AS ILHAS CÍCLADES
Kea - Syrus - Delos - Mikonos - Paros - Santorini
LOG ENTRY FOR: Saturday, September 26, 1998
O Flávio e a Renata, nossos filho e nora, chegam hoje às 20:35, em Atenas.
Iremos de taxi busca-lo.
Vêem estressados, um ano de São Paulo não é mole!
Tudo que tinha que preparar ao longo da semana, (e deixei para a última hora) terei que faze-lo agora.
Mas não é muito.
A bomba de porão da casa de maquinas está com o automático quebrado, o aquecedor de água dos banheiros de proa está com algum problema elétrico e vou instalar os novos disjuntores que comprei para facilitar a ligação elétrica em qualquer marina.
23:00 Voltei de Atenas com o Flávio, a Renata e as bagagens faltando uma mala que se perdeu no caminho.
Devera ser encontrada como quase sempre acontece. Vamos aguardar.
O reencontro foi emocionante e alegre.
O Flávio é cheio de vida e a Renata é meiga e doce.
Formam um belo casal e devem ficar uns 20 dias conosco.
LOG ENTRY FOR: Sunday, September 27, 1998
Saímos o dia inteiro. Primeiro o Flávio e a Renata foram visitar Sounion, o belo templo a Poseidon, de moto.
Depois, eles em Bicicleta nós de moto, fomos almoçar em Lavrion, comemos muito bem o restaurante é excelente.
Tem umas ancoras gravadas nos vidros, dá para identificar, é na praça central.
Em seguida, Milena e Flávio em bicicleta e Renata e eu de moto (os preguiçosos), fomos visitar as ruínas do teatro grego de Lavrion, impressionantes e abandonadas.
LOG ENTRY FOR: Monday, September 28, 1998
Saíram o Flávio, a Milena e a Renata de taxi, para Atenas.
Eu fico por aqui acabando os pequenos serviços, como bombas de água da geladeira, tilt do motor de popa, etc.
A Olympic achou a mala do Flávio. Que bom, tudo acabou bem.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, September 29, 1998
9:00 Estou iniciando o procedimento de viagem para Kea que faço sempre antes de iniciar um longo trecho.
Vamos navegar todas as Ciclades, serão uns 10 dias de navegação parando em ancora ou provisoriamente nos portos. Assim, inicio o checkup que faço sempre em todos os dispositivos de navegação, segurança etc.
10:10 Subimos as bicicletas e as motos, continua o procedimento
10:40 Soltamos amarras.
Estão no cais despedindo-se de nós o Klaus e a Inge, alemães, que estão navegando em sentido contrario ao nosso, vêm da Turquia, vão para a Itália.
11:10 Rumo 040° , estamos indo para NE, o mar nos pega pela popa, é confortável.
Vamos contornar a ilha Helena pela parte norte, para evitar o mar na ponta sul.
O vento é forca 6, de S, céu nublado, 25 graus, 85% de umidade, estamos sob o regime de uma frente fria.
12:00 Rumo 140° , estamos pegando mar com ondas de 2 metros, pela alheta de boreste.
Rola um pouso mas o piloto (o Flávio esta no comando) leva bem o San Marino.
12:15 Cruzamos pela proa o Sea Lady, um cargueiro de belo aspecto.
14:45 A atracagem foi difícil. Havia ventos pelo través de bombordo, o ferro correu da primeira vez, depois de atracados, e tivemos que começar tudo outra vez.
Estas atracagens estilo mediterrâneo são difíceis com vento de través.
Da segunda vez joguei o ferro bem longe e acabou a corrente (100 metros) logo a uns 10 metros do cais. Tentei fazer correr um pouco com os motores, mas desta vez não deu. Tive assim que emendar um cabo na corrente (o que dá um pouco de trabalho).
Com a ajuda do garçom do restaurante que pegou os cabos no cais, conseguimos enfim atracar.
Saímos em seguida para um belo almoço no restaurante da turma que nos ajudou.
Alugamos em seguida uma moto para o Flávio, giramos um pouco e jantamos Pita Giro na cidade capital.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, September 30, 1998
Alugamos uma moto com cambio louquíssimo, e saímos para conhecer toda a Ilha.
