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SUBINDO A COSTA LESTE

Mudança de planos - Preparando para a travessia -Maceio - Aracaju - Zé Peixe - Natal - Formalidades de Saída - Despedidas

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 30, 1995

07:00 Estou novamente a bordo de um avião Varig, voltando a Ilhéus.

A meu lado, um tipo grande, simpático e cabeludo, dono de um negócio de tatuagens em Salvador. Batemos longo e agradável papo, e ele queria largar tudo e seguir viagem comigo.

É que eu estava lhe contando como na vida as coisas sucedem independentemente de nossa vontade.

Por isto não devemos jamais nadar contra a maré, adaptando-se às correntes e aproveitando cada minuto desta viagem louca, que é a vida.

Contei-lhe que construímos o San Marino por 4 longos e agradáveis anos, e iniciamos nossa viagem, calmamente, curtindo cada porto, com direção prevista para o Caribe, depois Europa.

Tivemos que ir à Europa no mês passado e Milena, minha mulher, descobriu por acaso que estava para receber uma herança, e tinha que lutar por ela, pois lhe estava sendo roubada. A luta parece que será demorada e árdua.

Mudamos de golpe nossa planejada viajem, e decidimos ir direto de Camamú para a Europa.

Milena ficou na Itália, cuidando do que é seu, e eu retornei ao Brasil para levar o San Marino, nossa casa, para lá.

Será uma longa viagem, umas 4000 milhas marítimas, o San Marino ainda não está convenientemente testado, pois o período maior de navegação foi de 2 dias e 2 noites seguidas, e este rumo norte, no meio do Atlântico oferece correntes contrárias todo tempo, aumentando estas 4000 milhas em uns 10%.

Milena me encontrará nas Ilhas Canárias e viajarei com 3 amigos.

Tenho que preparar o San Marino com pressa, porém sem erros.

18:00 Chegada em Camamú de S. Paulo via Ilhéus.

Ligo os equipamentos que estão parados a 2 meses. Tudo funciona bem.

A noite telefonei para Milena, Flavio e Marcello, que chega amanhã.

Marcello Quintela é o gerente da Maria do Frade. Telefonei a ele uma semana atrás e convidei-o para a viagem. Aceitou na hora e perguntou "posso levar um amigo, bom companheiro?" "Ótimo, respondi, te espero em três dias em Camamú".

Decidi também fazer este diário de bordo no telex e manda-lo para a Milena diariamente, assim ela poderia viver conosco esta viagem.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 31, 1995

08:00 Dona Arlinda já está a bordo, fazendo a faxina.

O Wellington está junto apreendendo a limpar para faze-lo na viagem.

Ele vai também conosco, já tirou o passaporte. (que susto, ia para o Caribe, está indo para a Europa!)

O dia está nublado, fiz meu café da manhã sozinho (antes a Milena fazia tudo) ovo quente, pão de Taipus e suco de frutas.

12:00 Muito cansado acabei de desencaixotar tudo que trouxe de São Paulo, 80 quilos de material do barco, é a última oportunidade de carregar coisas para a Europa.

18:00 telefonei de Taipus para Milena, tudo anda bem por lá.

O mar anda picado, com muito vento

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 01, 1995

7:00 Temperatura 25° C, 1012 mb, 84% humidade, mar picado, tempo bom.

Levantei no meio da noite para mudar posição do Avon, creio que passarei a deixa-lo preso ao guarda mancebo de proa, não faz barulho no meu camarote.

8:00 A bomba de pressão de agua doce quebrou, vou repara-la.

O Wellington chegou com bolo feito pela irmã, muito bom.

Comi também ovo quente chá e pão aquecido no micro ondas.

Começo a me aventurar na cozinha, área de domínio da Milena, que agora tenho que usar. Sou péssimo cozinheiro, vamos ver no que dá.

