|
|
|
|
MS San Marino - Diário de Bordo
NA
ROTA DE COLOMBO
A Tripulação Chegou - Abastecendo
– Largando Amarras – O Mar Piora
– Maurício Vai à Pesca - Tenerife
– Puerto de La Cruz – Teide - Golfinhos
– Vazamento no Motor – Problema
no Piloto Automático – Cabo Verde – Muita
Festa – O Motor de
Bombordo Para – No Meio da Viagem – Racionando
Água Doce – No Return Point – Bacalhau
aos Trambulhões - Barbados
LOG
ENTRY FOR: Tuesday, May 01, 2001 17:00
Continuam os trabalhos para preparação da travessia do Atlântico. Afinal
o dessalinizador ficou pronto. Está trabalhando muito bem, apenas há um
vazamento de gotas de água no T de saída, que é especial. Já tinha
encomendado esta peça na segunda, na Califórnia, vem pela Fedex, vamos ver
se chega antes de partirmos. De
todos os modos, pode funcionar assim mesmo. 21:00
Chegam o Flavio Castello Branco (meu filho) o Marius Bernsee e o Maurício
Millan Pires Armada (amigos de meu filho) O
Jan, com sua gentileza costumeira, enviou um belo queijo da Serra da Estrela,
nosso preferido, 4 garrafas de maravilhoso Dão, e duas de Porto. Como
o Frazer é vidrado no Serra da Estrela, a Milena preparou um bom macarrão
como só as mães sabem fazer e convidamos o Frazer, que também acabou de
chegar de Miami para jantar. O Ron veio também. E
o queijo, quando chegou, foi uma grande festa. Obrigado
Jan, valeu.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 02, 2001 Meu
filho chegou feliz e contente, a Renata, sua mulher, está esperando mais um
futuro neto nosso. O
Marius é um rapaz louro e simpático, que conhece tudo de barcos.
Foi criado na Praia do Forte na Bahia, mora agora em S.Paulo e é
companheiro do Flavio no Wakeboard O
Maurício, amigo fiel do Flavio de muitos anos é quieto e reservado, mas bom
mecânico e pau para toda obra e promete pescar o suficiente para nos
alimentar durante a viagem. A
tripulação começa bem. o Arthur Russi chega amanhã. Eles
passaram o dia trabalhando, o Maurício e o Marius cuidando dos botes
infláveis, e do Flybridge, o Flavio da bolsa de salvamento e criando a rota
para a nossa viagem 24:00
Voltamos da Casa Pepe onde fomos comer umas tapas e boa paella junto com o
William Serfaty, nosso amigo de Gibraltar. Ele mostrou seu bom humor durante
todo o jantar. Nos divertimos muito.
LOG
ENTRY FOR: Thursday, May 03, 2001 O
Flavio passou o dia fazendo a rota. O Marius e o Maurício deram, uma geral no
Flybridge, botando os motores dos dinguies para funcionar, tudo perfeito. À
tarde enquanto fui fazer algumas compras náuticas com o Marius, eles foram ao
supermercado. Jantamos
a bordo, comida indiana.
LOG
ENTRY FOR: Friday, May 04, 2001 Enquanto
lutávamos com a instalação do telefone Inmarsat C, o Russi chegou. Veio
quase a pé do aeroporto. 5 minutos de papo e já colocamos o novo imediato
para trabalhar. Há
muito o que fazer. O
telefone está ligado em instalação provisória, mas não funciona devido a
problemas nos Canadá, na Stratos, a empresa que mantém o contrato com o
Frazer e que passou para nós. Passamos
horas no celular e nada, não funciona. Saímos
a pé pelas cidade a noite. Comemos um kebab marroquino bem ruinzinho,
acabamos a noite no Clipper, onde trabalha o Chris.
Acabamos
a instalação definitiva do telefone, mas o bicho não funciona. Está
recebendo ligações, mas não faz chamadas. Os
técnicos no Canadá reconhecem que o problema é deles, mas não conseguem
resolver. Acho
que vamos viajar assim, pois vamos sair amanhã ou segunda cedo. Estamos
assim sem internet a bordo, mas vamos quebrar o galho com e-mails usando o
inmarsat-C. Nossos
amigos que nos desculpem, não vamos poder responder aos e-mails que tantos
nos mandaram. A
Milena vai embora amanhã cedo, ela vai fazer uma viagem muito interessante
com duas amigas no Land Rover, vai até o norte da Noruega. LOG
ENTRY FOR: Sunday, May 06, 2001 12:00
estamos no posto abastecendo. São 6000 litros que vamos pegar. Foram
20 minutos de navegação desde a Marina, há vento, não está fácil atracar. 15:00
Já estamos de volta à Marina, barco abastecido, pronto. Vamos fazer um bom
jantar de despedida no restaurante indiano, e partir amanhã às 7:30
LOG
ENTRY FOR: Monday, May 07, 2001 7:40
Ligando os motores, tudo em ordem, vamos iniciar nossa longa viagem. Serão
umas 4 mil milhas marítimas, uns 30 dias de viagem, com escalas nas Ilhas
Canárias, Cabo Verde, Barbados e Trinidad, nosso destino final. 7:45
Largamos as amarras e saímos lentamente de nossa vaga. Não
há vento, tudo é fácil O
Frazer e a Jeannot vieram a bordo se despedir. O Ron veio logo em seguida. São
nossos amigos feitos em Gibraltar, tão difíceis de deixar. O
Ron no cais nos ajudou com as amarras. Do alto do fly bridge vou controlando a
saída quando - grande gritaria - O Ron deu um passo atrás para nos ver
melhor e caiu na água. Banho
completo e gente correndo para puxa-lo. 8:15
Estamos saindo da baia de Gibraltar, mar com ondas de 0.5 metros, vento força
1 NW 9:10
Estamos no estreito, navegando próximo a margem européia. Há um canal
demarcado por onde navegam os navios mas vamos fora, na faixa de trafego
local. É
mais tranqüilo e em geral a corrente é menor. Neste
momento temos 3 nós de corrente contrária. Viajamos
a 9 nós, 65 litros por hora de consumo, 1600 rpm. 10:06
Cidade de Tarifa a nosso boreste. É a saída do estreito, deixamos o
Mediterrâneo onde passamos 6 maravilhosos anos de nossas vidas, voltamos ao
Atlântico. 13:05
Começam as ondas , vindas de SW o que não é o normal por aqui nesta época.
São pequenas, meio metro. 14:00
Estamos com a proa para as Canárias, rumo 236. O
mar vem de SW, de nossa bochecha de proa, o que também não é normal nesta
época. Balançamos mais do que se viesse de N ou NW como seria comum. 14:45
O Russi e o Maurício avisam que o almoço está pronto. Mas
é tarde para almoçar. Aproveito
para mudar o horário de bordo para UTC. São portanto 12:45 A
comida veio boa. Torradas com queijo para começar e depois um risoto misto. Mas
tudo isto bem na hora do balanço, pois estávamos rolando muito 13:00
Telefonou a Heather, da Stratos, no Canadá. Nosso telefone está. funcionando.
O Flavio pegou as instruções e reprogramou o aparelho. Pronto
- magica do mundo de hoje - podemos telefonar do meio do oceano. 20:00
A noite entrou rápida com uma lua imensa. Como as nuvens pretas no céu
cobrem só parcialmente, os buracos que a lua encontra brilham no mar. E
um a visão fantasmagórica e assustadora, com as grandes vagas que nos
balançam, passando nos trechos que brilham. É
que o mar engrossou muito, são agora ondas de 4 metros vindas tanto de SW
quanto de NW. 22:00
O Marius traz os sanduíches. A tripulação é ótima, só tenho elogios para
todos.
LOG
ENTRY FOR: Tuesday, May 08, 2001 3:00
O mar piorou muito, estamos rolando ate 20 graus. Vou
mudar 15 graus a rota, para receber as
vagas pela popa. O
Flavio esta fazendo o turno da noite. Antes
foi a vês do Russi e do Maurício juntos, que passaram para o Marius. Enquanto
isto eu dormia no pilot house
para qualquer emergência. As
vagas vem de NW e as ondas de SW, numa altura de uns 4 metros, muito confusas,
o que faz a viagem desconfortável. 7:00
Amanhece. O mar está mais calmo. Voltamos
à nossa rota normal. Ninguém
dormiu nos camarotes. Todo mundo na sala ou no pilot. Casablanca
a nosso bombordo, a 60 milhas. Quem não se lembra do Humprey Bogard? (será
que é assim que se escreve?) 10:30
Bem melhor o mar. As vagas são mais longas e há menos ondas. Vagas de 3
metros. 14:00
O Russi fez o almoço, lingüiça branca alemã cozida com repolho e cebolas,
batatas coradas. No trabalho cebolas caíram na pia e entupiram o triturador.
