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MS San Marino - Diário de BordoVisite o site da NOVA viagem do San Marino
DE VOLTA AO BRASIL
Muita corrente contrária – Problemas com a âncora – Novos Destinos – Dégrad des Cannes - Cayenne – Rio Mahury – Rumo a Belém do Pará – Reentrando em águas Brasileiras - Mosqueiro – Iate Clube do Pará – Furos e Igarapés
LOG ENTRY FOR: Monday, May 13, 2002
9:00 Motores ligados, ancora no deck sendo fixada com cabos extras para enfrentar o mar de proa. 9:15 Saímos barra afora, através dos rochedos que aqui são bem sinalizados. O rumo é 111, magnético, quase leste. Nosso próximo waypoint está a 360 milhas daqui, que é o quanto vamos nos afastar da costa, fugindo das fortes correntes contrarias. Deveremos chegar neste waypoint dentro de 2 dias mais 20 horas. Por enquanto nossa chegada em Natal (pois decidimos finalmente que esta será a rota mais segura) está prevista para o dia 25 de maio à meia noite. Vou ao longo da viagem corrigindo nosso ETA , alterando velocidade, para chegarmos de dia, não vale a pena entrar em portos desconhecidos à noite. O mar está apertado, ondas de 3 a 4 metros, de proa, estamos muito pesados, tanques totalmente cheios. O San Marino navega bem com mar de proa, 6.5 nós só com o motor de bombordo, 26 litros por hora de consumo. Temos que viajar devagar para consumir pouco. Corrente de 1 nó contrario, mas estamos perto ainda de Grenada, espero que estas condições melhorem quando nos afastarmos. De acordo com a carta poderíamos ter até 2 nós contrários, estamos com sorte. 10:15 A corrente contraria subiu, 1.8 nós e as ondas vem como uma parede, pois aqui é muito raso. 13:00 A Milena acaba de telefonar, só agora ela chegou a S.Paulo, o vôo Miami S.Paulo foi cancelado, ela embarcou em outro avião. 14:30 Tudo igual, o Betânia se prepara para fazer o almoço, mas como balança muito peço para fazer só sanduíches. A corrente aumenta para 2.5 nós, nossa velocidade real 4 nós, assim não vamos chegar nunca. 14:45 Acabou saindo uma Pizza, direto do congelador para o forno. Estava boa. Parece que o cozinheiro está um pouco enjoado, vamos esperar que ele melhore amanhã. Barco sem cozinheiro fica mal. 17:00 Está na hora de inverter os motores, 8 horas seguidas sem rodar é o máximo que as caixas de reversão hidráulicas agüentam 18:30 Escurece, luzes de navegação acesas, os turnos estão divididos das 20:00 às 23:00 o Betânia, das 23:00 às 02:00 eu, das 02:00 às 05:00 o Marius. O mar piorou. 22:00 O Betânia me entregou a guarda antes da hora, ele está realmente enjoado. Forte como ele é, a coisa deve ser séria. LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 14, 2002 2:00 O mar continua ruim, a corrente continua 2.5 nós contraria, de resto tudo em ordem. Chamei o Marius para me substituir. 5:00 voltei para substituir o Marius, já de banho tomado e barba feita. Tudo continua igual. O mar melhorou um pouco, corrente 2.5 nós, já passamos Tobago, estamos a 260 milhas de nosso próximo waypoint. 9:00 24 horas de viagem, andamos exatas 99.6 milhas reais e 150 milhas pelo log, o que é um absurdo, pois o normal é fazer 160 milhas por dia nesta velocidade econômica. Agora a corrente é de 3.2 nós. Se aumentarmos a velocidade para compensa-la, nossa autonomia diminui e não chegaremos a Natal. Gastamos nestas 24 horas 600 litros de combustível, 6.3 litros por milha e o normal seriam 4 litros por milha. Assim nossa autonomia cai para 1500 milhas. Deste jeito não chegaremos nem a Fortaleza. É claro que confio que a corrente diminuirá ao pegarmos rumo sul, e nossa autonomia com corrente contraria de 1 nó volta a aumentar. É um calculo arriscado, é um jogo, viajar a motor é assim mesmo. Entrou a previsão, ventos ENE de 20 a 25 nós, ondas de 4 metros. Aplicamos um Plasil intramuscular no Betânia, ele melhorou um pouco. 18:00 O dia transcorreu calmo, nenhuma novidade, muito balanço. Bife no almoço feito pelo Marius, com muita dificuldade. 23:00 Fui dormir às 20:00 deixando o Betâria na ponte, mas ele não agüentou e chamou o Marius. Tudo continua igual, inclusive a corrente. LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 15, 2002 2:30 O mar continua o mesmo. De proa, pesado, quase quadrado, bate, bate, bate. A corrente contrária felizmente começa a baixar, 1 nó agora, ganhamos um pouco mais de "terreno", mas a viagem é pesada. Noite muito escura, sem lua e sem estrelas, tudo nublado, fechado, pelo tempo ruim. É só o balançar, o spray e a espuma das ondas que quebram em nossa proa, fracamente iluminadas por nossas luzes de navegação. A previsão da guarda costeira americana é que o mar vai aumentar para 5 metros, ventos para 25 a 30 nós. Combato o sono e a solidão do turno, como sempre, escutando boas músicas. 3:30 A corrente continua baixando, estamos navegando a 5.8 nós. Espero que as previsões e planos que fizemos contando com corrente abaixo de 1 nó estejam corretos. 9:40 O turno do Marius transcorreu sem problemas, mas neste momento, devido à pancadaria que vem pela proa, a ancora de boreste, uma CQR de 125 libras, presa por sua corrente, travada por sua trava e além disto amarrada com um cabo forte, subiu para o convés. O mar continuo e violento arrancou-a de seu suporte. O Marius, amarrado ao "jackline" foi para lá, trabalhar sozinho com grandes ondas encobrindo-o vez ou outra. Mas ele consegui recolocar o ferro no lugar e amarra-lo novamente. 12:00 Os turnos estão agora divididos de 4 em 4 horas. Depois de duas horas de sono, voltei novamente ao posto de comando. O Marius novamente foi prender o ferro de boreste, o mar está ainda mais violento e jogou o ferro para cima. Ele agora amarra-o diretamente ao cunho. Assim parece que ficou bom. Uma âncora deste porte solta, batendo, é um grande perigo, e pode arrebentar um barco. Ha um pequeno vazamento de água entre a moldura e o vidro de proa, bombordo. O mar muito pesado derrama água sólida a cada minuto sobre toda nossa proa. Saímos amarrados, eu e o Marius, e juntos colocamos silicone no vão aberto pelas ondas incessantes. A borracha que monta o vidro na base de alumínio teve um pequeno pedaço arrancado. Enquanto um trabalhava, o outro o segurava. Muitos banho completos. 13:00 Ajustei os relógios, adiantei-os uma hora, estamos no horário de Brasília. 15:00 Como o cozinheiro está de molho, lá foi o Marius para a cozinha, com este balanço todo. Um bom pacote de Barilla, espaguete, que comemos com manteiga, pimenta e parmesão. Estava uma delícia, mesmo porque não havia escolha, fazer um bom molho com este balanço todo é praticamente impossível. 