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Invernando em Barcelona - Cadaques - Uma estoria do Rei da Espanha - O temivel Golfo de Lion - Estamos na França

LOG ENTRY FOR: Friday, January 26, 1996

06:30 Estamos iniciando os preparativos para viajar para Barcelona, decidimos passar o inverno lá.

Nos informaram que a temperatura à noite se aproxima do zero, mas de dia está sempre acima de 10 graus. Há dias lindos com céu azul, quando a temperatura sobe acima de 20° . Além disto a Marina é movimentada e há muita vida também no inverno.

Aqui está frio, 9° C, barômetro a 1003 Mb, umidade 78%.

07:00 Banho tomado, vou iniciar o procedimento de viagem.

O procedimento de viagem consta de um formulário de 5 páginas, onde vou checando e anotando tudo que devo fazer e saber ao iniciar uma viagem.

Anoto destino, hora de saída, latitude e longitude, dados do tempo, marcação do LOG, horas dos motores, geradores e dessalinizadores, nível de todos os tanques de diesel e água, estado de carga das baterias e ao chegar a data de chegada, horário, latitude e longitude, proa e condições meteorológicas.

Anotando sempre tudo isto, posso efetuar uma estatística de consumo muito precisa.

Verifico o check list que inclui o fechamento de todas as vigias e janelas, se as portas estão presas e tudo nos armários está bem fixo, verifico a carga dos VHF portáteis, a pressão dos botes infláveis, levanto as antenas, verifico o EPIRB e o equipamento de salvatagem, cabos de atraque, defensas, documentação de todos a bordo, testo as luzes de navegação e todos os instrumentos inclusive o leme, verifico todas as válvulas de casco, checo água e óleo dos motores e geradores e também o sistema automático de incêndio.

O EPIRB é um transmissor automático que flutua em caso de naufrágio e automaticamente emite um sinal de socorro na faixa de 406 MHz, que é monitorada pelo um sistema de satélites COSPAS/SATSAT. O numero de nosso registro é transmitido e nossa posição é computada com precisão de 2 milhas.

9:00 soltamos amarras.

A viagem será curta, são só 20 milhas.

9:30 no rumo, 8.8 nós, 1400 RPM, 8.1 nós no GPS.

Ventos N.W. força 3-4.

Céu de cirroscumulus, bom tempo.

11:00 Estamos a 4 milhas do porto de Barcelona, vemos a torre do aeroporto.

O mar continua muito calmo. a Milena reclama que nunca pegou mar tão bom como este. É verdade, ela tem tido azar, mas agora muda.

Máxima do dia 24° C.

11:30 Entramos na barra do porto de Barcelona. É muito grande, uma viagem até a Marina Port Vell que fica no fundo.

12:00 Atracamos de costado junto a um imenso iate talvez de uns 60 metros.

Uma tripulação incrível, talvez umas 15 pessoas passa o dia mantendo o barco em estado impecável. Até as amarras são limpissimas.

Nunca vi nada igual.

Executo todas as operações necessárias para ligar o barco à marina.

Aqui temos TV a cabo, telefone, água (com medidor, paga-se o que se gasta).

Força trifásica 380 volts, com 60 Ampères, tudo que precisamos.

Temos bela vista de nossa cabine e da sala. Balança um pouco quando passam outros barcos, mas estamos bem.

A cidade, inicialmente ocupada pelos fenícios e depois Cartagineses foi chamada Barcino, pelo Cartaginês Hamilcar Barca em 230 AC.

Os Romanos chegaram em 200 AC e a chamaram Colônia Julia Augustus Pia Faventia, sob Augustus. A cidade foi destruída pelos bárbaros em 263 d.C, mas foi retomada pelos Romanos que então construíram uma grande muralha. Em 415 vieram os Visigodos e a fizeram capital da Gothalania em 415 d.C., daí vindo o nome Catalunha.

Os árabes a tomaram em 713, expulsos em 801, retornando em 985, por um pequeno período, quando a cidade foi queimada.

Depois a cidade ficou independente e sob os domínios de diversos reinados.

Quando Colombo voltou da América, foi também recepcionado aqui, em 1493.

Em 1714 a cidade foi saqueada pelos Franceses, que também a ocuparam no período de Napoleão

Até a guerra civil espanhola, a cidade foi sempre centro de insurreições e revoltas contra a ordem estabelecida, daí o conhecido "hay govierno?, Soy contra" dito pelos catalãos ao chegar em visita a qualquer novo pais.

A cidade é altamente industrializada, uma das mais prósperas e desenvolvidas da Espanha.

Era ligada, no tempo dos romanos à Roma pela via Aurelia, que atingiam em três dias., com carros rápidos cujos animais iam sendo trocados em postos pré-determinados.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, January 27, 1996

8:30 12° C, 1009 Mb, Altocumulus e ninbostratus, pode chover.

Mínima da noite 10° C.

Fomos para Sitges buscar o Defender.

É um lindo dia.

Na saída encontramos 4 ingleses que estão no píer E. Nos convidaram para um drinque em nossa volta em seu barco o Romakeha.

A viagem até Sitges foi confortável, num belo trem.

19:00 fomos ao barco do Mike Hathaway e sua mulher, Audrey.

Eles são de Kenly, Inglaterra.

Ficamos logo amigos íntimos devido a grande quantidade de bebida ingerida. Começamos com "Pink Gin" que é gim com angostura (só uma gota) e um pouco de água.

Depois vinho e Cava, pois acabamos jantando lá.

Foi uma ótima noite.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, January 28, 1996

Chove fino, céu totalmente encoberto.

Saímos as 10 hs com o Mike, a Audrey, o John e a Celia para conhecer Montserrat. São 60 km no Defender.

As montanhas são rochas com formas de dedos que apontam para o céu.

Às 13:00 há um coro de meninos, diariamente, lindas vozes.

O mosteiro apesar de recente é bonito e tem um belo museu arqueológico e também pinturas.

Vale a viagem, principalmente pelas montanhas.

Voltamos às 17:00 . O John e a Celia vieram a nosso barco tomar um drinque e se despediram. Eles retornam amanhã para a Inglaterra.

.

LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 30, 1996

9:30 13.5° C, 80% de umidade, 1006 Mb, chuva, Máxima 15° .

2:30 Fomos almoçar no barco do Mike, o Romakeha.

Estava também o Rafael, marinheiro da marina, com quem nos divertimos muito.

Ele contou muitas historias, entre elas a do capitão do barco que está ao nosso lado, um imenso iate de 60 metros, Izanami, pertencente a um japonês.

O Capitão, alemão, chamou uma vez à noite o Rafael, quando ele estava de guarda. Ele esteva com dois ajudantes, todos grandes e fortes. Quando o Rafael entrou no barco, enfiaram uma pistola engatilhada em sua boca, "só de brincadeira", para mostrar com quem ele estava lidando! Por sinal este barco está se preparando para sair.

