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CONTRA OS VENTOS E CONTRA A CORRENTE

A travessia do Atlântico - Atol das Rocas - Batismo no Equador - Cabo Verde - Tenerife

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 18, 1995

11:00 Levantamos âncora. Partimos de Natal.

Foram dias agradáveis mas de muito trabalho na preparação do San Marino para sua primeira viagem transoceânica. Temos agora 9 dias de viagem sem terra por perto para qualquer emergência. Até agora, desde seu lançamento, o San Marino jamais precisou de ajuda externa. Os pouquíssimos problemas que tivemos desde Angra dos Reis foram solucionados por nós mesmos e com os recursos de bordo. Espero que nossa estrela continue brilhando.

Estaremos navegando na direção contrária às naus portuguesas. Não é a melhor rota para se ir à Europa, mas é a mais curta. Estaremos navegando contra os ventos dominantes e as correntes marítimas são contrarias, talvez numa média de 0.5 nós. O mar também será de proa, o que exige mais esforço de nossas máquinas. Entretanto a época é favorável, e estes fatores podem se alterar para melhor.

 

Será a seguinte nossa tática de viagem. Serão 1950 milhas seguindo um grande circulo, a menor distância entre dois pontos sobre a esfera terrestre. Usamos uma carta em projeção Mercator, matemático holandês do século 16 que resolveu o problema em navegação. É muito difícil reproduzir a esfera terrestre sobre um plano, assim tudo fica deformado. Na projeção Mercator pode-se traçar rumos transferindo os graus com exatidão para o papel, onde as rotas são uma linha reta. Também a escala de graus e minutos na margem vertical (latitude) facilita o cálculo de distâncias pois cada minuto corresponde a uma milha marítima (1852 m). Tudo muito simples e fácil.

Quando se trata entretanto de longos percursos usa-se a carta gnomonica, (de grande circulo, que é a denominação dada a qualquer circulo sobre a superfície da terra cujo centro seja no centro de nosso planeta) ou calcula-se pontos diversos ao longo da rota a ser seguida. Foi o processo que usamos.

Quanto ao consumo de combustível, iniciaremos a viagem a baixa velocidade ( 7 nós) pois o consumo fica reduzido em quase 50%.

Conforme os dias vão passando, vou transferindo o combustível dos tanques auxiliares para o "day tank" e assim controlando com precisão o consumo.

Se constato que vamos gastando menos que o previsto, posso aumentar a velocidade. Caso antes do meio do percurso, o combustível chegue a pouco mais que a metade, é preciso voltar. Ao chegar ao "no return point", isto é o ponto de onde não se pode mais retornar, pois gasta-se menos seguindo que voltando, caso tenhamos 50% do combustível, a viagem está feita, pois os tanques estão mais vazios, portanto menos peso, e o consumo será menor.

Havendo qualquer problema (por exemplo, a poluição de um tanque e perda de combustível) a qualquer momento pode-se baixar a velocidade e economizar mais, chegando logicamente fora da data prevista.

12:00 Saímos da barra e nos dirigimos para Ponta Negra, sem carta detalhada do local. Vamos mergulhar para limpar o fundo, pois não quisemos faze-lo em Natal. O rio parecia sujo, ninguém quis se arriscar, principalmente o Marcello, que tinha saído de uma hepatite brava.

A escolha não foi boa. O Mar está pesado e a agua consequentemente suja.

Ao baixarmos o ferro, e subirmos outra vez para mudar de local, o cabrestante da âncora de bombordo parou de funcionar. Estamos agora sem motor para subir o ferro. O sistema funciona também com uma alavanca, e somos 4 homens fortes. Além disto não vamos mesmo poder usar o ferro por muitos dias. Consertarei no caminho.

15:45 Os hélices estão limpos mas o casco não deu para verificar. O Marcello

e o Wellington, que foram mergulhar, disseram que não dava para ver nada, muito menos para trabalhar em baixo d’água.

Parece que existem pequenas cracas do rio. Temos sempre limpado o fundo antes de viajar pois nossa venenosa já tem 2 anos e meio. Até que agüentou bem. Limpamos em Camamú e em Angra.

Prendemos bem os botes, retiramos as grades das vigias para a travessia, pois são um sistema de escape em caso de naufrágio.

17:30 O Celular ainda funciona. Milena chama da Itália nos desejando boa viagem. Caiu bem!

Já estamos em mar aberto, mar de traves de boreste, o barco rola muito. Bom que são todos marinheiros, ninguém enjoa.

Deveremos passar o Atol das Rocas, amanhã as 15:00. Último ponto de terra no Brasil, fica a 140 milhas da costa.

Tudo corre bem, viajamos a 7 nós, com o consumo sendo controlado.

20:00 Jantamos bobó de camarão com arroz (muito bom) e fui dormir em seguida, muito cansado.

Meu quarto começa as 24:00 e vou faze-lo junto com o Wellington.

24:00 voltei para a ponte. Estou escutando uma opereta de Cole Porter, no maravilhoso som que temos a bordo.

Estamos na faixa de 1600 metros de profundidade, a 50 milhas da costa brasileira.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 19, 1995

04:00 O Marcelo me chama, volto a meu camarote para dormir.

07:00 Acordei, tomei um bom banho, fiz a barba e subi para fazer meu turno. Tenho resolvido que não deixarei de fazer a barba nenhum dia.