22:00 Depois de 4 horas de sono, subi para revezar com o Marius. Noite ainda escura sem estrela e sem lua. O mar piorou ainda mais, bate muito, não dá para saber a altura das ondas, está muito escuro lá fora. A tensão de carga da bateria do motor de boreste está muito baixa, eu tinha regulado assim mesmo pois durante uma longa viagem as baterias esquentam na praça de máquinas e elas não gostam de muita voltagem. Mas está baixo demais, vou para a praça de máquina e entro entre o motor de boreste e o costado, lugar incomodo e quente, mas só lá consigo acessar o micropotenciômetro e subir uma pouco atenção . Deixo em 12.9 volts, ainda baixo, ajusto melhor amanhã, se o mar baixar. A praça de máquinas está a 42.5 graus, durante o dia atinge 45. É bom e normal. LOG ENTRY FOR: Thursday, May 16, 2002 06:00 O Marius me chamou para troca de turno e trouxe a desagradável noticia que tínhamos novamente 2.5 a 3 nós de corrente contrária já ha varias horas . Estamos já a 300 milhas da costa, não deveria ser assim. Se continuar, vamos demorar 15 dias para chegar a Fortaleza. Impossível - não há combustível para isto. Comecei a calcular outras rotas, outras opções caso a coisa continue assim. Cayenne, na Guiana Francesa, Belém já no Brasil ou São Luís do Maranhão. São Luís são 1000 milhas daqui, pouca diferença pois Fortaleza está a 1300. Para Belém também serão 1000 milhas, pois está bem dentro da bacia amazônica. Cayenne está a 500 milhas e fica sendo a única opção viável, caso a corrente continue assim. Posso aumentar a velocidade para 9 nós, usar os dois motores e enfrentar sem problemas qualquer corrente que seja. 9:30 Conversei longamente com a Milena pelo Inmarsat e ela também concorda que a opção é Cayenne. 9:45 O Marius acordou, conversei muito com ele, que também concordou que vale mais ir para Cayenne, uma vez que estamos na rota dos navios. A corrente contrária continua a 2.5 nós. A esperança de que diminua é pequena, estamos a 300 milhas da costa, alto mar, a corrente costuma ser estável e se manter por longos períodos. Decisão tomada, não vale a pena insistir, pois ao seguirmos para Fortaleza, corremos o risco de ficar sem combustível a 400 milhas da costa. De inicio o plano era ir para Natal, depois mudamos para Fortaleza, agora Cayenne. Nada de murro em ponta de faca. 11:20 Decisão tomada, mudamos nosso rumo para 167 graus, aumentamos a rotação dos dois motores para 1650, a velocidade subiu para 10 nós. No novo rumo, sul, a corrente é ainda mais forte, 3.5 nós, mas não nos afeta muito devido à maior velocidade. Navegamos em realidade a 6.5 nós, em três dias atingiremos Cayenne. Na vida não adianta querer, é preciso poder, e nós não poderíamos com a quantidade de diesel que temos, atingir Fortaleza. Novos planos, novas alegrias. 18:00 Alterei novamente o rumo para aliviar a pressão durante a noite, pois bate muito. Agora viajamos a 120° . Estamos pegando as grande vagas de bochecha, ondas de 4 ou 5 metros. É assim que iremos atingir Cayenne - fazendo zig-zags para evitar o mar de través. 22:00 Voltei para o turno, o Marius volta a dormir. O mar bate mais ainda, tivemos que reduzir a velocidade, estamos com 1200 rpm em cada motor, navegando a 7 nós. Meu descanso não foi descanso. Detectei uma entrada de água pela vigia de bombordo em meu camarote, água bastante para encharcar o carpete. Foi erro meu, fechei mal a vigia, não apertei as 4 borboletas. Secar tudo, colocar o carpete na casa de máquinas para secar. Com uma furadeira elétrica fiz um furo de escoamento do tampo do gaveteiro de bombordo, para a água que porventura entrar escoar diretamente para o porão. Melhorias para o futuro, pois se esquecer novamente a escotilha mal fechada, a água não vai inundar nada. Também ao ir à casa de máquinas senti um cheiro de borracha queimada. O selo mecânico de bombordo estava muito quente. Ar que entrou no telescópico do hélice. Bastou sangrar. A corrente contraria continua muito forte, a velocidade real é de 4.4 nós, mas agora não importa, não precisamos nos preocupar com autonomia. LOG ENTRY FOR: Friday, May 17, 2002 8:15 O mar melhorou muito esta manhã, mas também estamos viajando mais devagar para não bater muito. Nossa velocidade real está entre 4.5 e 5 milhas, dependendo da corrente que varia entre 3 e 3.5 nós contrários. Enviei um e-mail para o Denio Abade, que entrou em Cayenne meses atrás quando subia com seu Trawler "Tango" para o Caribe. Ele tem me dado bons conselhos. Falei novamente com a Milena, via Inmarsat, O Betânia apesar de enjoado deu uma geral no interior do barco, principalmente no local das goteiras. Tudo está sob controle, o barco perfeito, nenhum problema. Paramaribo está em nosso través de boreste, a 250 milhas, nossa distancia da terra mais próxima. 14:00 Nossa entrada em Cayenne (Dégrad des Cannes) está prevista para depois de amanhã, pela manhã. A aproximação é simples, o canal é bem balizado, 2 metros de profundidade mínima na maré baixa, sem problemas para o San Marino. O vento aumentou, 25 nós, Leste, todos dormem. Aproveitei para fazer a rota de entrada na carta de papel americana que tenho a bordo. Nossas cartas eletrônicas não incluem a Guiana Francesa. Bom para matar saudades do lápis e do compasso. 16:00 Molho em lata italiano, mais sal, alho, pimenta - tudo por cima do espaguete de ontem requentado no microondas -, e sai uma deliciosa refeição feita novamente pelo Marius. O pobre do cozinheiro, Betânia, continua passando mal, principalmente depois do trabalho que fez pela manhã. Chegou um mail do Denio confirmando que devo entrar em Dégrad des Cannes, é a melhor opção. O vento baixou para 15 nós, Nordeste, e o mar também baixou. Já tínhamos perdido o costume de tanta moleza. As vezes entra uma vaga grande vinda de Leste, a cada 10 minutos mais ou menos, e nos faz rolar uns 25 graus, mas não incomoda muito. 21:00 O Marius me chama. Eu dormia enquanto ele estava de turno. Há problemas com o toldo no Fly Bridge. Subi às pressas, o toldo está meio solto, panejando violentamente. As amarras se quebraram, provavelmente uma grande onda que atingiu o Flybridge em seus 7 metros de altura, mais os dois do toldo. Com nossos coletes salva-vidas nos amarramos à Jackline que corre ao longo do Flybridge e começamos o trabalho de desmontar o toldo. O Marius, com um canivete vai cortando as amarras e eu vou puxando e dobrando. O trabalho é difícil, balança muito no flybridge, mas entre escorregões e tombos conseguimos dobra-lo e guarda-lo no armário. Nunca deveríamos ter viajado com o toldo montado, o próprio Marius me alertou quando saímos de Grenada, mas acostumado aos mares duros das altas latitudes, julguei erradamente que indo para o sul, região equatorial, só teríamos mares brandos e gentis. 