 

A cozinha do San Marino é muito completa. Numa área de 3.5x2,4 metros, temos dois balcões transversais ao barco. No de popa, armários, um tampo de granito preto (para cortar, fazer massa, etc.) e uma grande janela que se abre comunicando com a sala.

No de proa, maquina de lavar pratos, fogão vitroceramica de 4 bocas, forno e forno de microondas, tudo de dimensões normais de um cozinha caseira. Compramos todos equipamentos de uma empresa francesa de Strasburg, De Dietrich, e é provavelmente o melhor que se pode encontrar.

O lixo biológico não poluente é triturado no ralo da pia e jogado automaticamente ao mar.

O lixo poluente e colocado num compactador de lixo que se encontra neste mesmo balcão, e compactado ocupa pouco espaço. Uma semana com 8 a bordo forma um pacote de 25x40x40 cm.

Toda a nossa cozinha é elétrica, não levamos gas a bordo.

Para usa-la em toda sua capacidade é preciso ligar o gerador ou estar conectado à terra, mas para uso rápido, duas bocas de fogão mais o microondas por exemplo, as baterias (2400 ampères) agüentam muito bem e são recarregadas pelos motores se se quiser.

11:00 O Wellington saiu em barco de frete para buscar o Marcelo e o Marco Antônio em Camamú. Não fui com o inflável pois o mar está picado e seria cansativo. São 4 dias de vento sul (20 nós), batendo por aqui.

17:00 Chega o Marcello e o amigo Marco Antônio.

Parece boa gente. Vem com um chapéu de palha velho que acabou de comprar na feira em Camamú, cheio de buracos. O Dono não queria vender, mas trocou por um novo que o Marco comprou na hora.

Jantamos muito bem na casa do Seu Chico. Depois de algumas cervejas

fomos dormir.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 02, 1995

07:00 O dia amanhece bonito. Os outros dormem.

Chamei-os pelo telefone interno. Reclamaram mas levantaram. Há trabalho.

12:00 Acabamos de limpar o casco, mergulhando, não vou pagar novamente os 200 reais. O casco estava imundo, com uma fauna local muito estranha.

Aproveitei para consertar o LOG, que não funcionava desde Vitória, vamos precisar muito dele.

A tarde desenroscamos a corrente a ancora (Novamente o Wellington lançou

mais uma ancora na minha ausência , o barco rodando enroscou as duas, mas não reclamo, o cuidado valeu pois o San Marino está perfeito).

Empurramos a popa com o inflavel e depois de 8 voltas, tudo normal.

18:00 Fomos almoçar no Jorge, o das lagostas. Por coincidência era seu aniversario, ele já estava tocado quando chegamos. Soltava fogos.

Foi logo dizendo "Está fechado mas para vocês eu abro". Chamou a mulher e lá se foram as pobres lagostas para a água fervendo.

Um "tio" que também tinha bebido todas tomou-se de amores por nós e nos presenteou com um vidro de pimenta que iríamos "precisar" na viagem pelo estrangeiro.

Foi grande a confraternização, despedidas, e voltamos no flexboat no escuro da noite, tristes em deixar mais um amigo.

Nesta noite decidimos ser Tenerife, nosso porto de destino.

Não conheço as Canárias, os Pilot Books recomendam igualmente as duas maiores ilhas do arquipélago, Gran Canária ou Tenerife. Lanzarote fica mais longe.

Me agrada o nome Tenerife, recorda-me viagens antigas à vela, decido ir para lá.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 03, 1995

07:00 Acordo como sempre com a luz do sol pois durmo com as vigias abertas. Como todos os dias ligo o gerador, para fazer agua, secar e lavar roupa, mas também para acordar os outros.

Temos para café da manhã abacate batido, feito pelo Marcelo que é agora oficialmente o cozinheiro de bordo.

09:00 Liguei os motores para teste. Tudo O.k.