Chegaram ontem à noite mais japoneses, e parece que o dono deverá chegar a qualquer momento. Parece um teatro. Tem até tapete vermelho no piso da Marina para que eles não pisem no chão.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 31, 1996

09:15 Altocumulus, bom tempo. O barômetro subiu para 1012 Mb, umidade 75%.

O Dean, a Diane, o Mike e a Audrey, vieram jantar conosco. Milena preparou um delicioso espaguete alle vongole.

O Dean e a Diane, são americanos de Massachussets. Eles estão ha 4 anos no Mediterrâneo com seu veleiro, e tem muito a nos ensinar.

Deixaram os Pilot Books da região conosco. Estão indo para o Kenia passar 2 semanas, devem voltar antes de sairmos. Boa gente.

O Mike e a Audrey vieram se despedir. Estão indo de avião para casa, na Inglaterra. Voltarão talvez em um mês. Não sei se nos encontraremos outra vez.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 01, 1996

9:30 Céu encoberto, 12° C, 68%, 1011 Mb estável, ventos força 2, NE.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 02, 1996

9:30 16° C, Mínima 14° C, 78% de umidade relativa, 1007 Mb, baixando, céu de altocumulus sem furos.

O Izanami saiu ao fim da tarde, rumo às Canárias. Lindo barco moderníssimo, tem 60 metros e faz 35 nós.

As 21:30 chegaram a Maria e o Jesus Conde de Villaverde, nossos amigos de Madri. Trouxeram uma maleta de mão, fechada, que carreguei por bom tempo, e colocamos embaixo da escada. Depois de algumas horas soubemos que ali estava o cachorro, Trufa, que muito quintilha está sempre nesta mala. A Maria viaja, trabalha, enfim, faz tudo levando a cadela.

Jantamos a bordo, um bom fondue, e tivemos conversas agradáveis sobre o passado e o futuro.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 03, 1996

9:45 1010 Mb, 65%, 18° C, mínima 12° C, céu azul sem nuvens, lindo dia de inverno. Máxima 18° C.

Voltaram a Maria, o Jesus e um amigo, o Klaus, que mora ha 30 anos ao norte, perto de Barcelona.

Passamos um dia agradabilíssimo, com um excelente bacalhau feito pela Milena e uma conversação muito positiva. Sinto meu espanhol muito fluente, posso conversar sobre qualquer assunto profundo e me expressar com a mesma facilidade que em Inglês ou Português, apesar de muitos erros gramaticais. Estou contente.

Aprendi a falar espanhol com 17 anos de idade, viajando de mochila pela América do Sul. Sempre foi fácil para mim.

Mas ha uma diferença entre se falar uma língua e poder exprimir-se com facilidade. É uma segunda etapa.

A Milena que fala 6 línguas com perfeição aprendeu Espanhol muito depois de mim, e fala melhor!

É que sendo-se bilingüe, aprende-se outras línguas com facilidade.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 04, 1996

9:30 65% de umidade, a frente passou ha dois dias. 1009 Mb, estável.

Temperatura atual 13° C, mínima da noite 10° C, Máxima 19° C, Stratocumulus 4/8, continua o bom tempo.

13:00 Pegamos a Maria e o Jesus no hotel, e fomos conhecer uma região montanhosa, Tibidabo, perto de Barcelona. Almoçamos Butifarras (linguiças típicas) e deixamos o Jesus no aeroporto, voltando para Madri. Foram dois dias agradáveis com eles.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 05, 1996

8:30 8° C, 1008 Mb, 60%, céu azul sem nuvens, mínima 8° , máxima 18° C.

Pela manhã fomos ao consulado brasileiro, passar uma procuração para o Flávio. Depois comemos num restaurante japonês, pois a Milena estava com saudades dos "sushi" - Razoáveis-

Despachamos também um dos inversores 220 volts para Hannover, para ser consertado. Eu havia ligado um plug incorretamente ainda em Natal e queimaram-se os SCR de saída. Temos dois, trabalhando em paralelo, que nos dão 5000 watts de 220/50 ciclos, um pequeno gerador.

Desde Natal estamos só com um. Funciona bem, mas quando em bateria não podemos usar a maquina de lavar pratos ou o aquecedor elétrico do Pilot House pois consomem muito. O fogão também fica limitado a apenas uma boca.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 08, 1996

8:45 O dia amanheceu lindo, sem nuvens. A temperatura subiu, 13° C, umidade 60%, pressão 1005 MB, subiu 11 Mb. Mínima 10° C.

São estes, na minha opinião os dias mais agradáveis do ano, claros, com muita visibilidade e temperatura ideal. O sol esquenta mas a temperatura do ar nunca passa dos 21° C.

Mas os ventos continuam fortíssimos. O mar deve estar um inferno.

São quase três dias com força 5-6 aqui em terra, no porto.

Nosso anemômetro está a 7 metros de altura, e certamente marca 50% da velocidade real dos ventos na camada acima de 15 metros, que é o que conta. Na terra, a velocidade dos ventos fica reduzida na superfície a 50% da real, salvo fenômenos de afunilamento ou turbulências.

No mar entretanto, esta redução é de só 10%, portanto pode-se confiar no anemômetro.

Todas minhas leituras são as mostradas pelo anemômetro, assim, as tomadas em terra se devem multiplicar por dois.

Hoje está força 10 por aqui (real) e força 11 nas baleares e prevê-se força 12 no Golfo de Lion. Isto é a maior posição da escala Beaufort e eqüivale a um furacão. Ondas de 15 metros podem ser formadas com um vento desta magnitude.

Estamos já ha três dias com estas condições.

O Golfo de Lion, na França, (e também o de Gênova, logo ao lado) para onde nos dirigimos está bem na saída de um funil formado pelos Alpes e pelos Pirineus. O vento vindo de N.W., afunila-se e adquire força impressionante. É o tramontana, como aqui está chamado.

Acresce-se a isto que o golfo é raso, e por isto se formam as ondas imensas.

Mais ainda, são ondas curtas e muitas vezes desencontradas, não as agradáveis vagas oceânicas que se sobe e desce como numa suave montanha (algumas vezes montanha russa).

O Mediterrâneo, tão romântico, pode muitas vezes se tornar raivoso e perigoso, como uma bela espanhola.

Todas estas informações apreendi com a Milena, que é nossa especialista em meteorologia.

11:00 Saímos com o Defender, rumo norte, pela antiga Via Aurélia.

Fomos a Tosá Del Mar, onde almoçamos no restaurante El Celler del Pernil. Comemos muito bem, barato, e ficamos amigos do dono com quem conversamos bastante pois ele gosta do mar e tem um barco.