Peço para a tripulação fazer o mesmo. Com um mínimo de cuidado, pode-se manter a ordem e higiene, que creio começa a cair quando decide-se "não fazer a barba hoje".

O consumo está muito alto. Penso ser o problema da sujeira no casco.

Paramos para mergulhar novamente e dar uma olhada. O Marcelo diz que não entra com medo de tubarões. Ele não é um tipo medroso e tem certa razão no que diz. Mas vamos assim mesmo, eu e o Wellington.

Não se deve mergulhar sozinho. Pulei primeiro, dei uma olhada, o mar está claríssimo com uma visibilidade incrível, nunca vi igual. Dei uma olhada rápida, há cracas, mas são pequenas e avalio que com o andar do barco devem se soltar, pois nossa venenosa é tipo autopolimento, que vai se destacando com o atrito da agua e assim se renovando.

Subo à superfície e vejo o Wellington se preparando para mergulhar.

Digo a ele "deixa, está razoável", e ele não precisa se molhar.

Volto a bordo mas estava difícil devido as ondas altas.

14:30 O mar acalmou, devíamos ter esperado para mergulhar.

Farol-Atol-das-Rocas.jpg (43433 bytes)O Atol das Rocas aparece no radar, a 15 milhas. Abrimos bastante distância pois não temos cartas do local. O Marco Antônio tem uma namorada que está no Atol das Rocas, trabalhando no Ibama.

Tentamos chamar pelo SSB e conseguimos contato.

Ele teve uma longa conversa com ela e nós a bordo muito sem educação escutamos tudo. Muito romântico.

Na velocidade que vamos (baixamos para 6 nós) Cabo Verde está a 9 dias. Baixei a velocidade com medo do consumo, que agora está bem baixo mas aumenta o tempo de viagem. Ficaremos assim por 24 horas, quando controlarei novamente o consumo. Temos um marcador de consumo (litros por hora) mas não é tão confiável como medir o nível dos tanques.

 

Os barcos deslocantes tem seu consumo rapidamente aumentado com

o aumento de velocidade. A velocidade econômica (SL 1 que é a raiz quadrada do comprimento do casco na linha d’água em pés) é no San Marino 7.4 nós, e nossa velocidade de casco (SL 1 * 1.25) de 9.5 nós. Esta é a velocidade com que se move uma onda deste comprimento no mar, e portanto para passar disto precisamos muita força para subir na próxima onda, pois barcos deslocantes formam sempre uma onda que os acompanha.

Por isto nossa velocidade de cruzeiro é no máximo 9.5 nós sendo a velocidade maxima 12 nós, com toda a potência e gastando 100 litros por hora nos dois motores. Em cruzeiro gastamos 30 litros por hora o que nos dá uma autonomia de mais de 2400 milhas.

Liguei o Inmarsat ao telex da ABS no Brasil, informando cada 4 horas nossa posição, rumo e velocidade. É automático.

Meu amigo Artur Russi Jr., recebe estas informações e traça nosso rumo numa carta.

A partir do Atol das Rocas iniciaremos nossa longa curva para Cabo Verde.

Nestas latitudes e na direção que vamos, navegar por grande circulo não faz muita diferença, mas vamos aproveitar.

Estamos com 4000 metros de profundidade, entramos na Planície Abissal de Fernando de Noronha. Quanta vida desconhecida deve se desenvolver lá em baixo, na escuridão total. Tão pouco nós conhecemos nosso planeta!

Dividimos nossa rota em 9 segmentos que vou chamar de P1 a P9, em cada um de seus inícios, com comprimento de 125 milhas cada.

Vou me referir a eles a seguir. Nosso primeiro ponto, P1, está a 22 horas daqui, 02:00 hora local.

24:00 fui dormir as 20:00 e volto agora a meu turno.

Noite clara, serena, com linda lua.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 20, 1995

01:00 O mar está um espelho. A noite quente e linda.

Passamos nosso quarto no convés, Wellington e eu, bebendo água de coco.

04:00 Vamos dormir novamente, pegam o Marcelo e o Marco Antônio.

08:00 Voltamos a nosso quarto, e ficamos ouvindo os 5 CDs que eles deixaram no CD player. Eles tem bom gosto.

11:30 Chegamos ao ponto P1, antes do previsto pois aumentei a velocidade para 7 nós a noite, quando recalculei nosso consumo e vi que estava folgado.

Estamos a 01° 52’S e 033° 03’W. O próximo ponto P2 está sobre a linha do equador. Deveremos cruza-lo amanhã as 08:30.

Nada para fazer a bordo, a maquinaria está perfeita.

Toquei piano, li e agora escuto o concerto para Viola e Violino de Brahms, que tanto aprecio. Como é fácil navegar no San Marino!

24:00 acordei para retomar meu turno, depois de ter ido dormir as 19:00.

Estava muito cansado.

O mar continua bem. A bomba Jabsco de esgotar a água da casa de máquinas parou de funcionar. Tudo bem, o San Marino não faz água, mas vou

conserta-la amanhã. Sempre temos 2 de reserva, prontas para funcionar.

Estamos a 00° 35’S e 32° 23’W

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 21, 1995

01:00 Mais coco verde, que bebemos e comemos. Levamos muitos cocos que ganhamos da população de Taipus. É uma boa idéia para quem viaja, e a tripulação me presenteou com uma boa "peixeira", para abri-los.

Duram pelo menos 30 dias.