23:00 Reassumi o turno que vai até as 3 da manhã, e fico escutando belos chorinhos no CD. LOG ENTRY FOR: Saturday, May 18, 2002 3:00 Chamei o Marius para me substituir. O turno foi monótono, a noite é muito escura, sem lua, sem estrelas, o sono bate forte. Uso um timer que soa a cada 15 minutos. Deitado no sofá do Pilot House, me levanto, dou uma olhada nos 360 graus, confiro a rota e os instrumentos e deito novamente. É uma hora em que a gente fica muito só, nestes turnos pela madrugada escura. Só no mundo, nada em volta, só você com você mesmo. É nesta solidão que você se encontra com seus desejos e sonhos, volta o romantismo da juventude, aparece a curtição da vida real e madura que vivo hoje, onde cada coisa, cada ser, ocupa um lugar bem claro e bem definido. A solidão e o escuro trazem de volta o medo ancestral do homem das cavernas que esperava com ansiedade o sol voltar, um medo aconchegante e feliz, por estarmos num local quente e protegido. É esta impotência, esta pequenez, que faz o fascínio das viagens oceânicas, coligada ao fato de sabermos que dentro de muitas limitações, somos donos de nosso próprio nariz. Nesses momentos em que o tempo sobra - ele que sempre foi tão escasso - a falta do que fazer nos leva a estas reflexões de botequim. Deixo para o Marius dois navios cruzando a nossa proa, a umas 10 milhas, só visíveis no radar. 10:20 Mesmo com o balanço a vida continua. O Marius passa aspirador na sala e no Pilot House, dei uma arrumada em meu camarote, banho e barba como todos os dias. Ninguém deixa um dia sem pelo menos um banho de água doce, o que mantém as coisas no lugar e a moral alta. O balanço normal é de 10 graus para cada lado a cada 5 segundos. Eventualmente entra uma vaga maior, de uns 6 metros pelo través e nos inclina 30 graus. O Betânia está melhor, já se agüenta de pé, mas não pode fazer nenhum serviço. 10:40 4.3 nos de corrente contrária, 5.7 nos pelo GPS e 10 nós pelo Log. Que coisa incrível! 18:00 O dia transcorreu calmo e tranqüilo, a noite desce escura como sempre, nenhuma novidades a não ser a grande quantidade de peixes voadores que voam lá fora. Fico sonhando em como será Cayenne. É uma bela sensação chegar a um local desconhecido pouco a pouco, com tempo de sobra para imaginar. Sei que Cayenne é pequena, dizem que é arrumadinha, com sabor francês. Sei também que no passado nunca foi mais que uma colônia penal, e nem mesmo a cana de açúcar chegou a ser lá cultivada, pois esteve em briga constante entre o domínio Francês e Holandês até que finalmente no século 18 os franceses a dominaram definitivamente. Mas aí a Europa já produzia o açúcar de beterraba. Desde 1970 é a base de lançamento dos foguetes franceses, muita gente com dinheiro veio para cá. Dizem que se come bem por lá. LOG ENTRY FOR: Sunday, May 19, 2002 3:00 Está na hora de chamar o Marius, para ficar de vigia até as 7. Assim nós temos vivido todas as noites. O mar apertou bastante neste turno, mudei o rumo mais 5 graus, diminuí um pouco a velocidade, mas mesmo assim bate muito. Como é muito escuro lá fora, não dá para ver de onde vem o mar, essas correções são feitas por nossos sentidos. O Marius já tinha acrescentado 10 graus á nossa rota, no turno anterior. Não há muito jeito, o mar está ruim mesmo. Acredito que esta vai ser nossa ultima perna na direção leste. Amanhã, no momento apropriado, giramos para rumo sul e aí, proa para Cayenne. Chegando pela manhã como previsto, a maré vai estar subindo, facilitando nossa entrada. 7:00 O dia amanhece chuvoso, tudo molhado lá fora, neblina. 7:30 Mudei o rumo para sul,195 graus magnéticos. 8:30 Chove muito, nuvens pretas cobrem o céu, parece noite. 13:00 Comemos alguma coisa, a rota para a entrada em Dégrad des Cannes está decidida, está previsto entrarmos na boca do canal, amanhã as 9 da manhã. 13:45 Rumo 120° , paralelo à costa da qual estamos a 80 milhas. Já estamos sobre a plataforma continental, 130 metros de profundidade, mar vindo pela bochecha de bombordo, o que é bom e cômodo. Mantemos os 5 nós de velocidade real como planejado, tudo de acordo. Está claro agora, que errei de tática. Deveria ter vindo costeando desde Grenada, enfrentando o mar de proa e a corrente de 3 a 5 nós contraria, pois mesmo assim chegaríamos antes e com mais conforto. Este ano as coisas andam ruins, é o El Niño fazendo as suas diabruras. 20:00 Trocamos o turno, mas ao invés de ir dormir, fui fazer transferencia de combustível dos tanques de proa para os de popa. Temos bastante combustível, estamos tranqüilos. Quando voltei encontrei um Marius cansado. Decidimos inverter nosso turno, fico acordado até meia noite, ele pega em seguida. 24:00 Entrego o comando ao Marius com a proa para Cayenne. LOG ENTRY FOR: Monday, May 20, 2002 6:00 O Marius agüentou quase 6 horas de turno, para me deixar dormir, obrigado Marius. Agora pego direto para fazer a entrada em Dégrad des Cannes. Já está claro, estamos atrasados, a corrente contraria aumentou à noite. Deveremos assim começar a ver as bóias de entrada do canal lá pelo meio dia. Mas neste trecho é preciso muita atenção, é raso e ha muitos barcos de pesca. Com a maré baixando teremos corrente contraria também no rio, na entrada. O mar está calmo, nunca tivemos mar tão calmo desde que saímos de Grenada, uma semana atrás. A cor do mar é marron, rastro das águas do Amazonas. É preciso atenção também para tocos que vem flutuando desde o nosso pais. Ontem ao transferir diesel deixei de abrir um registro por engano e vazou diesel para o porão da casa de máquinas. Por isto o log parou de funcionar, o sensor ficou cheio de diesel. 9:45 Estamos agora a 33 milhas de Dégrad des Cannes. Neste momento a tristemente famosa Ilha do Diabo, está em nosso traves de boreste. Ela é parte do pequeno arquipélago Iles du Salut. Ela recebeu este nome devido à colônia penal francesa, ali instalada. Dizia-se que quem uma vez para lá fosse, não retornava, tão más as condições de vida. O famoso caso do capitão Dreyfuss, acusado (fim do século 19) como traidor do exercito francês, que lá ficou preso por quatro anos e retornou ao ser declarado inocente, trouxe ao mundo as horrendas condições de vida dos presos políticos, na sua maioria, que lá viviam. Também o famoso livro Papillon, relata a fuga bem sucedida, talvez a única, de um criminoso francês que atado a uma cesta de cocos, conseguiu atingir a costa da Venezuela, vivendo muitos anos com os índios. 10:20 Acaba de nos chamar pelo VHF um pesqueiro da Guiana, que num português arrastado mas compreensível, confirma nossa posição e diz que estamos na rota correta. Confirmou também que estamos certos ao ter escolhido Dégrad des Cannes como porto de destino, muito simpático, confirmou também que poderemos entrar neste horário, com esta maré. Obrigado! 10:40 O Marius gritou "terra à vista" Lá está o longo contorno do continente e das duas ilhas Mère e Père, que já estavam no radar a algum tempo e que vão guiar nossa entrada no canal. 13:00 Estamos entrando no canal, pelo rio Mahury. As bóias são grandes e fáceis de se visualizar, inclusive pelo radar. O mar entra por nossa popa, forte e nos faz dançar entre as bóias. Vamos de um lado a outro do canal mesmo querendo fazer uma linha reta. Ainda bem que não vem um navio em sentido contrario. Quando passamos a oitava bóia, passamos raspando a uma draga que fica continuamente trabalhando para manter o canal profundo. O mar de popa parou, tudo calmo, muito liso, que alegria. 14:00 Jogamos o ferro 10 milhas adentro da boca do rio Mahury, amplo e forte, de águas barrentas.