A viagem foi incrivelmente bela, esta costa é a mais bonita que até agora já vimos em toda a viagem.

De cima das montanhas vamos vendo o mar, que está todo branco de carneiros. É o vento forte.

Vale a pena fazer este trecho de Barcelona até o inicio da Costa Brava em carro. É lindíssimo.

Na volta, na televisão, vimos o estrago causado pelo vento forte de hoje.

Carros virados, casas demolidas e uma marina que teve um pontão destruído com os barcos jogados em terra.

O vento deverá amainar esta noite.

Estamos em local bem protegido e com amarras dobradas.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 09, 1996

9:00 Levei o Defender para revisão de 10000 km. Está com 13 mil.

10:00 Saímos para mandar a procuração da Milena para o Flávio.

Juntamos duas barras de Marzipan como lembrança da Espanha.

O Marzipan é um doce típico espanhol, perto de Toledo, sempre pensei que fosse do norte da Alemanha.

Passeamos pelo Bairro Gótico a pé, voltamos as 15:00, foi um belo passeio.

17:00 Peguei o metrô para ir buscar o Defender.

Barcelona está muito bem coberta por uma rede de metrô excelente.

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 10, 1996

1015 Mb, 60%, 15° C, mínima 9° C, Máxima 16° .

Talvez tenhamos que ir à Itália rapidamente, problemas da herança que a Milena luta para receber.

Por isto resolvemos deixar o barco pronto.

Estou fazendo a revisão de 850 horas, trocando óleo e filtros, e revisando todas as mangueiras e conexões elétricas do motor.

Descobri que um dos terminais de aterramento do neutro de 12 volts estava frouxo. Substitui o parafuso de terra que estava com a rosca errada, deveria ser 10 mm e era 3/8".

O ponto central de tomada de terra é muito importante em um barco. Um mau contato nos terminais de terra pode ocasionar a queima de diversos aparelhos eletrónicos ou o mau funcionamento.

O efeito é colocar em série dois ou mais equipamentos, através do terminal negativo. Ocorre assim uma diferença de voltagem com possibilidade de inversão de polaridade. Por isto, meus instrumentos principais possuem disjuntores automáticos que cortam não só o positivo, mas também o negativo.

Agora sei porque quando o SSB transmitiu em 13 kHz, queimou-se o relay da bomba do piloto automático.

Alem disto, pode ocasionar corrosão por efeito galvânico nas peças metálicas que estão sob a água e ainda em caso do barco ser atingido por um raio, queimar todos os equipamentos eletrónicos. É um ponto importantíssimo, e só depois de 2 anos é que descobri que o parafuso estava impróprio. É que o motor Detroit está sendo pouco a pouco mudado de polegadas para milímetros, e existem parafusos dos dois tipos neste motor, bem como em muitos equipamentos americanos.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 11, 1996

Passei o dia às voltas com o motor de bombordo, fazendo a mesma revisão que ontem fiz no de boreste.

Tudo está bem, apenas o cabo flexível que aciona o tacómetro mecânico (temos 1 tacómetro mecânico junto com instrumentos mecânicos na casa de máquinas ) está começando a apresentar sinais de fadiga.

Nos painéis do Pilot House e Fly Bridge temos tacómetros eletrónicos que estão perfeitos.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 12, 1996

Repeti o trabalho dos motores no gerador, tudo pronto para o próximo verão.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, February 13, 1996

Passamos o dia caminhando por Barcelona, pelas Ramblas, lindos passeios públicos com muita vida e alegria.

À tarde vieram nos visitar e tomar uma cerveja o Cristhian e a Sabine, com sua filha Pilar. Eles estão viajando num lindo veleiro de madeira, o Sturmvogel, de Hamburgo.

O Cristian é restaurador de pinturas de Igrejas, trabalha um pouco, ganha e depois vai viajar. Boa profissão. Tomamos todas as cervejas e ele foi embora bem tarde.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 15, 1996

Saímos as 11:00 para conhecer Cadaques. No caminho paramos em Empuries, uma cidade Grega e posteriormente Romana quando Scipião decidiu cortar a retaguarda de Aníbal, tomando-a por mar.

Desde lá, esta cidade deixou de existir, tendo sido escavada recentemente.

É muito interessante e possui também um museu arqueológico.

É como Pompéia, que infelizmente está muito mal conservada e depredada.

Almoçamos em Cadaques, onde viveram Picasso, Dali e outros artistas no restaurante Sa Gambina, muito bom.

É claro que o dono disse que era ali que Picasso e Dali iam para comer.

É um lindo saco de mar, rodeado por montanhas e penhascos.

Uma pequena vila de pescadores é a cidade, com alguns bons restaurantes.

Voltamos a noite, a Milena não está se sentindo bem.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 16, 1996

11:00 Atrasei meu inicio do dia. Milena está doente, com cistite aguda, passou uma noite muito difícil. Sorte que o médico que ela tinha aqui consultado atendeu-a as 3 da manhã por telefone, e como estamos em uma cidade grande havia farmácias abertas. Ela teve febre e está melhor.

Estou assim fazendo todas as tarefas caseiras, e portanto atrapalhado.

O dia amanheceu lindo, fez a noite 5 graus, está 16° , 1022 Mb, 65%, ventos fracos de S.W., máxima 17° .

11:00 Fui ao supermercado e com dificuldade fiz as compras mais necessárias.

Voltei e fritei dois bifes, a primeira vez que cozinho a bordo. A Milena sempre preparou as comidas e na travessia era o Marcelo que cozinhava.

Sou péssimo de cozinha, tudo que faço faz mal as pessoas que comem.

Mas desta vez, um simples beef com milho enlatado deu certo.

18:00 A Milena esta melhor, com pouca febre.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 17, 1996

A Milena acordou bem, sem febre, uma das coisas da medicina que funciona bem são os antibióticos, e também as cirurgias. Continuam entretanto sem conseguir nem prevenir nem curar as gripes, e até as dores de cabeça são insolúveis para os pobres médicos. Viva também as vacinas que são solução segura. Talvez entretanto devido a elas, o mundo esteja tão superpovoado e com tantos problemas. Duas faces de um mesmo fato.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 18, 1996

Milena continua de cama, melhor.

Aproveitei para colar uma parte do piso externo que estava soltando.

Iniciamos também um álbum de fotografias.

Nossos álbuns antigos estão no Brasil, temos que pedir que algum amigo os traga. Temos tirado muito poucas fotos, nenhuma no mar, onde estamos gravando algumas cenas no vídeo.

É pena porque as fotografias são as chaves de nossa memória como viajantes. Também este diário tem a mesma função.

