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LOG ENTRY FOR: Monday, March 20, 2000

 

15:00 Entramos hoje no San Marino outra vez. Foram seis meses afastados de nossa casa ambulante (três no Brasil, três na Alemanha e San Marino). Nunca ficamos tanto tempo longe (o máximo foi 2 meses, em 97)

 

Estou curioso em saber como está tudo, houve ventos fortíssimos por aqui (90 nós, 160 kph - aqueles mesmo que arrancaram tantas arvores na França), mas o San Marino está muito bem atracado, com cabos de 28 mm novos, presos diretamente à corrente central da marina.

Há também a preocupação com mofo, apesar de termos deixado ligados constantemente os exaustores que mantém uma circulação de ar interna constante.

O congelamento (que aqui na Córsega é raro) também foi previsto, esvaziei todas as tubulações de água, coloquei anti congelante onde dava e mantive um aquecedor na casa de máquinas que se liga automaticamente a 7 graus.

 

A viagem de volta foi tranqüila apesar das previsões contrárias.

Estávamos na Baviera, nos Alpes, e a televisão no sábado pedia para ninguém sair de casa, havia previsão de tempestade de neve, e com a temperatura elevada (próxima dos zero graus), a possibilidade de avalanches era a maior dos últimos anos.

Decidimos sair assim mesmo, com nosso velho Land Rover 4x4, que nos traz segurança.

Tanques cheios (se você fica bloqueado na neve precisa deixar o motor funcionando para não se congelar), lá fomos nós pela estradinhas das montanhas.

Como vantagem não havia ninguém pelas ruas, nenhum transito!

Em uma hora estávamos numa Autobahn austríaca, também sem transito.

1000 km depois embarcávamos num gigantesco Ferry, onde passamos a noite.

Às 8 da manhã de hoje, estrada, de Bastia para Porto Vechhio, com direito a café da manhã (o do navio tinha cara ruim) no caminho, com croissant de amêndoas, só para matar as saudades da Córsega.

Chove muito, faz frio.

 

O escritório da capitania, que costumávamos ver cheio de gente, estava só com os funcionários e o capitão Charles Henry, que muito orgulhoso, nos recebeu dizendo: "seu barco está perfeito".

Quando pensávamos ainda em deixar ou não o San Marino por aqui, muitos nos disseram dos perigos da Córsega.

Há muitos bandidos, terroristas, a Córsega vive (como sempre) um período explosivo.

Foi sempre uma ilha injustiçada e colonizada, eles lutam como podem.

Tínhamos medo que sobrasse alguma coisa para nós, seriamos talvez o único barco estrangeiro por aqui.

Mas o Charles Henry nos tranqüilizou, disse - confiem em nós- e foi o que fizemos.

Ele nos informou também que teve que reforçar a corrente central da marina pois nossas 65 toneladas estavam arrastando todos os barcos atracados.

 

A Milena encontrou todas as suas coisas em ordem, nenhum mofo, tudo limpo e perfeito.

De minha parte, liguei com cuidado a chave elétrica geral, e como num passe de mágica o San Marino adquiriu vida.

As bombas de pressurização de água começaram com seu ruído de campainha abafada, os compressores de ar dos banheiros acompanharam com sua vibração baixa, as luzes se acenderam.

Nenhum pingo de água nos porões, o barco é mesmo estanque.

 

Não posso ligar o aquecimento a diesel, faltava uma peça que trouxe comigo, tenho que montar.

Ligo o elétrico, que logo faz cair o disjuntor da marina. É muita carga.

Não há escolha. Ligo o gerador, que pega de primeira, mas solta uma fumaça branca, sinal de água nas câmaras de combustão, pode ser água misturada no diesel. Vamos deixar funcionar um pouco para ver se diminui.

 

O dia terminou, o San Marino está morável outra vez, sinto uma profunda satisfação de estar com minhas coisas, que me acompanham pelo mundo há 7 anos.

 

A Milena está muito cansada.

Saí para comer uma pizza no "La Marina".

Eles além de uma excelente cozinha, fazem uma pizza como poucas vezes se encontra.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 21, 2000

 

Há muito o que fazer hoje. A chuva parou, começa a esquentar.

Atracado a nosso lado está o barco da guarda costeira, da alfândega francesa, que faz os dois papéis.

É uma lancha de 20 metros como a nossa, com casco muito semelhante, mas toda cinza, muito militar.

O pessoal é simpático, serviram de guarda para nós, a Milena vai logo puxando conversa e agradecendo.

Fui direto à OBI, um supermercado de ferragens e ferramentas, comprar os itens que faltam para consertar a caldeira do aquecedor a diesel.

Troquei a válvula de segurança, carreguei o sistema com água sob pressão, e com muito medo liguei o conjunto.

O queimador funcionou bem, a temperatura e a pressão subiram até a válvula nova abrir, tudo em ordem, o San Marino está novamente aquecido sem ruído do gerador.

Em seguida foi colocar o computador de bordo em ordem, transferir os dados do lap-top para ele, e -mágica- estamos ligados à CompuServe (nosso provedor) em Paris.

O sol começa a brilhar. Há vida na marina, diversos barco com gente morando no inverno.

 

14:00 Vamos parar com todo este trabalho que ninguém é de ferro.

O U Molu, restaurante de peixe nosso preferido, está bem á nossa proa, vamos para lá.

Matamos a saudade da famosa sopa de peixe de rocha da Córsega, (aziminu) grossa e coada, sem pedaços de peixe como a bouillabaisse. É deliciosa, imperdível.

Come-se acompanhada de pão torrado, no qual a gente vai passando a cada vez um dente de alho cru, uma farta porção de aioli (maionese com alho, feita também em Marseille para a boullabaise), e queijo gruyère ralado por cima, tudo ensopado nu caldo generoso.

Um bom branco Patrimonio também da Córsega, e depois camarões fritos com Pastis (que deixa um leve sabor de anis) e para a Milena, mariscos à moda corsa.

Matei no fim a saudade do pudim de caramelo, o cream caramel, que se faz bem por estas bandas.

Como se como bem aqui em Porto Vecchio!

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, March 23, 2000

 

O computador já funciona, mas há muito trabalho para atualizar os arquivos.

A Milena tem um monte de roupas para lavar, armários para limpar, mas no meio tempo, curtimos o mar, as inúmeras gaivotas que estão hoje voando como loucas por aqui, pois acaba de entrar um pesqueiro carregado de peixes.

A o barco da Alfândega saiu, temos mais visibilidade à nossa volta.

Veio a Manú, a moça que tomou conta do San Marino enquanto estávamos fora. Ela foi ótima, acertamos nossas contas.

19:00 Subimos com alegria a rua íngreme que nos leva ao centro de Porto Vecchio.

A cidade fica alta, num promontório com ampla vista à baia.

Era um modo de se protegerem dos piratas e invasores no passado.

Os invasores de hoje, chegam em barcos luzidios e trazem o bolso cheio de dinheiro. São bem vindos e saudados lá de cima.

Agora é matar a saudade da carne.

No restaurante Le Tourisme, o melhor da cidade de longe (e não tão caro como o "Du Roi", dos mesmos donos), matamos o desejo dos temperos fortes da Córsega.

O vinho local, Torraccia de Porto Vecchio, tem um tipo especial chamado Orriu, cuja safra de 1997 foi premiada em Paris, na exposição do ministério da agricultura, com medalha de prata. É forte, encorpado, cor muito próxima dos bordeax, e completou a nossa festa de hoje.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 24, 2000

 

O sol abriu o dia franco e potente. Pela primeira vez não vestimos mais os casacos.

Dia de supermercado. Até agora estávamos sobrevivendo com os restos que trouxemos de nossa geladeira na Alemanha.

Lá fomos nós com nosso Defender, mas tudo fechado!

Acordamos tarde, já são 1/2 dia, todo mundo está em casa.

Voltamos às 3, enchemos o carrinho, tantas coisas boas e diferentes para comprar.

Nosso jantar hoje vai ser a bordo, com uma porção de coisinhas que a Milena sabiamente comprou.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 26, 2000

 

A manhã está radiosa, as cores brilham sob o sol de primavera, vamos conhecer um pouco do interior.

Uma pequena e sinuosa estrada nos leva a L'Ospédale, uma vila que fica a uns 40 km daqui.

É pequena e charmosa, com suas casas de pedra.

Fomos bater na casa dos Poli, ele casado com uma brasileira, que estava na cozinha preparando o feijão numa panela de pressão. O Poli está construindo um novo bar, para faturar em cima dos turistas. Está muito ocupado, carregando troncos e fixando traves.

Seguimos viagem pela bela estrada sinuosa, através de uma floresta de pinheiros muito estranhos.

Em alguns pontos eles estão todos deformados pelo vento forte e em direção constante.

As montanha tem uma formação curiosa, de pedra pontiagudas e disformes. É uma paisagem muito diferente e bela.

Almoçamos em Zonza, no Auberge du Sanglier.

Pedimos o menu "decouvert" completo.

Entrada: Frios e queijo Brocciu (típico daqui, de cabra) frito.

Segundo: Sanglier (Javali) cosido num molho de vinho tinto, semelhante àquele do "coq au vin". Delicioso.

Sobremesa também à base do queijo "brocciu", tudo perfeito.

O vinho local aberto (pichet) estava muito bom

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 28, 2000

 

O aperitivo por aqui no inverno é tomado às 7 da tarde.

La fomos nós para a velha cidade, tomar um pastís, como todos.

O bar fica próximo à padaria, e vale o espetáculo de todos buscando os 'baguettes" que são carregados das maneiras mais prosaicas (para não dizer anti higiênicas)

Velhos, moços, homens, mulheres, todos levam seus pães para casa, numa grande sem cerimônia.

No bar, os homens cujas mulheres já compraram o pão e preparam a janta, batem animados e nem sempre muito amigáveis papos de botequim. É o mesmo em todo o mundo. É a imaginação voando leve, que ao sabor do ligeiro álcool, os solta dos limites mesquinhos da pequena vila.