Cebola é a única coisa que o
entope. Primeira
avaria no mar. Entupiu a pia. No
conserto, um tripulante jogou a água suja do balde que recolheu do
entupimento e junto foram diversas peças do triturador. Caixa
de tubos que sobraram da construção, araldite, está reparado. O
Maurício, equipadíssimo, se pôs em trajes de pesca. Como
balança muito ele amarrou a cadeira em que se senta, amarrou o molinete, se
amarrou ao barco. Pegou
o VHF portátil, que amarrou a si mesmo. Assim
todo amarrado, parecia preso numa teia de aranha. Felizmente
não pescou nada pois todo amarrado assim faria grande confusão. 20:00
O sol acaba de se pôr num magnifico
fim de dia. O
mar esta calmo, vagas de 2 metros pelo través que nos fazem rolar doce e
confortávelmente. Vai
ser uma belíssima noite, diferente da anterior Safi
, no Marrocos, está a nosso bombordo, a 70 milhas, que é a distancia que
estamos da costa. Lá há uma boa Marina, é nossa última chance de se
aproximar de terra. O
turno desta noite foi sorteado, das 8 às 10 o Russi, das 10 à meia noite o
Maurício, da meia noite às duas o Marius, das 2 as 4 o Flavio, das 4 às 6
eu.
LOG
ENTRY FOR: Wednesday, May 09, 2001 3:00
O Flavio que está de turno me acordou. O programa do computador que acompanha
nossa viagem travou. Não importa. Sempre viajei com cartas de papel, tenho
todas de todo o trajeto, vamos voltar a elas. Traçar
a posição, rota, tudo em ordem. Alguns
problemas aparecem. A luz que indica o funcionamento da bomba de porão do
compartimento de colisão, de proa, permanece sempre acesa. Como não há
água, o alarme não toca, deve ser a bóia do automático presa. Desligo o
disjuntor, ela está desligada. Ontem
o vácuo do sistema de alimentação de combustível aumentou muito,
sinal de filtro sujo. Com as
válvulas by-pass passei para outros filtros, a pressão voltou ao normal. O
Russi e o Maurício na casa de máquinas, trocaram os filtros que saíram
imundos. Creio
que houve inicio de formação de bactérias no diesel que ficou armazenado,
apesar de eu ter condicionado com a química própria. Pode ter sido também
no abastecimento, pois antes de abastecer, tiramos amostras de todos os
tanques que vieram limpas. Tive
que desinstalar e instalar novamente o programa de navegação. Já está
funcionando outra vez. 10:00
Estamos com Cap Ghir a bombordo. O
mar está calmo, a previsão para as próximas 24 horas é de bom tempo. Reduzimos
a velocidade para 7.2 nós, para chegarmos de manhã a Tenerife. Entrar
a noite em portos que não se conhece bem dá sempre tensão. Estamos
agora a 1200 RPM, consumindo 32 litros por hora., 13:40
Aumento a velocidade para diminuir a rolagem. passo para 1350 rpm, consumo 44
lph, 8.1 nós gps, 8.2 pelo log. Estamos
dando uma limpeza geral no barco, o herói que faz as coisas difíceis hoje é
o Marius. 13:00
Como sempre o almoço sai caprichado. Tortoloni com molho de creme e
champinhon. O cozinheiro Russi e o sub Maurício botam para quebrar. 15:00
O mar volta a piorar. Mudo novamente de rota, e aumento a velocidade para
segurar o balanço com sustentação. Mar
de través é desconfortável para nós. Me
dou conta de repente que com a mudança de rota para não rolar, estamos com a
proa para Lanzarote, a ilha mais ao norte das Canárias. Poderemos chegar lá
em 15 horas. Talvez valha a pena mudar nossa escala. Todos
concordam, mas depois, pensando melhor, todos querem mesmo é ir para
Tenerife, onde há mais vida, mais noite, mais diversão. O
mar a gente agüenta e o San Marino mais ainda. 20:00
A noite cai, a lua ainda não nasceu, há um incrível céu de estrelas. O
céu do hemisfério norte é completamente diferente do do sul, e no mar é
como no deserto. O céu brilha, as estrelas não estão encravadas num fundo
negro, mas num fundo brilhante de milhões de pequenas outras estrelas. O
turno hoje será das 10 as 12 o Flavio, das 12 às 2 o Marius, das 2 às 4 o
Maurício, das 4 às 6 o Russi e das 6 às 8 eu. É
por sorteio diário que escolhemos os turnos. 23:00
Mudei novamente de rumo, Tenerife poderá ser alcançada amanhã bem tarde da
noite, se aumentar a velocidade. Vamos
pensar.
LOG
ENTRY FOR: Thursday, May 10, 2001 12:00
O turno do Marius começa agora. Eu durmo no pilot house como todas as noites.
Minha cama está ainda arrumada do primeiro dia. Nada
de novo a não ser um navio próximo. 4:30
Aumentei para 1650 rpm, 9.5 nós no log,
9 nós no gps, 70 lph de
consumo Assim
vamos chegar a Tenerife lá pelas 10 da noite de hoje. O
mar baixou, há vagas longas pela popa, o piloto automático trabalha em
continuação. Mas com mar de popa há muito conforto a bordo. 6:00
O Russi que terminou seu turno, oferece para fazer também o meu. Aceito com
prazer e vou dormir um pouco no camarote. Durante
a noite acordei muitas vezes, cada vez que um navio passava, para ajustar o
radar, para transferir combustível, etc. A
Milena telefonou. Ela, a Edna e a Leda, três amigas, estão saindo agora com
nosso Land Rover rumo ao norte da Noruega. Boa Viagem! 10:15
A previsão do tempo é boa, a viagem hoje será tranqüila. 15:00
Com o tempo bom (afinal estamos perto dos trópicos) muda o moral. Paramos
o barco no meio do oceano, e lá fomos todos para água. Depois,
com o barco ainda parado, no
flybridge, o Flavio nos trouxe sardinhas. A
coisa continuou com caipirinha (o Marius trouxe cachaça e limão do Brasil),
almoço com farofa (que o Russi trouxe), farfalle e frango, das mãos dos
mestres cozinheiros Russi e Maurício. No
meio de tudo isto apareceu no radar Tenerife a 77 milhas. A montanha mais alta
de lá, (e também da Espanha) o vulcão Teide, já está a nosso alcance, mas
ainda não visível. A
velha alegria de ver terra, que ainda não vimos mas já sentimos. 18:30
Terra a vista. O Marius foi o primeiro a ver Gran Canária em nossa bochecha
de bombordo. Logo
a seguir avistamos o Teide, Tenerife. 19:40
Tudo pronto para entrar daqui umas 3 horas. O
sol começa a se por, vermelho e forte, as luzes de navegação estão acesas,
defensas prontas, ancoras liberadas (amarramos as ancoras fortemente durante
estas travessias), bandeira da Espanha em um pau, bandeira amarela (Q) no
outro, basta aguardar. Quer
ver se consigo voltar ao mesmo lugar que atracamos à 6 anos, pois o pilot
book nos manda ir para a Dársena Pesqueira e na Dársena de Los Llanos, onde
estivemos é muito melhor e mais central. 21:00
chamo pelo canal 16 o Porto de Santa Cruz de Tenerife. Me
responde um voz feminina, simpática, da praticagem. Diz
que lá ha agora uma Marina, a Marina del Atlantico, na escuta no canal 9. Chamei
diversas vezes, nada. De
volta com a praticagem, ela telefonou para a Marina que ficaram de me chamar
pelo canal 9. Nada. Quando
estávamos a 1 milha (10 minutos) da entrada da Dársena, chamei de novo a
praticagem, que me autorizou a entrar. No
cais nos esperava um rapaz avoado, que nos ajudou nas amarras. Terra
firme, o Flavio o Marius e o Maurício saíram pela noite, eu e Russi ficamos
a bordo. Vamos
deixar para amanhã a comemoração. Os
motores estão com 1950 horas, 92 horas navegadas O
Log marca 759 milhas percorridas Os
tanques mostram que consumimos 5962 litros, e o Floscan marca 6037. Uma
média de 65 litros por hora à velocidade de 8,25 nós, nada mau.