07:00 Atravessamos o Equador. A corrente nos ajuda e estamos um pouco adiantados. Não temos champanhe para comemorar, vamos usar cerveja, mas antes vamos esperar toda a tripulação estar acordada.

08:00 Posição 00° 13N 031° 57W.

Estamos na zona de fratura São Paulo, a boreste os Penedos de São Pedro e São Paulo, cemitério de tantos navios. Estão a 120 milhas de nosso rumo.

12:00 Consertei a bomba d’água, fiz uma revisão nos motores, tudo O.k.

Subi para a comemoração que vamos fazer, na proa. O Mar está calmíssimo como se estivéssemos em Angra dos Reis. No meio do Atlântico!

Pegamos nossas cervejas e acabamos jogando-as encima dos outros.

O Marcello completou com um balde de água e espuma. Foi nossa comemoração. Valeu

Estamos pensando em ir para a Ilha do Sal, em Cabo Verde, que é o que o Manú, nosso amigo francês de Angra, comandante do Astragale, nos recomenda. Ele já esteve lá.

São 6 dias de viagem do ponto onde estamos.

24:00 voltei para meu turno. Acabamos de passar o ponto P3, às 23:32.

Esta é para mim a melhor hora da viagem, a noite com lua, escutando as musicas deixadas por eles no CD ou fora, vendo a natureza e nossa esteira prateada.

Não há, não sei porque, nenhuma sensação de perigo ou solidão. Me sinto tranqüilo e em paz, desejando que estes dias se perpetuem.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 22, 1995

04:00 Acabei o turno, em noite quente e clara, vou dormir até as 08:00.

11:00 Chove forte, mas é chuva passageira. O mar continua calmo.

Uma frente quente nos ajuda e não traz o mar de proa esperado.

A ITCZ (zona de interconvergencia tropical) está mais ao sul este ano, o que nos favorece. Ventos e correntes favoráveis.

Com a calma somos obrigados a inventar coisas para passar o tempo.

Lavar roupa, ler, conversar.

Estamos nos aproximando do meio da viagem.

É o "no return point" . De lá tem-se que chegar ao destino, não dá mais para desistir. Estamos a 700 milhas da terra mais próxima.

Assim como da Itália a Moscou. Mas não sinto a impressão de isolamento.

Nosso barco é uma ilha confortável . Jamais vou esquecer estes momentos em minha vida.

Estamos em dúvida se aportamos na Ilha do Sal ou em Santiago, mais ao sul, maior e com uma cidade grande (da Praia) onde é mais segura a obtenção de óleo.

Se abastecemos em Sal, poderemos depois ir direto até Gibraltar se quisermos. Entretanto se não houver óleo em Sal teremos que voltar a Santiago e perderemos 2 dias.

17:40 Adiantamos nossos relógios em 1 hora. Cruzamos o meridiano 30 graus W, onde muda a hora civil.

Atingimos o ponto P4. P5, meio da viagem amanhã as 8:30.

Passou uma forte chuva, agradável devido ao calor.

24:00 voltei ao turno em noite chuvosa. Tudo calmo e tranqüilo.

Jantamos lasanha congelada comprada em Natal. Horrível

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 23, 1995

08:00 Acordei uma hora mais tarde, é que mudamos a hora civil ontem.

Acabaram açúcar e sucos de fruta. Reclamei com o Marcelo encarregado da alimentação que argumentou que não podia imaginar quanto açúcar e quanto suco de fruta eu consumo. Eu tinha avisado, mas realmente eu sou exagerado. Sobrou groselha e rapadura, bons substitutos.

A rapadura foi comprada em Aracaju, e cortamos em pedaços para ir comendo aos poucos. Ralamos uma boa quantidade no food processor para usar como açúcar. Deu certo.

Temos ainda coco verde, cuja água é melhor que qualquer suco.

08:46 Atingimos P5, meio caminho andado. Não dá mais para desistir.

12:00 começam a aparecer as primeiras vagas vindas do Atlântico Norte.

Balançamos um pouco mais

16:00 Transferi mais combustível para os "day tanks".

 

Temos 8 tanques de combustível, sendo 2 usados como "day tanks".

São os tanque de onde os motores puxam o combustível, e vamos transferindo diesel para eles, dos outros 6, conforme necessário.

Assim controlamos com precisão nosso consumo e se tivermos um dos tanques poluídos, não afeta os outros.

É também uma maneira de controlar o "trim" do barco, isto é sua inclinação.

Gastamos até agora 4300 litros de diesel ainda temos 7200.

O San Marino é mesmo econômico. Já o sabia dos testes inúmeros feitos antes da viagem, mas no oceano, em operação continua, é que se tira a prova dos 9.

Teria dado para ir direto para as Canárias se tivéssemos limpado bem o fundo em Natal.

Tentamos contato por rádio com a Radio San Vicente, em Cabo Verde.

Ainda esta muito longe, Tentaremos novamente amanhã para confirmar qual ilha é melhor para abastecermos.

O Manu passou um telex ontem e perguntamos a mesma coisa apesar de já sabermos sua opinião. Ainda não recebemos resposta.

18:00 O mar voltou a aclamar, agora são longas vagas de proa.

Muito confortável.

Já acostumei com o balanço e tudo o mais. A vida a bordo está agradável.

O ruído dos motores, que não é muito no San Marino, (68 db devido ao isolamento acústico da sala de máquinas) cessou completamente, não o escutamos mais. Algum mecanismo em nosso cérebro, bloqueia esta freqüência constante e as vezes me assusto pensando "pararam os motores". Interessante o maravilhoso corpo humano!