Uma placa quase do tamanho da porta do Le Tourisme convida: "Oursins", ouriços.

Estamos bem na época dos ouriços, vamos provar.

Vieram seis em cada prato, estavam bons mas não eram a delicia que esperávamos.

Durante o jantar, mais um Oriu, conhaque, voltamos alegres e saltitantes.

O Rubens nos telefonou do Brasil à meia noite. Deve ter pensado que bebemos todas (será?)

A Milena tem agora a mania de quando passa um pouco da conta no vinho, mandar e-mails para todo mundo. Antes ela telefonava. Agora é melhor, custa menos e fica a prova escrita do estado de alucinação.

Lá foi ela para o computador.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, March 29, 2000

 

Para poder colocar fotos no diário de bordo e no site, perdi todo o dia no computador aprendendo a trabalhar com imagens. Não fizemos nada hoje, a Milena ficou lendo seu livro sobre a história do império otomano, que a deixa grudada no sofá por horas.

Que vida dura!

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 31, 2000

 

A primavera está começando com toda sua poética renovação.

Cedo saímos para Propriano e Sartène.São duas cidades que ficam do lado oeste da ilha, temos que atravessar a Córsega.Mas são só uns 80 quilômetros, por uma estrada agradável onde vão se sucedendo as vilas, limpas e arrumadas, com suas casa de pedra muito bem construídas.

As cidades, sempre no alto das colinas (proteção contra piratas e invasores) avisam sua chegada com muita antecedência, das estradas já se vê para onde se vai.

Sartène chegou assim, anunciada de longe.

Como chegamos com fome, almoçamos muito bem e fomos tomar um café na praça central.

Para nossa surpresa, havia uma festa da escola, todos fantasiados, em grande carnaval.

Valeu ver a mistura de raças, crianças de todas as origens em proporções quase iguais, árabes, orientais, africanos, louros e morenos, todos juntos em grande festa.

Acredito com convicção que a Europa racista está acabando.

De lá, descemos a serra até Propriano, um bom porto na costa oeste, onde pretendemos atracar ou fundear ainda este verão.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 01, 2000

 

Chove muito, há ventos fortíssimos, vamos aproveitar o calor e a tranqüilidade do interior do San Marino.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 02, 2000

 

Dia lindíssimo, não dá para ficar parado.

Vamos conhecer Aleria e Corte, cidades que representam a verdadeira Córsega antiga.

Aleria é velha, mais de 25 séculos.

Está numa grande planície. Ao norte e ao sul da cidade existem dois grandes lagos abertos em canal para o mar, o que fez do local um porto natural muito protegido.

Os Fenícios, os Gregos, os Etruscos , e os Cartagineses a usaram como base naval.

Exploravam suas minas de cobre e de ferro e se beneficiavam de sua localização estratégica, como porto de escala entre Marseille e Messina.

Em 259 AC, os romanos a tomaram de Cartago e a usaram como ponto central para a conquista de toda a ilha.

Neste Periodo Romano a cidade prosperou, foram construídos um aqueduto, um anfiteatro, o capitólio e o fórum e a entrada do porto foi protegida por uma barragem.

Junto com o Império Romano ela sofreu os males da decadência.

Foi tomada e incendiada pelos vândalos no século quinto,

A cidade foi abandonada, a malária tomou conta da região devido aos lagos de água parada, e somente em 1944, com a retomada pelo exercito americano e a ajuda do DDT, a cidade voltou à vida e a malária erradicada.

Aleria é famosa por suas ostras.

Os lagos são ideais para a reprodução desta iguaria marítima.

Dizem que Napoleão, quando exilado em Elba, mandava semanalmente um navio à Aleria só para trazer ostras para sua mesa.

Não deu para agüentar. Fomos a um restaurante (Le Chalet) provar as famosas ostras.

Estavam magnificas, das melhores que já comemos. Junto veio um prato de "crudités", lindo como sempre, com mariscos, camarões, escargots do mar, tudo que se come cru, como a Milena gosta.

O vinho da região, President, branco ou tinto, é de boa qualidade e vale a pena prova-lo.

Saímos de lá direto para Corte, entrando por uma estrada sinuosa pelas verdes florestas da Córsega.

Diversas pontes antigas facilitam o acesso ao interior, entre elas a famosa Ponte Genovesa, ainda em uso pelos veículos.

A cidade está a 600 metros de altitude, equilibrada em uma colina, quase despencando.

Abrigada pelas florestas, montanhas e rios, Corte foi quase sempre uma cidadela inexpugnável, onde se refugiaram os patriotas que sempre lutaram pela independência da Córsega.

Em 1755 Pascal Paoli, um dos heróis revolucionários mais conhecidos da Córsega escolheu Corte como a capital de seu "governo da nação corsa".

O governo era apoiado em uma constituição feita nos moldes de Montesquieu.

Quando em 1769, Paoli foi preso e levado ao exílio, Corte era a capital política e cultural da ilha. É ainda hoje uma cidade universitária .

O sol já estava se escondendo, subimos pelo vale do Restonica, um rio vigoroso e rápido, que nasce a 1700 metros de altura e corre com suas águas claras e gélidas sobre as pedras arredondadas do vali glacial., entre florestas de pinheiros (nas partes altas) e de castanheiros (nas regiões mais baixas)

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 03, 2000

 

O Marcelo Gentil, - mgentil@tec-art.com - do Don Silvano (que está agora em Lisboa) me enviou o seguinte e-mail:

 

 

Sergio e Milena, este sistema de telefonia funciona bem para internet?

Mesmo quando vocês estão navegando?

O que é necessário?

Sergio, uma coisa eu sempre me pergunto, vale mesmo a pena envolver-se com computadores quando a vida embarcado e no mar é tão tranqüila.

De que vale perder todo um dia, como você disse abaixo, encima de um computador nesta situação? Isto eu sempre me perguntei pois, somente conseguia ligar o meu notebook quando estávamos atracados e, aí é que as descobertas de um novo País / local inicia e eu, lá trancado com o notebook.

O que você acha?

 

Resposta:

Marcelo,

O sistema funciona bem, só próximo às costas, no mar você fica sem comunicação, temos o Inmarsat C, que é muito lento e caro.

Usamos um celular digital GSM italiano, que se comunica a 9600 bauds, suficiente para o básico.

 

Quanto à segunda parte de sua pergunta:

Acho que o melhor mesmo é jogar o laptop no mar.

A coisa começou assim:

A principio tínhamos só inmarsat, só podíamos passar mails e receber de poucas pessoas cadastradas.

Telefone, usávamos os públicos, onde estivéssemos.

Muita tranqüilidade e paz.

Num dia de coragem, compramos um celular. Podíamos telefonar a todos e receber chamadas!

O sossego diminuiu um pouco.

E a conta telefônica chegou! Que susto!

Tempos depois achamos que instalando um modem poderíamos nos comunicar com amigos (agora mais numerosos) e família por E-Mail. Seria uma boa economia.

A conta veio com a verdade. Estávamos gastando mais, e também usando mais o nosso tempo livre.

A conclusão foi fazer um site e transferir para lá o diário de bordo (que de qualquer modo tenho que fazer), diminuindo assim o número e a extensão dos mails.

Chegou a conta, ainda maior, e o tempo para manter o site cresceu mais ainda!

A conclusão é simples:

Quanto mais perto do mundo, mais gastos e mais tempo usado em coisas concretas, que não fazem bem nem à alma, nem ao corpo.

Não sei o que fazer.

Talvez precise novamente da mesma coragem que tive ao comprar o celular e jogar o laptop no mar.

Pense bem antes de entrar fundo no século 21

 

Sergio

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 04, 2000

 

10:25 O dia está nublado e triste. A escolha é trabalhar na casa de máquinas, lá não faz diferença.

11:20 Liguei os motores. Estavam parados ha 6 meses, pegaram de primeira e trabalharam até atingir a temperatura de regime, à perfeição.

Nosso vizinho de boreste, um Bayliner 45 pés, ligou também os motores, mas saiu e foi direto para o guindaste que o tirou da água. Vai refazer a pintura venenosa, está se preparando para a estação.

A nossa, creio que vai agüentar mais um ano. Tenho refeito a cada três anos com muito sucesso.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 05, 2000

 

A manhã é fria e chuvosa. Mas há uma certa esperança no brilho de algumas nuvens e no cheiro de terra molhada que vem do interior da ilha.

Vou aproveitar para buscar a moto, nossa pequena Honda 50 cc que está guardada numa garagem.

11:30 Estou de volta, a moto demorou para pegar, 6 meses parada. Não a tinha preparado para o inverno (óleo no cilindro, carburador vazio etc.) pois a garagem onde deixei é também oficina e eles prometeram girar o motor cada mês. Certamente esqueceram.

12:30 Os buracos entre as nuvens aumentam. O vento está muito forte, SW força 6.

Achamos que dá para dar mais um passeio pela ilha.

Vamos perto, para Bonifácio a 25 km daqui.

A Córsega é conhecida como a mais bela ilha do mediterrâneo. Parece que é verdade.

Mas Bonifácio certamente é o porto mais bonito que conhecemos.

O mar entra em um canal ladeado por altíssimas falésias verticais, de pedra clara sedimentar.

A cidade fica lá em cima, despencando pelos desfiladeiros cheios de água.

Bonifácio está no ponto mais ao sul da Córsega, de lá se vê a proximidade da Sardenha.

Fomos almoçar na famosa (e barata) "Les Terraces d'Aragon".

Come-se muito bem, com uma fabulosa vista sobre as famosas escadas com seus 187 degraus, que o Rei de Aragão mandou talhar na pedra em uma só noite, para permitir a seu exercito tomar de surpresa Bonifácio.

Mas a população foi de algum modo advertida e derrotou os invasores.

Homero descreve Ulisses entrando neste inesquecível porto.

Caminhamos por suas ruelas íngremes, tortuosas e estreitas, e a Milena desceu pela escadaria da cidade alta para o porto, onde fui encontra-la com o Defender.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 06, 2000

 

Liguei novamente o gerador para testar o dessalinizador e o ar condicionado.