LOG
ENTRY FOR: Friday, May 11, 2001 9:00
Acordamos cedo, às 8 mas já são 9 pelo horário local. Uma
boa arrumada no barco é do que precisamos. O
Marius já tinha dado uma geral interna, agora, depois de ter ligado água e
eletricidade, deu uma lavada por fora também. O
Russi e o Maurício, fazem uma lista de compras pois vão ao supermercado a
tarde. O
Flavio, prepara cópias dos passaportes de todos (os originais vão ficar a
bordo), e trata de alugar um carro para conhecermos a ilha. 11:00
Acabo de voltar do escritório da Marina e da Policia. Papeis em ordem. Combinei
também o abastecimento de óleo diesel. O caminhão virá a nós à 13:30 de
hoje. O
dia é belo, sol, 25 graus. A Marina bonita, limpa, bem no centro da cidade. Apareceu
o dono do Espalmador, de Nantes, um belo sloop de alumínio sem pintura. Eles
estavam ao nosso lado em Santorini, na Grécia, quando nosso ferro correu e o
San Marino ficou batendo no cais enquanto passeávamos pela ilha. Eles
ficaram na mesma Marina que nós, em Creta. Nos
encontramos novamente na Córsega, depois na Sardenha, em Porto Conte, e agora
eles estão aqui. Dizem
que estarão em Trinidad no inicio de agosto. Nós também! 15:30
Os tanques estão cheios. Foram só 4843 litros. É que para encher mesmo
completamente demora um pouco mais, é preciso esperar a espuma que se forma
baixar. Como o preço por aqui não é bom, (35 centavos de dólar por litro),
também não fiz questão de pegar muito diesel. 20:00
Depois de uma volta pela cidade todos voltaram. O Flavio e o Marius com um
carro alugado, o Maurício e o Russi com dinheiro trocado. 24:00
Estamos de volta de um giro pela cidade. Comemos boas "tapas" em uma
cervejaria e voltamos para subir no quebramar da Marina e bater um papo. O
tempo é bom o mar está calmo, vamos ver se dura. Nossa
previsão é partir na segunda feira, para Cabo Verde.
LOG
ENTRY FOR: Saturday, May 12, 2001 22:00
Não toquei no diário de bordo o dia inteiro. A
manhã foi movimentada e o tempo curto, pois pretendíamos dar uma volta por
toda Tenerife, e queríamos inicia-la cedo. Mas
hoje é sábado, se não fizermos nossas provisões pela manhã, não
poderemos partir na segunda cedo. Assim,
o Russi, que tinha preparado a lista de compras, saiu com o Flavio, o Marius e
o Maurício, para o supermercado. Foram
também ao mercado, que parece que fez muito sucesso, e voltaram carregados
com as compras de muitos itens, alguns deles calculados para agüentar até
Barbados, pois em Cabo Verde os suprimentos são difíceis. Eu,
de moto girei meia Santa Cruz para encontrar dois rolamentos para o alternador
que parou durante a viagem (Não fez falta, é o alternador para as baterias
de serviço, temos dois) e uma bomba de água para o ar condicionado. Mas
tudo ou quase tudo está fechado por aqui no sábado. A sorte me ajudou,
consegui um dos rolamentos e a bomba. O outro, vou usar o último que tenho em
estoque. Saímos
à uma da tarde, direto para Puerto de La Cruz, que fica do outro lado da ilha,
e é o o porto antigo principal da ilha. É
uma bela cidade espanhola do século 17, com suas ruas estreitas , seus
balcões, e muita vida. Perto
do antigo forte, o Russi descobriu um restaurante de pescadores, onde se chega
subindo uma escada quase secreta. Muito
simples, mesas de plástico quebradas sem toalhas, o cardápio não existe.
Come-se os peixes e mariscos que chegaram pela manhã, tudo feito na chapa por
um tipo muito estranho, que não emite nenhum som. Mas
que delícia! Começamos com "almejas" , nossos mariscos, depois
"chocos", uma espécie de lula mais gorda e desenvolvida, depois
caranguejo, depois badejo e um outro peixe local que não sabemos o nome,
batatas canárias, cozidas com casca e molho apimentado, tudo isto acompanhado
de um decente vinho local. Tudo
custou muito pouco, e foi bom apreender com o Russi e o Maurício como comer
um caranguejo e uma cabeça de peixe (cada um ficou com uma). Na
saída, uma doceira, com os tipicos doces espanhóis, maçudos e grandes. De
lá, Icod de los Vinos, outra cidade antiga e charmosa, onde entramos em uma
"bodega". Lá, vinhos, para provar, dos doces aos secos, dos tintos
aos brancos. Saímos
carregados com 6 garrafas de branco, um licor e algumas besteirinhas. De
Icod, atravessamos a ilha para o Sul, para Los Gigantes, onde imensos
penhascos despencam sobre o mar muito azul. Foi
lá que ficamos 6 anos atrás com o San Marino, Milena e eu. Por
sinal me traz recordações cada
minuto que viajo pelas Canárias. Que pena que a Milena também não está
conosco. Dos
Gigantes, voltamos costeando para Santa Cruz, onde está o San Marino,
observando com tristeza as imensas construções turísticas modernas que
destruindo a beleza da paisagem, contribuem monetariamente para a riqueza dos
Canários. Tudo tem dois lados na vida. Voltamos
já noite. O Russi, o Marius e o Maurício saíram para dar uma volta e
telefonar. O Russi voltou logo, os outros dois desapareceram pela noite
Canária, quando (e como) retornarão?
LOG
ENTRY FOR: Sunday, May 13, 2001 10:30
O pessoal saiu para conhecer a cratera do vulcão Teide. Já estive lá uma
vez, é impressionante. Fiquei
a bordo. Tenho que montar o alternador para o qual comprei os rolamentos ontem. 17:30
Eles estão de volta, eu também já acabei o meu serviço. O
Maurício providenciou um coquetel no jardim de popa, com queijo brie, e
salgadinhos. Muito
whisky e vodka foram necessários para dissolver tudo isto. 24:00
Estamos de volta de Los Cristianos, que eles queriam conhecer. Acabamos
jantando lá num restaurante italiano passável. Amanhã
partimos lá pelo meio dia. Temos que devolver o carro alugado, preparar o
barco para a viagem e partir.
LOG
ENTRY FOR: Monday, May 14, 2001 12:00
Tudo pronto, Marina paga vou ligar os motores. O
Flavio já preparou a rota, vamos embora. O
tempo é bom, a previsão também, 1020 mb, 25 graus, céu azul com cumulus
esparsos. 12:20
Já fora da barra, rumo sul, mar calmo sem ondas, ventos N, força 2. 14:40
Mudamos de rumo, agora a proa está apontada para Cabo Verde, ilha de São
Vicente. Estamos
na Punta de Abona, sul de Tenerife 14:50
Um grande cardume de golfinhos, dezenas senão uma centena, nos seguem,
dançam na nossa esteira, pulam ao nosso lado e nadam colados à nossa proa. O
show durou uns 10 minutos, e a água claríssima ajudou a vê-los também sob
a superfície. 16:15
O almoço saiu tarde como sempre, Mas foi peixe com alcaparras, valeu. O
mar continua calmo, agora com longas vagas pela aleta de boreste. O
Marius coloca massinha contra baratas nas gavetas e armários, o Maurício
pesca, o Russi estava de turno enquanto eu arrumava a máquina de lavar roupas,
cuja bomba entupiu porque coloquei panos muito velhos da casa de máquinas
para lavar no programa mais forte. O
Flavio dorme, ele ficou de turno até uma hora atras. 21:00
Ainda é dia, os golfinhos voltaram ainda mais alegres. Uma dezena deles se
colocou à nossa proa e nadam juntos, uns passando sobre os outros, como
flechas implantadas no nosso casco. Outros
saltam à nossa volta. Que espetáculo! 24:00
acordo com o bip do GPS. É que atingimos um waypont e entramos no segundo
trecho. O Maurício termina seu turno e vai chamar o Russi que pega da meia
noite às duas.