Estamos sempre na Ponte de Comando, quase não usamos a sala. Só os camarotes quando se quer ficar só. Todos os 4 são pessoas de convivência muito fácil, o que é difícil juntar. Ninguém é "nervosinho" ou quer contar nos dedos o trabalho que executa. Também, o trabalho é quase nenhum, só trabalha o cozinheiro!

Jantamos vatapá congelado, (o que prova que também o cozinheiro está folgado, todas nossas refeições já estavam feitas em Natal, congeladas) estava ótimo. Vou dormir.

24:00 Volto à vigia, noite escura agora sem lua. Tento receber um weatherfax, sem sucesso.

Estou tentando agora pegar as transmissões Européias. Ainda não deu.

Faltam 450 milhas para o arquipélago de Cabo Verde, mais 200 milhas para a Ilha do Sal se é que vamos para lá.

Posição 07° 41’N 28° 01’W, rumo verdadeiro 050° velocidade 7 nós.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 24, 1995

08:00 O café da manhã está ótimo com ovos, geleia, torradas e nescau.

O dia está lindo, não ha vento o mar liso e sem vagas, bom para esquiar.

Inacreditável. É a zona das calmarias (doldrums) que está também mais para o norte que o normal, isto é, mais larga.

Resolvi consertar o guincho da ancora. Desmontamos, lavei todas as peças na popa e montei novamente. À tarde vou colocar no lugar.

14:30 Estamos próximos a P7. Resolvi fazer rumo direto para o porto de Cidade da Praia, na Ilha de São Tiago, Capital de Cabo Verde.

É mais seguro encontrar combustível lá, que é a capital. É também a ilha mais ao sul.

Aumentei a velocidade para 8 nós. Sobra combustível, podemos escolher a hora da chegada. Vamos chegar assim na segunda feira dia 26 aproximadamente às 2 da tarde.

Não gosto de chegar a portos estranhos à noite, por isto aumentei a velocidade.

12:00 Afinal começou o mar de proa esperado. São os Alísios, que sobram o ano todo de NE. Estamos entretanto já chegando, e ele veio para tirar a monotonia da viagem.

Mas não é forte, são ondas de 1,5 a 2 metros. A Previsão é de tempo bom.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 25, 1995

09:00 Acordei mais tarde. Anteontem dormi mal pois estava com dor de dentes. Como supus era apenas gengiva inflamada que com um pouco de água oxigenada melhorou.

Atravessar o oceano não me amedrontou, mas enfrentar um dentista em Cabo Verde é aterrorizante.

15:30 Dormi novamente e acordei agora. Estamos a 200 milhas de Cabo Verde. Mantida a previsão de chegada, 2 da tarde de 26/06.

O mar está novamente calmo. Nos preparamos para as autoridades locais.

Separar as armas, pois não sabemos como farão, se guardam com eles ou se trancam a bordo. Deixei um revolver escondido, pois sei que o ambiente por lá é pesado. Vale o risco.

Deixamos o barco limpo e arrumado, para impressionar bem.

Tememos uma vistoria em busca de drogas (saímos do Brasil) o que geralmente é feito sem cuidado e danifica muito o interior do barco.

Tentamos novamente contato por rádio, sem sucesso.

De madrugada, cruzamos com um navio. O Marcello pelo VHF pediu para que eles nos informassem como estava nosso eco no radar, só para saber como somos vistos.

A resposta foi "nosso radar está desligado"

Por isto existem colisões no mar.

Vimos alguns delfins, nada mais durante a viagem.

Agora em nosso radar aparece um navio, bem a nossa proa, a 9 milhas, mas não dá para vê-lo pois está nublado.

16:30 Consegui contato por rádio com a San Vicente Radio, por SSB.

Comuniquei nossa chegada à capitania. Amanhã chamamos por VHF.

Foram muito gentis e atenciosos.

19:00 consegui falar com a Milena pelo SSB, via AT&T, nos Estados Unidos. Temos um equipamento ligado ao Rádio, que permite discagem direta para qualquer telefone, via USA.

A Milena na Itália foi forçada acordar no meio da noite pois o melhor horário para contato é no fim da tarde daqui.

Jantamos em grande gala no último dia desta perna .

Espaguete à Carbonara, uma garrafa de vinho e um drambuie para cada um. Grande Comemoração.

É estranho, pois ninguém têm vontade de beber a bordo. Nos portos, são quatro mata-borrões, mas no mar, ninguém toca em bebida alcóolica. Por que será?

Pela primeira vez comemos sentados na mesa. Normalmente comemos fora, ao ar livre, que não suja a sala é agradável.

24:00 volto ao turno, tudo calmo.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 26, 1995

07:00 Passou a dor de dentes. Posso agora chegar como segurança em Cabo

Verde. Comemos um misto quente e o mar bate forte de proa.

É o que teremos até as Canárias.

11:30 O radar acusa terra, a 24 milhas

12:00 Terra a vista, Ilha do Fogo, um vulcão de 2829 metros de altura, não visto antes devido ao "harmattan", vento seco vindo da África, com partículas de areia, que obscurece a visibilidade.

Parece que uma família de franceses vive dentro da cratera e existe uma pequena população em seu pé.

Estamos escutando a Radio Cabo Verde em FM.

Toca Barbara Streissand.