Tinha deixado todas as tubulações com água doce e no dessalinizador tudo tratado com biocida. Tudo funcionou bem, todos os sistemas básicos estão perfeitos.

Fomos jantar no Le Baladin, no centro de Porto Vecchio, boa comida mas cara.

Ficamos logo íntimos do dono, conversamos muito sobre a Córsega, o Brasil, é uma pessoa educada e gentil, nascido aqui mesmo em Porto VecchioLOG ENTRY FOR: Friday, April 07, 2000

 

A Milena está encerando todas as paredes e portas que são de madeira e estão perdendo um pouco aquele brilho de cera, que sempre tiveram.

Por minha parte, fiquei novamente debruçado toda a manhã no computador. Tivemos problemas com o host, nosso site está muito grande e a capacidade de armazenamento em disco disponível acabou.

Com a ajuda de meu filho Flavio, no Brasil, tudo foi resolvido, o site já está no ar.

A Milena voltou ao supermercado.

Temos comprado ao longo de toda a viagem, baguette francês quase pronto, que colocamos por 8 minutos no forno e pronto - delicioso pão quente.

Aqui na frança não tem, ninguém conhece. Ela perguntou para um monte de gente no supermercado - nada -.

É por cauda do costume de se comprar pão fresco duas vezes por dia, as padarias nunca fecham e o pão é excepcional.

Vou de moto buscar o pão na cidade alta, é o melhor da região.

Enquanto estamos aqui tudo bem, mas quando sairmos para navegar vamos ficar sem pão!

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 08, 2000

 

Chove outra vez, o negócio é curtir o dia dentro do San Marino

Ler, ouvir e tocar musica, colocar as coisas em dia.

Durante toda a semana fez frio e muito vento. Na verdade ventos fortíssimos.

A Córsega é conhecida como "Ilha da beleza" , mas também como "ilha das tempestades".

Estamos provando as duas.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 09, 2000

 

Acordamos tarde hoje.

Chove muito, o dia está cinzento e há previsão de ventos força 10, de Leste.

Nós também estamos como o dia.

Ontem fomos jantar e depois direto para o La Taberne du Roi, que abre só aos sábados às 11 da noite. Tem musica boa, música corsa.

Já conhecíamos do ano passado, é ótimo.

Quando chegamos havia pouca gente, umas 10 pessoas.

O local é bem decorado, com jeito de cave, tudo em madeira escura.

Os dois violonistas chegaram a meia noite, Muita gente foi chegando também, o local começou a encher.

Felizmente de turistas só nós e um casal de franceses a nosso lado. O resto, tudo gente do local.

A música começou forte e poética, como são todas as canções corsas.

Os violões tocam um solando e o outro como base, os cantores cantam em duas vozes, com suas potentes gargantas em abertura total.

A platéia vibra, participa e se emociona.

Algumas horas depois a bebedeira é geral.

Todo muito ri muito, canta, dança em total confusão.

A moça da mesa ao lado, depois de ter dançado muito e cantado no palco (como muitas outras) sai carregada pelo marido, é muito álcool.

Os músicos já não tocam as canções corsas, estão agora em rock desengonçado, musicas latinas, tudo o que o pessoal quer.

Adorei a noite, que acabou às 5.

Me lembrou os anos que curtíamos a noite em S.Paulo, onde havia tanta irmandade entre os artistas, garçons e clientes.

Tempos já findos em S.Paulo, mas ainda muito vivos por aqui.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 10, 2000

 

12:30 Passei a manhã ensaboando o Avon, nosso dingue inflável pequeno.

É um dos modos de se encontrar o pequeno furo que me incomodou todo o verão passado.

O ar vazava pouco a pouco, cada três dias tinha que bombear e encher novamente.

Passando água com detergente de lavar pratos, se faz uma boa espuma e as bolhas mostram o vazamento. Também com álcool se pode localizar furos, o álcool evapora mais rapidamente perto dos pequenos furos.

Consertei com cola epoxica, pois o adesivo de contato normal que alguma vezes usei, acabou soltando-se.

19:30 Hoje foi o dia dos vazamentos. Revisei toda a linha de água quente dos aquecedores, está perdendo pressão lentamente, mas trabalha bem, basta acrescentar água de vez em quando.

Estou também retocando a pintura dos motores.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 11, 2000

 

Decidimos comer ostras em Aleria.

Eu estava lubrificando as fechaduras e trocando o miolo de uma, mas a Milena está mesmo com vontade.

17:30 Estamos de volta.

As ostras como sempre incríveis, a Milena pediu um prato de "crudités".

Depois fomos passear nas ruínas romanas.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 12, 2000

 

O dia amanhece novamente ensolarado.

Vamos conhecer Ajaccio, a capital da Córsega.

A estrada é sinuosa, 150 km, mas as maravilhosas vistas fazem tudo passar rapidamente.

Tudo por aqui cheira a Napoleão.

O nome de tudo ou é Napoleão ou é Bonaparte.

O famoso corso nasceu aqui. A casa da família foi reformada, mas é a mesma.

A cidade é charmosa, quase elegante, há um belo e amplo porto e muito movimento.

Almoçamos uma sopa de peixe local, (no restaurante des Halles, que também possue uma peixaria) muito forte, acompanhada de trilhas, mariscos mais o tradicional aioli, pão torrado e queijo ralado.

Na volta fui ao restaurante Le Baladin, buscar o pão congelado.

Explico:

É que a Milena, inconformada em não achar o pão semi pronto aqui em Porto Vecchio, no sábado quando fomos jantar lá, conversando com o proprietário contou seu drama.

Ele se comprometeu a comprar em um de seus fornecedores o tal pão.

Fomos busca-lo e ele não quis cobrar. Nos deu 50 pães de presente!

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 13, 2000

 

Tudo testado, passei o dia fazendo uma relação de todo o material que preciso comprar.

Parte vem dos Estados Unidos, pelo correio, somos livres de impostos aqui.

Outra parte compramos aqui mesmo em Porto Vecchio.

É a última etapa da preparação para o verão.

Assim ficamos durante o período quente sem ter que comprar ou consertar nada.

 

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, April 14, 2000

 

Sol, sem ventos, condições ideais para se preparar o Fly Bridge.

Retiro antes do inverno o bimini top e tudo que possa ser atacado pela ação do tempo.

Montar tudo dá um bom trabalho.

Vou também desmontar uma mesa e um sofá de fibra, construídos junto com o San Marino e joga-los fora.

No lugar vamos comprar cadeiras e espreguiçadeiras para o Fly. São mais cômodos e pode-se coloca-las onde há sombra ou sol.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 15, 2000

 

Continuamos curtindo Porto Vecchio. Chega de viagens esta semana.

Pela manhã vou comprar pão de moto, depois um mata fome em algum bar, a cidade é encantadora, está rejuvenescendo na primavera que esfuziante explode em flores.

A cidade é muito charmosa, pequena e chic.

O turismo por aqui é seleto e não incomoda.

Os bares, restaurantes, lojas, tudo é de com muito bom gosto e tudo em pedra.

Há um pequeno castelo genovês, uma porta entre os muros, também genovesa.

Lá, encastrado no muro está a Taverne du Roi, onde aos sábados há musica corsa.

Vista do mar, é uma pequena cidade alta.

Temos uma bela vista de nosso barco, na popa a baia, na proa a cidade.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 16, 2000

 

Domingo, chove muito, faz frio, ventos força 6.

Nada a fazer.

O San Marino é bem aquecido, vamos curtir nossos livros e botar em dia a correspondência.

Ontem como todos os sábados (pois só abre neste dia), depois de um bom jantar, fomos por volta da meia noite à Taverne du Roi, para escutar a musica corsa e compartilhar junto com os locais da alegria da simpática taverna.

Como sempre bebeu-se muito.

A curiosidade da noite:

Quando se chega, ao se pedir o primeiro drinque, muito formalmente vem um garçom ou garçonete, e traz junto a nota, que deveria ser paga de imediato.

Mas nos conhecem, sabem que vamos pedir mais alguns, e não cobram na hora.

Uma hora depois já não há mais garçom ou garçonete, pois eles também bebem e se misturam com a grande quantidade de pessoas que ficam em pé envolta do balcão do bar.

Os turistas (poucos ainda) mais comportados, ficam sentados às apertadas e pequenas mesas.Quando queremos mais alguma coisa vou ao balcão e o barman me serve e não anota nada. Uma grande bagunça.

Na hora de irmos embora, fui ao balcão e pedi a conta. Para chegar até lá tive que passar no meio de muita gente, que vão sempre dizendo alguma coisa simpática.

O barman me perguntou: "Quanto vocês beberam?.

Respondi: ""três balantines e duas vodcas"

São 400 Francos. (o preço inclui taxa para a musica).

O pessoal que se aglomerava interviu.

"Isto é preço para turista, ele deve pagar menos, vem sempre aqui"

Um outro me perguntou em italiano "De que região da Itália você é?"

"Sou brasileiro respondi".

Começaram então a fazer em espanhol elogios ao Brasil, e o veredicto final veio do grupo, quase uma ordem para o Barman: "ele paga preço de estudante".

Está bem disse o Barman, são 300 Francos.

Já eram quase 5 da manhã!

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 17, 2000

 

Continua a chuva, o vento bateu muito forte esta noite, continuamos dançando de um lado para outro, junto com toda a Marina.

Por sorte não temos veleiros perto, senão seria toda aquela barulhada do mastreamento solto.

17:00 Abriu o sol outra vez.

Decidimos ir a Bonifácio, para jantar no Les Terraces D'Aragon.

Mas comemos mal, decidimos experimentar pratos italianos, a Milena pediu um Tagliatelli com frutos do mar e eu uma pizza, estavam péssimos.

Lá só se deve comer peixe, erro nosso. (mas estava tão bonita a pizza no prato dos outras na ultima vez que viemos aqui)

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 18, 2000

 

Flexboat na água!

Aproveitei que o barco da alfândega que fica ao nosso lado saiu, e baixei o flexboat que estava parado a seis meses.