Nossa memória precisa ser ativada e organizada em gavetas que abrimos cada vez que queremos lembrar de alguma coisa. Assim, cada foto é uma gaveta. Ao vê-la, relembramos os fatos ocorridos naquele dia ou momento.

Para manter esta memória sempre clara, é preciso de quando em quando folhear o álbum, recordando cada momento vivido.

É um processo de se controlar a memória. Pena que assim se esquece também de muitas coisas para sempre.

Mas esquecer é ainda mais importante, pois se ao recordarmos das coisas lembrássemos de tudo e todos os detalhes as coisas seriam rememoradas no mesmo espaço de tempo que aconteceram, sendo assim um paradoxo, pois lembrar de tudo seria não poder lembrar de nada.

Creio assim que para se ter "boa memória" é preciso organização mental e mais importante que isto, é preciso saber e escolher o que deve ser esquecido.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 19, 1996

8:30 1002 Mb, a pressão caiu violentamente ontem. Umidade 60%, temperatura 11° C.

Céu claro com altocumulus a 1/8. Mínima 11° , ventos fracos, Máxima 18° .

Milena foi ao cabeleireiro, e fomos comprar algumas coisas.

16:00 Vieram nos visitar a Tillie e o Nico Irih, do My Lady, um Hatteras 57 nosso vizinho de marina.

São holandeses, e estão com o barco ha 8 anos no mediterrâneo.

Adoram a Iugoslávia. Saíram de lá com o barco devido à guerra, e nos aconselharam a ir no próximo ano. Quem sabe?

Alternam entre o trabalho e o barco, atualmente 6 semanas de trabalho e 10 dias no barco, até se aposentarem.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, February 20, 1996

8:00 Amanhece chovendo. Chuva fraca como sempre, mas as nuvens baixas não deixam passar o sol. 7 graus, volta a esfriar. O barômetro fica em 1000 Mb, umidade 60%, mínima 7° C, Máxima 15° C.

Fomos ao consulado francês e pegamos nosso visto.

É complicado ficar oficialmente por aqui.

As leis são feitas para que eles possam expulsar a qualquer momento os estrangeiros, mas não são aplicadas, só se necessário.

Fui hoje conversar com os tripulantes de uma linda escuna Russa de St. Petersburg, a Sadko, que está bem a nosso lado.

Eles vieram em 4 pelo atlântico, e estou querendo informações sobre os rios da Rússia. A primeira informação é que é impossível agora subir estes rios. Ficamos de nos encontrar mais tarde para um drinque.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, February 21, 1996

10:30 8° C, 50%, 1008 Mb, mínima 3° , a mais fria noite até agora, máxima 14° . Tempestades de neve por toda a Europa, aparecendo aqui na forma de vento forte e temperaturas mais baixas.

Estamos preparando o barco para irmos para a Itália e deixa-lo só.

Reforcei as amarras e puxei dois cabos de poitas no mar para deixar o San Marino um pouco afastado do cais, não sofrendo tanto nossas defensas em caso de vento forte.

Estou preparando também os dinguies, lubrificando os motores e tirando do Flybridge tudo que possa ser roubado.

Nosso barco é muito bem fechado, mais que qualquer casa, e para entrar sem chaves é necessário cortar as paredes com serra elétrica. É nossa maneira de proteger nossas coisas.

É um grande dilema as "janelas" de um barco. As vigias não se discute muito, tem que ser fortes. Mas na superestrutura, no casario, onde se vive todo o dia. há que se ter muita luz e vista, principalmente se se está num clima frio.

Porém uma grande área envidraçada apresenta dois problemas.

O primeiro, e principal, é que um forte mar arrebentando sobre o casco, estoura os vidros de qualquer barco a motor normal. Para se fazer uma travessia oceânica com um barco comum é necessário colocar-se painéis de compensado aparafusados sobre todas as janelas.

Felizmente na publicação da ABS "Guide for Building and Classing Motor Pleasure Yachts" estão os cálculos para se determinar a espessura e qualidade destes vidros.

Resultou no San Marino, vidros temperados de 14 mm na ponte de comando e de 12 mm na Sala. Pesam muito, mas vale a segurança. Foram fabricados sobre molduras em alumínio, no Canadá, e aparafusados a cada 5 cm sobre a fibra do casario. Abrem como nos trens, a parte superior báscula para dentro, oferecendo excelente ventilação.

Também as 3 portas (duas laterais na ponte de comando e uma dupla à popa) são muito robustas, estanques, fabricadas pela Freeman, USA.

Assim de quebra, ganhamos segurança, pois os vidros são à prova de balas e não há ladrão que possa forçar uma porta destas.

O segundo problema é embaçamento em climas frios.

Vidros embaçam quando o ponto de orvalho do ar em contato com ele é atingido. O ponto de orvalho é função da temperatura e da umidade do ar.

Para não haver embaçamento o melhor é manter uma temperatura interna alta, portanto acima do ponto de orvalho.

Se os vidros isolam bem (duplos com camada de ar entre eles seria melhor) e no nosso caso isolam, pois o vidro é material isolante térmico e a espessura ajuda muito, a temperatura da face interior do vidro mantém-se alta. Na ponte de comando a saída do ar quente do aquecimento é bem sobre os vidros, diminuindo este problema.

Para a sala, temos pequenos ventiladores com ar quente, a 12 volts. Ainda não os instalei, vamos ver primeiro como se portam os vidros neste inverno.

17:00 Fomos ao barco do Nico para tomar uns drinques. Ficamos lá até as 21:00. Estes nórdicos dormem cedo, mas eles são muito simpáticos.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 23, 1996

Estamos acabando tudo que tem na geladeira, para deixa-la desligada.

Muitas defensas entre o costado e o cais.

É importante ter defensas de boa qualidade e de tamanho exagerado.

Levamos 6 de 12 x 34 polegadas, tradicionais na cor preta. A cor preta é ideal, parecem sempre limpas.

Levamos também 2 em forma de esfera, imensas, diâmetro 30 polegadas.

São as melhores, mas difíceis de guardar.

Temos também 4 planas, de espuma de células fechadas, que Milena mantém à mão em cada atracagem. São mais fáceis de manejar.

Nossas amarras são todas em Nylon trançado em 3, que é elástico e resistente.

Para spring temos 6 cabos de 3/8" com 20 metros cada.

Para a popa, 4 cabos de 1" com 12 metros cada.

A regra é:

Diâmetro do cabo: 1/8 de polegada para cada 9 pés de comprimento do barco;

Comprimento: Springs: O mesmo do casco.

Popa: 2/3 do comprimento do casco

Arrumamos nossas malas e sairemos amanhã cedo.