Decidimos fazer nossa primeira escala em Maceió. Íamos abastecer em Salvador, mas a greve da Petrobrás nos fez mudar de rota, não há diesel.

14:00 Os três foram de inflavel para Camamú comprar mantimentos.

18:30 Chegaram os três de Camamú com as compras.

Parece que beberam parte do carregamento de cerveja.

Fomos jantar no Jorge. Não valeram as despedidas da véspera. Vamos começar tudo de novo. São 15 minutos no flexboat. Grande moqueca de lagosta, a melhor que já comi.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 04, 1995

08:00 Iniciamos a preparação de viagem para Maceió. Tudo calçado, preso e testado.

14:25 Levantamos ferro, inicio de grande viagem rumo às Canárias.

15:45 Saindo da barra de Camamu, mar por Boreste, rolando muito.

Deixamos a ilha de Quiepe por bombordo. Lá há um grande farol.

Tão logo saímos da linha de profundidade de 20 metros, pegamos nosso rumo, RM 60° .

17:20 A profundidade aumenta bruscamente, saímos da plataforma continental. O mar acalma, agora são grandes e confortáveis vagas, em nossa bochecha de boreste.

17:30 Começa a anoitecer. Marcelo dorme desde as 16:00, prepara-se para o turno da noite.

Farol-Morro-de-Sao-Paulo.jpg (67155 bytes)18:40 Farol do Morro de São Paulo em nosso través de bombordo, que pena, saltamos esta escala que tanto gostaríamos de fazer.

19:00 O telefone celular começa a funcionar. Falo com Milena na Itália. Em Taipús ele ficou fora do ar. É um ótimo meio de comunicação quando a navegação é costeira e desafoga o VHF.

 

Nossas comunicações estão basicamente concentradas no Telex Inmarsat C. É mais seguro e sempre funciona, em qualquer parte de mundo.

O Telefone celular, novidade, tem sido de muito auxilio.

O VHF é um rádio de curto alcance (10 milhas), pois suas ondas muito curtas só se transmitem em linha reta, portanto seu limite é o horizonte. Antenas muito altas, como nos clubes, podem aumentar este raio até 20 milhas, mas a intenção é que o raio de ação seja mesmo limitado (a potência maxima permitida é 25 watts) para não congestionar os canais. A qualidade da transmissão é ótima, pois se trata de transmissão por modulação de freqüência. Mantemos escuta no canal 16 e às vezes num outro simultaneamente, quando a área o exige. Nosso backup é o VHF do Flex Boat e três VHFs portáteis, que levamos à terra para nos comunicar, ou mesmo para comunicação a bordo, por exemplo ao atracar.

O SSB é um rádio para longa distancia, alcance mundial, 150 watts. Pode ser sintonizado por freqüências ou canais e temos conectado a ele um sistema de transmissão de pulsos que nos permite digitar num teclado um numero de telefone de qualquer lugar do planeta. Se conseguirmos boa comunicação com uma das estações da AT&T nos EUA, (o que não é sempre fácil) podemos telefonar. O SSB fica sintonizado em 2182 kz, canal de socorro e chamada geral.

Como o San Marino é em fibra de vidro e não possui bom "terra", laminamos no casco e no Fly bridge entre as malhas de fibra, uma malha de cobre fina de grande extensão, que assim "aterra" nosso rádio.

21:00 Jantar de frango com arroz e batata, feito a bordo. O Cozinheiro é mesmo bom!

Farol-de-Itapuã.jpg (28257 bytes)Farol de Irapuã, de tão doces memórias a bombordo.

Estamos em frente a Salvador, dá para ver o clarão da cidade, mar de ondas de 1.5 metros, NE tempo bom.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 05, 1995

0:42 O Marcello anota: Arembepe a 260° relativos. Volta a baixar a profundidade, 45 metros. Estamos a 5 milhas da costa.

01:00 Acordei para cumprir meu turno, junto com o Wellington.