O motor pegou de primeira, dei uma boa volta de teste.

Vou deixa-lo na água pois vem visitas este fim de semana, talvez eles queiram passear.

Nosso Flexboat de 15 pés, leva até 8 pessoas com seu motor de 50 HP, dá também para puxar esqui, em velocidade razoável.

É nossa condução quando estamos na ancora.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 19, 2000

 

9:00 Céu azul sem nuvens.

O San Marino está pronto e testado.

Tudo funciona bem, não houve problemas com a longa invernagem.

Amanhã vão chegar amigos do Brasil.

São o Jaime e a Francine, acompanhados da filha Ana e genro Sven, que moram em Geneve.

Vamos sair cedo para espera-los no ferry em Bastia.

Hoje é dar uma boa lavada no casco, no carro, deixar os camarotes destinados s eles em ordem, e desejar que façam uma boa viagem.

São amigos queridos de muitos anos, estamos ansiosos para encontra-los.

 

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 20, 2000

 

5:00 Ainda está escuro, mas já estamos de pé, nos preparando para sair rumo à Bastia.

O ferry que trará nossos amigos que vem nos visitar chega às 7.

São duas horas de viagem, daqui até Bastia, vamos chegar atrasados.

Rumo norte, pelas estradas sinuosas mas bem calçadas da Córsega.

8:30 Estamos em Bastia, logo nos encontramos, na marina junto ao porto.

O Sven e a Ana Luisa Blake , saíram ontem de Geneve, dormiram no Ferry, e vem nos encontrar com alegria.

A Francine, mãe da Ana e amiga da Milena desde os tempos de universidade, nos espera no bar.

Saímos em seguida para conhecer Bastia.

Temos que fazer hora, o Jaime Alipio de Barros, pai, sogro, marido e nosso amigo de toda uma vida, chega de avião às 12:40 no aeroporto aqui perto, vindo direto do Brasil.

Um giro a pé pela cidade velha, Bastia é a cidade comercial da ilha, a capital econômica.

Decidimos conhecer Furiani, uma pequena vila encastrada nas montanhas que se vê de longe, romântica e protegida.

Temos um segundo motivo para ir visita-la.

O sócio de meu filho Flavio, Celso Furiani, talvez tenha raízes por lá.

Subimos por uma estrada em caracol, pouco a pouco nos aproximamos do pequeno vilarejo.

A pé, fomos até o castelo, onde Pauli, o herói da ilha, esteve lutando.

A Ana e a Milena encontraram um senhor que descia a rampa que leva ao castelo e perguntaram: "como se faz para visita-lo?".

Resposta.: Sou eu que tomo conta, mas está fechado, vou almoçar. Peguem a chave, visitem, e depois deixe-a sob a porta de minha casa, que é aquela, ao lado".

12:50 O Jaime já está conosco, vamos rápido para Aleria, almoçar no restaurante das ostras. Temos que chegar antes das duas.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, April 21, 2000

 

Meus amigos me perguntam: "mas porque você faz esta vida?"

É impossível saber-se o motivo pelo qual vivemos, o que significa que jamais vamos saber o que é certo ou errado, como se deve ou não se deve viver.

A única coisa certa é a morte, e estamos sempre a espera-la.

Ela forçosamente virá, não adianta fugir ou busca-la.

Vamos portanto espera-la do modo mais confortável e agradável, que para nós é viajar e conhecer novas pessoas e lugares.

Pela manhã, enquanto deveriam estar curtindo o sol e o mar, o Sven e a Ana ficaram trabalhando, polindo os inox do Flybridge. O Sven foi tripulante de um veleiro por um mês, alguns anos atrás, tinha saudade do trabalho a bordo. Sorte minha, pois teria que fazer isto sem falta (uma vez por anos, damos uma polida nos inox)

Decidimos almoçar em Bonifácio.

A beleza do lugar deixa como sempre todos deslumbrados, mas chegamos tarde, os restaurantes estão todos fechados.

Melhor, assim jantaremos em Porto Vecchio uma boa sopa de peixe, a famosa sopa de peixe da Córsega

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 22, 2000Subimos a serra rumo a Ospedaletto. Lá estavam nossos amigos Poli, que saudamos à distancia.

Pelas maravilhosas florestas fomos até Zonza, parando no lago que há no caminho e também no topo da serra.

Vale a pena relatar o pato que a Milena pediu,com molho de "frutti di bosco" que todos invejaram, bem como os escargots que vieram para o Jaime e para mim.

Já escuro, fomos caminhar por Porto Vecchio, que começa a ter um certo movimento de turistas.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 23, 2000

 

Nossos amigos partem hoje.

A Milena prepara um almoço de despedida a bordo, rimos, comemos, lembramos do passado e secretamente pensamos no futuro, desejando muita sorte para todos eles.

Temos que leva-los a Bastia, o ferry sai às 9 da noite.

A previsão é de mar grosso, venta muito, vai balançar.

Felizmente eles tiveram dias bonitos durante sua estada na Cósega.

 

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 24, 2000

 

Já com saudades dos amigos que foram, recebemos o Inge e o Michel, que estão com o barco na Sardenha e vieram de carro até aqui só para nos visitar.

A primavera está à toda força, a Inge é alérgica ao pólen, tivemos que leva-la ao hospital, quase não conseguia respirar.

Um rápido tratamento a base de oxigênio e ela voltou lampeira e pimpona, como sempre foi.

A Inge transmite alegria, e o almoço a bordo foi em clima de festa.

Uma amiga de infância estava junto, muito simpática e educada.

Nós os conhecemos em Imperia, nossos barcos estavam atracados bombordo a boreste.

O Michel apareceu no deck e nos saudou: "afinal um barco a motor que entra sem fazer barulho ou marola.".

Ficamos amigos e nos encontramos duas vezes na Baviera, onde eles moram.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 25, 2000

 

Sós novamente, de volta ao trabalho.

Estamos aguardando para o próximo domingo o Tony e a Leda, que chegam do Brasil.

Vamos navegar com o San Marino para a Sardenha, temos que deixar o barco pronto.

A Milena lava os carpetes, aproveito o belo dia para lavar o casario e o fly.

O motor do inflável Flexboat, um Johnson 50HP estava com problema em um dos cilindros, e eu não tinha ferramenta para sacar o volante, pois tudo indicava que o defeito era no magneto.

Saí pela cidade, até encontrar alguém que me pudesse sacar o volante.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 26, 2000

 

Troquei a bobina do magneto do 50 HP, o motor funciona agora à perfeição.

Um francês do barco ao lado vem bater papo, ele é casado com uma chinesa, moram ha 5 anos num belo veleiro.

Acabei ajudando-o com o hobbycat que ele tem, rebocando-o até o clube de vela, que fica do outro lado da baia.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 27, 2000

 

O Paul Valeani, mergulhador profissional, veio limpar os hélices e soltar os cabos que tínhamos prendido diretamente na poita da marina.

Gosto de mergulhar, mas nas águas de uma marina não dá prazer.

São muitos barcos, descarregam óleo, esgoto etc., prefiro contratar um mergulhador.

O casco está ainda limpo, nossa tinta venenosa tem já dois anos, vai agüentar três.

Os cabos vem imundos, cheio de um espécie de marisco que nunca vi antes.

Uso a máquina de pressão de água para remove-los, mesmo assim demoram para se soltar.

12:00 Estamos afinal prontos para navegar. Hélices limpos, fundo sem cracas, substituí os cabos presos ao fundo por outros fáceis de soltar.

Passei a tarde aplicando óleo de Teca nas madeiras externas.

Não temos verniz, mas nosso bom ipê brasileiro agradece quando damos uma fina camada de óleo para deixa-lo como novo.

LOG ENTRY FOR: Friday, April 28, 2000

Troquei bomba de água do gerador, verifiquei qualidade do diesel nos tanques remanescentes, coloquei o Avon na água, tudo ok, pegou na segunda tentativa.

Jantamos no Le Baladin, eu estava com saudades do magnifico filet ao poivre vert, a Milena me acompanhou comendo a famosa sopa de peixe..

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 29, 2000

 

 

Arrumei os cabos, acabei de passar óleo de teca, colei um tapete provisório no flybridge (pois retirei os bancos originais), e no local ficou uma superfície escorregadia. A Milena trabalha duro na parte interna, o San Marino está como novo.

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 30, 2000

Últimos acertos, lavei todo o exterior em camiseta. O sol brilha firme e esta esquentando. Começa a ter cara de verão.

18:00 Estamos de volta do aeroporto de Figari, fomos buscar nossos amigos, o Antonio Baleche (Tony) e sua mulher Leda.

Eles vão ficar uma semana conosco, trouxeram em sua bagagem, maravilhosas balas de ovo, que meu filho e minha nora, Flavio e Renata, me mandam via expressa.

Adoro doces de ovos, enquanto alguns se apavoram com o colesterol, sigo em frente pelos caminhos perigosos (mas cheios de prazer) dos índices altos.

Eles chegam cansados, mas ainda com tempo para uma boa pizza no La Marine. É bom se esforçar e ficar acordado, para acertar o horário, eles vieram direto do Brasil.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 01, 2000

 

12:00 Estou acabando de fixar tudo que poderia se movimentar na casa de máquinas.

A Milena foi com o Tony e a Leda para Bonifácio, mostrar a incrível cidade.

Estamos parados a mais de 6 meses, pouco a pouco vamos deixando de cuidar que tudo esteja firme para agüentar um bom balanço.

Vamos largar amanhã às 11, rumo à Sardenha, na Itália.

Serão 5 horas de viagem, é perto, mas é um trecho muito complicado, pois vamos navegar entre rochedos e pequenas ilhas, com muitos trechos baixos onde se pode encalhar.

Para complicar ainda mais, vamos atravessar a boca de Bonifácio, um pequeno canal de 7 milhas onde se forma um dos mais temíveis mares de todo o mediterrâneo.

O vento de oeste ou sudoeste (libeccio) entra firme e se afunila pelo canal, aumentando de intensidade, atingindo com algumas vezes força 10.