É ainda bastante intocada, e os habitantes (como de resto em toda a Grécia) são amigáveis e gentis.
O Flávio esta com o pé machucado e não pode dirigir moto com cambio. A velha Yamaha que alugamos, fica conosco. Eles vão na nossa Honda.
Cada engatada é um tranco e muito barulho. Não sei a que horas este cambio vai se desfazer em pedaços.
Kea é uma pequena ilha, de pequenos vales, pequenas baías e pequenas vilas.
É bela, mas ha pouco a fazer
A noite, jantar no restaurante de nosso amigos onde havia muita festa e comemoração pelo pessoal dos outros barcos.
LOG ENTRY FOR: Thursday, October 01, 1998
Saímos cedo de Kea, pois já tínhamos preparado o San Marino no dia antes, subido a moto, etc.
A viagem foi tranqüila, atracamos bem no centro da cidade que é muito movimentada.
Estamos bem no centro, há uma bela praça onde fica o palácio do governo, Syra é a capital da Ciclades.
Syros foi inicialmente fenícia, depois os Iônicos a colonizaram. Durante a guerra com os Persas, Syros foi forçada a lutar contra os Gregos.
No tempo das cruzadas, pertenceu ao duque de Naxos.
A colonização Veneziana tornou a ilha católica, e ainda hoje sua população segue esta religião, ao contrário do resto da Grécia que é ortodoxa.
A cidade, Syra, foi importante centro marítimo comercial, e foi chamada Hermoupolis, em homenagem a Hermes, Deus do comércio.
Perdeu sua importância com a abertura do canal de Corinto, levando sua prosperidade para Piraeus.
Giramos a cidade a pé, subindo muito alto primeiramente de taxi e depois descemos tudo a pé.
Muitos doces à noite após um jantar de pita giro.
LOG ENTRY FOR: Friday, October 02, 1998
11:00 Estamos saindo da barra do porto. Nosso rumo: Mikonos, a 25 milhas, 140 graus.
13:00 Decidimos parar em Delos, para ver as ruínas e conhecer o local.
O dia esta belo, ventos fracos de sul, muito sol e ótima visibilidade
13:25 Ancorados em Delos. É proibido mas há tantos outros barcos aqui, que virou permitido.
Delos é uma ilha muito pequena, porém é a mais importante das Ciclades.
Na verdade, é considerada o centro das Ciclades, sendo a palavra cíclade derivada de círculo, sendo Delos o centro.
Em Delos nasceu Apolo, aqui foi o local da famosa Confederação de Delos, potência marítima da época.
Não pude ir junto, visitar as famosas escavações.
Há muitos barcos ancorados em pequeno espaço e o vento está mudando a cada instante.
Mas a água é linda e clara, o calor é grande, fiquei curtindo o mar e a paisagem.
15:20 Rumo ao porto de Mikonos
16:20 Estamos entrando em Mikonos. O porto é amplo e bem protegido. Há muito lugar no Píer, tudo vai ser fácil.
Joguei duas ancoras, lentamente me aproximei do cais de popa, atracamos com segurança e facilidade.
O fundo parece bom, estamos seguros.
Veio em seguida um oficial da Capitania. Não poderemos ficar aqui, somente barcos de menos de 17 metros.
Pedimos com insistência, somos o único barco brasileiro, etc. etc., eles concordaram e nos deixaram ficar. (por um dia)
Alugamos outra moto, e lá fomos nós por esta pérola de ilha.
Voltamos tarde da noite.
Um imenso ferry atracou perpendicularmente a nós, a poucos metros de nossa proa e fez uma imensa marola.
Por isto não permitem barcos maiores de 17 metros. Não há espaço!
LOG ENTRY FOR: Saturday, October 03, 1998
02:00 Um navio imenso (Syros Express) atraca na nossa proa, perpendicular.
Nos chama por alto falante, o Flávio acorda e a Renata nos chama.
Ele querem subir no San Marino para facilitar a atracagem passando um cabo por nós.