LOG
ENTRY FOR: Tuesday, May 15, 2001 4:00
O Marius me chamou, é minha vez de fazer a guarda. Confiro
todos os instrumentos, dou uma olhada na casa de máquinas, tudo em ordem. Estamos
a 125 milhas de Tenerife e a 180 milhas da Ponta de José Torno, na África,
na Mauritânia. Cabo Verde, está aproximadamente a 700 milhas daqui. Devemos
chegar sexta-feira no cair da tarde, Mantemos
1560 rpm, 9 nós, 55 litros de consumo por hora. Há
lua, meia lua, iluminando nosso caminho. A
faixa que brilha como uma estrada irregular, a nosso bombordo, é o manto que ela deita sobre o mar. Já
não tão forte, ela divide com as estrelas o domínio de céu escuro. Temos
lua e estrelas, não para nos guiar, mas para embelezar e clarear nossa noite
no mar. A
Milena telefonou ontem. Ela estava também num barco, num ferry, entre a
Dinamarca e a Suécia. A viagem delas corre alegre e feliz. Viajamos
não sei movidos por que força. Mas para Milena e eu, basta sentar em um
banco de automóvel e apontar numa estrada para estarmos livres e
entusiasmados. Este vírus nos pegou irremediavelmente, não somos mais
turistas, somos viajantes e o destino é o que menos interessa. 12:00
A viagem prossegue calma e sem incidentes. O mar vem pela aleta de popa, quase
popa, vagas longas de uns 4 metros de altura, o San Marino se acomoda
docemente. O
Marius dá uma geral no barco, o Flavio aprimora as rotas e calcula nossa
viagem, o Maurício e o Russi já estão preparando o almoço. 18:30
Incentivado pela tripulação resolvi dormir esta noite no meu camarote. Tenho
estado com sono, pois à noite durmo pouco e de dia fico conversando
etc. Meu
turno ficou para as 6 da manhã. Bom, vou dormir a noite direto
LOG
ENTRY FOR: Wednesday, May 16, 2001 5:30
Estava dormindo em meu camarote quando senti a luz acesa na sala de
maquinas. Achei que alguém tinha esquecido, dei uma olhada pela vigia da
porta e apaguei. Instantes depois acendeu de novo. Era o Russi que estava lá
dentro e eu o deixei no escuro. Ele
tinha detectado um pequeno vazamento na saída de água salgada da
refrigeração do motor. Bem onde se juntam a água expulsa e o escapamento,
na mufla. Já
tive vazamento neste mesmo ponto, em Vitoria, com 200 horas de motor. Soldamos
lá e nunca mais o problema voltou, só em Palma de Mallorca, no ano passado,
1700 horas de motor depois. Ressoldamos e o problema voltou hoje. Desliguei
o motor com problemas (boreste), limpei bem o local e fiz uma solda com epoxi,
química. Vamos ver se agüenta ate Cabo Verde. Lá decidiremos se ressoldamos
ou não. A
velocidade baixou para 7.6 nós e o consumo está a 30 litros por hora, com um
só motor. 6:40
Voltei aos dois motores. Ainda vazam algumas gotas, deixei secar pouco, apesar
das instruções da cola dizerem 30 minutos a 20 graus e eu ter deixado 60
minutos a mais. O
pequeno gotejamento segurei com massa para vazamentos hidráulicos. Vamos
aguardar. 12:00
Mais um problema pela manhã. A bomba de descarga do esgoto dos banheiros dos
hospedes parou de esgotar o tanque. Temos três tanques de esgoto que são
esvaziados em alto mar, para não poluir marinas e baias. O
Maurício fez o serviço, nem sempre muito limpo, ajudado pelo Russi. 14:20
Como prêmio eles não cozinham hoje. Pizza congelada vai para o forno. O
tempo continua bom, mar de popa, vento de popa, corrente de 0.1 nós
favorável afinal. 20:55
O sol toca o horizonte. Acendo as luzes de navegação, começa a noite. Estamos
com o Cap Timinis, na Mauritânia em nosso través de bombordo, a 319 milhas.
Na bochecha o Senegal, na proa, Cabo Verde a 320 milhas. O
cozinheiro Russi e seu primeiro ministro Maurício não agüentam só pizza no
almoço (que acabou vinda acompanhada de um strudel de frutos do bosque cozida
na hora) e preparam o jantar. Já saiu um
camenbert como aperitivo. Que
viagem gastronômica! 22:00
Meu turno hoje é das 22 à meia noite. Tudo apagado no San Marino, menos as
luzes de navegação e este computador. O
jantar foi bom, teve até vinho australiano que o Maurício comprou. Vou
novamente para fora, curtir a noite e as estrelas. Depois de um inverno na
Europa, curtir as noites neste clima tropical, fora, com as estrelas
iluminando meu mundo, é uma felicidade só.
LOG
ENTRY FOR: Thursday, May 17, 2001 6:00
O Flavio me chama, o piloto automático parou. É um problema conhecido ha
muitos anos, os pequenos relês que interfaceiam a eletrônica com o motor
hidráulico, vez ou outra colam e param. Basta um tapinha. Por isto ainda não
me empenhei em resolver o problema, tão infreqüente e tão fácil de
resolver. 8:05
Estou de volta à ponte de comando. O Russi dorme sentado na sala, o Maurício
estendido no sofá. O Marius em seu camarote. O
Flavio me passa seu turno informando que um peixe voador caiu no convés. O
Russi apressou-se em levar o infeliz para a cozinha. 10:3o
Terminei minha rotina diária pela manhã que é: Verificar
a sala de maquinas, pegar a previsão do tempo e passa-la para um gráfico,
enviar este diário de bordo via satélite para nosso site na Internet, dar
uma pequena arrumação no pilot house e pronto, começa o dia livre. 12:10
Com o dia magnifico estamos sempre fora, tomando sol. Hoje
há inúmeros cardumes de peixes voadores, alguns deles bem grandinhos,
alegrando nossa viagem. 15:00
O almoço saiu magnifico, e incrível, na hora!!! Desta
vez foi torteloni com molho de tomates, bem temperado, para napolitano nenhum
botar defeito. Sobremesa-
Sorvete - straciatella com molho de chocolate derretido - tudo tão bom que
acabamos também consumindo um licor de Rum e Mel que compramos nas Canárias.
Que viagem sacrificada! 22:30
Ainda é claro. Dakar em nosso través de bombordo. Dá para escutar pelo VHF
alguns navios que se destinam para lá mas nada existe num raio de 72 milhas,
que é o alcance de nosso radar principal. O
mar engrossa um pouco, mas pela popa não incomoda. Não
satisfeito com o maravilhoso almoço o Russi volta para a cozinha para fazer o
peixe voador, de uns 15 centímetros de comprimento. O
Flavio traz do freezer calamares, começa tudo de novo. Já comemos roquefort
com torradas, isto aqui é o barco de Babete. Quem mandou convidar o Russi e o
Maurício? O
Marius passou bem uma hora na roda do leme pilotando com o mar vindo pela popa.
Ele faz um bom trabalho, se o piloto automático pifar já temos substituto. Cabo
Verde está a 150 milhas. Vamos
chegar lá amanhã lá pelas 3 da tarde, hora local, duas GMT.
LOG
ENTRY FOR: Friday, May 18, 2001 4:12
O Russi me acordou à pouco, é hora de meu turno. Tudo
calmo, a noite é muito escura não há lua ou estrelas. 5:25
A lua nasce pequena e tímida, vermelha e estreita, entre as pesadas nuvens
que cobrem todo o céu. É
quase uma despedida, chegaremos hoje pelo almoço e ela que nos acompanhou por
toda a viagem, desde Gibraltar, também nos deixa. 5:45
Ilha de Santo Antão (próxima a São Vicente, para onde vamos) na tela do
radar. Está a 54 milhas daqui e é um pico de mais de 2000 metros. 9:25
O Maurício subiu no Flybridge - terra à vista - S.to Antão e São Vicente
mostram veladamente sua silhueta. 2:20
Estamos ancorados em Porto Grande, ilha de São Vicente. Fui
de inflável até a capitania, está fechada abre às duas. Eu
não sabia que horas eram, voltei a bordo. Ligamos a radio local, o Flavio
disse: acabei de escutar, duas e meia. Chamei
a capitania por radio, me confirmaram. Abrimos às duas. " Que horas são
agora?” Doze e meia, oras. Atrasamos
nossos relógios duas horas, estamos na hora local. 16:00
Documentação em ordem, a única recomendação é não deixar o barco só.