O San Marino navega tranqüilo e seguro. Cada um de nós se prepara para o desembarque. Barba feita, banho tomado, roupa limpa, nem parece que fizemos uma travessia oceânica um pequeno barco. É que queremos dar boa impressão.

2:30 Estamos frente à ilha de São Tiago.

3:15 Fundeamos. O guincho funciona bem. Paramos ao lado de um veleiro alemão, o November, que nos indicou onde fundear.

Estamos aguardando as autoridades locais.

Cortamos os motores. Trabalharam como tudo o mais, nove dias seguidos sem qualquer problema. Maravilha!

Perguntei ao alemão como deveria proceder.

Ele nos disse que deveríamos buscar o oficial que nos esperava no cais, pois eles estão tão pobres que não tem qualquer barco. Estamos com um certo receio, pois são muito poucos os barcos brasileiros que fazem este trajeto e a Milena tinha nos informado ter visto na televisão Italiana que em Cabo Verde havia muita dureza no combate as drogas. Certo que estávamos "limpos", mas a vistoria normalmente destroi bastante o barco.

16:30 Com o Avon, dirijo-me à terra. De fato, estavam nos esperando no cais.

O capitão deve ir pessoalmente à terra, é o único autorizado a desembarcar antes da liberação pelas autoridades.

Trouxe comigo um oficial (Capitão Celso) e um soldado, que muito simpáticos logo ficaram nossos amigos. Todas as formalidades foram feitas e estávamos oficialmente em um novo Pais. Não sem ter antes dado uma rata, pois entramos com a bandeira amarela em um mastro (letra Q, que quer dizer quarentena, mas na prática de hoje significa, "pedimos para desembarcar em seu pais) e a bandeira de cortesia de Cabo Verde em outro. O Policial nos solicitou que retirássemos rapidamente aquela bandeira, pois era do governo anterior, comunista, derrubado ha três anos.

Cabo Verde é muito pobre, mas as pessoas são muito simpáticas. Adoram o Brasil. São 320 000 habitantes, numa mistura entre portugueses e africanos de nós muito conhecida. O mulato, produto de duas raças gentis e tristes, porém lutadoras e fortes, com sua ginga e malícia transforma qualquer pedaço de terra num local alegre e agradável.

A língua oficial é o português, falado por aqui mais com acento brasileiro que português.

Todos os anos o Navio Escola da Marinha Brasileira faz escala aqui, e é decretado feriado para fazerem boa recepção. Quando o Brasil ganhou a copa, feriado também.

Todas as ilhas são de formação vulcânica, mas só o da Ilha do Fogo é ativo.

Quando perguntamos "quando entrou em erupção pela última vez" nos responderam "Ha três dias houve uma grande erupção". E nós que quase íamos aportar por lá. Tudo foi destruído, a população evacuada a tempo.

As ilhas não produzem nada, a não ser Sal e Lagosta, bananas e laranjas. Lagosta é a comida mais barata e dizem que os cães são alimentados com restos de lagostas. Comemos diversas.

As Ilhas foram descobertas pelas expedições do Infante Don Henrique, em sua organizada busca de uma rota às Índias, entre 1441 e 1460, não se sabe bem, pois datas e nomes eram fortemente protegidos na época contra espionagem inimiga.

Esteve aqui o Beagle, do Comandante Fitzroy, onde viajava Darwin em 1832.

Enquanto eu divagava em pensamento, imaginando o desembarque do Beagle, subiram a bordo o casal de alemães do barco que estava ao lado. Muito simpáticos, chegaram com uma garrafa de vinho português, verde.

Eles vem de Lanzarote, Canárias onde disseram que deveríamos ficar quando souberam que iríamos para lá.

Anoiteceu e fui jantar na cidade com o Marcelo.

O Wellington nos levou no Avon e ficou de nos buscar ao voltarmos. Levamos o VHF portátil para chama-lo.

Perguntamos ao primeiro pescador onde encontrar um taxi. Fez questão de ir conosco até o local mais apropriado, e ficamos aguardando. Enquanto isto conversávamos, e ele nos disse que seu irmão já tinha ido ao Brasil.

Foi uma aventura trágica e heróica.

Seu pequeno barco de pesca, que apenas tinha um par de remos e nem mesmo uma bússola, se perdeu em dia de "harmattan" muito forte, não se via nada. Foi levado pela corrente (a mesma que se opôs a nós ) e 40 dias depois chegou às costas do Pará. Eram três a bordo, um morreu.

Sorte que eram pescadores e nestas latitudes chove muito.

Chegou o táxi. Tinha já um passageiro dentro, entramos. Entrou também nosso amigo pescador, e mais um transeunte. Demos o endereço de onde iríamos, e o Taxi seguiu viagem deixando cada passageiro em local diferente. Cada um deles ia pagando ao motorista o trecho viajado.

Comemos uma ótima lagosta num local horrível. A Cerveja é boa.

O Wellington e o Marco ficam no barco pois é perigoso deixa-lo só nestas paragens. Há muito ladrão. O November teve seu dinguie roubado. Amanhã faremos o contrario.

Estou feliz por ter conseguido atravessar de maneira tão simples o Atlântico, em rota inversa de nossos antepassados. Os temidos ventos e correntes contrárias, nos foram gentis e amigos.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 27, 1995

07:00 A cidade é péssima, em quase todos os aspectos.

O que salva é que eles tem uma grande admiração pelos brasileiros.