Logo em seguida, outro ferry fez um grande banzeiro e muito barulho, fui até verificar se tinha água no porão, tanto era o barulho do "wash".
A madrugada está muito movimentada, pois chegam ferryes a cada hora, e fazem um ruído de água fortíssimo, pois a mesma impulsionada por seus potentes hélices passam a alta velocidade sob o casco do navio à nossa proa e o turbilhão deságua sob nosso casco.
10:00 Depois de uma noite mal dormida, saímos pela ilha, para conhece-la, de moto.
Fomos ate a capitania, que nos autorizou a ficar em Mikonos onde estamos atracados, pelo tempo que quisermos
Mikonos, segundo a lenda, foi formada por corpos petrificados de gigantes, mortos por Hércules.
Foi primeiro habitada por fenícios, depois por cretenses, e em seguida por Iônicos.
No século 9 AC, passou a pertencer à Atenas.
Depois das guerras persas, passou ao domínio de Esparta, Macedônicos, Egípcios e finalmente Romanos.
Na idade média, como toda a região, pertenceu aos Venezianos, e em seguida aos Turcos.
No século 19 tornou-se um importante centro de pirataria, pertenceu por um pequeno momento aos russos, e em seguida tornou-se parte do recém formado estado grego.
A cidade é realmente encantadora, mesmo cheia de turistas, como está agora.
LOG ENTRY FOR: Sunday, October 04, 1998
10:00 Lindo domingo. Ontem a tarde entrou um vento de sul força 5 que apesar de fraco mexe um pouco os barcos atracados a nosso lado. Nós estamos firmes com dois ferros, e permitimos até que um veleiro amarrasse seu cabo de proa a nós, pois estavam inseguros.
Estamos sempre girando pela linda cidade, de ruas estreitas e sinuosas, casas brancas e poéticas.
Num destes vai e volta, encontrei grande confusão na proa do San Marino.
Saiu um imenso ferry que esteve a noite toda a nossa frente. Levou com ele o ferro de três veleiros.
Ao subir seu ferro que estava cruzando os cabos de todos os barcos atracados, o ferro de três veleiros vieram junto, enroscados.
O navio não podia assim sair (levaria os veleiros junto) nem os veleiros.
Um deles tentou sair, mas ficou enroscado, é obvio que seu cabrestante não teve força para levantar a pesadíssima corrente do ferro do navio.
Dinguies na água, fomos todos ajudar.
O Capitão do navio, do alto de sua alta proa dava as ordens.
Os marinheiros do navio desceram por escadas de cordas, e nós, dos iates, por baixo, tentávamos soltar os ferros.
O suíço que está atracado ao nosso lado, subiu na âncora pendurada do navio, corajosamente, mas nada conseguiu. Como levantar a corrente de ancora de um dos veleiros (deve pesar uns 200 quilos) e solta-la só com as mãos?
Tudo era muito pesado, um guindaste do navio foi acionado, e só assim conseguimos liberar as âncoras.
LOG ENTRY FOR: Monday, October 05, 1998
8:45 Prontos para sair, estamos esperando a Milena que foi a capitania regularizar os papeis.
Vamos para Paros, a 27 milhas daqui, em nosso rumo para Santorini.
Enquanto isto outro navio, (o Syros Express) está com o ferro enroscado na correntes de 2 veleiros e luta para se safar.
9:05 Ferro levantado, subiram bem, apesar de serem dois.
O Flávio fez os trabalhos do ferro e eu dos cabos de popa.
Saímos pela barra com mar liso e calmo.
O dia é belo, 25 graus, 1015 Mb subindo, 70% de umidade.
9:12 O Soa o alarme do motor de bombordo. A temperatura esta alta (110° C). Desligo este motor e espero a temperatura baixar para tentar mudar para o outro filtro da entrada de água. Não adianta, a temperatura sobe novamente.
Deve ser o termostato.
Vou esperar esfriar para verificar o nível de água, e tentar outra vez.
10:05 Estamos no rumo de Paros, 1830 RPM , 8.4 nós, só com o motor de boreste.
Consumimos 50 litros por hora, tanto quanto com os dois motores.