Mas a previsão para amanhã até as 12 horas é de ventos variáveis, força 3. Deverá ser uma viagem muito tranqüila.

A Milena vai de carro junto com a Leda, eu e o Tony vamos navegando. Elas vão atravessar o estreito de ferry.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 02, 2000

 

7:30 Levanto cedo para preparar o barco para a viagem. Desligar nossos cordões umbilicais à terra, água, luz, cabos pesados, preparar tudo.

Entramos em contato com a Fedex, há mercadorias para nós em Paris, temos que providenciar um despachante para libera-las sem imposto.

10:45 Tudo pronto, a Milena foi ao Supermercado, aguardamos a volta dela para largar. Elas mudaram de idéia, vão conosco de barco.

Marcamos com o pessoal da marina 11:00 para soltar os cabos

11:30 Amarras soltas, não ha vento , é fácil e agradável desatracar.

12:00 Estamos a 1.60 m da laje de Chiappino, na saída da baia, rumo 095, 8 nós, 1500 RPM. O Tony e a Leda dormem. Estão ainda cansados da viagem do Brasil.

12:25 Estamos já em mar aberto, está calmo e sem ondas.

As Ilhas Cerbicales estão a nosso bombordo, Córsega a boreste

12:40 Deixamos a bombordo as ilhas Cerbicales, Punta Capicciolo a boreste, proa a 195 graus, rumo ao rochedo Perduto, bem na entrada da boca de Bonifácio.

É uma passagem apertada, cheia de rochedos, mas escolhi esta rota pois é protegida de ventos.

12:50 O vento começa a aumentar, força 4, SW. O mar está um pouco encrespado, alguns carneiros, ondas de meio metro. Muito confortável, vem de proa.

O dia está magnifico, céu azul, faz calor, é o primeiro dia que estou em bermudas.

Que alegria navegar novamente, o vento frio no rosto, os respingos de água, o barulho das ondas batendo no casco, o brilho da esteira na popa e o ruído surdo dos motores, que me transmitem uma sensação de segurança, tão regulares e sincronizados.

Estamos rebocando o Flexboat, não quis subi-lo esperando mar muito calmo. Ele está saltando como um cavalo, mas vai bem. Acho que errei, deveria te-lo subido. É a primeira vez que navego tão longe com ele a reboque.

Farol do rochedo Perduto a bombordo. Está na hora de mudar de rumo e atravessar o estreito. Ilha Cavallo a boreste.

14:00 Vento força 6 SW. Estamos na sombra da ilha Cavallo, o mar acalmou, vamos ver como está no estreito.

O Tony e a Leda acordam, vão balançar um pouco junto conosco.

2:15 O mar vem de boreste, rolamos uns 15 graus, ondas de 1 metro, vento força 5

Estamos no meio de um grande bando de gaivotas. É que estamos sobre uma rede, colocada em local e de modo proibido.

Enroscou no hélice, o barco para, mas não o nosso, temos facas que giram junto com os hélices e cortam cordas e redes que se enroscam.

14:42: Paramos de rolar, estamos na sombra da costa norte da Sardenha.

Já estamos em águas italianas, vou trocar as bandeiras francesa e corsa que estão no mastro por uma italiana.

O celular já esta também "logged" na antena italiana

14:54 Atravessamos o canal, agora é um zigzagear entre as ilhas , rochas nuas num mar calmo e azul.

15:07 Seca Corsara a bombordo. Mudamos novamente de rumo, 105 agora.

A navegação por estes estreitos é perigosa mas muito bem sinalizada. Não admite porem erros. Ilha Madalena (onde ha uma base naval americana) à nossa proa.

15:15 Dois "traghetti" à proa e um "pilotino" do corpo florestal italiano a bombordo. Floresta não vemos nenhuma, só pedras.

15:20 Nova mudança de rumo, 150 agora.

15:34 Nova mudança de rumo, 101, porem com alguns transtornos, pois estávamos em rota de colisão com um ferry que aguardou até o ultimo momento para desviar de nos, ele vinha de nosso bombordo, era nossa a prioridade.

15:47 Rochedo Pilastro da Ilha Caprera, a nosso bombordo.

Na aleta de bombordo, um imenso couraçado americano.

Baixo a rotação dos motores, vamos entrar em Porto Palma, uma baia calma onde vamos ancorar e pernoitar.

16:17 Estamos ancorados na Baia Palma. Ha uma escola de vela, com grandes hangares, dois piers, nenhum barco perto de nós. Ainda é inverno.

Estamos em Caprera, a ilha de o Rei de Savoia deu à Garibaldi, local onde ele se refugiava dos politicos e aduladores, sua verdadeira casa e terra adorada.

O ferro unhou firme e forte. Estamos protegidos de todos os ventos exceto sul. Mas a previsão é sudoeste.

17:30 Não almoçamos hoje, mas já está na mesa um belo ravioli ao brocciu, queijo corso de sabor forte.

Ao primeiro gole de vinho, chegam os Carabinieri, pedem documentos do capitão e do barco.

É a primeira vez que somos fiscalizados na Itália.

Tudo em ordem, despedem-se gentilmente e se vão em sua rápida lancha.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 03, 2000

 

11:00 Subimos ferro rumo a Cannigione, na ilha principal da Sardenha.

Fica no Golfo de Arzachena, bela língua de mar que entra terra a dentro.

A entrada do golfo é facilmente reconhecida pelo Capo Tre Monti, três montanhas parecidas em fila indiana.

Ancoramos em frente à cidade, de bote fomos direto para o Restaurante del Porto.

Comemos como loucos, antipasto com uma dezena de tipos de frutos do mar, frios e quentes, espaguete de frutos do mar à bottarga (ovas de peixe como só aqui eles sabem fazer), peixe cosido ao sal (dentro de uma grossa capa de sal grosso) , sobremesas (um pastel típico daqui, recheado com queijo de cabra e coberto com mel), tudo acompanhado de um magnifico vinho branco local e finalizado com um licor escuro de mirta.

A Leda e a Milena saíram para caminhar, o Tony e eu demos uma volta de bote e acabamos dormindo dentro dele, ao sol, pois o frio começa a ir embora (o vinho era 13.5 graus).

A cidade é nova mas simpática, a Sardenha era uma ilha quase deserta, a maioria das cidades por aqui é nova.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, May 04, 2000

 

10:00 Tudo pronto para sairmos para Porto Cervo.

O Pilot Book o descreve como um playground onde os supermilionários vão mostrar seus novos brinquedos flutuantes.

Vamos navegar costeando, entre as ilhas, não vou preparar roteiro antecipado.

Serão umas 8 milhas, vou no Fly Bridge, fazendo navegação visual.

10:12 Um grande couraçado americano em nosso bombordo, segue uma rota parecida, sai para o mar aberto também.

10:22 Estamos no canal entre a ilha delle Bisce e o Capo Ferro, saída do intrincado de ilhas, para o mar aberto.

Agora vamos ver como está o mar. A previsão é tempo bom, mar calmo.

10:35 O mar esta calmo, mas repentinamente surgiu uma densa neblina.

Desci rápido do Fly Bridge, para ligar o radar e o gps.

Em poucos minutos a visibilidade baixou para uns 50 metros, não se vê nada em volta. Boa lição para não repetir a confiaça exagerada e navegar sem preparar previamente o roteiro.

Corro para nos localizar com o radar, e ao mesmo tempo calculo as coordenadas da entrada do canal de Porto Cervo.

Antes, há um baixio com um rochedo, a meia milha da costa, tenho que passar por ele sem ver a bóia sinalizadora, a neblina é densa.

Calculo o mais rápido possível as coordenadas, boto no GPS, e pelo radar vou reconhecendo os incidentes geográficos de terra.

A entrada do pequeno saco onde está Porto Cervo estreita, uns 100 metros de largura, e ha rochedos nos dois lados. O Pilot Book recomenda cuidado pois a entrada é dificil de localizar e há muitos rochedos baixos.

10:45 Está na hora de guinar 90 graus e entrar no canal, que deve estar segundo meus cálculos a 0.3 milhas em nosso través de boreste. Parei o San Marino, para reconferir todos os cálculos, não posso errar, não se vê nada.

Giramos, navegamos uns poucos minutos e maravilha, lá estão os dois pequenos faróis marcando a boca do canal.

A neblina rapidamente se dissipa ao nos aproximarmos de terra, surgem as casas, o píer, um imenso veleiro de velas redondas atracado.

11:45 O ferro afinal pegou, desligo os motores.

Tive que tentar duas vezes, quero deixar o ferro bem preso para poder conhecer com calma a cidade, há previsão de tempestade para logo.

15:30 Deixamos Porto Cervo. Foi uma decepção.

Parece uma cidade fantasma. Almoçamos num restaurante comum, comida razoável, na Itália dificilmente se come mal. O brilho e a vida que os turistas trazem ainda não chegaram. O verão é curto na Europa.

15:55 Já passamos pelo baixio Del Cervo, que tanta preocupação nos deu na vinda, agora o tempo é nublado, mas ha visibilidade. Tudo é mais fácil

16:05 Decidimos dormir em Canneggione. Gostamos da cidade e do incrível restaurante.

A noite promete vento sul forte, lá é bem protegido apesar do fundo não ser de boa pega.

17:00 Ancoramos, desta vez na parte norte do píer, pois espera-se ventos do setor Sul.

De cima do Fly deu para ver bem as manchas escuras onde ha grama, e as brancas, de lama dura.

Escolhi uma área branca e joguei o ferro grande, que desta vez pegou bem, de primeira.

Vai dar para dormir sossegado.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 05, 2000

 

O dia amanhece nublado, mas calmo. Não houve ventos à noite, ao contrário do previsto.

Talvez hoje, depois do almoço, mas o tempo continuará ruim por vários dias.

Decidimos atracar na marina, fui de bote negociar um lugar.

11:00 Entramos de popa para o cais, entre dois barcos menores.