O embaixador do Brasil é uma personalidade local, as noticias do Brasil são divulgadas no rádio e só tocam musica brasileira.

Ha carnaval e quando o Brasil foi campeão, 2 dias de feriado.

Vamos trocar o óleo dos motores. Estou traçando a rota para Canárias, Marcelo e Marco foram a terra comprar provisões.

Há um surto de cólera e tudo tem que ser comprado com cuidado.

Sorte que fazemos nossa própria água e lagosta se faz em água fervida.

 

O San Marino possui dois dessalinizadores com capacidade de produzir 8000 litros de água doce por dia. É água puríssima que depois de feita passa por um sistema antibacteorologico de Ultra Violeta e um filtro de carvão ativado para tirar qualquer odor.

2 horas de funcionamento diário é suficiente para produzir toda água que precisamos. Tomamos um ou dois banhos diários durante a travessia, que luxo!

O Thomas e a Uda, do November, vem nos visitar novamente e se despedir.

Eles estão partindo para o Brasil e trocamos muitas informações.

Nos aconselham a passear pelo mediterrâneo no inverno, que é muito melhor que o verão. São alemães que gostam do frio, mas podem ter razão.

Forneço água para eles, pois tem medo de pega-la em Cabo Verde.

21:00 Os três vão a terra, fico eu no barco. Vou dormir cedo mas antes uma boa sinfonia de Beethoven.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 28, 1995

9:00 Vamos para o cais abastecer.

12:00 Estamos abastecendo, vem o capitão dos portos nos visitar.

O comandante João de Deus, é pessoa muito viajada (era comandante de navio) e conhece bem o Brasil. Foi muito simpático.

Em seguida fui a capitania proceder à saída, tirar uma foto para a policia (eles querem uma foto de cada passageiro e capitão) mas deixaram a minha para o ultimo dia.

O Capitão Celso veio ao barco para se despedir, mas na verdade ele queria se certificar que não levávamos ninguém a bordo.

As pessoas querem desesperadamente sair de Cabo Verde e diversos nos pediram para ir junto.

16:00 Saímos diretamente do cais para as Canárias.

Paramos fora da barra para mergulhar e limpar o casco.

Em Praia a água é suja e existe a cólera.

18:30 Reiniciamos nossa navegação com rumo oeste, deixando a Ilha de São Tiago, onde estávamos a bombordo onde marcamos o Farol da Ponta do Lobo. Estava escuro e eram muitos os pesqueiros sem nenhuma luz ou refletor de radar. É preciso muita atenção.

São 980 milhas até Santa Cruz de Tenerife. 5 dias de viagem.

Agora sim, rumo norte, rumo verdadeiro 013° , 52 milhas náuticas até o baixio de João Valente, rocha que algumas cartas mostram como submersas, e outras como à flor d’água, ambas perigosissimas.

Também as cartas não são unanimes quanto a sua localização. Estamos navegando com cartas americanas (DMA) que não são as melhores por isto vamos abrir 15 milhas de distancia e passar com cuidado.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 29, 1995

03:00 Iniciei meu quarto mais tarde hoje.

Encontrei o Marcelo apavorado, berrando contra os fabricantes do Autohelm. É que o profundimetro estava marcando 2 metros, alterando rapidamente para 120 metros e depois voltando.

Como estamos chegando no baixio de João Valente o Marcelo ficou assustado, mas logo percebeu que ao contrario, como tínhamos aberto 15 milhas estávamos agora em região com mais de 150 metros de profundidade, onde o profundimetro para de funcionar.

 

Nossos instrumentos Autohelm incluem ecobatimetro (até 100 metros de profundidade), LOG, (velocidade sobre a água e distancia percorrida), velocidade e direção aparente e real do vento, e bússola eletrónica (fluxgate).

Todos estão ligados entre si e se comunicam com o GPS Furuno por rede NMEA.

Tenho um repetidor em meu camarote, assim a cada momento, de lá, posso saber tudo que se passa no San Marino, inclusive as informações do GPS.

É muito útil quando se navega, mas muito mais quando se está ancorado. Posso verificar a proa, a profundidade, ventos força e direção e saber um pouco do que se passa lá fora ser ter que subir.

03:37 15° 51’N, 023° 23’W - Deixamos a boreste o baixio de João Valente, agora temos 2000 metros de profundidade, serão 56 milhas, rumo 056° , passaremos a 15 milhas a oeste da Ilha do Sal.

Está muito escuro lá fora. e o mar está cada vez mais forte.

Vento de proa, 25 nós, os alísios não nos largarão mais. A viagem vai ser mais difícil, mas só para o barco.

Para nós continua confortável.

08:00 Comi um sandwich e vou dormir.

10:00 Passamos pela ilha do Sal mas só vemos no radar.

12:00 Voltei à ponte, tudo calmo.

18:00 O dia está tranqüilo, mas o mar cada vez mais duro.

Navegamos agora a 8.5 nós, com corrente contraria de 1 nó.

O mar que nos ajudou até agora, esta mostrando sua força.

Com esta corrente poderemos nos atrasar um dia.

Escolhemos a Dársena Pesqueira, no porto de Tenerife, para aterrar.

É o que recomenda o Pilot Book.

20:00 Aumentei a velocidade para 9 nós, 1550 RPM, para chegarmos de dia.

não temos que nos preocupar o consumo, são menos de 1000 milhas.