É a primeira vez que navegamos com um só motor, o barulho do hélice aumenta, o leme se inclina uns 3 graus, mas navegamos muito bem.
10:22 1770 rpm, 8.2 nós, 43 lph
10:25 1700 rpm, 8.0 nós, 39 lph, parece que é a velocidade ideal com um só motor.
12:00 Com o motor frio, fui investigar. Estava sem água e com uma braçadeira de mangueira quebrado.
Troquei a braçadeira, coloquei água novamente e o motor voltou a trabalhar.
Após um pouco, verifiquei a cor do óleo que continua preto como sempre. Se estivesse marrom, mostraria um vazamento de água da refrigeração por alguma junta queimada, misturando-se com óleo, o que é perigoso.
13:00 Atracados em Livadi, Paros, na baia em frente a cidade.
14:00 Com O Flexiboat na água, fomos para a cidade.
É encantadora e com poucos turistas ao menos nesta época. Vale a pena.
Alugamos um carro, demos a volta a ilha, almoçamos em Naousa que é uma das mais lindas vilas da Ciclades. Lá ha hotéis encantadores e um ambiente muito típico.
A Milena foi ao cabeleireiro e assim aproveitamos para ir a uma loja, para utilizar seus computadores na rede internet.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, October 06, 1998
8:50 Levantamos ferro desta calma baia, onde uma água transparente em fundo de 4 metros nos faz ver nosso ferro e corrente, serpenteando pelo fundo, já que não ha ventos.
Estamos de saída para Santorini, serão umas 50 milhas, deveremos chegar às 16:00.
Temos primeiro que contornar Paros, pelo norte, pois o canal entre Paros e Antiparos, é de navegação muito difícil. Na verdade parece impossível navega-lo com o calado do San Marino.
Mesmo olhando com detalhe as cartas não encontro passagem.
O mar esta com pequenas ondas vindas de NW, vento força 3, será uma viagem agradável.
Deveremos chegar em Santorini, por volta das 16:00, são 50 milhas de navegação rumo sul.
12:00 Estamos deixando Naxos, a Milena prepara um almoço com melão com presunto de entrada, bifes de filet mignon ainda italianos e creme de manga como sobremesa. A viagem é calma.
A expectativa é ter dificuldades ao ancorar ou atracar em Santorini.
A formação vulcânica da ilha, recente, ainda não construiu fundos rasos e planos com boa pega.
Ha uma bóia na frente da cidade onde todos se amarram, dizem, causando grande confusão.
13:40 Estamos entre Siknos e Ios. Daqui, mudamos ligeiramente de rumo direto para Santorini.
15:40 Estamos entrando na grande baia (na verdade a cratera do vulcão) . Nos causa grande impressão o fato de estarmos provavelmente navegando sobre os restos da antiga Atlântica.
Chamo a capitania pelo rádio. Nos atendem autorizando nossa entrada e pedindo para mudarmos para o canal 10.
Vem uma voz feminina, uma brasileira-grega, que trabalha na capitania em Santorini.
Chama-se Telia, nos indica onde atracar.
16:20 Estamos atracados, de popa para o cais com o ferro jogado em fundo de 40 metros. Não estou seguro se o ferro pegou bem, e o swell causado pelos barcos que levam e trazem turistas dos navios, mexe muito o nosso barco.
17:20 A Milena a Renata e o Flávio vão para o alto, subindo de funicular, conhecer Santorini.
Fico por aqui pois não posso deixar o San Marino sozinho, com o ferro tão duvidoso.
21:00 Eles estão de volta.
Neste período tive que reajustar o ferro por diversas vezes.
Correu uns 2 metros , pouco a pouco
Estamos com 60 metros de corrente mas o fundo é escarpado nuns 60 graus, parece uma parede e o ferro não pega bem.
22:00 Decidimos lançar mais um ferro, com um cabo de 120 metros. Levei o ferro no dinguie e o Flávio ficou no San Marino controlando.
Joguei muito longe, quando o cabo acabou.
O Flávio retesou bem o cabo que pegou bem.