Decidimos fazer turnos de 4 horas 2 a dois. Os meus o farei com o Wellington e o Marcello (que também é capitão) os fará com o Marco. É mais fácil manter-se acordado a dois.

Com Stravinsky no CD, fazemos bela navegada. O mar está pesado devido a vento sul de 25 nós ha 4 dias.

4:05 Farol de Subaúma acaba de boiar. Foi difícil localiza-lo.

 

Diz-se de um farol "Boiar" ou "alagar" quando ele aparece ou desaparece no horizonte. Só estando a bordo, tentando localizar um farol é que se compreende quão corretos são estes termos, pois é exatamente esta a impressão que se tem ao ver um farol no oceano.

 

06:00 Fui tomar um banho e dormir.

09:00 Acordei para o café da manhã.

Passamos à pouco a foz do rio Itariri, a profundidade é de 450 metros, estamos fora da plataforma continental, é mais seguro e confortável.

10:49 Foz do Rio Piauí a bombordo.

Estamos mudando nosso rumo para Aracaju.

Decidi não ir a Maceió, e sim Aracaju, pois o combustível era justo e com o mar mais pesado o consumo aumentou.

15:17 Chegamos a barra de Aracaju, é muito raso por aqui, temos 10 metros.

O mar está marrom, o vento forte. Muitas plataformas petrolíferas.

Falamos por VHF com uma lancha da Petrobrás que nos disse para dormir ao largo, não dá para entrar com este mar. Chamamos por VHF para pedir prático, a barra é difícil. O prático (o famoso Zé Peixe) que pega os navios a nado, nos mandou dizer que era impossível entrar com mar tão grosso. Sugeriu que fossemos dormir no terminal da Salgema, onde estamos agora.

Amanhã cedo ele virá nos buscar.

18:00 Marcelo prepara arroz a carreteiro. O comando "solid state" do Piloto Automático quebrou. Substituí por uma caixa de relês, feita a bordo.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 06, 1995

07:00 Levanto como sempre com o Sol. Troquei uma bomba de água doce que estava quebrada e liguei o gerador para carregar as baterias, fazer agua doce e esquentar a agua do banho. De repente o Marco Grita "tem alguém a bordo". Não sabia se pegava uma arma para ver o que era, mas éramos quatro homens fortes e fui assim mesmo. Era o Zé Peixe, que veio nadando e embarcou.

Preparamos o barco para a saída. Ele não está seguro se podemos entrar na barra hoje pois o mar está muito pesado. Sugeriu irmos até lá olhar e então decidir se entramos ou não. No trajeto (uma hora) foi analisando o comportamento do barco e disse que o barco era forte e seguro, melhor que os rebocadores e lanchas da Petrobrás, que estavam esperando e não podiam entrar. Foi para mim um grande elogio pois veio de quem entende (e diariamente pilota barcos diversos) e iria colocar a vida em risco junto conosco.

10:00 Chegamos à barra de Aracaju. O mar está forte e arrebenta na entrada. Alguns pesqueiros que estavam fora da barra ontem, continuam esperando e não entraram hoje.

Zé Peixe me perguntou: "Tem Seguro?" . Com minha resposta afirmativa disse "todos para o FlyBridge com salva-vidas. Eu não preciso pois sou Zé Peixe".

Sob as ordens de Zé Peixe, girei 90 graus e botei a proa do San Marino direto para a entrada do rio. O rumo era bem pela arrebentação, não havia escolha. Entramos e logo de saída uma grande onda arrebentou na popa e giramos 90 graus. O San Marino inclinou-se para boreste mas rapidamente reassumiu sua posição. Foi possivel corrigir e aproar novamente para o rio, acelerando o motor de bombordo e revertendo o de Boreste. Bom ter dois motores numa hora destas.

Entramos quase surfando pois a linha de rebentação era bem longa. Passada a barra, a calma do rio.