15:30 falei com o Carlão por telefone. Ele adiou sua viagem de Madeira para Canárias, para Maio. Talvez venha antes nos visitar. Estamos com saudades.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 24, 1996

10:00 Saímos em direção a Rimini. Almoçamos na França, na Camargue, uma região triste e plana, mas muito romântica. Comemos muito bem no restaurante La Table de Jean, em Sete.

17:00 Saímos da autopista em Nice, (Antiga via Aurelia) para procurar hotel para passar a noite, mas era Carnaval, e tudo estava cheio.

Voltamos à Autopista e saímos já na Itália, em Vintemiglia, onde dormimos em um pequeno hotel, limpo, Hotel Belsoggiorno.

Antes de dormir, Milena telefonou para nosso amigo Remo, dono de um pequeno hotel em San Marino, para onde estamos indo, para reservar um quarto.

Desligado o telefone ela tentou ligar a televisão do quarto, não conseguindo. Pegou novamente o telefone, tirou do gancho e apertou alguma tecla para chamar a recepção e pedir instruções de como utilizar a televisão.

Atende o Remo (a Milena tinha apertado a tecla de rediscagem e não tinha se dado conta). Ao ser perguntado da televisão, reconheceu a voz e disse "Milena, este hotel onde você está não é meu, não sou obrigado a saber como funciona a televisão, peça a seu marido para descobrir!".

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 25, 1996

10:00 Continuamos viagem, passando antes pela Marina de San Remo, onde perguntamos os preços e condições.

Chegamos em San Marino, às 17:00, são 580 km.

Nos hospedamos no hotel do Remo, a antiga casa da avó da Milena, palazzo Mengozzi, muito bem remodelado, onde rimos muito da confusão de ontem.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 17, 1996

Novamente a bordo.

De San Marino fizemos um grande giro que compreendeu a França, Itália, Alemanha, Áustria e Suíça.

Encontramos, aqui em Barcelona, tudo em perfeita ordem.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, March 18, 1996

Iniciamos hoje a limpeza do barco após a viagem. Lavei o Defender e o barco por fora. A Milena arruma e lava todas as roupas que usamos na viagem.

Este foi um teste importante. Ficamos uns 15 dias longe com o San Marino totalmente fechado, com a calefação desligada. Isto significa condensação interna, portanto forte umidade, que pode se transformar em mofo. Mas tudo estava perfeito.

Temos por todo o barco, um sistema de ventilação forçada para evitar os problemas causados pela umidade.

Cada camarote, corredores ou outros ambientes, possui um exaustor de ar elétrico normalmente colocado nos banheiros e um soprador de ar também elétrico que força ar exterior para dentro do ambiente (Nicro Marine). Este sistema forma uma constante corrente de ar (muito leve para ser sentida) mas suficiente para trocar todo o ar do ambiente 2 vezes por dia.

O consumo é mínimo e não afeta nossas baterias por muitos meses.

Para permanências muito longas distante do San Marino, colocamos dois painéis solares que mantém o sistema trabalhando indefinidamente e as baterias sempre carregadas.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 19, 1996

Lindo dia, estamos rearrumando as coisas a bordo, após a viagem.

Milena continua na limpeza e eu estou desmontando o motor de popa do Flexboat, que quebrou uma biela e danificou um cilindro. O defeito é sério!

O trabalho da Milena é grande. O San Marino tem muito espaço a bordo, que deve ser limpo e arrumado.

São três camarotes à proa, para hóspedes, um com uma cama de solteiro, um com duas camas de solteiro e um com uma cama de casal.

Cada um possui seu próprio banheiro com box para chuveiro.

O sistema de W.C. funciona por ar comprimido, e utiliza água doce para não fazer mau cheiro.

Há água quente e fria a vontade.

Entre o local dos camarotes e a sala de máquinas fica a lavanderia onde estão também 2 freezers.

A Sala de máquinas está à meia nau e passando-se por suas portas estanques, entra-se em nosso camarote, à popa. Em uma área de 5,50 m x 5m fica nosso camarote, um corredor onde guardamos sapatos, um "walk-in" closed e nosso banheiro que inclui bidé e banheira.

No piso superior, com acesso por duas escadas, uma da área dos hóspedes, uma de nosso camarote, estão a Sala, 5m x 7m, a cozinha (4x 2.4 m), um lavabo com W.C. e a ponte de comando (5 x 3 m).

Dela, uma outra escada leva ao Fly Bridge.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, March 21, 1996

10:00 Dia de fazer supermercado. A última vez foi em Sitges, ha dois meses atrás. A Milena tem um dom especial encontravel somente em mulheres, de comprar as coisas na quantidade exata. Nada falta depois de feito uma vez o supermercado e nada é comprado a mais.

Gastamos aqui na Europa cada mês o que gastávamos no Brasil cada semana.

É o tipo diferente de vida, tudo mais contado.

O Pryca, supermercado que fomos é magnifico, mas a Milena não gosta por ser muito grande. É assim difícil achar as coisas quando se vai pela primeira vez, é muito cansativo. Precisamos de 4 horas para encher dois carrinhos.

O que mais impressiona são os presuntos crus, o famoso Jamon Serrano que aqui tem um departamento inteiro só para ele.

O Jamon Serrano é um monumento nacional.

Quando o presidente Bush esteve na Espanha de barco (um pouco antes de ser eleito presidente dos EEUU), e seu iate parou em Barcelona (por coincidência na mesma vaga que estávamos), o Rei da Espanha ao visita-lo, levou como presente um "jamon" espanhol.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 22, 1996

8:30 Amanhece nublado, 13.5° C, 75%, 1006 Mb subindo.

Jantamos com o Dean e a Diane, que levaram um casal de americanos o Bill e sua mulher que estão ha oito anos no mediterrâneo. Eles são amigos do Vilfredo Schurmann e sua família, do Guapos, que eles encontraram no Caribe.

Contaram uma historia interessante:

Falando novamente do Rei da Espanha, o Bill veio dos Estados Unidos velejando junto com outro barco americano. Estavam sempre em contato por rádio. Foram primeiro a Açores, depois a Portugal, sempre os dois barcos.

O outro barco foi em seguida para Mayorca, nas ilhas Baleares, onde o amigo que velejava em solitário ficou doente e só, em seu barco.

Não se sabe como, o Rei Juan Carlos, que também é velejador e possuí um lindíssimo veleiro, ficou sabendo disto, e bateu um dia no barco deste americano, sozinho.

Ao ser atendido pelo homem doente, não se identificou e perguntou se ele precisava alguma coisa. O homem disse que sim, que estava contente de encontrar alguém que falasse inglês, e precisava de remédios. Mais tarde, veio a rainha Sofia, trazendo os remédios e algumas compras de supermercado. Chegou inclusive a cozinhar para o amigo de nosso amigo, que não sabia que se tratavam dos reis da Espanha.