Estamos à frente de uma "marina" que nada mais é que uma ponte de aço flutuante, aonde estão atracados uma dezena de pequenos veleiros. Há eletricidade e água, mas a ponte é muito pequena para nós. Estamos a uns 50 metros de lá, o ferro pegou bem, desliguei os motores que trabalharam sete dias seguidos sem problemas, descemos o Avon e lá fui eu conversar com as pessoas na marina. Encontrei um senhor, francês, que ficou muito surpreso de encontrar um brasileiro que fala francês. Ele me informou que a capitania está fechada, só abre amanha e que o lugar onde fundeei é bom. Não vamos sair de bordo hoje, vamos ficar por aqui e comemorar nossa chegada com alguns goles do famoso rum de barbados. Foram 960 milhas de mar duro, vale a comemoração LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 21, 2002 Pela manhã, uma rápida checagem dos problemas que aconteceram na viagem. A bomba de circulação de água salgada do ar condicionado parou durante a viagem. Ela não gira, é problema elétrico pois o eixo esta livre. Também a bomba de alimentação de um dos dessalinisadores não esta puxando água, pode ser ar. As bombas de porão do compartimento de proa e de meu camarote também não estão puxando água. Nosso barco tem mais que uma centena de bombas, alguém já disse: "viver num barco é consertar bombas". Na marina, alguns veleiro velhos, no porto dois grandes navios. De dinguie lá fui eu para o porto procurar a Douane (alfândega). Não ha como subir o altíssimo cais, mas perto de um rebocador, uma escada pequena de corda me fez chegar à terra. Subi com dificuldade os 5 metros de altura do cais, principalmente porque levava os documentos do San Marino numa pasta, enfiados dentro do calção. Andei uma meia hora até a alfândega e lá eles me informaram que viriam a bordo, para aguardar. Voltei pelo mesmo caminho, mas a dificuldade em descer a escada de corda e chegar ao Avon foi ainda maior. Sou navegante ou alpinista? Voltei embaixo de forte chuva. O Betânia (já recuperado) e o Marius enquanto isto, deram uma geral em todo o barco, ha muita umidade, muita coisa para limpar. 15:20 Nada do pessoal da alfândega, continuamos a bordo, bandeira amarela no mastro, não podemos descer à terra. Autorizei Betânia e Marius a dar uma volta em terra, não indo muito longe. Pela manhã tentamos jogar uma âncora pela popa e outra pela proa, para evitar que o barco gire a cada 6 horas, com a maré. A corrente chega a 2.5 nós em ambas direções. Mas a âncora de popa não segura, o barco correu, quase bateu no cais. Voltei então à CQR. Com a Fortress não dá, ela (como as Danforth) ao girar corre o risco de ter uma pedra ou toco entre os braços, que a impede de ferrar outra vez, e lá vai o barco corrente abaixo. Ficamos novamente rodando, dormirei esta noite no Pilot House como segurança. 17:00 Nada do pessoal da alfândega.
O Marius e o Betânia voltam a bordo com um belo peixe, uns 5 quilos, será nosso jantar, já que o cozinheiro está refeito. 20:00 O peixe ficou excelente, com batatas e molho de tomate, acabamos a noite no flybridge, sob um belo céu de estrelas, cantando e tocando violão. LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 22, 2002 Como sempre, acordo muito cedo. Botei os dessalinisadores para funcionar, o problema era mesmo ar na tubulação. Temos que lavar roupas, carregar as baterias e voltar à alfândega. Lá fui eu novamente a terra, procurar a alfândega, mas ao me aproximar do píer me deparei com três soldados. Os três soldados, muito bem vestidos logo me disseram: "não somos da alfândega, eles demoram, coisa de dias, fique a vontade". Uma senhora de um veleiro disse que para ela demoraram quatro dias. Resultado: Voltamos a bordo, descemos a moto, e de moto lá fui eu para explorar o local. Fui primeiro à fornecedora de combustível, a Texaco. É simples, me informaram, basta pagar antecipadamente e encostar no píer que eles fornecem tax free. De lá voltei à alfândega, onde me confirmaram da demora e disseram que também não é importante, poderemos ir embora sem o procedimento burocrático. De lá fui à Cayenne, 12 quilômetros de moto, boas estradas. Mas a agencia de viagem para comprar o bilhete aéreo para o Betânia voltar (vamos seguir para Belém só o Marius e eu) já estava fechada. Hoje, quarta feira não abre mais(estamos na Europa!). Ao sair da cidade, a chuva apertou, um aguaceiro, e lá fui eu por 12 quilômetros de moto. O maior banho de minha vida. 14:00 Quando cheguei a bordo, já estavam prontas as costeletas de porco e as batatas fritas, obra maravilhosa do Betânia. 17:30 Lá se foram, o Betânia e o Marius, de taxi para Cayenne, conhecer a cidade. Fico a bordo, não dá para deixar o S. Marino só, ao sabor desta correnteza fortíssima. Eles vão também alugar um carro para podermos nos movimentar melhor, e para levarmos o Betânia amanhã para o aeroporto. 18:00 Falei com a Milena, confirmei o vôo do Betânia para amanhã às 13 horas. 21:00 Eles voltaram cedo, jantaram na cidade e não se entusiasmaram muito. LOG ENTRY FOR: Thursday, May 23, 2002 Como sempre aproveito as primeiras horas da manha para fazer alguns trabalhos. Consertei o sensor do log, consertei o motor da bomba de água salgada do ar condicionado (era um problema de mau contato). Mas infelizmente, quando trabalhava no sensor do log, verifiquei que o mancal seco do eixo de bombordo estava com uma das alças de fixação partida. Este mancal, que evita que o eixo flambe, está localizado na casa de maquinas, perto do telescópico e do selo mecânico. Não dá para encomendar um novo, vai levar dias. Assim resolvi fazer um conserto provisório. 10:15 Agora não da para continuar trabalhando, tenho que levar o Betânia para o aeroporto, ele embarca às 11. Banho tomando, roupas limpas, o Marius nos leva de Avon até o píer da marina. No mesmo momento chegou a Van da alfândega, com todo o pessoal (6) e equipamentos. Expliquei a situação, que os estávamos esperando a dias, e justo neste momento tenho que ir ao aeroporto levar o Betânia. Eles examinaram nossos passaportes, revistaram a bagagem do Betânia e nos autorizaram a ir ao aeroporto. Enquanto isto, eles foram a bordo com o Marius, dar uma olhada no barco e providenciar a documentação de entrada. 15:00 Voltei do aeroporto, tudo em ordem, mas o embarque foi difícil, por falta de visto no passaporte do Betânia. Direto para a casa de máquinas, desmontamos o mancal, projetei uma peça suporte e corri para procurar uma oficina para executa-la. 19:00 Já estou de volta, com a peça feita. Fui também à Cayenne trocar dinheiro para pagar o abastecimento. Fomos jantar, O Marius e eu no Cayenne-Paris, um restaurante verdadeiramente excepcional. O dono, alem de tudo foi navegante, viajou o mundo num veleiro e nos sentimos em casa. Voltamos cedo, com medo do ferro ter corrido, mas antes de sair tomei diversas providencias: Dei mais 10 metros de corrente, amarrei um cabo entre a corrente e o elo que tenho na proa, quase na linha d’água, e calculei para voltarmos antes da 10 da noite, hora em que a correnteza se inverte. Tudo em ordem. LOG ENTRY FOR: Friday, May 24, 2002 7:00 Chove muito. A ITCZ continua sobre nós. O mar lá fora deve estar um espelho, nenhum vento. Eu pretendia abastecer logo pela manha mas a chuva é tão forte que impede qualquer movimento. Montamos as pecas do mancal, verifiquei água e óleo dos motores, o de bombordo estava baixo devido a um pequeno vazamento no sensor de pressão. Dei mais aperto no sensor, espero que resolva. Engraxei ambos os mancais, o de boreste está perfeito 11:30 A chuva parou, vou sair para combinar o fornecimento de diesel. Hoje é sexta feira, estamos em território europeu, certamente ninguém trabalha aos sábados. 