Sempre alguém a bordo. A
cidade é limpa, bem arrumada e as pessoas muito simpáticas. Os
quatro desembarcaram e foram dar um giro pela cidade. Fiquei a bordo. Voltaram
um pouco desanimados. 20:00
Já escureceu, os quatro voltaram à cidade para jantar. Fiquei a bordo. Horas
depois, o Marius me chama pelo rádio e transmite a musica que estão tocando
no restaurante onde eles estão comendo lagosta, o prato mais comum por aqui. Reclamei,
pois fiquei com vontade de estar lá, isto não se faz, só para me dar água
na boca. Logo
em seguida o Flavio me chama, insiste para voltar e tomar meu lugar na vigia. O
restaurante é muito agradável, umas pérgula semi aberta, há um palco onde
um conjunto típico, muito parecido com nossos conjuntos de chorinho. Eles
são muito bons músicos e a noite girou com muita musica de cabo verde, fados
e musica brasileira. Logo
fizemos amizade com a mesa ao lado onde se comemorava um aniversario. No
final a cantora e o regional se sentaram à nossa mesa, e acabamos convidando
o pessoal para uma noite no San Marino, amanhã. Vamos
ver com vai ser. O
Marius e o Maurício ficaram em terra para continuar a noite, o Flavio, o
Russi e eu fomos dormir. Eles
voltaram muito tarde, nadando, de cara muito cheia.
LOG
ENTRY FOR: Saturday, May 19, 2001 13:00
Todo mundo à bordo novamente para o almoço. O Russi foi soldar a mufla que
estava vazando, o Flavio foi alugar um carro e ver sua passagem de volta.
Infelizmente ele precisa voltar, sua mulher, nossa nora Renata, que está
gravida, está passando não muito bem, e ele volta para estar junto à mulher
nesta hora difícil. Exerceu
suas funções de navegador e controlador de toda a instrumentação de bordo
com eficiência e sabedoria. Agora volta tudo para mim, é bem trabalhoso. O
Maurício está montando a bomba do ar condicionado junto com o Marius. 15:00
Saímos para uma volta à ilha, subimos a montanha mais alta, tudo é deserto
e muito bonito. Fomos
à Praia da Gata, muito cheia de vento e vazia de gente. O
Russi ficou a bordo. Na
volta passamos pelo mercado para comprar peixe, e ao chegarmos o Russi já
tinha cozinhado algumas lagostas que foram nosso mísero jantar. 20:00
Chegaram os convidados. Dois violões, um cavaquinho, dois no ritmo, mais
nossos vizinhos sul-africanos, o Chris e a mulher, que chegaram ontem num
veleiro e estão rumo a Gibraltar.. A
festa rolou a noite toda, foi animada, muita musica e conversa sem sentido. A
bebida local, o Grog, parecido com a nossa cachaça foi muito apreciada.
LOG
ENTRY FOR: Sunday, May 20, 2001 10:00
Todo mundo dorme menos o Marius que já deu uma geral em todo o barco. Está
limpo e arrumado depois da festa de ontem. Logo
em seguida aparece o Flavio, e o Maurício. O Russi despencou mesmo. Também
ele tem dormido pouco é sempre o último a deitar e o primeiro a levantar. É
dia de despedidas. O Flavio embarca para o Brasil, ainda sem passagem. Ele
comprou uma para Sal, a ilha mais ao norte de todo o arquipélago, de lá vai
voar para Lisboa, de lá para o Brasil. Esta
vida no mar tem suas vantagens. Jamais poderia conviver tão próximo a meu
filho, por tanto tempo, se morássemos regularmente na mesma cidade. 19:00
Estamos retornando do aeroporto. Vamos dormir muito cedo, pois amanhã vamos
abastecer às 8 da manhã, retornar a nosso ancoradouro, e partir na terça
bem cedo. Serão
uns 13 dias de viagem só mar para todos os lados, 2200 milhas marítimas,
quase quatro mil quilômetros de navegação continua. O
combustível é justo, temos que viajar com a ponta do lápis bem afiada.
LOG
ENTRY FOR: Monday, May 21, 2001 8:00
Estamos navegando rumo ao píer de abastecimento. 8:40
Começou a entrar diesel no tanque. Calculo que em duas horas deveremos ter
abastecido. Precisamos de 6000 litros de combustível, que custa aqui 30
escudos cabo-verdianos por litro. Mas
nossa entrada não foi sem incidentes. Na manobra para atracar, como faço
costumeiramente, entrei com a proa em direção ao cais num angulo de 45 graus. Freio
com o motor de bombordo e o casco gira docemente retesando a amarra de proa e
encosta o costado no cais. Há muito vento, esta é a tática. Mas
desta vez na hora dar reversão o motor de bombordo parou e só percebí
quando já era tarde. Felizmente o Maurício estava com uma grande defensa na
mão e amorteceu o choque, nada aconteceu. Mas
o motor não pega, o que será? É a primeira vez em todos estes longos anos
que um motor não responde prontamente. 10:20
Estamos de volta a nosso fundeadouro. Viemos com um só motor. 16:00
Afinal o motor trabalha de novo. A causa?
Sujeira no diesel. Logo
que saímos de Gibraltar tivemos que trocar dois filtros de combustível que
saíram negros, talvez bactérias. Creio que alguma pequena partícula passou,
e entupiu a válvula de alivio da bomba de combustível. Foi difícil achar o
defeito, mas está reparado. 20:00
Enquanto eles foram ao supermercado, acabei de eliminar dois vazamentos no
circuito de refrigeração de água salgada nos dois motores. Eles estão
prontos para a viagem. Mas falta ainda trocar óleo lubrificante e montar a
bomba do ar condicionado que compramos em Tenerife. Decidi
assim adiar a partida, mais um dia. Partiremos na quarta, 23 bem cedo. Vamos
fazer tudo com calma para fazer bem feito. O
Chris e a mulher aproveitaram a carona e foram também ao supermercado. Eles
nos contaram que estão viajando para levar o barco, que não é deles, até
Gibraltar. Não
receberam pagamento para isto, apenas alguns dólares para a despesa. Dei
a eles todos os meus foguetes de sinalização vencidos, que troquei em
Gibraltar, todos os remédios vencidos que troquei em Gibraltar. Melhor
vencido do que nenhum. Eles vão chegar lá e procurar emprego. Eu
também estou já vencido mas em perfeita forma. Idades e vencimentos não
são datas limite,. Apenas
referencias.
LOG
ENTRY FOR: Tuesday, May 22, 2001 8:15
Todo mundo trabalhando na casa de máquinas. O Russi retira a vigia de seu
camarote por onde ha uma entrada pequena de água, que ele descobriu por uma
mancha na madeira da parede. O Maurício e o Marius montam a bomba do ar
condicionado. 14:00
O Maurício e o Russi tratam de trocar óleo de ambos os motores. Eu reviso a
rota previamente feita pelo Flavio. Passei
também na capitania para retirar os documentos do barco e pagar os
emolumentos, bem razoáveis. Estamos
prontos para partir. 23:00
Voltamos do Jovic, o barco do Tyler e da Chris. Estive nos dias anteriores
chamando o marido de Chris, mas é ela que é a Christine. Eles
fizeram um jantar de despedida para nós, maravilhosa salada de batatas que em
geral eu não aprecio. Nós nos controlamos para não abusar da cerveja pois
vamos viajar amanhã bem cedo.
LOG
ENTRY FOR: Thursday, May 24, 2001 8:12
Estou novamente na ponte de comando, banho tomado. O
Russi e o Maurício já estão por aqui também Estamos
neste momento completando as primeiras 24 horas de viagem. Navegamos exatas
150 milhas, ao contrario das 200 milhas por dia que vínhamos fazendo até
agora. Navegamos com um só motor, alternando bombordo e boreste a cada 8
horas, para lubrificar a caixa de reversão hidráulica. É a redução da
velocidade para consumir menos. O
mar abaixou e apesar de continuarem as grandes vagas pela aleta de popa, a
viagem esta confortável, o dia belo e os peixes voadores continuam a cair a
bordo. 16:30
Atingimos o Waypoint 42, 200
milhas navegadas. O calculo de consumo assusta. Com mar pesado o consumo
aumenta. Vamos baixar para 6 nós, 1250 rpm e ver como será esta perna.