Tendo ficado bom, voltou aos EUA em avião. Três meses depois retornou à Espanha e soube que seu barco tinha sido limpo e mantido em ordem por ordens do Rei. Só então pode identificar qual era o casal que tinha sido tão gentil com ele!

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, March 23, 1996

O dia está lindo com altas temperaturas, 23° de máxima.

O Bill apareceu pela manhã para copiar as cartas Brasileiras, pois ele está indo para lá.

Almoçamos Tapas, no El Ramonet, em frente ao mercado de Barceloneta, muito bom.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 24, 1996

Almoçamos no barco do Michael, o Romakeha. À noite vieram o Bill e o Dean para prepararmos nossa viagem. Eles me trouxeram como presente cartas do Adriático, Turquia e Iugoslávia. Vou fazer cópias das cartas brasileiras para eles, pois irão precisar quando forem ao Brasil.

Dá gosto apresentar nosso pais aos estrangeiros através de nossas cartas marítimas. São belas, em bom papel, precisas, e em quantidade.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, March 25, 1996

Estamos nos preparando para sair em viagem, pretendemos ir direto para a França, Antibes.

Vamos portanto atravessar o temível Golfo de Lion, no inverno, seu pior período. Serão 2 dias de viagem.

O Dean irá comigo e a Milena irá com o Defender. É muito longe para vir busca-lo em trem, são mais de 600 quilômetros. (Sempre pela Via Aurélia)

Vamos aguardar tempo bom para sair. O problema é que as previsões por aqui, nesta época, são boas só por 24 horas. O tempo é imprevisível e os ventos fortíssimos alteram a situação rapidamente.

Vamos esperar.

Durante o dia fui levar as cartas do Brasil para copiar, para da-las a nossos amigos.

A frente fria entrou esta noite mas não mexeu muito com o mar.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 26, 1996

Parece que não sairemos hoje. O Golfo de Lion começa a rugir. O vento ainda é fraco, força 6, mas já mexe bem o mar. Vamos ver se hoje amaina, sairemos amanhã.

O mar aqui no mediterrâneo reage rapidamente, tanto em melhora quanto em piora. É por que é pequeno, não tendo as largas vagas oceânicas que viajam milhares de milhas.

Aqui ele bate e volta, formando ondas desencontradas e curtas, por isso mesmo piores, porém rapidamente atingido altura de 10 metros.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, March 27, 1996

7:30 Hoje vamos sair, mesmo com o mar ruim, senão a viagem não começa. Mas faremos apenas um trecho de costa, ate L’Éstartit, ainda na Espanha, e lá ficaremos aguardando tempo melhor para cruzar o golfo de Lion, que está "Rough", isto é violento.

08:00 16° C, mínima 12° máxima 23° . Barômetro marcando 1010 Mb, estável, 62%.

O céu abriu novamente Cirrus, indicando frente quente próxima e possíveis chuvas fracas.

Nossos amigos estão vindo um a um para se despedir.

Interessante esta vida de novos amigos e muitas despedidas.

9:00 Barco pronto estamos chamando a Marina para desconectar a energia elétrica e o telefone, que custou tão caro, mas foi muito útil.

10:00 Deixamos o cais. Bill e Laurie estavam lá e Milena ficou acenando.

São 63 milhas até L’Estartit, é uma viagem curta.

12:09 Saímos da barra. O mar está calmo e o dia lindo.

Estamos em nosso rumo 059° , proa para o cabo San Sebastian.

13:00 Abrimos algumas latas e fizemos nosso péssimo almoço.

13:38 Farol de Arenys del Mar a nosso bombordo.

14:33 Farol de Pineda a nosso bombordo.

15:02 Farol de Tossa. Estamos em frente a Tossá Del Mar , um lindo porto onde estivemos de carro. É onde mora nosso amigo Klaus, que nos visitou em Barcelona.

17:30 Palamós no través de bombordo.

18:15 Atingimos o famoso cabo. O mar esteve calmo até o cabo San Sebastian, onde se tornou desencontrado e violento. O San Marino rolou bastante mas como sempre mostrou-se forte e estável. Já esperávamos.

19:30 Estamos entrando a barra de L'Éstartit. Já é noite, mas entramos com facilidade devido ao Radar.

Milena nos esperava no píer, com o pessoal da Marina para ajudar.

Foi difícil atracar ao modo Mediterrâneo pois as linhas mortas estavam enterradas na lama.

O Dean puxava o corpo morto e vinha a corrente junto, era muito curto para o San Marino.

Acabamos atracando de costado, e estamos bem.

À noite a Milena fez um Fondue e fomos dormir esgotados.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 29, 1996

10:00 Estamos em l’Éstartit, esperando o mar melhorar.

13° C, 60% de umidade, 1010 Mb subindo lentamente, o céu esta azul.

Passou a frente fria, vamos ver quando poderemos sair.

Aproveitamos o dia para, de carro, ir até Cadaques, que o Dean não conhece.

Almoçamos no restaurante L’Áncora em Port de La Selva, razoável.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, March 30, 1996

Céu de altocumulus, 8/8, mau sinal.

A previsão chegou, ventos força 8 ate amanha as 12 horas no Golfo de Lion. Não dá para ir.

Passamos o dia lendo, e consertando coisas quebradas.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 31, 1996

12:00 Acordamos tarde e ainda por cima tivemos que adiantar uma hora nossos relógios, devido a hora de verão.

Fez frio à noite, 12° C, agora esta 13° , o barômetro continua a 1012 e o céu abriu, está todo azul.

Parece que amanhã poderemos sair, vamos ver.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 01, 1996

Continua a espera. Milena telefonou para a Radio Marseille, os maiores especialistas na região, que disseram que só poderemos viajar na quinta feira, pois o mar está terrível, ventos de 70 nós e ondas de 8 metros.

Vamos continuar curtindo a Espanha.

Passamos o dia ouvindo musica e conversando.

O Dean é um ótimo conselheiro, ponderado e inteligente.

Ele está há 4 anos navegando por aqui e conhece bem a violência do mediterrâneo.

Ele, como nós, vindo do Atlântico, sempre teve um certo desprezo pelo perigo do mediterrâneo. Depois que se está aqui é que se vê o peso da barra.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 02, 1996

12:00 O pessoal da Marina veio nos avisar que iria entrar vento muito forte, porque as montanhas da região afunilam o vento aumentando sua velocidade.

Já sabíamos pelas previsões mas não podíamos avaliar como ele entra aqui no porto, pois não o conhecemos.

Estávamos de costado, com preferimos, mas eles acham que é melhor mudar a amarração para "Estilo Mediterrâneo", com a proa em uma poita e a popa no cais, de proa para o N.W. que está já soprando forte.