13:30 Estive na distribuidora da Texaco. A moça que tinha me atendido, me deu tudo errado, me deu preço de diesel para pescadores, nós temos que pagar o preço normal. De 0.25 U$ por litro passou para 0.80 U$ por litro, Vai ser a primeira vez em 8 anos de viagem que compro diesel a preço tão alto, preço europeu, impostos altíssimos. Mas não tenho escolha, quero partir para Belém o mais rápido possível. 16:00 Rodei pela ilha procurando preço menor, mas não ha opção. Combinei o fornecimento para amanha às 9, eles não trabalham, mas um caminhão vai pegar o diesel hoje e fazer o especial favor de nos abastecer amanhã. Saímos novamente para jantar em Cayenne. A moça que tinha me atendido na Texaco, com tanta gentileza, me perguntou o que estávamos achando de Cayenne. Disse estar comendo muito bem e ela recomendou uns outros restaurantes, La Kase Kreole e um novo, Central Park. Saímos a procura, para entrarmos no primeiro que encontrarmos. Acabamos no Central Park, o escargot estava delicioso, depois um magret de canard e um delicioso profiterole, com a massa crocante, dos melhores que já comi, tudo regado a um bom bordeau. De repente, chega a mesma moça que me atendeu na Texaco, para jantar, com o namorado e nos cumprimenta com muita alegria. LOG ENTRY FOR: Saturday, May 25, 2002 7:00 Depois de um rápido café, preparamos a casa de máquinas e levantamos ferro para o porto comercial. Atracamos bem no final do cais, proa contra a correnteza. Como é fácil manobrar sem se importar com o vento, só com a correnteza forte e constante. Afinal faz sol, muito sol. O San Marino está todo aberto para se livrar da umidade, menos as vigias contra o cais, para evitar a entrada de bichos. 8:45 Começamos o abastecimento. Vai ser rápido, a bomba do caminhão é forte e eficiente. 6.000 litros foram colocados, o Marius me levou até o píer da marina para pegar a moto e voltou para aguardar o tambor de 200 litros de óleo lubrificante que comprei, este sim, a preço bem baixo. De moto, fui às autoridades portuárias desembaraçar o San Marino e quando voltei a bordo, o óleo lubrificante já estava sendo sugado do tambor, por nossa bomba, para nosso tanque. 13:00 Todo o serviço de abastecimento já está feito, o Marius foi devolver o carro alugado e fazer compras de alimentos. A maré alta é por volta das 15:00, portanto vamos aguardar o inicio da vazante para sairmos rumo a Belém do Pará com correnteza favorável. 15:30 Ligamos os motores, largamos. 17:05 Saímos do canal balizado já ha algum tempo, estamos no rumo 060° para nos livrarmos de uns rochedos próximos à costa, profundidade 17 metros. Dentro de uma hora poderemos mudar de rumo, entrar no definitivo, Belém. Mar bom, calmo, poucas ondas, vento fraco vindo pela nossa proa, nordeste, força 4. A previsão é chegar em Belém lá pelas 22:00 do dia 29 de maio. Isto com corrente contraria de 4 nós. Se estiver melhor, chegaremos antes. A previsão da marinha brasileira, que é a que nós recebemos atualmente pelo Inmarsat C, é de tempo bom, ondas de E/NE de meio metro a um metro (junto à costa). Que maravilha. Viajamos a 1550 rpm, consumindo 27 litros por hora por motor, 8 nós reais. O Marius foi descansar. Fico até as 18:00 e ele me substituirá das 22:00 às 02:00. 18:10 Ainda se avista o continente, pela proa um barco de pesca e um navio. A corrente é pouca, viajamos a 8.3 nós. 19:00 Atingimos o ponto de mudança de rota, agora é curso 126° , sudeste, mar de través, pequeno, muito conforto. A velocidade real baixou para 5.2 nós contra uma velocidade sobre a água de 8.5 nós. É que antes pegávamos a corrente de través, agora ela vem de proa. Mas esta é mesmo a nova tática, navegar próximo à costa com mais motor. Serão 580 milhas de viagem contando a corrente contrária, não temos necessidade de nos preocupar com autonomia. 22:00 Entrego o comando ao Marius, como sempre dou uma checada em tudo e vou dormir. O vazamento de pingos de óleo pelo sensor de pressão do motor de bombordo parece que parou. LOG ENTRY FOR: Sunday, May 26, 2002 2:00 O Marius me deixou uma noite linda. Fui navegar fora, sentado na proa, com uma lua cheia maravilhosa. Fiquei horas curtindo o céu e os respingos de água na cara, numa noite quente e de visibilidade ilimitada. Cumulus no céu, brancos como durante o dia, mostram a intensidade do clarão da lua. Mar baixo, tudo diferente do trecho anterior. Navegamos doce e suavemente, sem rolar, sem bater. Deveremos entrar em águas brasileiras à 5 da manhã de hoje, quando o Cabo Orange estará em nosso través. 6:15 Vim substituir o Marius. Tudo em ordem. A corrente diminuiu, viajamos agora a 6.6 nós reais. Ganharemos assim muitas horas, e nosso ETA está agora para o meio dia do dia 25. "Pátria Amada Salve Salve". Estamos no Brasil, foz do Oiapoque. O San Marino volta ao Brasil 7 anos depois, a última terra brasileira que vimos do mar foi o Atol das Rocas, em 19 de junho de 1995. O Brasil nos recebe com águas calmas e tranqüilas, dia belo, que alegria. Estamos a 30 milhas da costa. Tive que trocar três filtros de combustível, pois veio óleo sujo em Cayenne. 12:30 Baixei a velocidade, pois a corrente também baixou. A continuar na rotação anterior iríamos chegar a Belém na madrugada, e desejo chegar ao porto pela manhã. 13:45 Cabo Cassiporé no través de boreste. Tanto o Oiapoque, quanto o Cassiporé, são foz de rios que permitem uma entrada em emergência. Dá vontade de entrar só para conhecer, mas queremos chegar logo a Belém. 14:20 Nossa escolta de recepção: Um grande cardume de golfinhos, de bom tamanho, saltando e brincando em nossa proa. Devem ser uns 15. Ficaram nesta brincadeira por uns 15 minutos. Depois de navegar contra este mar por 8 dias, dá para compreender porque os navegantes evitavam esta rota do Caribe para a América do Sul. Quem queria vir para cá, navegava direto da Europa para Belém, Salvador ou Natal, fugindo desta correntada. Por isto esta costa norte sempre ficou abandonada. 14:30 Pequena ondas vindo do sul se encontram com o pequeno mar de Leste, e o mar fica fervendo, com carneirinhos, como se houvesse muito peixe em uma rede. Estamos a 200 milhas da Foz do Amazonas, e devem ser suas águas as causadoras deste fenômeno. Fui agora desligar o dessalinizador e percebi que ele está funcionando com uma regulagem para água quase doce. 16:30 O Marius caprichou no almoço, camembert primeiro, depois o peixe que o Betânia tinha feito, descongelado. Mousse de chocolate francesa como sobremesa. 