MS San Marino - A Concepção

Vela ou Motor - Autonomia - Travessias a Motor - Minha antiga paixão - Carta ao David Napier

geralA.BMP (308278 bytes)  A concepção do San Marino se iniciou no momento que o Brasil viveu o plano Collor.

Minha pequena empresa provavelmente não estaria em condições de em um só golpe assumir a competição do mercado internacional recém aberto, e meu sonho de viajar o mundo navegando continuava aceso.

Propus à Milena, minha mulher, realizarmos este projeto.

Sua única condição foi: "aceito, mas quero todo o conforto que temos em casa. Não sou do tipo de andar descabelada e mal vestida só porque vivo num barco".

Ela teve a coragem e a generosidade de me incentivar e acompanhar.

Milena adora viajar e fala 6 idiomas, é também muito organizada, sabe de tudo um pouco, e ainda por cima boa cozinheira! – A companheira perfeita -

Assim, parei de trabalhar e iniciei uma nova vida como construtor de um barco, que viria a ser o San Marino.

A exigência da Milena em conforto e segurança, pouco a pouco foram afastando meus desejos de construir um veleiro.

Top House 1.JPG (21134 bytes)  Para poder ter uma cozinha com máquinas de lavar pratos e fogão completo, banheiro com água abundante e sempre quente, lavanderia completa e principalmente espaço para levar tudo que precisamos, o veleiro teria que ser imenso, talvez uns 80 pés, o que significa mastreamento proporcional, difícil de manejar e principalmente de reparar em alto mar.

Top Hull 1.JPG (20031 bytes)  O pouco dinheiro também exigia espaço para hospedes, lugar para ao menos 2 casais, assim poderíamos sobreviver fazendo charter.

E, por mais estranho que pareça, um barco exclusivamente a motor (que acabou sendo nossa escolha) é mais econômico de manter, e o gasto de combustível (sendo casco deslocante) não é também muito, pois se pode compra-lo quase sempre "tax free".

O difícil é faze-lo também estável e bom para qualquer mar do mundo, e com autonomia para atravessar qualquer oceano.

2500 milhas de autonomia é suficiente, pois a distancia entre Honolulu e San Francisco é 2200 milhas, e cobrindo esta perna pode-se ir a qualquer local do mundo, exceto a Ilha de Páscoa.

Difícil também mante-lo em dimensões relativamente pequenas.

As travessias do Atlântico em barcos a motor de menos de 20 metros (65 pés) foram poucas, a primeira em 1902, pelo  Low, de Abiel Abbot um fabricante de motores a querosene que queria demonstrar a confiabilidade de seus motores e fez New York - Queenstow (Irlanda) em 38 dias,  com muita dificuldade, pois o barco era quase um veleiro, com o piloto exposto ao tempo, cockpit aberto. Ele viajou com seu filho, que não era ainda um marinheiro. A viagem foi difícil, mas um sucesso, o pequeno motor trabalhou como um relógio.

A segunda travessia, no mesmo percurso, foi feita pelo Detroit (35 pés) em 1912, também um barco aberto com motor a gasolina. Também o Detroit mantinha o conceito de veleiro, com o piloto exposto ao tempo (para observar o velame, mas sem velas!)

Sómente em 1937, tentou-se uma nova travessia atlântica por um pequeno barco a motor. Um famoso navegador e pintor francês, Marin- Marie, construindo seu próprio barco contra a opinião de todos, (O Arielle, 42 pés) efetuou a mesma viagem desde Nova York até Le Havre, em 19 dias,  com tempo bom e com o barco em perfeitas condições. Ele o fez a solo.

Em 1939 foi feita a primeira travessia em sentido contrário.
O Eckero, 31 pés, conduzido por um polonês , que não obtendo visto para visitar os EUA, um pouco antes da Segunda Guerra, pegou seu barco tipo pesqueiro, recondicionou o motor diesel de um cilindro e 10 cavalos, e partiu fazendo escalas na Inglaterra, Açores e Bermudas. Chegou a New York sem acidentes ou problemas.

Depois da Segunda guerra, não houve mais tentativas de travessia com pequenos barcos a motor, até 1964, quando o capitão Beebe, da marinha americana, construiu em Singapura o seu "Passagemaker" ,  e viajou de lá até o Mediterrâneo, via canal de Suez, e depois, pelos canais franceses atingiu Rotterdam e de lá Inglaterra, Bermudas, USA, sem qualquer incidente.
Motorizado com o lendário Diesel Ford Lehman e 5000 litros de combustível, o Passafemaker tinha 50 pés, com 46 na linha d'água e 15 de boca, deslocanto 27 toneladas.

Ele viajava com sua mulher, sem tripulação.

Do interessante livro por ele escrito, tomei grande parte das informações e com elas pude completar meu projeto de um barco a motor para longas travessias.

starboadr1.jpg (84343 bytes)  Aprendi também com ele, que para uma vida a bordo é preciso conforto, uma vez que 90% do tempo fica-se ancorado ou em marinas.

