em alto mar.
O pouco dinheiro também exigia espaço para hospedes, lugar para ao menos 2 casais, assim
poderíamos sobreviver fazendo charter.
E, por mais estranho que pareça, um
barco exclusivamente a motor (que acabou sendo nossa escolha) é mais econômico de
manter, e o gasto de combustível (sendo casco deslocante) não é também muito, pois se
pode compra-lo quase sempre "tax free".
O difícil é faze-lo também
estável e bom para qualquer mar do mundo, e com autonomia para atravessar qualquer
oceano.
2500 milhas
de autonomia é suficiente, pois a distancia entre Honolulu e San Francisco é 2200
milhas, e cobrindo esta perna pode-se ir a qualquer local do mundo, exceto a Ilha de
Páscoa.
Difícil também mante-lo em
dimensões relativamente pequenas.
As
travessias do Atlântico em barcos a motor de menos de 20 metros (65 pés) foram poucas, a
primeira em 1902, pelo Low, de Abiel Abbot um fabricante de motores a querosene que
queria demonstrar a confiabilidade de seus motores e fez New York - Queenstow (Irlanda) em
38 dias, com muita dificuldade, pois o barco era quase um veleiro, com o piloto
exposto ao tempo, cockpit aberto. Ele viajou com seu filho, que não era ainda um
marinheiro. A viagem foi difícil, mas um sucesso, o pequeno motor trabalhou como um
relógio.
A segunda travessia, no mesmo
percurso, foi feita pelo Detroit (35 pés) em 1912, também um barco aberto com motor a
gasolina. Também o Detroit mantinha o conceito de veleiro, com o piloto exposto ao tempo
(para observar o velame, mas sem velas!)
Sómente em 1937, tentou-se uma nova
travessia atlântica por um pequeno barco a motor. Um famoso navegador e pintor francês,
Marin- Marie, construindo seu próprio barco contra a opinião de todos, (O Arielle, 42
pés) efetuou a mesma viagem desde Nova York até Le Havre, em 19 dias, com tempo
bom e com o barco em perfeitas condições. Ele o fez a solo.
Em 1939 foi feita a primeira
travessia em sentido contrário.
O Eckero, 31 pés, conduzido por um polonês , que não obtendo visto para visitar os EUA,
um pouco antes da Segunda Guerra, pegou seu barco tipo pesqueiro, recondicionou o motor
diesel de um cilindro e 10 cavalos, e partiu fazendo escalas na Inglaterra, Açores e
Bermudas. Chegou a New York sem acidentes ou problemas.
Depois da Segunda guerra, não houve
mais tentativas de travessia com pequenos barcos a motor, até 1964, quando o capitão
Beebe, da marinha americana, construiu em Singapura o seu "Passagemaker" ,
e viajou de lá até o Mediterrâneo, via canal de Suez, e depois, pelos canais franceses
atingiu Rotterdam e de lá Inglaterra, Bermudas, USA, sem qualquer incidente.
Motorizado com o lendário Diesel Ford Lehman e 5000 litros de combustível, o
Passafemaker tinha 50 pés, com 46 na linha d'água e 15 de boca, deslocanto 27 toneladas.
Ele viajava com sua mulher, sem
tripulação.
Do interessante livro por ele
escrito, tomei grande parte das informações e com elas pude completar meu projeto de um
barco a motor para longas travessias.
Aprendi também com ele, que para uma vida a bordo é preciso conforto, uma vez que 90% do
tempo fica-se ancorado ou em marinas.
Para matar o desejo de vela, dizia
ele, - Beebe era um importante regatista - pode-se levar um pequeno veleiro a bordo!
Assim, coragem, vamos tentar fazer
tudo a motor.
Sempre tive barcos, sempre fui
apaixonado pelo mar.
Aos 16 anos de
idade, junto com meu cunhado, o Maneco, que viria a ser um grande navegador, construí
dois barcos de madeira, um em compensado, outro em ripas cruzadas.
Eram barcos pequenos, mas me deu
coragem para ir mais à frente.