22:00 Volto ao turno, tudo continua calmo, volto à proa, para curtir a noite maravilhosa. O mar brilha, fosforescente, refletindo o prata da lua. 23:00 Dois navios a nosso bombordo, a 4 milhas de nós. A 9 milhas na bochecha de boreste ha outro navio, mas só visível por enquanto na tela do radar. LOG ENTRY FOR: Monday, May 27, 2002 7:30 Desde as 6 estou aqui no Pilot House, fazendo cálculos, olhando cartas. São Luís do Maranhão está a 517 milhas daqui, vale a pena saltar Belém e ir direto para lá. A corrente está mais fraca do que previsto, precisaremos de 5100 litros para chegar lá neste ritmo e temos 7200 nos tanques. Falei por telefone com a Milena e desfiz os planos que ela tinha de nos encontrar em Belém. Vamos para São Luís. Vou estudar bem a entrada, e principalmente onde ancorar. As marés por lá são gigantes, chegam a 7 metros, mas dá para ir. 12:00 Cabo Norte no nosso través. Este cabo marca a entrada da bacia amazônica. Estamos a 16 milhas da costa. Tempo bom, mar de 1 metro, vento forca 3 de Leste. 13:45 Liguei o gerador para fazer água e lavar roupa. Ele parou de repente, por alta temperatura. Deve ser sujeira no filtro de água salgada, muita lama e folhas do Rio Mahury. Mas não vou investigar nem trocar o rotor em alto mar. Volto com os planos de entrar em Belém, e conserto lá, na tranqüilidade de um porto. Adeus São Luís! O Marius jogou uma linha com um grande anzol para currico, para tentar a sorte. Fiquei imaginando que um belo peixe, forte e orgulhoso, poderia morder a isca falsa, ter suas entranhas arrebentadas e sua mandíbula fisgada por um anzol de aço frio. Quem sabe ficaria algum tempo sendo arrastado por nossos potentes motores. Transmiti ao Marius meus pensamentos. Ele sem comentar foi lá fora e recolheu a linha, me dando razão. Temos comida de sobra a bordo. 16:00 Falei novamente com a Milena, ela confirmou que vem para Belém. Não tinha nem desmarcado o vôo. 18:00 Mudamos o rumo para 173° , estamos demandando a Foz do Rio Pará, Chove, mar calmo, vou dormir e deixo o Marius no comando. 22:30 Substituo o Marius que me trouxe noticias do Betânia que telefonou avisando que chegou bem em S.Paulo depois de uma viagem tumultuada. A noite não é bonita como ontem, muito nublada. O Marius falou com um pesqueiro fundeado, que pediu para tomarmos cuidado com suas redes. Ha mais dois pontos no radar mas não vemos suas luzes. LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 28, 2002 6:30 O mar é marron, quase rio. A ilha do Marajó está a 83 milhas na nossa proa. A corrente (será que já é correnteza, como ela é chamada nos rios?) baixou para 1 nó. É nosso rumo transversal. Falei com a Milena que entrou em contato coma capitania de Belém. Ela foi informada de que existem poitas na frente do Iate Clube, e deveremos nos dirigir para lá. Se não ficarmos nas poitas, que podem ser pequenas para nós, ficamos na âncora. Mas um iate clube sempre garante segurança e apoio de terra. 12:30 O Marius está dando uma limpeza geral. Encontrou água, água doce, no armário de meus sapatos. Foi a chuva, tão forte, que inundou o flybridge deixando entrar água pelo respiro. Decidi subir ao Fly e retirar os ventiladores substituindo-os pelas tampas adequadas. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o Epirb (equipamento de salvatagem que emite sinais de socorro para um satélite em caso de naufrágio) rolando como doido, solto de seu suporte. A bóia salva vidas do Fly saiu de seu suporte, rolou até a caixa do Epirb e com a pancada a caixa se abriu. Sorte que ele não foi para a água, senão a marinha brasileira sairia à nossa procura, pois ele dispara automaticamente em contato com a água. Na casa de maquinas, controlando os manômetros, vejo que preciso trocar mais um filtro de combustível. Cayenne foi mesmo uma causadora de problemas. Sujeira do rio nos filtros (gerador e 4 filtros do dessalinizador) e sujeira do diesel nos tanques (4 filtros ate agora).
15:45 Rumo 250, vamos começar a negociar os canais de entrada do rio Pará às 19:00 Provavelmente tanto o Marius como eu vamos passar a noite em claro. Vai ser necessário muita atenção, ha arvores boiando e os canais são estreitos. 16:40 Latitude e Longitude: 00° 00’00"N, 047° 38’07"W, estamos cruzando o equador, entrando no hemisfério sul. 19:00 A entrada no rio Pará é complicada mas não muito. O canal do Espadarte é balizado com duas bóias vermelhas para deixar a boreste e quatro bóias verdes para serem deixadas a bombordo. Fora do canal são bancos de areia muito rasos. A carta náutica é bem detalhada e as bóias são boas refletoras de radar. O problema é que existem dezenas de barcos de pesca, a maioria sem qualquer iluminação, pequenos e de madeira, geralmente não sinalados no radar. Quando estamos quase em cima deles, acendem faróis fortíssimos na nossa cara, que nos ofuscam e nos obrigam a um desvio às cegas, muito rápido. A noite é escura, a lua ainda não nasceu, o que piora ainda mais as coisas. O rio é cheio de bancos de areia com arrebentação. O Marius fica do lado de fora, com binóculos, olhando com atenção e eu fico dentro controlando o rumo. É assustador. 19:40 Neste momento temos 12 metros de profundidade e 9.8 nós de velocidade. O rumo é 207 graus, procuramos com o binóculo as luzes das bóias, que já estão no radar. Bem a boreste ha um banco chamado Baixo do Xingu, com 2 metros, arrebentando, e na proa o Baixo do Espadarte, que aflora e onde ha arrebentação. 20:11 Temos agora uma bóia vermelha em nosso través, estamos no canal. A quantidade de barcos de pesca diminuiu, foi um sufoco. A profundidade aumentou de repente, aqui no canal temos agora 25 metros. Por aqui entram navios de todas as tonelagens, que pegam o pratico na bóia em Salinopolis e demandam o porto de Belém. 20:45 Saímos do canal bem balizado, estamos no Rio Pará. A boreste, muito próximo, o banco Cabeço do Sul, com 0.2 metros e a bombordo, um pouco mais distante a Coroa Nova, que aflora. Ambos criam arrebentação. Temos 12 metros no ecobatimetro, rumo 230, velocidade 11.7 nós, a correnteza nos empurra! O próximo ponto complicado será a entrada do Rio Mosqueiro, já próxima a Belém, que deverá ser feita pela manhã. Vou dormir um pouco, o Marius vai me chamar às 22:00 22:00 Uma hora de sono me refrescou. A lua agora ilumina totalmente este rio imenso, não se pode ver nenhuma das margens. LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 29, 2002 Volto a fazer cálculos, deveremos entrar em Belém às 7 da manhã se a velocidade se mantiver como está, agora 12 nós. Teremos que negociar o canal do Mosqueiro à noite. Ele é estreito, cheio de pedras e baixios. Penso muito, faço vários cálculos. Decido então fundear em algum ponto deste rio magnifico, e entrar amanhã cedo. Parece que o melhor local para fundear é no norte da ilha do Mosqueiro, deveremos chegar lá por volta da 1 da manhã. O risco é apenas de assalto, não sabemos se será perigoso ou não, mas dormiremos alerta, com o barco bem fechado. É muito bonito navegar neste rio, tão grande, ainda mais sabendo que ha floresta amazônica dos dois lados. Luzes distantes mostram uma pequena vila a bombordo, Colares. Por boreste vai uma gaiola bem iluminada, alegre, cheia de passageiros. Dá vontade de segui-la, para facilitar nossa entrada, mas tenho medo. Elas geralmente calam pouco, prefiro ir por minha própria conta. 