Estamos presos por dois cabos razoavelmente finos ao corpo morto central da marina, o vento deverá entrar a 90 graus, de Sudeste, nossa proa está para 200 graus, su-sueste.

O Tony, a Leda e a Milena saíram de carro alugado.

Fico a bordo para colocar minhas coisas em dia e aguardar a entrada do vento.

14:00 O SSE entra com força 5, com rajadas força 7.

Nossa 65 toneladas tencionam o cabo de 14 mm preso ao corpo morto. Se quebrar ainda ha um segundo, mas que não está suficientemente tencionado. Seremos jogados sobre um offshore de 40 pés que está ao nosso lado. Vamos ver se as amarras dele agüentam. De meu lado coloquei boas defensas entre nós.

Usando o croque e o flexboat consegui passar um cabo de 3/4 na corrente que vem do corpo morto. Estamos firmes agora.

Reforcei o cabo de popa, e vamos aguardar o mau tempo.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 06, 2000

 

Aproveitamos o carro alugado pelo Tony e vamos dar uma grande volta pela Sardenha.

Segunda ilha em extensão no mediterrâneo, segundo a lenda o criador a colocou ali com seu pé, daí o nome Sardenha, de Sandalyon, sandalha.

Conforme o caráter do visitante, a Sardenha pode ser chamada de "ilha dos pastores", ilha do Agha Kan", "ilha dos nuraghi", "ilha dos figos da índia" e obviamente, "ilha dos bandidos".

Mas como todas as definições, todas erram, sendo a Sardenha um pequeno continente, cheio de surpresas agradáveis e rica em sua imensa diversidade.

Antes de tudo, estamos sempre em contato com uma natureza bruta e intocada, felizmente intocada.

A ilha é montanhosa, atingindo os 700 metros em alguns pontos. A rocha viva aflora a cada instante, dando uma inconfundível impressão nos campos solitários.

De quando em quando se encontra um "nuraghi", torres de pedra construídas ha 3000 anos pelo habitante pré histórico, muitas em ruínas, mas conservando a majestade e grandiosidade do passado.

Há pequenas igrejas no estilo românico, como na Umbria e na Toscana, muito poucas construções antigas de outros tipos.

Estamos atravessando a ilha de leste para oeste, pelas tortuosas e alegres estradas interna, pequenas mas bem pavimentadas.

As pequenas cidades vão se sucedendo, quase sem mostrar nada de sua historia, tudo é construção recente.

Saímos de Cannigione, fomos a Arzachena, Sant'Antonio di Gallura, Tempio Pausanias, Aggius, Sassari, até Alghero.

Alghero vale a visita. É uma cidade fundada pela familia genovesa Doria, com muita influencia catalã, onde ainda se fala catalão e a arquitetura espanhola é presente em cada canto.

Um belo forte espanhol com suas muralhas fecha a cidade antiga.

Voltamos costeando a face norte, por Castelsardo, Santa Teresa di Gallura (o ponto mais próximo à Córsega), Palau e quase pela praia, Cannigione.

Estamos gostando da Sardenha. Acho que vamos ficar um pouco mais por aqui, antes de retornarmos à Córsega.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 07, 2000

 

Um café da manhã reforçado, vamos para Olbia, deixar o Tony e a Leda no aeroporto, eles embarcam para Geneve.

O aeroporto é limpo e arrumado, ha vôos freqüentes para toda a Europa.

Retornamos por uma linda estrada costeira, é a costa esmeralda com todo o mar brilhando na cor da pedra preciosa.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 08, 2000

 

Estamos em grande dúvida se partimos hoje para a Córsega ( o tempo está magnifico) ou se ficamos por aqui para sentir mais a Sardenha.

Uma visita ao supermercado tirou nossas dúvidas. Vamos ficar.

A imensa variedade de queijos, frios, condimentos italianos falou mais forte.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 09, 2000

 

Aproveito o resto de sol para lavar o exterior. O vento sul traz uma poeira vermelha das areias do Saara, que torna impraticável usar o Flybridge sem uma boa esguichada.

A Milena dá uma boa ordem no interior, o San Marino está em ordem para seguirmos viagem.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 10, 2000

 

O tempo agora piorou muito. O su-sueste aumentou , não dá para sair.

Este vento mexe muito com o mar na costa leste da Sardenha e da Córsega, vamos continuar curtindo Cannigione.

Bonifácio está com ventos força 8.

Decidimos fazer um almoço especial, afinal estamos partindo da Sardenha.

Fomos para o Entro Fuori Bordo, de que não gostamos da primeira vez, mas é o único que tem viveiro e lagostas vivas.

As lagostas da Sardenha são famosas, vamos fazer uma pequena festa para saborea-las.

A coisa começou com uma conferencia entre o cozinheiro e nós, com a participação dos garçons também. O proprietário não estava, então os empregados tomaram conta do ambiente.

Dentro do viveiro haviam duas lagostas, uma cigarra e duas "astice".

Não sei o nome em português, nós chamamos tudo de lagosta, mas o "astice" que é chamado pelos ingleses de Lobster e pelos franceses de Homard, é aquela com duas grandes pinças.

A cigarra não tem pinças, os ingleses as chamam de Flat Lobster, o franceses de cigale du mer.

Quanto à Lagosta, que os americanos chamam de Spiny Lobster, os franceses de Langouste e os italianos de Aragosta, é aquela sem pinças, com duas grandes antenas.

Haviam também alguns King Crabs (centollas), estava difícil escolher.

Mas acabamos nos decidindo pela lagosta, não depois de muita discussão, que se acalorou quando a Milena afirmou que as lagostas do Maine, nos Estados Unidos eram das melhores do mundo. Um italiano (e ainda mais um sardo) jamais aceita que qualquer coisa comestível americana seja boa.

O cozinheiro foi pego em brios, afirmou que aquela lagosta ali, veio de Castelsardo (a 30 kms daqui) e que as lagostas de Castelsardo são as melhores do mundo.

Quando chegou o momento de escolher a preparação pedimos: fervida com manteiga derretida clarificada!

Queriam nos matar. Os três em coro, já indignados, diziam que era um crime jogar manteiga derretida em uma lagosta, que eles nunca tinham visto tal barbaridade, e não fariam isto, absolutamente.

Como estávamos em minoria tivemos que abdicar de nosso desejo e aceitar humildemente a escolha: "Lagosta à Catalana", modo local de fazê-las. (o dialeto local é catalão, a Sardenha foi dominada muito tempo pelo reino de aragão .

Depois de um antepasto misto, vieram os dois garçons (uma moça e um senhor) trazendo uma travessa de quase um metro de comprimento, onde estava depositada, já esquartejada, uma lagosta toda enfeitada com tomates e cebolas o que nos assustou bastante.

Com já estávamos quase no fim de uma garrafa do maravilhoso branco da região ( Capichera, Vermentino di Gallura) que desce muito bem, é claro como o sol mas é 13,5 graus, achamos normal comermos sob o olhar critico dos três personagens, que se postaram em torno de nós par saber nossa opinião.

A Lagosta em si estava excelente, macia e cosida no ponto justo. O molho nos assustou a principio, mas depois de algumas garfadas, nos acostumamos com o sabor e acabamos gostando muito.

De todo modo teríamos mesmo que dizer que estava ótimo, pois os três só arredaram pé de nossa mesa depois que comentamos "muito boa".

A sobremesa também nos foi imposta, tínhamos que provar o famoso tiramisu de morango, que estava realmente bom.

Café, famoso licor de Mirto, (conta salgada) e restou o desejo de comer uma lagosta com manteiga derretida clarificada.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, May 11, 2000

 

O tempo melhorou muito, mas chove. Não é agradável navegar com chuva, não temos motivos para partir hoje, vamos amanhã.

Como resultado decidimos fazer mais um almoço de despedida, desta vez no Hotel Ristorante del Porto, que foi onde sempre comemos melhor e mais barato.

Já na entrada o maitre, um tunisino simpático e gentil, nos cobrou:

Você foram almoçar ontem no outro restaurante? Respondemos, "sim, fomos, mas não estava bom".

Ele retrucou direto: "A Lagosta que eles servem, compram de nós. Nós temos barcos pesqueiros e eles não".

O porto é pequeno, nosso barco é bem visivel, a bandeira brasileira diferente, somos espionados a cada momento!

Lá vamos nós outra vez embarcar numa disputa culinária.

Não há escolha, de entrada tagliatelli escuro, feito com o negro da sépia, com molho de lagosta.

Segundo: frito misto di mare

Sobremesa: carolinas recheadas com creme e pinhões, uma gentil panqueca com creme de amêndoas sobre uma camada de chocolate meio amargo fundente.

Café, vinho doce, biscoitos sardos, grappa, tudo de novo!

O cozinheiro ao final veio à mesa receber os devidos elogios. Ele é do interior da Sardenha, mas cozinha bem o peixe. Ficou muito contente quando dissemos que a lagosta à Catalana que comemos no restaurante ao lado não estava lá estas coisas.

Pagamos, recebemos brindes e presentes, prometemos voltar dentro de um mês quando sairmos da Córsega outra vez.

Vamos logo embora daqui, adoramos o local, mas estamos em situação difícil com os restaurantes locais!

 

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 12, 2000

 

07:00 Acabamos de largar as amarras. Estamos voltando à Porto Vecchio.

7:25 Já saímos da baia de Arzachena, mudamos de rumo para 337, estamos aproados para a ilha de Sto Stefano, a 1.8 milhas daqui.

Vamos negociando os canais com calma e segurança, não ha ventos, o mas é um espelho, a manhã um pouco fechada.

A previsão é de ventos variáveis, o que é bom para nós. Mas também ha previsão de tempestades esparsas com rajadas severas de vento. Vamos ver. Mas se não tivéssemos saído hoje, amanhã e depois será pior pois esta para entrar uma frente fria (daí as rajadas).

7:40 Farol de Capo Orso a bombordo. Mudo o rumo para 281, estamos com proa para Palau

7:50 Novo rumo agora 327. Como sempre um ferry em rota de colisão. Desta vez decidi não arriscar e fiz um giro de 360 graus para ele passar, apesar da prioridade ser minha. Tamanho é documento!