Nos dirigimos diretamente para o posto de gasolina que só tinha 2000 litros. Precisávamos de mais 6000.

14:00 Mais diesel só amanha cedo, voltaremos.

Nos dirigimos para o Iate clube onde vamos pernoitar.

A Marinha nos chama pelo rádio, pedindo nome do capitão, plano de viagem, etc.

Vamos até a capitania e somos muito bem atendidos, mas só eu pude entrar. Era o único em calças compridas.

O Capitão dos Portos, Comandante Vinícius foi muito gentil e manifestou seu desejo de fazer o mesmo que estávamos fazendo. Conversamos sobre o trajeto e suas dificuldades.

Jantamos a pior pizza de minha vida. Também é burrice pedir pizza em Aracaju!

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 07, 1995

07:00 Consertei o piloto automático em definitivo.

Os outros limparam os porões, que não estavam muito sujos.

12:00 O posto nos avisa que o diesel chegou. Pegamos mais 4000 litros.

Ganhamos um presente do dono do posto que ficou nosso amigo.

O Pessoal do Iate clube nos convida para Jantar. Sérgio Burle, o diretor, proprietário de barco também, logo ficou nosso amigo. Gente fina. Comemos uma deliciosa moqueca sergipana com muito whisky e cerveja.

Acho que será a última moqueca dos próximos anos.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 08, 1995

07:00 iniciamos o procedimento de saída. Chega o Zé Peixe com um fotografo e um repórter da revista Isto É.

Estão preparando uma reportagem sobre ele.

Querem sair a barra conosco, fotografando o trabalho do Zé Peixe.

Dei escolopamina para os dois, mas o repórter não quis usar.

Resultado: enjoou o tempo todo.

 

A Escopolamina tem sido a mais eficiente prevenção contra enjôo. São pequenos discos adesivos que se devem colar atras de uma orelha. Duram 3 dias. Podem provocar um ligeiro ressecamento da boca. Mesmo os marinheiros mais acostumados, podem sofrer de enjôo nos primeiros dias a bordo. Os medicamentos orais normalmente causam sonolência. Assim, a escoploamina me parece o mais indicado. Mas deve-se ler atentamente a bula pois há contra indicações.

 

A saída foi fácil pois o mar estava mais calmo e o pegamos de proa.

Deixamos o pessoal no terminal da Salgema, inclusive o Sérgio Burle que saiu conosco.

Fomos todos para a água. Todo mundo está meio enjoado, é a ressaca de ontem. É sempre a mesma coisa, programamos não fazer despedidas, senão o dia seguinte fica difícil, mas acaba sempre acontecendo o contrário.

14:45 Saímos para Natal. Recife previsto para amanhã as 19:00 mas não vamos parar.

19:10 Temos no radar a imagem da foz do rio São Francisco. Vamos deixando para trás locais que eu gostaria de ter conhecido.

21:00 Vou dormir, Marcelo e Marco ficam de guarda.

24:00 A viagem continua calma e sem incidentes.

Dou meu turno de 4 horas com o Wellington.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 09, 1995

2:50 Lá está o farol de Maceió. Foi difícil localizar. A cidade é grande e há muitas luzes. Antes localizei o Rádio Farol do aeroporto com o rádiogoniômetro.

 

Rádiogoniometro é um instrumento hoje de pouco uso (pois o GPS tende a faze-lo desaparecer) com o qual pode-se determinar a direção de onde vem um sinal de rádio. Duas ou três tomadas em intervalos de tempo, permitem determinar a posição de um barco. Entretanto as ondas eletromagnéticas sofrem às vezes desviação e não se pode confiar 100% nestas posições.

 

04:00 Terminou meu quarto, dormi um pouco e logo que clareou tomei café. Durante o dia lemos e conversamos. Nada para fazer.

09:15 30 metros no ecobatimetro. À nosso bombordo Porto de Pedras, ainda em Alagoas.