Acontece que os cabos da Marina estão enterrados na lama e é difícil tirá-los. Vieram dois pequenos barcos da marina nos ajudar mas o vento de repente começou a soprar muito forte e quando estávamos com a proa fora, o "morto" era curto e nos puxava para traz.

Pegamos um outro, e fui para os motores para afastar o barco do cais pois se aproximava perigosamente.

Como havia muitos homens a bordo, Milena estava dentro, calmamente. Saiu rapidamente e pegou uma defensa, mas antes dela chegar a Plataforma de popa já tinha batido uma vez no cais. Foi nossa primeira colisão durante a viagem, mas muito leve e sem estragos.

Conseguimos com muito trabalho passar novos cabos em elos mais distantes da corrente que era muito longa e colocamos o barco em boa posição.

Amarramos linhas extras do costado e da proa ao cais, pegamos um segundo "morto" e estamos prontos para receber os ventos previstos de mais de 120 km/h.

Infelizmente ao trabalharmos com os "mortos" uma das linhas que vai ao cais enroscou-se no nosso leme. Pedimos à Marina para nos enviar um mergulhador, e estamos esperando. Se não vier, vou mergulhar eu mesmo.

19:30 Afinal chegou o mergulhador. Estávamos na cidade telefonando, e o Dean os recebeu. Tiraram o cabo, foi fácil, e nos disseram que nosso fundo e nosso hélice estão limpos. Bom sinal, a tinta venenosa que estamos usando é boa também para o Mediterrâneo.

Ficamos conversando e fomos dormir as 20:00

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 03, 1996

9:30 Grandes ventos durante a noite. O Anemômetro marcou força 8 aqui no porto o que quer dizer força 10 lá fora. Ventos de 40 nós aqui dentro mexem bastante o porto e o barco.

O Barômetro subiu para 1010 Mb, 9 graus que também foi a mínima.

Faz frio pois o vento é N.W., vindo do polo norte. Umidade 60%. O céu esta azul e sem nuvens.

Fomos a Girona, conhecer a bela cidade. O Dean foi junto, sempre de humor agradável

Vamos sair para atravessar o temível Golfo de Lion, amanhã cedo.

Estou preparando a rota, agora sobre cartas do Almirantado Inglês.

Do Brasil até Gibraltar viajamos com cartas Brasileiras e Americanas.

De Gibraltar até L’Estartit, cartas Imray Lorie, inglesas, muito boas.

Me agrada traçar os rumos e anotar os acontecimentos da viagem sobre cartas de papel. Temos uma boa mesa de navegação e podemos trabalhar com as cartas totalmente abertas.

Nosso gaveteiro para cartas marítimas possui gavetas de grande tamanho onde as cartas ficam abertas, estendidas e não enroladas. Estão assim sempre planas e prontas para uso.

São 7 gavetas de 8 cm de altura, tenho centenas de cartas em ordem, fáceis de localizar.

Costumo traçar a rota e determinar todos os WPs, calculando sobre a carta latitude e longitude, rumos verdadeiros e distancia.

Posteriormente transcrevo os WPs para o GPS, o qual recalcula. Confiro os dados por mim calculados com os do GPS. Se tudo está correto, me sinto seguro com meus cálculos.

Introduzo em seguida a rota no GPS, que automaticamente comanda o piloto automático em nossas viagens.

Durante a viagem vou anotando nas cartas todos os dados importantes da navegação. Assim nossas cartas são um pequeno diário.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, April 05, 1996

Acordamos as 6:00 para prepararmos o barco.

7:55 5 graus, a noite mais fria ate agora.

Ligamos os motores, prontos para sair, a Milena vai de carro, nos encontraremos amanhã à tarde, são pouco mais de 220 milhas, mas poderão ser muito mais se tivermos que entrar fundo no golfo e costear.

1015 Mb, 67%, tempo previsto bom, mar agitado.

8:25 Estamos no mar, frente as ilhas Meda, que são nosso ponto de partida.

A barra está pesada, são ondas de 4 ou 5 metros que pegamos de proa. O Dean comenta da solidez do San Marino, incrível como é estável.

9:00 Estamos agora a 4 milhas da costa em nosso rumo.

O tamanho das ondas diminuiu, mas o mar esta agitado. Vem de nossa bochecha de bombordo, o que é ótimo.

09:15 Cruzamos com um navio da Marinha espanhola, que mudou de curso e nos seguiu por algum tempo, talvez curioso com nossa bandeira.

O Dean acredita que ficaram surpresos em ver um barco a motor Brasileiro por aqui.

Ele acha, e eu também que o San Marino foi ate agora o menor barco a motor Brasileiro a cruzar o Atlântico.

O mar esta melhor, desencontrado mas de pouca altura.

Estamos mantendo nosso rumo direto para Antibes o que não faríamos se o mar estivesse entrando por nosso costado, rolaríamos muito.

Teríamos que mudar de rota para fazendo um Zig Zag, pegarmos as ondas de bochecha, mais confortável, ou entrar fundo no golfo.

11:40 Estamos a 44° 11’ N, 3° 42’ E, a 25 milhas da costa da Espanha.

Me despeço deste pais valente e acolhedor. Não esquecerei jamais os meses que passamos lá.

O Mar continua desencontrado, mas suave.

O dia continua lindo, mas frio.

12:00 Acaba de nos ultrapassar o Multitank Antares, um navio de Monrovia que se aproximou bastante e nos cumprimentou.

Deve estar indo para Marseille.

18:30 Dei uma dormida de 2 horas para me preparar para os turnos da noite. Estamos bem no meio do golfo de Lion e uma hora adiantado em nosso plano de viagem. 1460 metros de profundidade, o mediterrâneo também é fundo!

Passei um Fax para a Milena avisando isto que estamos adiantados, pois ela deverá estar chegando em Antibes.

20:30 Acabamos de comer dois mistos quentes cada. Fazemos no microondas, Fica ruim mas é fácil.

No almoço comemos canelones em lata. Razoável.

Está anoitecendo, o Dean desceu para dormir.

Estarei de quarto ate 11:00, depois ele fica ate às 3:00 e eu pego até Antibes, pois é navegação costeira e quero estar atento.

Vamos aproximar-mos da costa na altura de Toulon, depois vamos costeando mais 40 milhas ate Antibes.

10:40 Daqui a pouco vou chamar o Dean para fazer seu quarto, e vou dormir ate as 3.

Nasceu ha pouco um lua linda e vermelha, sinal de bom tempo para amanhã.

O mar está um espelho, e espero que continue assim.

Lá fora esta 12 graus, mas aqui dentro 25° . Estou confortável e com sono.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 06, 1996

3:00 Voltei a meu turno, o Dean já foi dormir.