Dividimos o trajeto em 10 pernas, cumprimos a primeira com grande expectativa
pelo consumo. Não agradou. 17:30
Estamos exatamente no meio da viagem que começou em Gibraltar. Navegamos até
agora 1815 milhas, faltam 1815 milhas para Barbados. Comemoramos
com champanhe blanc de blanc que foi também espirrado sobre a tripulação na
proa. 20:14
A noite entrou com nuvens escuras e sombrias. A lua apareceu quase uma linha,
quase uma eclipse. O mar baixou, mas há vagas grandes de norte que nos fazem
rolar de quando em quando. O
Russi está na cozinha, juntando os restos da cebola do bife do almoço com
farinha e ovo. Vamos ver como vai ficar. 23:00
A farofa foi um sucesso. Troco de motor outra vez. O motor de bombordo que
agora ligo, mostra desde o inicio um pequeno tec-tec perto do hélice, junto
ao pé de galinha. Hoje este tec-tec aumentou e na dúvida voltei ao motor de
boreste. Amanhã
pretendo mergulhar para dar uma olhada no cortador de cabo, pode ser dali o
pequeno ruído.
LOG
ENTRY FOR: Friday, May 25, 2001 9:45
Desde cedo estamos lidando com o motor de bombordo, pois o mar está muito
forte para mergulharmos. Decidimos usar só o motor de boreste, até termos um
mar mais calmo, para então mergulharmos e vermos o motivo do tec-tec. O
dia está nascendo nublado, ventos força 5 de NE, a tripulação está alegre
e feliz, como sempre., 13:00
Aperitivos, lingüiça frita e caipirinha de grog. Navegamos
desde ontem a noite ajudados por uma corrente de meio nó. É a corrente
equatorial norte, que estamos esperando. Ela está vindo de NE , a 2 nós e a
resultante é esta ajuda. Ela
deverá ir cada vez mais para leste, pode chegar a até 2 nós. Será uma
grande ajuda para nosso consumo e velocidade. 18:00
O jantar saiu cedo, mas sofisticado. Scampi empanado, bolinhos de arroz,
ervilhas. Nada acontece a bordo, só dá para comentar a comida e os peixes
voadores. Cada
um na sua. Há muita musica, vídeos e DVDs, livros, pilot books, e também
muita preguiça. Mais
do que isto, há o mar e o céu, tudo só para nós. Nada ao redor, nem o
radar com suas 74 milhas de alcance vê nada. A terra mais próxima está a
1000 quilômetros daqui. O
Flavio está fazendo falta com sua energia exuberante. 23:00
O turno hoje ficou: Maurício (10 às 12)
Sergio (12 às 2) Russi (2 as 4, Marius (4 as 6) Maurício (6 as 8) . Sem
o Flavio, quem pega o primeiro turno faz também o ultimo.
LOG
ENTRY FOR: Friday, May 25, 2001 9:45
Desde cedo estamos lidando com o motor de bombordo, pois o mar está muito
forte para mergulharmos. Decidimos usar só o motor de boreste, até termos um
mar mais calmo, para então mergulharmos e vermos o motivo do tec-tec. O
dia está nascendo nublado, ventos força 5 de NE, a tripulação está alegre
e feliz, como sempre., 13:00
Aperitivos, lingüiça frita e caipirinha de grog. Navegamos
desde ontem a noite ajudados por uma corrente de meio nó. É a corrente
equatorial norte, que estamos esperando. Ela está vindo de NE , a 2 nós e a
resultante é esta ajuda. Ela
deverá ir cada vez mais para leste, pode chegar a até 2 nós. Será uma
grande ajuda para nosso consumo e velocidade. 18:00
O jantar saiu cedo, mas sofisticado. Scampi empanado, bolinhos de arroz,
ervilhas. Nada acontece a bordo, só dá para comentar a comida e os peixes
voadores. Cada
um na sua. Há muita musica, vídeos e DVDs, livros, pilot books, e também
muita preguiça. Mais
do que isto, há o mar e o céu, tudo só para nós. Nada ao redor, nem o
radar com suas 74 milhas de alcance vê nada. A terra mais próxima está a
1000 quilômetros daqui. O
Flavio está fazendo falta com sua energia exuberante. 23:00
O turno hoje ficou: Maurício (10 às 12)
Sergio (12 às 2) Russi (2 as 4, Marius (4 as 6) Maurício (6 as 8) . Sem
o Flavio, quem pega o primeiro turno faz também o ultimo.
LOG
ENTRY FOR: Saturday, May 26, 2001 0:45
Volto a meu turno. Noite escura sem lua e sem estrelas. O
Maurício deixou belas musicas no CD. O Waypoint 43 está a 1.3 milhas. 00:51
Atingimos o Waypoint 43. Inicio
avidamente todos os cálculos. Tudo em cima. Nesta velocidade, seis nós,
até o meio, depois a sete nós, o combustível é suficiente. A
corrente está ajudando e deverá continuar assim. Neste
ritmo vamos chegar a Barbados dia 5 de junho pela manhã Estamos
usando exatos 4 litros por milha sem contar a corrente. Nada mau para um barco
de 65 toneladas. Estou
vivendo momentos de grande paz em minha vida. Sei que tudo corre bem com as
pessoas que amo, não necessito de nada e o futuro sempre incerto e cheio de
surpresas é para mim uma agradável continuação de um fluxo que tem sido
cheio de prazeres. Sinto
falta da Milena, minha companheira que está em Bergen neste momento com sua
amiga Edna. Mas ela está bem e feliz e isto me basta. 7:40
Ha mais de uma hora já esta claro. Estamos nos dirigindo para o leste, cada
dia vai amanhecer mais tarde, até trocarmos o horário. 13:00
Cada um faz o que gosta, até chegar a hora do aperitivo, que foi tomado na
proa, sob o sol que rompeu as nuvens com a força dos trópicos. O
almoço, bife de carne brasileira comprada congelada em Cabo Verde, foi
sofisticado com molho madeira. As
vagas continuam vindo, lentamente pela aleta de popa de boreste, e o San
Marino dança, abaixando primeiro a cabeça e em seguida alçando sua proa,
com regularidade e doçura. Um
dos dessalinizadores parou de funcionar hoje pela manhã. Aquele que já não
estava bem. Precisamos
assim de mais tempo de gerador para fazer água. Mas o consumo sob controle
nos autoriza a uma vida sem grandes economias. Há
ócio a bordo, mas ócio da melhor qualidade, pois os tripulantes tem, todos
eles, a extraordinária capacidade de aceitar e se relacionar bem com os
outros. Nunca
nenhuma palavra de censura foi trocada, creio que todos nós sabemos que temos
muitos defeitos e portanto aceitamos com naturalidade os poucos defeitos dos
outros. 17:45
Começa a cair a tarde, desde que partimos não cruzamos com nenhum navio ou
iate. Esta é uma rota pouco freqüentada por navios, e os iates preferem
percorre-la em Novembro ou Dezembro, fim da estação dos furacões no Caribe. A
corrente parou de nos ajudar desde o meio dia. Estranho, deveria estar sempre
presente. Vamos ver quando volta. O
motor de boreste roda redondo e o de bombordo continua desligado. A cada oito
horas faço este motor girar por
5 minutos, só para lubrificar o reversor hidráulico. 18:20
O nível de água doce não sobe. Atribuo ao consumo, mas vou dar uma olhada
na sala de máquinas, na saída de produção do dessalinizador. Ele também
não funciona. Alarme. Sem os desslinizadores ficaremos sem água doce. Acho
que é o calor da casa de máquinas que somado ao produzido pelas bombas
primarias do dessalinizador desligou a proteção térmica dos motores. Vou
deixar esfriar e tentar amanhã cedo. Não adianta esquentar a cabeça hoje. Estamos
com mil litros de água doce. Tomando banho com agua salgada e ligando os
toaletes para água salgada, economizando, dá para chegar a Barbados. Mas o
conforto vai embora
LOG
ENTRY FOR: Sunday, May 27, 2001 6:30
Acordo e vou direto para a sala de máquinas. Ligo o
gerador e os dessalinizadores para testa-los descansados. Nada. Já
tinha aberto todas as vigias, a temperatura da sala de maquina que era 41
graus baixou rápido para 37. Desmonto
então a entrada de força de uma das bombas para ver se encontro o circuito
do termostato. Encontro e testo, o termostato está fechado, tudo em ordem. Ligo
de novo o gerador, as bombas agora giram mas não puxam água. Sangro
o sistema, tiro o ar que estava dentro - milagre - tudo funciona outra vez. Na
duvida vou deixar as vigias da sala de maquinas abertas, e rodar os sistemas
até encher os tanques. 9:45
Atingimos o ponto 45 com mais de uma hora e meia de atraso. Foi a falta da
corrente, que já está pouco a pouco retornando. Tivemos até um pouco de
corrente contraria pois a corrente está vindo do sul, com 1 nó e a
resultante algumas vezes nos prejudica 10:20
Paramos para mergulhar e examinar o hélice de bombordo. Tudo está normal,
mas o corta cabos está um pouco folgado Nada sério, dever ser a causa do
tec-tec. Vou voltar a navegar com o de boreste, pensar um pouco e na próxima
perna volto ao de bombordo para testar. 14:00
Para comemorar tudo isto o almoço saiu magnifico. De
entrada, junto com as caipirinhas de grog, das mãos do Marius,
anchovas e salame. Depois
garoupa com molho de lagosta acompanhada de vinho branco australiano, escolha
do Maurício. 19:15
O sol ainda entra forte no pilot house. Amanhã vou mudar o horário, atrasar
os relógios uma hora.