11:28 Rio Persinunga, divisa dos estados de Alagoas e Pernambuco.

Vamos deixando para traz o Rio Una, Rio Formoso, Rio Sirinhaem, Rio Ipojuca e Rio Jaboatão.

Toda esta costa, cheia de lindas praias e recifes impede qualquer tentativa de se aproximar ou em caso de problemas encontrar algum porto. Pode-se é claro fundear, pois o fundo é geralmente de areia, portanto de boa pega, e as profundidades são pequenas.

17:23 Recife a bombordo.

18:00 Jantar feito a bordo pelo Marcelo. Carne seca com arroz e abóbora.

Muito bom. Dormi as 20:00 para pegar meu quarto as 24:00.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 10, 1995

00:00 Iniciei meu quarto com o Wellington em noite linda de lua cheia.

Muitos barcos pesqueiros no mar.

Estamos já no estado da Paraiba.

01:01 João Pessoa a bombordo, não conseguimos ver o farol, luz branca lampejante a cada 10 segundos.

O Wellington abriu dois cocos verdes que tomamos e comemos na proa.

Depois fui escutar musica.

Nada a reportar, apenas a beleza do céu.

03;36 Rio Mamanguape a 290° .

04:00 Chamei o Marcelo e o Marco que iniciam o quarto agora. Vou dormir.

08:00 Acordo para reassumir o comando. Viagem tranqüila.

10:42 Alteramos nosso rumo, agora 327° , direto à barra de Natal.

Farol-de-Natal.jpg (90173 bytes)

13:00 Entramos em Natal na hora prevista. A barra é fácil, não precisa prático.

Fundeamos em frente ao Iate Clube.

16:00 Fomos a Capitania (eu e Marcelo) de bote e atracamos na ponte da capitania. Fomos muito bem atendidos pelo comandante Marcus Vinicius.

Fizemos uma arrumação interna e começamos a traçar a rota para Canárias.

Chegamos a conclusão que daria para ir direto para as Canárias, viajando mais devagar e economizando combustível. O San Marino mostrou-se muito econômico em todo o trajeto, como previsto no projeto.

18:00 O Marcelo e o Marco saem para jantar. Fico a bordo com o Wellington pois o rio tem corrente que se inverte com a maré, muito forte, o fundo não é dos melhores e ha muitos barcos perto.

Fundeamos apenas com uma ancora quando deveríamos faze-lo com duas, uma a proa e uma a popa.

Mas o Marcelo que já fundeou por aqui, acha melhor ficar num ferro só e aceitamos sua experiência.

22:00 O radar com alarme soa e levanto correndo para ver o que acontece.

O ferro tinha corrido, e estávamos quase encima de um pequeno veleiro dinamarquês. Chamo pelo dono, que sai nu e assustado no convés.

23:00 Volta o dinamarquês, agora foi o ferro dele que correu. Novo susto.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 11, 1995

Revisão total a bordo. Bombas, equipamentos eletrónicos, filtros, troca

de oleo, enfim tudo para uma viagem tranqüila. Para se estar bem no mar

é preciso trabalhar em terra.

Fui ao barco do Dinamarquês pedir desculpas. O Frank Madsen do veleiro

A.K.A., é um ex marinheiro que passou a vida em navios. Agora aposentado, juntou com uma moça holandesa, Mirian e comprou uma casa em Valdivia, lindo local no Chile que Milena e eu também conhecemos.

Eles tentaram levar o barco para lá o ano passado, mas desistiram pelo mau tempo e foram de Natal para lá de ônibus.

Voltaram para a Dinamarca e agora estão tentando novamente. Iam por Magalhães, mas o trajeto é longo e difícil e vão pelo Caribe. Como não tem cartas de lá dei a eles o meu almanaque Reeds do Caribe, que não vou precisar tão cedo.