2:44 Mudei de rumo para o ponto 25, pois havia um grande navio em rota de colisão. Parece um grande porta aviões.

Estamos com a île Porquerolles a nosso bombordo.

A lua ilumina o mar que está um espelho.

A Radio Toulon está sempre no ar, cuidando de cada navio que passa ao largo. Lá está a maior base naval francesa.

Eles chamam cada barco, dando sua posição, rota e velocidade, e pedem que se dirijam para um determinado local.

Nossa navegação é cuidadosa, e evitamos as áreas proibidas, assim não fomos chamados. Mas passou por nós um estranho e grande navio, cheio de luzes, que me pareceu um porta aviões.

4:39 Chegamos a île du Levant , 2 horas adiantados.

Mudamos de rumo, próximo ponto île Du Lerins.

8:31 Saint Raphael em nosso través.

9:30 Estamos frente a Cap Roux, passei um fax para a Milena avisando que chegaremos entre 11:30 e 12:00

O mar está ajudando.

11:35 Entramos na barra do porto de Antibes, atrás de um yatch estranho, de 30 metros, o Fantastique, bandeira inglesa.

Paramos no posto de abastecimento e fui à capitania para registro.

Só querem saber dados do barco e numero da apólice de seguro.

Nada de documentos.

Antes tentei falar com a capitaneria pelo VHF, mas meu francês engasgou, ninguém falava inglês.

Vamos ver se ficando aqui por um mês ele melhora.

Encostamos depois em nossa vaga e como de costume as ligações de água e eletricidade são diferentes. Água, o Dean me deu o plug que tinha comprado. Eletricidade preciso comprar ou alugar um plug.

A Milena chegou, e logo nos vimos.

Saímos depois para almoçar, comemos muito bem, no Auberge Provençale, com muito vinho, saiu caro.

Dormimos depois ate as 8, conversamos e voltamos a dormir.

O Leão estava manso!

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 07, 1996

Estamos na vaga 436, a marina é imensa.

Onde estamos, perto do parking, ha movimento na rua.

Estamos também a poucos passos da cidade, é cômodo.

O Dean se despediu, e foi para a estação pegar um trem para Barcelona.

Ele foi boa companhia e permitiu uma viagem calma para cruzarmos o Golfo de Lion.

Tenho que ligar a eletricidade, a água e o telefone, mas resolvemos sair de carro para passear. Deixo tudo para amanhã.

Fomos para Nice e Villefranche sur Mer, que é uma linda cidade.

Voltamos cansados e dormimos cedo.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 08, 1996

Ainda é feriado. Liguei afinal a luz e a água, lavei o barco por fora e Milena arrumou por dentro.

É o primeiro dia após inverno que posso lavar o barco em camiseta.

Continua céu azul.

Fomos jantar (as 6 da tarde) em um bom restaurante luxuoso (Les Vieux Murs) após muito tempo.

O proprietário, Geoges Romano, cozinha muito bem e é simpático.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 09, 1996

Acabaram-se os feriados. Fomos à Capitanerie para regularizar o barco, ligar telefone etc. O chefe do escritório, Carlo, um Italiano que aqui esta desde criança, foi muito solicito e gentil.

Usamos o resto do dia para arrumar as coisas que tínhamos tirado dos armários e prendido bem para não se soltarem na travessia.

A Marina é imensa e o San Marino é aqui um barco pequeno, tamanha a quantidade de Mega-Yachts, acima de 50 metros.

À noite fomos jantar numa pequena Pizzaria, Chez Giorgio, de um Calabres que atende ao forno e aos clientes simultaneamente. Muito boa.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 10, 1996

Saí para comprar uma peça para a maquina de lavar pratos que parou durante a viagem. Acabei depois de muitas informações parando em um ferro velho (travessa da Via Aurelia) onde os donos com cara de malandros, foram muito gentis e encontraram uma peça igual pela qual paguei 10 dólares. Deveria custar 50 se nova. Em seguida, conversei com eles sobre os problemas da secadora de roupas que é brasileira, portanto 220 volts, 60 ciclos.

Aqui é 240 volts, 50 ciclos, e a maquina esquenta muito, parando devido a proteção térmica. Fizemos uma reunião com todos os técnicos de lá e chegamos a conclusão que um transformador resolveria a questão. Ele então me disse que poderia consegui-lo mas que eu deveria deixar um depósito de 200 francos ( 40 US$) pois não me conhecia. Confiei e deixei o dinheiro. Vamos ver como acaba esta historia

Num barco próximo, mora um alemão de Heildelberg, piloto de aviões, que trabalha nos EUA. Vive 6 meses aqui e 6 meses lá.

Chama-se Peter Eix.

Por ele soube que posso trazer qualquer coisa para cá sem impostos.

Ele comprou assim o seu barco, um trawler de 48 pés, que veio em navio, frete de menos de 5.000 U$.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 11, 1996

Comemos hoje a melhor sopa de peixe de nossas vidas. Foi no Chez Poissoniers, um pequeno e simples restaurante em frente ao mercado provençal.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 13, 1996

Fomos a Marseille conhecer o porto e comer uma bouillabaise, a famosa sopa de peixe local. Voltamos cansados as 9 da noite. Era boa mas não tanto quanto a do Chez Poissoniers.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 14, 1996

Amanhece chovendo, ficamos no barco fazendo coisas que estavam atrasadas, telefonamos para alguns amigos o Baleche, o Milton Rosenthal, o Carlão, cujo barco está agora na Madeira.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 16, 1996

Estamos arrumando as coisas para irmos amanhã para a Itália em carro.

Novamente o problema da herança.

Fomos ao correio enviar umas cartas.

São pequenos prazeres que vou descobrindo nesta vida calma, ir ao correio, comprar pão pelas manhãs, tomar café da manhã fora no inicio da primavera, etc.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 27, 1996

Novamente de volta, a mesma rotina de sempre.

Hoje está chovendo, chuva leve.

1010 Mb, 70%, 19° C

Estamos arrumando tudo, Milena lava as roupas usadas na viagem.

Nossa lavanderia está sempre à toda. Foi sábio faze-la grande e com todo o equipamento possivel.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 28, 1996

Domingo, onde nos reencontramos com a rotina de bordo (em Antibes).

Pela manhã saí para comprar pão, e encontrar-me com os franceses sempre a carregar um baguette.

Depois trabalhei um pouco consertando a bomba de descarga do depósito do W.C.

Comi um sandwich como almoço, descansei, li umas duas horas, e vamos sair para jantar. A vontade é uma sopa de peixe, tipo bouillabesse, mas onde vamos, mais saborosa.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 30, 1996

Vou aproveitar para lavar o barco por fora, já são quase 30 dias que o fiz ao aqui chegar.