LOG
ENTRY FOR: Monday, May 28, 2001 9:45
A noite foi calma e tranqüila. Ninguém me chamou para nada como também na
noite anterior. Tive apenas que ligar o motor de bombordo por cinco minutos
às 4 da manhã, como faço de 8 em 8 horas. Era o turno de Marius, o mais
marinheiro de todos nós a bordo. O
céu continua nublado, é o rabo da frente fria que se encontra a umas 600
milhas ao norte, e que só nos incomoda com o mar ainda mexido irregularmente. 12:00
Atrasei os relógios de hora local em 1 hora. São agora 11:00 local, 13 horas
GMT. Estamos
exatamente na longitude de Natal, poderíamos estar usando a hora brasileira,
mas vou mudar gradualmente, geograficamente, para sentirmos pouco. 17:15
Atingimos o Waypoint 46. O consumo está bem controlado, aumentamos para 1350
rpm, 6.5 nós. Até agora temos mantido entre 3.5 e 4 litros por milha. Tudo
de acordo com nosso float plan, elaborado pelo Flavio. 20:15
A bomba de água do porão da casa de máquinas está funcionando mais do que
deveria. A luz de espia no pilot e o contador de acionamentos mostram isto. Desço
para a casa de máquinas. Aumentou o vazamento no selo mecânico do eixo, no
casco. Parei
os motores e com a ajuda do Russi reajustei o selo em 10 minutos. Tudo em
ordem, nem uma gota entra agora, continua a viagem. 21:00
Afinal uma noite de estrelas. Poderemos fazer o turno fora, cobertos pela
maravilhosa noite como só se vê no mar ou nos desertos.
LOG
ENTRY FOR: Tuesday, May 29, 2001 10:12
Quando transmiti o site via Inmarsat recebi uma mensagem do Arthur Vicintin
cujo trawler, o MY Trindade está navegando entre o Brasil e Cabo Verde. Chamei
por telefone, falei com um tripulante e depois falamos também por SSB. Eles
estão sendo ajudados por uma corrente de 2 nós, a mesma velocidade que
esperávamos ganhar por aqui. Boa Viagem!. 11:15
Mudei para o motor de bombordo, que estava parado desde quase Cabo Verde. O
pequeno tec tec continua mas estou quase certo que é o corta cabos, depois do
mergulho, que foi em apnéia, e não deu para ver muito com o mar que batia. Vamos
rodar com ele até a próxima troca, 7 da tarde e ver se o barulho aumenta. Continuamos
a 1350 rpm, 6.5 nos de log, 7.1 de gps, a corrente volta a nos ajudar neste
momento. 19:22
Nada durante este dia. O motor de bombordo vai bem, vamos continuar com ele
pelas noite toda. O
mar está como nos últimos três dias, vagas vindas pela popa de 3 metros,
sofre o piloto automático mas navegamos docemente. 11:45 (01:45 UTC) Atingimos o
Waypoint 47, exato ponto médio da travessia. Faltam 1050 milhas para
Barbados. Chegamos
na hora prevista, vamos continuar mantendo esta velocidade até o ponto 48.
Poderíamos aumentar até para 7.5 nós pois o combustível gasto até agora
(3700 litros) vai nos fazer chegar com muito diesel a bordo. Mas
se aumentarmos ao invés de chegarmos dia 5 pela manhã vamos chegar dia 4 no
fim da tarde, portanto com risco de entrar no porto a noite, o que prefiro
evitar. Este
é o "no return point". Daqui para frente é mais perto ir para
Barbados do que retornar a Cabo Verde, caso algum imprevisto aconteça. Felizmente
a tripulação está saudável, nenhum, problema a bordo. Tivemos
noticias do Brasil. O Flavio telefonou, tudo bem por lá. Mas começa um
racionamento violento de energia. Para nós está sobrando!
LOG
ENTRY FOR: Wednesday, May 30, 2001 8:10
Manhã bonita, céu claro sem nuvens e mar com ondas de 2 metros. Tudo em
ordem, ventos de E, força 4. Nunca tantos peixes voadores juntos. Já
ninguém liga mais para eles, a não ser para recolher os que caem a bordo e
joga-los na água. 12:00
Ando às voltas com a bateria do motor de boreste. Hoje a noite ao ligar o
motor para a lubrificação da caixa reversora, a bateria não respondeu. Agora
confirmei, ela está definitivamente condenada. Nada
de estranho. Todas minhas baterias de motor, gerador e a dos rádios, tem
exatos dez anos de vida e oito de serviços contínuos. Está mais que na hora
de substitui-las, mas elas estavam perfeitas, esta foi a primeira a falhar,
devido ao uso intenso desta viagem, não pelas partidas continuas, mas devido
a temperatura alta da casa de maquinas durante tantos dias e também pela
carga continua. Para
evitar que a do motor de bombordo também pife, reduzi a voltagem de
alimentação para 13.3 volts deixando-a em paralelo com as baterias de
serviço. Vamos ver se dá certo. Agora,
para dar partida no motor de boreste preciso, a cada vez fazer uma chupeta. 20:00
Já é noite completa. O dia foi tranqüilo a ponto do Marius e do Maurício
montarem o Bimini Top para ter sombra e água fresca do Fly Bridge. Os
mares daqui para frente serão calmos, não ha mais necessidade de manter o
Bimini desmontado. O
almoço como sempre foi muito bom, file de merluza e garoupa ao molho de
lagosta (ainda de cabo verde). Isto
aqui é mais um restaurante ambulante que um barco. Enquanto
a tripulação vê um filme, estou tocando meu violão na ponte. Vou dormir
cedo, meu turno é das 5 às 7:30 da manhã
LOG
ENTRY FOR: Thursday, May 31, 2001 06:15
Estou fazendo meu turno das 5 às 7:30. Substituí o Russi. O
mar continua bom, 2 metros de popa, céu nublado, 26 graus de temperatura,
1018 de pressão e 82% de umidade. É a frente fria que está 600 milhas ao
norte. Acabamos
de atingir o Waypoint 48. Um pouco adiantados. Vou deixar para corrigir a
velocidade (abaixar um pouco) quando estivermos mais próximos de Barbados. Do
jeito que vamos , vamos chegar na ponta norte da ilha às 7:13 hora UTC e em
Barbados as 9:32 UTC. O sol estará nascendo neste dia às 9:30 UTC lá em
Barbados, portando vamos ter que nos atrasar umas duas horas. Temos
muito combustível, poderíamos aumentar a velocidade para até 7.5 nós, mas
isto nos levaria chegar às 22 horas UTC, já noite o que quero evitar.