 

Existem publicacões que complementam as cartas náuticas e são de muita utilidade. Os Almanaques, tem todo o tipo de dados, marés, correntes, meteorologia, informações sobre os portos, rádios e legislação local. Devem ser atualizados a cada ano. Os Pilot Books, fornecem informações sobre portos, rotas, detalhes da costa e dos mares.

São uma coletânea de 500 anos de navegações e experiências.

 

Estão aqui barcos de 6 nacionalidades diferentes. Nos reunimos todos ao fim da tarde para beber na varanda do Iate.

Só fomos à cidade 3 dias depois de termos chegado. Muito trabalho a bordo.

Jantamos em uma churrascaria onde comemos carne de sol com manteiga de garrafa. Adoro esta manteiga desde criança. Meu filho Carlo em uma de suas excursões com o grupo Ultraje a Rigor, trouxe-me uma garrafa. Vou comprar uma para levar para a Europa.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 12, 1995

08:00 O dia amanhece bom como sempre.

Continuamos trabalhando até as 16:00 preparando para a travessia.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 13, 1995

16:00 Voltei à Capitania, preparando documentação de saída.

Me informaram que devo ir primeiro à Receita Federal, depois à Policia Federal e só então à Capitania. Hoje não há mais tempo. Faremos amanhã.

Recalculando o trajeto, não dá para ir direto às Canárias. São 2282 milhas náuticas. Autonomia temos, mas é no limite, não vale arriscar.

Vamos parar em Cabo Verde.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 14, 1995

10:00 Trocamos o oleo do segundo motor.

Fui a Receita Federal, Policia Federal e Capitania onde todos foram muito gentis. Todos me disseram que são pouquíssimos os barcos de recreio brasileiros a requerer saída de Natal.

Ao voltar encontrei o Frank no San Marino já de cara cheia, querendo mais cerveja. Ficamos bebendo até a noite.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 15, 1995

Abastecemos 6000 litros. Todos os tanques estão cheios. O posto é simples e foi uma operação delicada.

Tivemos que emendar a mangueira e atracar longe devido a pouca profundidade. Demorou 4 horas.

Veio o dono do Albacora Azul, Comandante Moreira, um barco a motor de uns 50 pés que faz charter. Ele queria alugar nosso barco por algum tempo para fazer charter para Fernando de Noronha.

Parece que há muita falta por aqui, pois já fomos procurados por outros que também queriam o mesmo.

Voltamos ao Iate Clube e como sempre foi difícil ancorar.

A corrente vai a 2 nós e inverte a cada 6 horas. Todos os barcos rodam, os que não usam âncoras que ao girar pegam novamente, correm com perigo de bater nos outros. É um corre-corre geral cada 6 horas. Eu queria jogar duas ancoras, uma a popa e uma a proa, mas o Marcelo que conhece bem por aqui ficou com medo de ficarmos ligeiramente de traves e o vento forte nos fazer correr. Não fosse o vento seria seguramente melhor. Com os dois ferros na agua, a possibilidade de uma das correntes enroscar no hélice é maior, portanto decidimos não faze-lo.

Hoje fomos encima de um veleiro Italiano, mas safamos antes.

É que o cabrestante da ancora de boreste parou de funcionar talvez devido ao esforço excessivo de subir e baixar ferro varias vezes por dia.

Usaremos a ancora de bombordo, que entretanto tem menos corrente (50 metros, a outra tem 100)

O dono muito calmo no convés, nem se abalou. Não parecia um Italiano.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 16, 1995

07:00 Acordei, tomei um nescau e comi um misto quente feito pelo Marco.

Coloquei fusíveis gerais de 400 ampères nas baterias de serviço para proteção em caso de curto circuito.

O Marcelo ficou colocando graxa nos mancais que tínhamos montado em Angra. Ao remontar os inversores, montei errado um cabo eletrónico e um dois inversores (que trabalham em paralelo) queimou-se. Grande barbeiragem.