24:00 voltei para meu turno, tudo em ordem.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 30, 1995

00:30 Anoto nossa posição, estamos no costa da Mauritânia, 350 milhas a oeste.

04:30 O Marcelo nos chama e vai fazer café. Em seguida vou dormir.

Pegamos o costume de deixar o CD Player (que comporta 5 discos) carregados com os discos escolhidos em nosso turno. Deixo para os pobres (idade média 30 anos) discos de Isaura Garcia, Silvio Caldas, Orlando Silva e Ary Barroso.

07:00 Retomo meu turno mais cedo hoje.

11:00 O marcador de vácuo dos filtros de combustível começa a subir.

Troco um dos filtros que está imundo. Troco também o do outro motor que tem a mesma quantidade de sujeira.

Logo depois os outros dois filtros também estão sujos. Troco novamente.

Estou preocupado com o óleo comprado em Cabo Verde. Será que tem muita sujeira?

Temos ainda 20 filtros a bordo. Não teremos problemas.

 

Cada motor possui dois pré-filtros (20 microns) com registros independentes. Assim é possivel trocar-se cada filtro sem parar os motores.

O mesmo com os filtros de água salgada de refrigeração dos motores.

Para se viajar com segurança, é importantíssimo ter um sistema de filtros superdimensionado. Basicamente, antes de cada bomba de água (doce, de porão ou do mar) deve haver um filtro, fácil de limpar e de muita capacidade.

Uso sempre 2 ou 4 vezes a capacidade recomendada pelo fabricante, que não imagina a qualidade da água ou do óleo que se pode encontrar em portos de países subdesenvolvidos. Seus filtros são dimensionados para países industrializados, onde a qualidade do combustível é bem controlada.

Se os filtros utilizam elementos substituíveis, deve-se ter muitos para reposição a bordo.

12:00 O mar está se acalmando, deveremos chegar a tempo.

Estamos na altura do cabo Timiris, ainda na Mauritânia.

Passei para a Milena um Fax dizendo:

"Hora di arrivo prevista a Darsena Pesquera, Tenerife 03/06/95, 20:00 Hs"

20:00 Consegui falar com a Milena pelo rádio, depois fui dormir. Ela sai dia 3 da Itália, em avião, deverá chegar à mesma hora que nós.

Em seguida me acordaram. Vazamento de óleo no reversor do motor de boreste.

Primeiro problema desde o inicio da viagem em Camamú.

Era na linha que leva a pressão do óleo para os relógios indicadores na casa de máquinas. Resolvido em 15 minutos, voltei a dormir. Por isto tínhamos tido vazamento no reversor quando saímos de Abrolhos, era uma conexão frouxa.

24:00 Voltei a meu turno com o Wellington, impaciente para chegar e encontrar a Milena que não vejo a 45 dias

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 01, 1995

08:00 O mar piorou, bate muito de proa, ondas de 2.5 metros de muita inclinação, é a corrente das Canárias que também está contra nós. Desde Cabo Verde tem sido assim. O Barco sofre muito. Tive que baixar a velocidade para 8 nós, que poderá atrasar nossa chegada, talvez 10 da noite.

O mar deverá melhorar quando chegarmos à sombra das ilhas, pois vem do norte. Talvez poderemos recuperar o tempo perdido, mas as previsões de tempo não são boas.

19:00 Mar duro com forte corrente contraria. Ondas de 3 metros. Quase perdemos a antena do SSB devido às ondas que invadem o Fly-Bridge. Amarramos com cabinho fino pois o suporte quebrou.

24:00 Chamei a Milena pelo rádio mas a ligação estava horrível.

É que é o aniversário dela e gostaria de lhe dar os parabéns.

Não foi possivel.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 02, 1995

01:00 Acabamos de cruzar o trópico de Câncer, saímos das latitudes tropicais.

Nossa viagem se iniciou em Santos, bem no Trópico de Capricórnio, meu signo. Estamos agora entrando na área do trópico de Câncer, signo da Milena.

Eles estão distantes um do outro 2700 milhas.

Estamos tentando pegar no rádio as estações comerciais de Tenerife, sem

sucesso.

Deveremos chegar no horário previsto.

A corrente diminuiu e o mar melhorou.

Tudo calmo a bordo

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 03, 1995

03:00 A nosso través, a boreste o famoso Cabo Bojador. Quantas expedições heróicas, quantos naufrágios neste marco de conquista da África pelas naus portuguesas. Ele está bem no Saara, mas estamos muito longe, a 150 milhas da costa.

8:00 Belo dia no mar. Céu azul, brilham as cores e os pássaros se aproximam.

Deveremos chegar e ver terra logo.

12:00 Tenerife no radar e na proa. Vemos terra.

A aproximação é bela, pois entramos pelo sul e o porto é ao norte. Seguimos costeando, acompanhando os acidentes do terreno. Lá está o aeroporto, o vôo da Milena deve chegar às 17:00.

A boreste, a ilha de Gran Canária.

O VHF recebe chamada "securité" da Marinha Espanhola. Há na água containers pequenos, cor verde, com explosivos flutuando. Todo cuidado é pouco.

Um de nós a cada vez fica de guarda. De repente o Wellington grita: "Tem um na bochecha de boreste". De fato, uma grande caixa de madeira de 1mx1m, verde, flutua. Vemos mais duas no caminho. Deve ter sido algum contrabando jogado na água, lembrando o divertido caso da marijuana na Rio-Santos.