8:05 Novo rumo, 283 graus

Mantemos velocidade de 8.5 nós a 1650 RPM, 60 lph de consumo total

A visibilidade continua baixa, uma meia milha, mas dá para navegar com segurança]

8:17 Seca Corsara a nosso boreste, mudamos para rumo 337. Estamos com a ilha Spargi e a ilhazinha Spargiotto em nossa bochecha de boreste, elas são a porta da boca de Bonifácio, às vezes tão temida, hoje leão manso.

8:32 Novo rumo, 353, estamos agora iniciando a travessia da boca de Bonifácio. Vento força 3, W, tudo em paz.

9:10 Ilha Cavallo a nosso boreste. Estamos na França de novo, na Córsega outra vez. Vou trocar as bandeiras de cortesia.

10:45 O tempo melhora, aparecem buracos azuis no céu, a visibilidade está 4 milhas, o mar calmo, vento NW força 3, estou fora, curtindo o ar fresco e o cheiro de mar

11:15 A radio do farol Punta Chiappa chama: " Barco de bandeira brasileira, por favor identifique-se"

" Chiappa Chiappa,... San Marino, Papa Romeo 7203 , " , respondi.

Pedem nossa origem e destino, dimensões e "bon voyage""

11:32 A Milena chama por rádio a Marina para avisar que estamos entrando na barra. Se chegarmos depois do meio dia, hora do almoço, não vai ter ninguém para ajudar.

Eles respondem e dizem que vão nos aguardar.

11:45 Estamos atracados. Pouco vento norte, que até ajudou, pois afasta o barco do píer.

Um funcionário da marina nos aguardava para pegar os cabos em terra, tudo fácil e simples.

Ao trabalhar nos cabos de popa deixei cair o radio FRS na água. É um pequeno portátil que usa uma freqüência livre ; eu e a Milena os usamos para nos comunicar quando atracamos.

Vou mergulhar quem sabe amanhã para tentar recupera-lo. Não faz muita diferença se ele ficar um dia ou um minuto na água.

Basta ao retira-lo da água salgada imergi-lo imediatamente na água doce, e só retira-lo de lá no momento de tentar consertar.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 13, 2000

 

O dia está magnifico, faz calor e o sol está totalmente azul. As possíveis tempestades foram embora, passaram longe de nós.

Saímos de Defender, rumo a L'Ospedale, de lá até Zonza, de Zonza a Aullène.

Todo um trecho que já conhecemos bem, é sempre incrível porém.

Ha uma estrada que parte de Sartene e atravessa toda a Córsega, de Sul a Norte, até Corte, e depois Calvi. É a D69 que depois aflui na N 193.

Sabemos que é uma estrada difícil, sobre as montanhas da alta serra central, mas todos nos disseram ser a mais bela da ilha.

De Aullène a Zicavo, desce ladeando uma imensa montanha granítica. Almoçamos em Zicavo, um magnifico "beef tartar", carne crua moída com diversos molhos misturados por nós mesmos, e uma gema crua de ovo por cima. Para os que apreciam, como nós, estava uma delícia.

Logo na saída da cidade um aviso informava: "Estrada interrompida a 30 quilômetros".

Vimos pelo mapa que não haviam desvios, era aquela estrada ou voltar.

Também não haviam outras cidades no caminho.

Vamos tentar. Um casal numa Harley Davidson também olha no mapa e quando vê que decidimos ir, nos segue.

A estrada está abandonada, as pedras que caem pelas ribanceiras ficam na pista, a qual está também cheia de pinhos e estrume de vaca. Sinal que não é usada ha muito tempo.

Temos muito a subir. Nestes próximos 30 quilômetros, vamos subindo o monte Renoso, 2.352 metros, bem no centro da ilha.

As paisagens são deslumbrantes, a Córsega é de longe a mais bela ilha do mediterrâneo.

A moto, que nos seguia até agora, nos ultrapassou, e desapareceu de vista.

Estamos no centro da floresta de Vizzavona, agora quase só de imensos pinheiros, é já muito alto.

Encontramos uma cabana florestal com três montanheses. Perguntamos sobre o problema na estrada, eles nos respondem: 'É logo ali em frente, uma ponte que está para cair, mas ainda não caiu, dá para passar".

500 metros adiante, lá está o casal de moto, barreiras de cimento atravessadas na estrada, sinais de perigo e a ponte, em pedra, atravessando um desfiladeiro de uns 50 metros de altura, um rio de águas transparentes e gélidas correndo abaixo.

Da ponte só resta uma metade, à nossa esquerda, a pista da direita caiu e se vê os pedaços lá em baixo.

O tipo da moto se dirige à Milena (que estava analisando a ponte) em inglês. (nosso carro tem a placa de Gibraltar). Mas ele é parisiense. Continuamos a conversa em inglês, que ele fala muito bem. Olhamos, atravessamos a ponte a pé, eu cheguei à conclusão que podia passar. O parisiense retrucou: "seu carro é muito pesado, vai destruir o que resta da ponte".

Respondi "então passe você primeiro, que é mais leve e mais estreito.

Lá foi ele, passou sem problemas.

Segui o mais rápido possível, a chegando do outro lado, vimos que não deslocamos nenhuma pedra. A ponte está ótima!

18:00 Estamos novamente em Corte, que viagem linda! Vamos voltar para o San Marino, chegaremos lá à noite. Mas valeu o passeio.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 14, 2000

 

Continuam os dias bonitos.

Mergulhei para pegar o radinho. Nada. O fôlego não anda muito bom, são apenas 4 metros de profundidade mas a água é suja, é preciso nadar com a cara a um palmo do fundo.

Desci e subi varias vezes e nada. O frio da água (16 graus) e o fôlego pequeno me venceram.

Abri o E-Mail como fazemos quase todos os dias e veio de uma amiga inglesa da Milena, um alerta sobre o vírus Pretty Park.

Comecei a pensar no assunto, os vírus de computador estão virando moda, dão manchetes e assustam mais do que devem. Claro que provocam problemas no software e alguns podem até danificar o hardware.

Comecei então a comparar o computador que carregamos sobre os ombros, do qual existem 6 bilhões de unidades no mundo, uns mais atualizados, outros menos.

Já que nos damos conta que recebemos vírus portadores de doenças que atingem nosso hardware, porque não imaginar que nosso cérebro também pode ser facilmente contaminado por vírus? Quem sabe transmitidos por telepatia, como nosso E- Mail, que vem por ondas de alta freqüência?

Como explicar o comportamento de torcedores belgas, ingleses e alemães, povos educados e formais, que se transformam nas partidas de futebol ou outros eventos coletivos, e são todos guiados para um mesmo fim? Não podemos chamar isto de vírus coletivo?

Quem sabe não existirão vírus que transportam a estupidez humana (um dos mais freqüentes), de mente para mente, por toda a terra, causando os absurdos que se vê todo o dia?

Qual será o anti vírus para isto?

Acho que existe há milênios, assim como estes mesmos vírus.

O anti vírus é a alegria, o prazer, o perdão, a compreensão e a vontade de viver sem fazer mal ao próximo. Eles também são transmissíveis e ajudam os outros a destruir seus vírus maléficos.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 15, 2000

 

Vou mergulhar de novo, agora com o tanque às costas, roupa de neoprene e tudo que tenho direito.

Logo de saída o colete inflável ficou sem controle. Ha muito que não uso, a válvula de controle de entrada de ar emperrou na posição aberta. A Milena me ajudou, e fui para a água sem colete.

Achei o danado do rádio depois de uns bon 15 minutos.

Ele estava quase na proa do San Marino (tinha caído à popa) enterrado já quase todo na lama. Não iria nunca achar na apnéia.

Deixei de molho na água doce, passei ar comprimido, secador de cabelos, 1 hora no forno em ponto de suspiro e - Nada! - o desgraçado não funciona mais!

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 17, 2000

 

Lá vamos novamente de carro atravessar a ilha, agora no sentido Leste-Oeste.

Um bom almoço em Aullène, no Ferme Auberge, patê maison de sanglier como entrada, a Milena comeu dobradinhas e eu galinha da angola com molho de pêssego. Tudo muito bom, servido pela dona e cozinheira, uma loura gorda e espalhafatosa.

Seguimos até Filitosa, e no caminho encontramos alguns porcos selvagens na beira da floresta.

Em Filitosa estão os menhires mais importantes da ilha. Menhir (de men hir, homem de pé) são rochas esculpidas em forma de cilindros que podem pesar de 500 a 35 mil quilos.

Na Bretanha, onde estão as maiores do mundo, algumas chegam a 300 mil quilos.

Algumas possuem representação de olhos, nariz, braços e até uma coluna vertebral com costelas. É o nascimento da escultura nesta terra longínqua.

A Milena desceu uma ladeira íngreme para chegar mais perto de uma linha de 5 menires abaixo. Com medo da volta, fiquei em cima, a alguns metros de uma antiga cabana de rocha imaginando nosso semelhante, 8000 anos atrás, morando aqui em Filitosa.

Ele é sujo e de grandes cabelos, veste uma roupa de pele que ele mesmo raspou para tirar todo resíduo de gordura e deixou secar. Está ao lado do fogo, bem na boca de sua gruta, onde pedaços de porco do mato estão sendo assados.

Num vaso, que foi feito ali mesmo misturando a argila local com areia e pequenos detritos e depois de seco, cozido no mesmo fogo que ali está, sua mulher cuida dos grãos de trigo cuidadosamente armazenados. A caça é fácil, trutas nadam no rio ao lado e há muitas frutas à disposição.

A criançada livre brinca e o menor chora pendurado aos seios da mãe, que cuidando em manter o fogo sempre aceso, mantém a família unida em volta do calor.

Pedaços de obsidiana, usados para talhar a pedra, foram trazidos por seus ancestrais da Sardenha, pois aqui na Córsega não existem. Graças a isto ele pode esculpir um menhir, talvez homenagem a um bravo ancestral morto.