O projeto era do Maneco (Manoel
Valença) e fiz boa parte do trabalho bruto como marceneiro.
Utilizamos cedro e cabreuva, madeiras
nobres e opostas, aprendi marcenaria e o gosto pelo cheiro de serragem. Iniciei minha vida
profissional, trabalhando na empresa de meu pai, na ferramentaria, entre tornos, plainas e
frezadoras.
Lá aprendi um pouco de mecânica.
Era a época da introdução no mundo
da resina epóxica e do poliester, fizemos moldes e ferramentas com estes materiais,
aprendi assim a laminar com fibra de vidro e utilizar resinas.
Minha primeira experiência com
resinas em um barco foi mal sucedida.
Decidi revestir o fundo de um pequeno
barco de 18 pés com fibra.
Com uma turma de amigos, passamos a
noite no Saco do Major, em Guarujá.
Acordamos com o barco afundando, o
fundo tinha se destacado, apreendi muito sobre aderência, dilatação e principalmente
sobre os interessantes caminhos que a água percorre em uma embarcação.
Tudo isto me foi muito útil quando
decidi "virar" industrial, tendo sido forçado a me aprofundar na eletrônica,
pois os produtos que fabricava precisavam dela.
Consegui também juntar um pouquinho
de dinheiro.
Assim, torcendo para que o novo plano
econômico desse certo, e acreditando que meus conhecimentos técnicos poderiam me ajudar,
tive coragem de escrever a meu amigo David Napier, arquiteto da Bertram Yatchs, Florida,
decidido a construir meu próprio "Passagemaker". .
Caro David,
Estas são minhas especificações básicas para que
você possa tocar o projeto do MS San Marino:
LOA (comprimento) entre 50 e 65 pés;
S/L Ratio (relação velocidade de casco-comprimento
1.2;
A/B Ratio (Relação área exposta ao vento/área
molhada) +- 2.5;
P/C (Coeficiente prismático) 0.62 (para SL 1.3);
Calado) 10% do comprimento;
Proa - O mais alto possivel, mantendo perfeita
visibilidade;
Quilha longa e Leme de grande dimensão;
Estabilizador;
Lastro - O.K. se necessário;
Ponte de Comando - Fechada para boa visão noturna;
Flying Bridge - Não importante, apenas se Ponte de
Comando não tiver visão 360 graus;
Verdugo - Pesado em madeira 4 a 6";
Guarda Mancebos - 40 polegadas de altura;
Casa de Máquinas - Grande, amplo pé direito,
bancada de trabalho;
Cozinha - Confortável, elétrica, com todas as
máquinas residenciais;
Mesa de refeições para 6 pessoas;
Cabine Principal com cama King Size;
Cabines de Hospedes / Tripulação: 3x 2 pessoas;
Todas c/ banho e W.C.;
Jardim de popa de 2 metros;
Plataforma de popa;
Motorização simples ou dupla, com auxiliar no
primeiro caso;
Gerador de grande tamanho;
Aguardo seus comentários
Sergio
A resposta veio em duas semanas:
Caro Sergio:
Sugiro a você fazermos um projeto de um casco semi
deslocante. Assim poderemos evitar os estabilizadores, pois posso faze-lo "hard
chine" e com quilha bastante grande.
Sugiro também dois motores, pois em caso de venda
será difícil encontrar comprador para um barco deste porte com um só motor.
Cheguei aos seguintes números:
LOA 65 pés, LDL (comprimento na linha dágua)
56 pés.
Deslocamento 45 LT
Motores 2 Detroits 6-71 N, injetores N60
Reversor Twin Disk MG 509 2.,48:1
Capacidade Combustível: 3000 galões
Velocidade 12 nós
Consumo 22.5 Galões por hora
Coeficiente Prismático 0.7 (para poder mudando a
motorização atingir 16 nós)
Se você estiver de acordo em 3 semanas lhe envio os
primeiros dados do projeto.
Decidi também "queimar navios".
Assinei
um contrato de locação de um galpão em Osasco, não poderia mais voltar atrás, a
construção tinha que ser iniciada.