Com a segurança de um ferro bem preso, tentei subir o outro sem o risco de ficar solto caso ele venha para bordo.
Mas agora ela pegou bem também, o cabrestante não tem forca para arrasta-lo mais.
Poderemos agora dormir tranqüilos, com dois ferros, ambos bem presos.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, October 07, 1998
A noite o mar bateu muito, ha uma ressaca constante por aqui, provavelmente fruto das correntes que entram por uma boca da cratera e saem por outra.
O mar se comporta de uma maneira estranha, assim como é estranha a paisagem.
Mas os ferros estão firmes, estamos bem atracados (dentro das circunstancias).
Saímos cedo para a capitania, onde regularizamos os papeis e conhecemos a Telia, casada com um grego e nascida no Brasil, em São Paulo, filha de mãe italiana e pai grego.
Alugamos um carro e fomos conhecer as ruínas da antiga cidade, 3000 anos atras.
Santorini é composta de três ilhas: Thira, Thirasia e Asprosini.
Santorini, sendo um produto de uma erupção vulcânica, é completamente diferente das outras Ciclades.
Na parte oeste da ilha de Thira, uma cidade branca e cheia de vielas estreitas, quase despenca de um despenhadeiro imenso.
Para subir até a cidade há um funicular muito moderno. Até pouco tempo atras se subia em lombo de burro, que ainda fazem o serviço, para os saudosistas ou turistas em busca de uma romântica viagem.
Contrastando com a costa oeste, a costa leste é composta de longas praias, de água azul e transparente.
Na volta, ao irmos para o lado norte da ilha, paramos para ver como estava o San Marino. Lá de cima, parecia um barquinho de brinquedo, mas dava para ver que estava bem atracado. Ao lado o veleiro de um francês que estava conosco em Lavrion, lutava contra um outro que estava atracado ao seu lado, batendo furiosamente um no outro.
Continuamos o giro pela ilha, fomos à velha Thira, e retornamos por Oia, famosa por seu por de sol, que assistimos junto a monte de turistas.
Após retornar, já noite, o Flávio decidiu ficar pela cidade e visitar o museu da pinturas achadas na ilha , datadas 3000 anos.
Voltamos no Funicular, e lá de cima, vi o San Marino em posição estranha.
Chegando mais perto, vi com terror que o San Marino batia no gigantesco muro de pedras do cais, e a passarela já estava fora do lugar, danificada.
Chegamos às pressas.
Os dois ferros tinham corrido e o barco batia furiosamente com sua plataforma de popa contra a parede.
Pulei as pressas e nem sei como para bordo., Tentei caçar as duas ancoras, mas os ferros correram e não adiantou muito.
Com as baterias fracas, os motores dos guinchos puxavam lentamente. Corri e liguei o gerador.
Tendo medo que os hélices estivessem muito perto do fundo, tive medo de ligar os motores, pois a sondagem de profundidade que eu tinha feito ontem mostrava 1.80 metros (o nosso calado) bem sob as hélices, e 1.40 junto ao muro.
Continuei a puxar mas adiantou pouco, apesar de que desde que comecei a caçar, o barco parou de bater.
Liguei então os motores e mantive o San Marino teso apesar do medo de quebrar os cabos.
Para poder sair tinha que me livrar de uma das ancoras, pois estava sozinho a bordo e se o cabo de uma enroscasse na corrente de outra seria um grande problema.
A ancora felizmente subiu (prova que não estava agindo) e pude assim deixar o San Marino livre. Com a ajuda da Milena que estava em terra desesperada, fomos soltando lentamente cabo por cabo, ate que livre das amarras de terra (4) o San Marino girou e ficou preso na ancora com o cabo de nylon.
Logo chegaram o Flávio e a Renata correndo. Sem entender o que se passava.
A Milena conseguiu o último barco de pescadores que ainda estava no cais (já são 10 da noite), e embarcaram até o San Marino onde eu sozinho o mantinha em posição segura.
Com mais braços a bordo subimos o ferro que estava lançado com o cabo de nylon e nos dirigimos lentamente, no escuro da noite, mas com auxilio de nosso radar, para uma baia mais segura onde passar a noite.