Instalamos a bomba d’água de grande capacidade ligada ao eixo do motor e que também serve como bomba de incêndio. Todo cuidado é pouco.

 

O San Marino está dividido em 4 compartimentos estanques, o de colisão, à proa, onde também temos um grande depósito e onde ficam as correntes de fundeio, o compartimento onde ficam os três camarotes dos hospedes, a sala de máquinas, e as dependências do capitão.

Cada compartimento possui uma bomba de porão, Jabsco de diafragma, montada em local de fácil acesso, de acionamento automático. Não gosto de bombas colocadas no fundo do porão, como as centrifugas, pois são difíceis de desentupir. As bombas de diafragma aceitam partículas grandes e nunca param. Em cada compartimento há também uma bomba de reserva, de acionamento por tecla.

Na sala de máquinas, estamos colocando uma grande bomba que esgota 200 litros por minuto, acionada pelo motor de boreste. Ela tem duas funções: Bomba de incêndio, retirando agua do mar e utilizando 15 metros de mangueira de incêndio, ou bomba de porão, com 20 metros de mangueira flexível, permitindo esgotar agua de qualquer compartimento a alta velocidade.

Temos também nos 4 compartimentos controle de nível com alarme visual e acústico, na ponte de comando.

Cada bomba elétrica do San Marino está conectada a um display na ponte de comando, onde acende-se uma luz e um contador avança um digito, a cada acionamento. Assim, controlo caso algum compartimento esteja fazendo agua, e quanto de agua está sendo esgotado.

 

17:00 está a bordo o Zeca, amigo do Marcelo que vive em Natal e com seu veleiro de aço, faz charter para o atol das Rocas e Noronha.

Foram todos a terra para jantar, mas fiquei a bordo. Comi um frango pronto da Swift. Não é mau.

Deveremos partir amanhã as 15:00 para chegarmos ao Atol das Rocas às 12:00. Não temos carta do local e é perigoso se aproximar, vamos parar a 15 milhas.

Chegaram hoje as cartas de Cabo Verde e Canárias que encomendei na Bluewater, nos EEUU. São 5 cartas de detalhe.

Passo o resto da noite escutando Bethoven.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 17, 1995

Decidimos não partir hoje. Há coisas a fazer, e ainda por cima é dia 17, dá azar.

A tarde aparece um chinês de Hong Kong com uma garrafa de mergulho para carregar. Foi trazido por nosso amigo alemão (Norbert Siebert) a quem dei um dos exemplares do livro Velejando pelo Brasil, do Tollers Link pois tinha dois.

Eles estão viajando sem cartas, e naquele livro tem trechos de cartas importantes e boas descrições dos locais.

O chinês disse que parou em Natal só para recarregar a garrafa e que estava de saída. Tinha acabado de chegar da Cidade do Cabo.

Enquanto a garrafa estava carregando, ficamos conversando.

Ele viaja só, num veleiro de 40 pés e seu único porto de parada depois de sair de Hong Kong foi Cidade do Cabo. O próximo, canal do Panamá, depois, Hong Kong.

Acho que ele queria bater algum record.

A noite grande festa de despedida a bordo. Todos vieram.

O Frank preparou um Dry Martini para todos (8 pessoas) que consumiu um litro de Gim. Não tem jeito, as despedidas são sempre alegres e deixam ressaca no dia seguinte.

Muitos dizem que somos loucos de tentar atravessar o Atlântico num barco a motor de 20 metros. São todos velejadores, que confiam na segurança do mastreamento.

Como sou eu que faço toda a manutenção e reparos do San Marino, confio nos Detroit, motores diesel são máquinas robustas que só param por falta ou poluição do combustível. Uma eventual ruptura de bomba d’água ou problemas no escapamento, é tudo que pode suceder. A mecânica interna raramente apresenta um problema.

Assim são os navios, normalmente com um só motor 2 tempos. Basta ter um bom engenheiro a bordo.