LOG
ENTRY FOR: Friday, June 01, 2001 03:30
O novo mês se abre com um turno espetacular. O Russi me deixou uma lua à
meio, em crescente, que se punha bem à nossa proa. Quando ela desapareceu no
horizonte, um céu como há muito eu não via, tomou conta de nosso pequeno
mundo. 5:00
Inverti novamente os motores. Agora trabalho o de boreste. Está na hora do
turno do Marius. Vou chama-lo e depois voltar a dormir 13:00
Novamente agora com o motor de bombordo, mas desliguei o alternador (cortando
a corrente do "campo") para evitar a sobrecarga das baterias. O
Russi eo Maurício, transferiram 3000 litros dos tanques de proa para os de
popa, para corrigir o trim do San Marino. Temos combustível de sobra e no
lugar certo. 16:20
O almoço, nossa festa de cada dia, saiu o mais especial de todos.
"Bacalhau aos Trambulhões", segundo formula secreta do Russi,
executado sob suas ordens pelas mãos do Maurício. O bacalhau desfiado,
misturado com arroz e mil temperos estava tão bom que derrubou todo mundo de
tanto comer. O Russi que despencou na rede estendida no jardim de popa,
renomeou-o Bacalhau à San Marino. Eu pessoalmente me estendi no pilot house e
lá fiquei de vigia por umas duas horas sem vigiar nada. 21:40
O radar mostra chuva a 6 milhas em nossa popa. Mas é pouca, espero que não
nos alcance
LOG
ENTRY FOR: Saturday, June 02, 2001 Hoje
completamos 10 dias de viagem. Faltam ainda três. Passou rápido, todo mundo
em paz, a tripulação é mesmo boa. 9:30
São agora 11:30 UTC. Vou atrasar nossos relógios mais uma hora 8:30
Novo horário no San Marino, agora o mesmo do Brasil. 12:45
Aumentei a velocidade para 7 nós, 1450 rpm, 30 litros por hora de consumo. A
corrente continua inexistente, não vou esperar por ela. Nesta velocidade
quero chegar Waypoint 52, na ponta norte de Barbados às 9:30 UTC, hora que o
sol vai nascer. Barbados é a ilha mais a leste, de todo o Caribe. Se você
imaginar um semicírculo que começa na Venezuela e acaba na Florida, em seu
primeiro quarto se encontram as Ilhas de Barlavento, onde está incluída
Barbados. Depois vem as ilhas de Sotavento, Ilhas Virgens, Porto Rico,
Republica Dominicana e Haiti e depois Cuba. Logo acima de Cuba as Bahamas.
Diz-se que Barbados é de todas a mais ordeira e com sabor tipicamente
inglês. 97% da população é alfabetizada, 260 mil pessoas, 80% de origem
africana. Eles vivem de açúcar e turismo, e seu rum, o famoso Mount Gay é
um dos melhores do mundo. A capital, Bridgetown é uma cidade de livre
comércio, com muitos restaurantes, bares e vida noturna intensa. A língua
oficial é o inglês, e eles são independentes desde 1966. O nome Barbados
foi dado pelos portugueses ao encontrarem muitas arvores que pareciam ter
barbas. 20:00
Já escuro, devido à mudança de horário. Disputamos o turno da noite no
palitinho. Venceu o Maurício que ficou com o primeiro turno, das 21:30 às
24:00 A noite está clara, lua quase cheia.
LOG
ENTRY FOR: Sunday, June 03, 2001 11:00
O tempo continua bom. Céu azul com nuvens esparsas, 30 graus, 1019 mb, 80% de
umidade relativa. Estamos neste momento a 300 milhas de nosso destino. O
Marius dá uma limpeza geral no interior do San Marino, o Russi e o Maurício
já foram para a cozinha. 19:00
O dia mais uma vez passa sem novidades. Mar, céu, o ronco baixo e regular do
motor que nem mais notamos, o barulho da água batendo no casco e o rolar
macio do San Marino. As
personalidades vão se mostrando e o brilho de cada um aparece melhor. O
Russi, com sua exuberância ao contar longas e detalhadas histórias, que nos
divertem muito e nos faz admira-lo ainda mais. O
Maurício, grande sonhador e teórico, deixa seu mundo astral para dedicar-se
de corpo e alma à cozinha. O
Marius, pratico e realista, transforma rapidamente os pequenos problemas em
soluções. Os
três entretanto possuem em comum um extraordinário conhecimento da alma
humana, que os impede de invadir os espaços dos outros e torna nossa
convivência tão harmoniosa. O
sol inicia seu percurso para mergulhar neste imenso mar. É hora de nos
reunirmos na proa, como todos os dias, para apreciar os magníficos fins de
dia. É hora também de nos prepararmos para a noite, mais uma noite no mar.
LOG
ENTRY FOR: Monday, June 04, 2001 6:30
Estou de guarda desde às 5. Amanheceu às 5:45. Mar calmo, 28 graus, 82% de
umidade e o barômetro firme, há muitos dias, em 1018 mb. São os trópicos. 10:45
Nossa escolta de boas vindas a Barbados está formada e nos precede. É um
grande cardume de golfinhos, que saltam e dançam à nossa volta. Os peixes
voadores, com medo deles, voam mais do que nunca. Barbados está a 130 milhas,
à nossa proa. 18:30
Atrasei mais uma hora, estamos no horário de Barbados. A
Milena telefonou, ela já está lá, achou uma Marina que fica bem ao norte,
em Seven Men's Bay. Nos esperam amanha cedo as 7:30. Vamos reduzir ainda mais
nossa velocidade para chegar ao WP 52 às 10:30 e não às 9:30 como previsto
(GMT). De lá é uma hora até onde a Milena vai nos esperar.
LOG
ENTRY FOR: Tuesday, June 05, 2001 4:20
Todo mundo está na ponte. Barbados a menos de 25 milhas A corrente forte nos
ajuda, quando não quero. Gostaria de chegar as 10:30 GMT no ponto 52 mas do
jeito que vai chegaremos às 10 mesmo tendo reduzido para 5.7 nos, 1150 rpm.
Mais não devo, o piloto automático reclama e a casa de maquinas esquenta. 5:30
O sol nasce, mas já estava claro ha meia hora. Desde ha muito estamos vendo
as luzes de Barbados, agora vemos terra, verde, montanhas e baixios. Nossa
recepção foi montada pelos golfinhos. Vi que estavam perto, sentado no pilot
house, pois um deles pulou mais alto que nossa proa, uns 2 metros ou mais.
Seguiram com sua brincadeira a nosso lado O Waypoint 52 foi atingido às 9:52
GMT. Estou entrando por trás da ilha para nos proteger das vagas, que já
diminuíram nesta altura. 7:00
Estamos parados, em frente à Marina Port St Charles, que chamei pelo canal 77
e não responde. 7:30
A Marina nos chama e autoriza a entrada. Atracamos de costado num cais novo e
limpo. A Milena e a Edna em terra, ao longe acenam. Elas só podem vir para
cá depois das autoridades locais nos visitarem. 8:20
Tudo em ordem, vieram Capitania dos Portos, Alfândega, Saúde, os papeis
foram preenchidos e fomos liberados. Completou-se
a travessia. Navegamos 3647 milhas nos trinta dias de viagem, permanecemos em
terra 7 dias e os 23 restantes navegando. Tudo correu perfeitamente, chegamos
aqui com a máquina de lavar pratos sem funcionar e a bateria do motor de
boreste (10 anos de idade) pifada. Foi tudo. Outros pequenos problemas que
ocorreram foram resolvidos durante a viagem, como a bomba de combustível do
motor de bombordo, a bomba de descarga do tanque de esgoto dos camarotes de
hospedes, o triturador da pia da cozinha e a bomba de circulação de água
salgada do ar condicionado. Todo mundo chegou com saúde e isto foi o que mais
me alegrou. Cumpridas
as formalidades de entrada no pais, fomos almoçar num restaurante de peixe
perto da Marina, fizemos uma grande comemoração da chegada com lagosta um
bom vinho italiano, e rum com coca cola, com o famoso rum local Mount Gay. Depois
uma volta pela ilha com uma garrafa de rum como companhia e
muita alegria. Na volta a bordo todo mundo despencou e dormiu, como pedras.
|