Escolhi Agios Nicolaus, na ilha de Tirasia, parte de Santorini, a oeste da cidade.
Foram 5 milhas de navegação a baixa velocidade pois eu não sabia como estavam os hélices e lemes e tinha medo de acelerar.
O casco parecia integro, só a plataforma de popa, a bombordo estava danificada.
Como é forte este barco!
Chegamos quase a meia noite em Tirasia, em noite muito escura, sem lua ou estrelas.
Nas as cartas a situação não era fácil, pois não ha fundo para se lançar ancora, e onde havia, já estavam outros barcos.
De repente vimos uma lanterna nos fazendo sinais.
Era de um píer, para onde nos dirigimos.
Dois homens nos aguardavam, auxiliaram no atraque que foi simples, de costado.
Falavam inglês, já tinham estado no Brasil (como quase todos os gregos marinheiros) .
Fomos ao restaurante de um deles tomar um vinho local e levamos duas garrafas de cachaça como presente.
Fizemos caipirinha (que eles gostaram muito) e agradecemos a ajuda que eles nos deram no momento que precisávamos.
LOG ENTRY FOR: Thursday, October 08, 1998
O San Marino está bem.
Nada aconteceu com a passarela, só a recolocamos no lugar.
A plataforma esta mesmo quebrada, mas só na ponta.
Uns 25 cm de fibra de vidro reforçada, foi arrancada.
Mas a plataforma agüentou o impacto das 65 toneladas do San Marino contra as pedras do cais, quem sabe por quanto tempo.
Mergulhei e olhei o fundo que esta perfeito.
Estamos agora amarrados a uma poita, muito seguros, no meio de uma bela baia tétrica como paisagem, mas para nós calma e tranqüila depois de ontem.
Almoçamos no restaurante de nossos amigos, e o Flávio a Milena e a Renata subiram até a cidade que está uns 400 metros acima de um barranco, no lombo de burros, que é o único meio de se chegar lá.
Parece que a viagem foi atribulada, pois a Renata chorava de medo.
Voltaram, e a noite foi tranqüila apesar do mar bater bastante.
LOG ENTRY FOR: Friday, October 09, 1998
O Flávio e a Renata decidiram ir embora de avião.
Eles tem pouco tempo de férias e o tempo nos vai prender aqui no mínimo ate domingo. Não ha nada para fazer ou ver pelas redondezas e não queremos mudar de porto pois estamos bem aqui.
Puxei um cabo para terra, o San Marino está seguro.
Entendi finalmente porque se deve puxar um cabo para terra, mesmo quando se e uma poita grande e segura.
O fundo por aqui é escarpado, talvez uns 60 graus, é um penhasco submarino.
As poitas agüentam tração no sentido mar terra pois são forcadas a subir a ribanceira. No sentido contrario, terra mar, corre-se o risco de deslocar um pouco a poita para fora e ela então despenca no abismo.
Almoçamos de novo em nossos amigos, o restaurante Tonia, e a tarde fomos lá com eles ver a previsão do tempo.
Eles nos ofereceram uma garrafa de bom vinho, que bebemos com prazer e soubemos que domingo deverá haver tempo bom para nossa travessia até Creta, de 10 horas.
Saindo cedo deveremos pegar o vento girando de norte para sul, devido a entrada próxima de uma frente fria.
O mar devera acalmar pois Creta nos fará sombra protegendo do sul.
LOG ENTRY FOR: Saturday, October 10, 1998
Novamente sós a bordo, com saudades da Renata e do Flávio, que tanto movimento fazem.
Aproveitei para desmontar o cabrestante da ancora de bombordo, cuja embreagem não desligava pois estava precisando de limpeza.
Em seguida voltamos a almoçar com nossos amigos, de quem nos despedimos, pois pretendemos sair amanhã as 7:00
É um bom horário pois chegaremos às 5 em Agios Nicolaus (sim, é o mesmo nome), Creta, aonde dizem construíram uma nova marina que entretanto não consta no Pilot Book.
As Ciclades foram magnificas, merecem sua fama, vamos agora conhecer a lendária Creta.