Entramos as 18:00 na Darsena Pesquera, como nos indica o Pilot Book.

Levamos a bandeira Amarela no mastro.

O Policial local nos chama e avisa que deveremos ir para a Darsena numero 3 onde poderemos amarrar e dar entrada no pais.

Erramos de Darsena e acabamos finalmente chegando no local indicado.

Estou preocupado pois marquei encontro com a Milena na Dársena Pesquera e ela que vem de avião da Itália, não saberá nos achar.

Fomos muito bem recebidos pela policia local, a qual passou um rádio para a guarnição da Dársena Pesquera deixarem a Milena informada de onde estávamos.

Falei pelo SSB com a Itália, via AT&T e avisei a Cristina, prima da Milena na Itália, onde estávamos.

Seria assim possivel que a Milena nos localizasse.

A Milena chegou. Estava na Darsena Pesqueira e nos chamou pelo VHF.

Quando a escutamos, explicamos onde estávamos e ela logo nos encontrou. O porto é ótimo, muito limpo e organizado.

Não há nenhuma formalidade, só preencher o formulário do atraque.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 04, 1995

Milena e eu dormimos esta noite num hotel, em Santa Cruz.

Nada como um bom hotel depois de tantos dias no mar.

Acordamos tarde e fomos para o barco arrumar as coisas.

Tenerife é a maior das Ilhas Canárias dominada pelo pico de Teide com 3700 metros de altitude. Fomos até lá em cima de carro alugado.

Santa Cruz de Tenerife é uma cidade moderna, muito arrumada.

Seu porto comercial, onde estamos é limpissimo e muito seguro.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, July 05, 1995

Saímos de carro para procurar um local donde deixar o San Marino, pois precisamos ir para a Itália.

Encontramos a Marina Los Gigantes, mas não tinha lugar.

Fomos ao bar e a Milena conversando perguntou a um senhor "será que existe alguma marina na ilha com lugar para nosso barco?"

A resposta dele foi: Fiquem aqui, sou o diretor.

Era o Sr. Dopido Gonzales, um dos donos da marina, que foi muito gentil

desde então.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, July 06, 1995

Levamos o San Marino, Wellington e eu para os Gigantes.

São 6 horas de navegação, mar bom, dia bonito.

Vemos um grupo de barcos e somos chamados pelo VHF.

É o Marcello e o Marco que estão em um Catamarã vendo baleias.

Enquanto levamos o S. Marino eles foram passear para conhecer a ilha e acabaram num charter de um Catamarã. É gostar muito de barcos, sair de um depois de um mês e entrar direto em outro.

Vamos para lá e vemos um grande cardume de baleias.

Elas ficaram brincando em torno ao San Marino por uns 10 minutos. São animais de uns 12 metros de comprimento.

Chegamos no fim da tarde a Gigantes.

É uma linda massa montanhosa que despenca sobre o Atlântico.

A Marina está bem no começo desta costa rochosa.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, July 07, 1995

Para a nosso lado um veleiro, que sem local para dormir, pede para amarrar em nosso costado.

Logo estamos bebendo cerveja no barco deles.

É o Raphael e a Malu, com 2 filhos, que são de Lanzarote e estão indo para Gomera.

Jantamos juntos no restaurante da Marina. Muito vinho e muitas risadas

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, July 12, 1995

14:00 Estamos em Icod de los Vinos, uma cidade cheia de balcões e praças floridas, cidade dos bons vinhos da ilha.

É uma cidade do tempo dos descobrimentos, com lindos balcões e praças.

Compramos algumas garrafas em uma bodega.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, July 14, 1995

Passamos o dia conhecendo o interior da ilha. É muito interessante. O Teide, a mais alta montanha do lugar, está circundado por uma paisagem lunar, devido à lava escorrida nas erupções, é um vulcão, já se vê.

Vale a pena visitar a parte oeste da ilha, que é aonde estão as belas cidades e vilas. O Este foi reservado para grandes "resorts" turísticos, não tem graça para nós.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 15, 1995

O Marcelo e o Marco Antonio, se despedem e voam para a Espanha.

Foram bons companheiros. Divirtam-se neste fim de viagem e bom retorno ao Brasil.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 16, 1995

Saímos a noite para jantar em Guarachico, linda cidade pequena, com o Diego e sua mulher, um casal de suíços que estavam chegando do Brasil, onde foram submetidos a uma vistoria completa pela policia federal em Natal, em busca de drogas, talvez por serem moços e ele portar uma bela cabeleira.

Chegamos tarde, o restaurante estava fechando, mas a Milena insistiu, viemos de longe, etc., e o proprietário concordou em fazer nossa janta.

Como bebemos bastante, para finalizar pedimos 4 "carajillos" que é café com cognac ou anis.

Disse o dono (Miguel) que não havia mas poderíamos ir ao bar da esquina.

Quando estávamos bebendo o tal café, chega o Miguel dizendo: a próxima rodada é minha, e lá foram 4 vodkas.

Assim a noite continuou e o Miguel acabou pagando a conta que era ao menos a metade do que havíamos gastado no restaurante.

Simpáticos os Canários!

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 17, 1995

Deixamos o Wellington no aeroporto que voltou para a Bahia.

Ele foi ótima companhia e muito bom marinheiro.

Boa Viagem.

Aproveitamos para comprar nossa passagem de ida e volta para a Itália.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 18, 1995

Saimos de Tenerife, por avião, para a Itália.