Para matar o desejo de vela, dizia ele, - Beebe era um importante regatista - pode-se levar um pequeno veleiro a bordo!

Assim, coragem, vamos tentar fazer tudo a motor.

Sempre tive barcos, sempre fui apaixonado pelo mar.

Aos 16 anos de idade, junto com meu cunhado, o Maneco, que viria a ser um grande navegador, construí dois barcos de madeira, um em compensado, outro em ripas cruzadas.

Eram barcos pequenos, mas me deu coragem para ir mais à frente.

O projeto era do Maneco (Manoel Valença) e fiz boa parte do trabalho bruto como marceneiro.

Utilizamos cedro e cabreuva, madeiras nobres e opostas, aprendi marcenaria e o gosto pelo cheiro de serragem. Iniciei minha vida profissional, trabalhando na empresa de meu pai, na ferramentaria, entre tornos, plainas e frezadoras.

Lá aprendi um pouco de mecânica.

Era a época da introdução no mundo da resina epóxica e do poliester, fizemos moldes e ferramentas com estes materiais, aprendi assim a laminar com fibra de vidro e utilizar resinas.

Minha primeira experiência com resinas em um barco foi mal sucedida.

Decidi revestir o fundo de um pequeno barco de 18 pés com fibra.

Com uma turma de amigos, passamos a noite no Saco do Major, em Guarujá.

Acordamos com o barco afundando, o fundo tinha se destacado, apreendi muito sobre aderência, dilatação e principalmente sobre os interessantes caminhos que a água percorre em uma embarcação.

Tudo isto me foi muito útil quando decidi "virar" industrial, tendo sido forçado a me aprofundar na eletrônica, pois os produtos que fabricava precisavam dela.

Consegui também juntar um pouquinho de dinheiro.

Assim, torcendo para que o novo plano econômico desse certo, e acreditando que meus conhecimentos técnicos poderiam me ajudar, tive coragem de escrever a meu amigo David Napier, arquiteto da Bertram Yatchs, Florida, decidido a construir meu próprio "Passagemaker". .

Caro David,

Estas são minhas especificações básicas para que você possa tocar o projeto do MS San Marino:

LOA (comprimento) entre 50 e 65 pés;

S/L Ratio (relação velocidade de casco-comprimento 1.2;

Autonomia: 2400 milhas a SL 1.2;

D/L (Relação deslocamento/comprimento) Mínimo 270, carga completa;

A/B Ratio (Relação área exposta ao vento/área molhada) +- 2.5;

P/C (Coeficiente prismático) 0.62 (para SL 1.3);

Calado) 10% do comprimento;

Proa - O mais alto possivel, mantendo perfeita visibilidade;

Quilha longa e Leme de grande dimensão;

Estabilizador;

Lastro - O.K. se necessário;

Ponte de Comando - Fechada para boa visão noturna;

Flying Bridge - Não importante, apenas se Ponte de Comando não tiver visão 360 graus;

Verdugo - Pesado em madeira 4 a 6";

Guarda Mancebos - 40 polegadas de altura;

Casa de Máquinas - Grande, amplo pé direito, bancada de trabalho;

Cozinha - Confortável, elétrica, com todas as máquinas residenciais;

Mesa de refeições para 6 pessoas;

Cabine Principal com cama King Size;

Cabines de Hospedes / Tripulação: 3x 2 pessoas;

Todas c/ banho e W.C.;

Jardim de popa de 2 metros;

Plataforma de popa;

Motorização simples ou dupla, com auxiliar no primeiro caso;

Gerador de grande tamanho;

Aguardo seus comentários

Sergio

A resposta veio em duas semanas:

Hull 3D.BMP (74558 bytes)

Caro Sergio:

Sugiro a você fazermos um projeto de um casco semi deslocante. Assim poderemos evitar os estabilizadores, pois posso faze-lo "hard chine" e com quilha bastante grande.

Sugiro também dois motores, pois em caso de venda será difícil encontrar comprador para um barco deste porte com um só motor.

Cheguei aos seguintes números:

LOA 65 pés, LDL (comprimento na linha d’água) 56 pés.

Deslocamento 45 LT

Motores 2 Detroits 6-71 N, injetores N60

Reversor Twin Disk MG 509 2.,48:1

Capacidade Combustível: 3000 galões

Velocidade 12 nós

Consumo 22.5 Galões por hora

Coeficiente Prismático 0.7 (para poder mudando a motorização atingir 16 nós)

Se você estiver de acordo em 3 semanas lhe envio os primeiros dados do projeto.

 

Decidi também "queimar navios".

Galpao.JPG (80307 bytes)  Assinei um contrato de locação de um galpão em Osasco, não poderia mais voltar atrás, a construção tinha que ser iniciada.

Sergio Castello Branco, Dezembro de 1996