0:23 Berra a campainha do telefone celular. Ele está funcionando! É a Milena, que está já em Belém, no hotel, jantando. Muita alegria em sabe-la tão perto. Transmito à ela nossa intenção de dormir ao norte de Mosqueiro. Ela inocentemente comenta com o garçom. Ele alerta assustado "lá não, lá é muito perigoso". A Milena me chama, diz que vai tentar falar com a capitania para confirmar, fico na espera. 0:40 A Milena chama novamente. Falou com a capitania, eles foram peremptórios: " O que eles estão fazendo, entrar a esta hora da noite já é de um grande risco, os piratas podem aborda-los a qualquer momento. Parar e fundear então nem pensar. Eles devem tentar entrar imediatamente no canal de Mosqueiro e só fundear na frente do Iate Clube". Diante de tal ameaça, retomamos nossa rota, fechamos bem o San Marino e ficamos alerta. 2:01 Estamos entrando no canal balizado do Mosqueiro, mas está muito difícil pois há muitos barcos saindo, em boa velocidade, que não se preocupam conosco. Por boreste está a bóia de luz, mas entre ela e nós ha uma rocha que aflora, sem sinalização. A Bombordo, rochas que afloram também sem marcas. Isto está feito para práticos, com conhecimento local, temos que ter atenção dobrada. 2:31 Já passamos o ponto perigoso, estamos agora entre as ilhas Cotuba e Barreiras, o trecho é largo e sem perigos. 3:58 Novamente um farol para ser deixado por boreste. Estamos em frente ao aeroporto de Val de Cães, construído por americanos na segunda guerra mundial. Continuamos nossa navegação, hora um barco pescador sem luz, hora um grande com todas as luzes encima de nós. 4:59 Temos agora o famoso Ver-o-Peso, o magnifico mercado de Belém, a bombordo. Estamos assim entrando no Rio Guamá, onde está localizado o Iate Clube do Pará. 5:34 Lá estão os mastros dos veleiros ancorados em frente ao Iate Clube. Agora não ha mais erro, vamos fundear. O ferro tocou o fundo quando o sol começou a iluminar Belém. Portanto fizemos tudo errado. Entramos no canal do Espadarte à noite, navegamos o Rio Pará em hora perigosa, negociamos Mosqueiro na madrugada, escuro e quando os barcos saem, e fundeamos ainda no escuro. Deveríamos ter entrado bem cedo pela manha no espadarte e ancorado aqui no final da tarde. Vamos dormir e descansar. 8:00 A Milena telefona novamente, já está de pé, vai alugar um carro e vem vindo para cá. Ficaremos a bordo, dormindo, ela vai combinar os detalhes de nossa estada com a Marina. 10:00 Milena afinal a bordo. Beijos, alegrias. Mas temos que ir à terra, para assinar a documentação da marina e do carro. O calor é forte, a correnteza é forte mas não tanto quanto a de Cayenne. No escritório da marina me informam que devo ir à capitania. 15:00 Estamos de volta ao San Marino. Cumprimos todas as formalidades que a capitania nos solicitou, já estamos a bordo, com tudo regularizado.
O Marius, louco de vontade de ir à terra teve que ficar, desta vez, a bordo. Ele vai sair á noite, para comemorar a chegada. LOG ENTRY FOR: Thursday, May 30, 2002
A Milena não agüenta, já pega logo no serviço de limpeza, dizendo que o barco está uma bagunça (e deve estar mesmo!) Dou uma olhada no gerador, era mesmo o que eu pensava, sujeira do rio Mahury. Troquei o rotor da bomba, desentupi o filtro e pronto, funciona de novo. O grande problema aqui será água doce. O dessalinizador trabalha bem, mas os filtros se sujam muito rapidamente de lama (menos de 3 horas) , e restam poucos a bordo. Tentei retrolavar os filtros que são de papel mas sem bons resultados. Tenho que encontrar uma solução. 18:00 Em terra para conhecer o Iate Clube do Pará. Quando estávamos no bar do restaurante que fica bem a beira do píer, uma Cigarrette atracou imprudentemente e atropelou uma canoa com um menino a bordo, felizmente sem conseqüências. Saímos para jantar, para o famoso Pato no Tucupí, que estava uma delicia. Acabamos a noite num bar muito animado, o Bulldog se não me engano. Dançamos a noite inteira, comemoramos enfim nosso reencontro e nossa chegada a Belém. Na volta, altas horas, no Avon que estava (como sempre fazemos) amarrado ao píer com cabo de aço e cadeado, a surpresa: "perdi a chave". Eu ainda por cima de óculos escuros de grau, não via nada, o Marius também não estava lá estas coisas. Mesmo assim, com um pequeno alicate, conseguimos remover o olhal onde ficava preso o cadeado e voltamos a bordo, onde constatei, que a chave estava mesmo era no meu bolso. Acho que a comemoração foi mais forte do que deveria. LOG ENTRY FOR: Friday, May 31, 2002 Levantei bem cedo, acertei o problema do ar condicionado que por aqui é importante. É grande a vontade de nadar mas o Rio parece poluído pela vizinha cidade de Belém, melhor não arriscar uma hepatite. Quando chegamos à Europa, compramos uma nova televisão devido à diferença de sistemas. A brasileira ficou guardada no flybridge. O Marius (que era quem mais queria ver TV), foi busca-la e trocamos a européia. Funciona ainda bem. Saímos em seguida para conhecer Belém, e comprar algumas coisas necessárias, entre elas peças para montar um sistema de purificar a água do rio. O dessalinizador não dá mesmo. Demos também uma volta pelo Ver-o-Peso, Belém é uma linda cidade, cheia de parques. Voltamos para almoçar no restaurante do Iate Clube, que é bom. A chuva do dia (em Belém chove quase religiosamente) entrou quando estávamos para iniciar o almoço, hoje com ventos fortíssimos que nos obrigou a mudar de mesa. Ao voltarmos a bordo verificamos que o ferro tinha corrido um pouco, mas continuava firme. LOG ENTRY FOR: Sunday, June 02, 2002 Instalei o novo filtro de água. Comprei um filtro para maquina de lavar roupas, que retém impurezas até 5 mícron, e usa elementos de baixo preço. Ele retém as impurezas e quase toda a lama. A água entra bastante clara. Em seguida coloco no tanque cloro, na forma de Cândida ou QBoa, na dose de um litro para cada 1000 de água. Assim garantimos água livre de bactérias e deixamos os dessalinizadores em paz. Mais uma volta por Belém, almoçamos novamente no Iate Clube para observar o intenso movimento de barcos do domingo. Ha quase quinhentas lanchas nos galpões, muitas grandes e rápidas, enfim uma bela frota. São poucos os veleiros, que por aqui não são de grande valia. LOG ENTRY FOR: Monday, June 03, 2002 Estamos programados para sair rumo à Fortaleza, quarta feira às 6 da manhã. O Marius saiu para compras no supermercado, e fiquei a bordo consertando os últimos itens ainda pendentes. Preparei a rota até Fortaleza. Saindo quarta cedo, chegaremos lá na segunda pela madrugada, isto calculando uma media real de 5 nós. Se a corrente for menor, o que espero, chegaremos domingo à tarde. LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 04, 2002 Levantei bem cedo e fui à capitania fazer a documentação de saída, com data de amanha bem cedo. Cheguei às 8, logo que abriu, mas os funcionários só chegaram às 8:30. Como eles não tinham os formulários, tive que ir à uma copiadora, depois preenchi tudo e voltei. Só consegui chegar ao barco às 10 da manhã. A pressa era devido ao abastecimento. O Neto, chefe do pessoal da Marina, estava já me esperando para irmos ao posto. O posto, uma balsa flutuante amarrada à terra, possui bombas pequenas, portanto foram precisos 3 horas para pegar 5000 litros. Voltamos ao Iate Clube e voltamos à terra para os últimos preparativos. 