Milênios depois, seus descendente iriam usar este mesmo fogo cultivado dentro de um círculo de pedras para fundir o bronze, e fabricar armas mais leves e mortais.

A vida é livre e calma, não há guerras ou disputas. É um regime de excesso, havia demais para poucos, para que brigar?

Lá vem a Milena. Ficou me procurando por todo o local, estava preocupada. Eu estive sempre aqui, batendo um papo com este homem, à porta de sua casa.

Voltamos lentamente curtindo toda a beleza do trajeto.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, May 18, 2000

 

Ainda continua o céu azul, mas o vento já está se mostrando, força 4.

É a frente fria que se aproxima, vai entrar amanhã cedo.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 19, 2000

 

A frente entrou, mas fraca, com pouca consistência. Está nublado, mas não chega a chover.

Ficamos por aqui, curtindo nossos livros. A noite, um bom jantar no U-Molu, depois uma noitada longa curtindo as musicas corsas na Taverne du Roi.

Estava mais sem graça hoje, haviam muitos turistas, poucos locais. Valeu a curiosidade de ver que o barman, já nosso amigo, continua nos cobrando quase nada, nenhuma consumação e menos drinques do que tomamos, desde aquela vez que um dos locais falou que deveríamos pagar pouco. Começo a desconfiar que ele era um dos donos.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 20, 2000

 

O cansaço da noite anterior (fomos dormir às 5) não permite fazer nada hoje. Para levantar a moral, vamos comer ostras em Aleria, aquelas famosas, de Napoleão.

1 hora de carro para o norte, depois voltar. Mas valeu a pena, apesar do dia estar fechado e com muito vento frio.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 21, 2000

 

Estão entrando muitos barcos, o mar está feio lá fora, o SW bate forte ha alguns dias.

Antes estávamos sós no píer, junto com a lancha da alfândega, agora está tudo cheio.

Começa um movimento de verão, os café estão novamente cheios de gente, alegra nossas idas à cidade.

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 22, 2000

 

Recebemos um telefonema da Renata, nossa nora, o futuro neto está para nascer.

Decidi ir para o Brasil junto com a Milena (ela já tinha resolvido estar lá na hora do parto, desde muito).

É uma etapa importantíssima na vida de nosso filho Flávio, e também na nossa.

Nada é mais natural que a reprodução, nada mais humano que o sentimento de proteção à prole.

Assim, lá vamos nós deixar o San Marino de novo, agora só por poucos dias.

Como comemoração fomos conhecer um novo restaurante, o Le Grilladin, que pareceu muito bom na hora, comemos com muito gosto os pratos bem trabalhados que nos serviram, mas passamos mal logo que voltamos ao barco. Este está fora da lista para sempre.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 23, 2000

 

Estamos com um pedido de peças de reposição em transito ha mais de um mês.

As peças foram embarcadas no estados unidos, chegaram à Paris de onde foram transferidas para Porto Vecchio, aos cuidados de nosso despachante, que deveria libera-las aqui sem pagamento de impostos.

No trajeto a Fedex perdeu os três pacotes e demorou uns 15 dias para aceitar este fato.

Perdemos o dia no telefone e internet, afinal foi tudo cancelado.

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 24, 2000

 

9:00 Outro belo dia, mas estamos nos preparando para viajar.

12:30 Não agüentamos, saímos para comer uma bela sopa de peixe no Le Marine, que depois de tantos, chegamos à conclusão que é mesmo o melhor restaurante de Porto Vecchio, e ainda por cima não é caro.

Nossos vizinho da U Dragulinu, uma lancha de 45 pés Gui Coach, saem hoje para circum-navegar a Córsega. Ele é francês, ela espanhola, nascida nas Baleares, para onde vamos.

Ficamos de nos encontrar novamente em nossa volta.

Nosso vizinho bem ao lado, um francês que chegou anteontem a noite e entrou batendo às 3 da manhã, está dando uma rápida reformada em seu veleiro que é uma bagunça. Mas parece um bom navegador, pelo modo como o barco está aparelhado.

 

 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 14, 2000

 

11:10 Acordamos muito tarde. É a diferença de fuso horário.

Entramos às 2 da manhã no San Marino, depois de 24 horas de viagem, do Brasil para cá.

Nestes 16 dias que estivemos no Brasil, curtimos nossos filhos e nosso neto que nasceu dia 31/05, o Fernando.

Foi uma viagem curta, mas valeu.

O sol está brilhando como já tínhamos esquecido. No Brasil era inverno, e a cidade de S. Paulo nos afastou da natureza.

Agora tudo está de volta, o mar, os barcos, o verde e o cheiro de sal.

O vento movimentando levemente a superfície do mar, em pequenas ondas que mostram como nenhum instrumento de onde ele vem, e com que força, me dá vontade de sair por aí num pequeno veleiro.

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 15, 2000

 

Há tempos que queremos fazer capas para os dingues, para protege-los e dar melhor aparência.

Mas na Europa tudo é difícil, os artesãos estão acabando, fazem um grande favor se te atendem.

A Patrícia, amiga do Jacques nos está fazendo este favor.

Trouxe os tecidos já cortados e começou a molda-los em cima dos botes.

Não temos orçamento, nem sabemos quanto vais custar ou quando vai ficar pronto.

Mas ela sabe que pretendemos iniciar a navegação na próxima semana.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 16, 2000

 

Ontem vieram a bordo o Jacques e a Tita do Dragulinu, um Gui Coach de 42pés.

Começamos com caipirinhas (ainda tenho alguns litros de cachaça) castanha de caju e pipocas, tudo muito brasileiro. A coisa foi longe, trocamos para Mascarpone com Gorgonzola, presunto cru da Córsega e patê de fígado de pato, virou jantar e festa com muito vinho.

São as mágicas que a caipirinha faz.

O eles moram nos Alpes franceses e ela é nascida em Maiorca, para onde vamos.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 17, 2000

 

O Dragulinu saiu para um passeio de 2 dias. Fomos jantar na cidade e emendamos com uma bela noite na Taverne du Roi.

A Patrícia continua vindo regularmente fazer as revisões do corte das lonas.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 18, 2000

 

O vento está entrando forte, força 6 e 7, os barcos batem uns nos outros, fazendo um bom estardalhaço na marina.

O Dragulinu voltou mais cedo, tiveram uma noite difícil o ferro correu, tiveram que mudar de ancoradouro às 3 da manhã.

 

 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 19, 2000

 

Jantar no Dragulinu.

O Jacques é ótimo cozinheiro, fez lagostins com penne, com molho de creme, uma delicia.

A Patrícia também estava, grande conversas sobre filosofia, o que significa que meu francês começa a sair.

A Milena, como sempre, fala correntemente.

 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 20, 2000

 

Almoço em Bonifácio, tempo bom, ventos força 3.

Chegou a nova ancora que encomendei na Inglaterra, uma CQR de 105 lbs.

Pretendemos passar todo este verão ancorados, Maiorca é um local de muito vento, nossas CQR de 75 lbs tem se mostrado pequenas e eu acabo sempre usando nossa Fortrees para tempestades.

Mas nunca fico tranqüilo, pois se o vento vira a Fortress pode não agarrar de novo.

Instalei com auxilio do Jacques. A Patrícia veio fazer mais uma prova

 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 22, 2000

 

Jantar na Baia de Rondinara Jacques, Tita, Jaime e Pepa, amigos deles de Maiorca.

Eles estão navegando e dormindo nesta baia. Nos comunicamos pelo rádio e fomos de carro jantar lá com eles.

Estava muito escuro, a volta para o barco não era fácil mas mais difícil foi para nós encontrarmos o carro.

 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 23, 2000

 

Estou refazendo uma peça do sistema de refrigeração do motor de boreste.

Houve uma pequena fratura que levei para soldar em uma oficina. O serviço teve que ser refeito. Acabei decidindo comprar uma pequena estação de solda oxigênio portátil para ter a bordo, é baratíssimo e fácil de usar.

Jantamos na cidade, comemos espaguete ao pistou, no chez lambert, muito bom.

 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 24, 2000

 

Ha vários dias que o vento continua forte.

Hoje o Silver Coast, de Nice, um Gui Coach de 65 pés que estava atracado a nosso lado, aprontou muito.

Ao sair deixou o vento joga-lo em cima de um pequeno veleiro que teve as amarras partidas.

Em seguida enroscou seu hélice na corrente de uma bóia da marina e ficou preso.

Corri e joguei um cabo para o veleiro, e amarrei em nossa proa. Ele assim parou de bater contra o cais.

O Slver Coast só foi liberado por um mergulhador, e o capitão e a sua companheira (que ontem levei até uma loja para comprarem lençóis pois hoje chegariam clientes de charter) estavam desesperados.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 25, 2000

12:00 Saímos com o Jacques e a Tita, no Nissan 4x4 deles, para ir a um restaurante que eles conhecem nas montanhas.

Fica nas proximidades de Levie, mas é impossível achar se não se conhece bem o local. Não há placas, o restaurante não tem nome.

Os donos nos recebem com muita gentileza. Não há cardápio. A comida vem uma após a outra, tudo acompanhado de bom vinho branco.

Torta de batatas, presunto cru local, beringela recheada com carne, suflê de queijo (brocciu), feijão branco em forma de sopa, frutas e queijos.

Aí chegou o proprietário com uma grande tigela de cerâmica com tampa.

Ao abri-la, um cheiro forte de queijo muito curtido. É o famoso queijo corso.

É macio e cremoso, com um gosto fortíssimo mas excepcional.

Se você prestar atenção, há pequenos vermes que vivem nesta massa creme com pontos verdes. Mas bate qualquer roquefort, gorgonzola ou blue cheese. Comemos com pão, e "eau de vie" jogado por cima.

Foi o ponto alto do almoço, e só é servido para amigos, e só nesta época do ano.

Depois beignets feitos com brocciu.

Voltamos por um novo caminho muito rústico, o vento continua forte, vamos ver a noite Espanha e França, futebol que a Tita e o Jacques prometem se degladiar, pois ela é espanhola e ele francês.