17:00 Fomos recebidos pelo diretor náutico, o Rocha. Em uma outra mesa, à qual nos juntamos, o pessoal tinha em mãos um exemplar da revista náutica com nossa reportagem de capa. Estava também o Lauro Haber, que acompanha nossa viagem pelo internet e se correspondia conosco. Todos foram muito gentis, insistiram para que ficássemos mais, falaram das delicias de Belém e das belezas do Amazonas. De lá fomos tomar uns drinques na Estação das Docas e acabamos chegando à conclusão que deveríamos conhecer melhor a Amazônia. Foi a Milena a determinante, pois ela via com grande curiosidade centenas de barcos navegando para tantas direções diariamente, locais misteriosos e desconhecidos, gaiolas cheias de gente e de vida. A vontade de conhecer aqueles lugares a provocou, foi mais forte. Decidimos realmente ficar mais. Afinal nossa viagem não segue planos, só nossa vontade e possibilidade. Único problema: Como deixar o San Marino por algum tempo só, uma vez que temos que ir para S.Paulo por uns 2 meses ou mais. Com o tanque cheio de diesel, o barco está mais pesado, portanto mais sujeito a garrar, e também, caso fiquemos longe por mais de 6 meses, começa o risco do diesel desenvolver bactérias. LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 05, 2002 Em vez de partir bem cedo, levantamos com calma, gozando o tempo que agora conquistamos. Agora é preparar o San Marino para deixa-lo só. Creio que em uma semana tudo estará resolvido. Devo construir uma poita grande, mínimo 1200 kg, pois a regra geral é 200 quilos por cada 10 toneladas de deslocamento. A Milena precisa encontrar alguém que venha abrir e ventilar o interior vez ou outra. O Marius volta de avião antes de nós, sua namorada já está reclamando. Estou contente com nossa decisão. A intenção neste momento é retornar em Novembro, quando as águas estarão baixas, as praias descobertas. Boa época para navegar e conhecer afinal a Amazônia. 12:00 O Edson acabou de nos visitar. Ele mora no veleiro Milagro, numa poita, nosso vizinho. Ele é paulista e está ha 10 anos em Belém. É ele quem organiza os rallyes de veleiros que vão daqui para a ilha do Marajó, é repórter da BBC de Londres, trabalhou na revista Offshore, em São Paulo, enfim, conhece tudo. 5:00 O almoço saiu tarde, virou meio jantar. A Milena preparou um belo espaguete Matriciana. O Edson voltou, e passamos o fim da tarde conversando. LOG ENTRY FOR: Thursday, June 06, 2002 Retornei à capitania para cancelar os documentos de saída, que não se realizou. Eles nos informaram que não é necessário fazer nada. Basta repetir o processo quando sairmos realmente. A tarde, na happy hour com o pessoal do clube, vou colhendo opiniões sobre como e onde deixar o San Marino, daqueles que conhecem o local, sócios do clube, donos de barcos etc. Isto em meio a historias do mar e conversa de varanda de Iate Clube. Acabamos saindo junto com o Rocha, diretor náutico do clube, para comer uma magnifica caldeirada, no restaurante do Careca, bem próximo. É um local muito simples, mas extraordinariamente bom. LOG ENTRY FOR: Friday, June 07, 2002 O Marius embarca hoje a tarde. Passei a manha rodando pelo iate clube a procura de uma solução para a poita. O Neto, chefe do pessoal náutico clube, encontrou, arrastando uma garatéia, duas poitas de 800 kg. Ele vai arrasta-las para a margem e quando a maré baixar poderemos observa-las. Pode ser uma solução. 16:00 Deixamos o Marius no Aeroporto. Ele foi excelente companhia, ajuda preciosa, ele que é profundo conhecedor do mar, das coisas náuticas e do San Marino. O crepúsculo, passamos no jardim de popa, curtindo o por do sol e as gaiolas que lentamente se movimentam pelo rio. LOG ENTRY FOR: Saturday, June 08, 2002 A moça que vai ajudar a Milena, deve chegar às 8:30. Vou busca-la com o Flexboat, que tem sido nossa condução. O Rocha nos chamou, lá fomos nós para o Iate Clube. Muitas historias de barcos e navegações. Em seguida, com o Flexboat, lá fomos nós para o outro lado do rio, a um bom restaurante encravado na floresta, onde comemos, ou melhor, aprendemos a comer magníficos caranguejos, depois Filhote na Brasa. O Filhote é um incrível peixe de água doce, grande a ponto de se tirar grossos filés, de carne branca e de textura semelhante ao linguado. Nada igual se encontra em água salgada. Açaí, pimenta com Tucupí, voltamos para o San Marino com um prato cheio de pequenos doces feitos pela mulher do Rocha. LOG ENTRY FOR: Sunday, June 09, 2002 Não é preciso falar do tempo. O dia amanhece sempre bonito, a temperatura sempre por volta dos 30 graus. Vamos hoje rodar pela redondeza, conhecer um pouco mais desta magnifica e acolhedora cidade. 22:00 Estamos de volta.
Fomos até Icoarací, uma praia a leste daqui, de lá até Mosqueiro, onde existem muitos barzinhos, praias e muitas casas de veraneio para os Belenenses ricos. Ao retornar ao clube, o pessoal insistiu para que sentássemos à mesa. Estavam o Carlos, com a namorada, o Paumgartem, o Rocha. Cervejas, caipirinhas. A Milena comentou que estava com desejo de comer camarão, e não tinha encontrado em Mosqueiro. Lá fomos todos para o "Zé do Camarão", outro restaurante simples imperdível. LOG ENTRY FOR: Monday, June 10, 2002 Cedo o Neto veio a bordo. A poita é boa, calculei sua massa pelas dimensões externas. Uma deve ter uns 1200 kg, a outra uns 600. As duas juntas vão formar uma amarra segura. Ele me pediu para comprar uma manilha de 5/8, é tudo. Passei boa parte do dia condicionando os dessalinisadores com bissulfito de sódio para deixa-los parados por longo tempo. Antes segui os procedimentos do fabricante para lavar as membranas com solução ácida e com solução alcalina. Troquei todos os filtros. Happy Hour no iate clube, depois patinhas de caranguejo no "O Dedão" com o Rocha, também muito bom. Tudo com suco de cupuassú. LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 11, 2002 Domingo passado, tínhamos convidado nossos amigos do Iate Clube para jantar a bordo, hoje. Então, é preparar alguma coisa, se bem que eles ficaram de trazer diversos pratos regionais.
Às 19:00 chegaram o Rocha, o Roberto Seabra e a Lea , do veleiro Aruã, o Guilherme Paumgartem e sua mulher Cristina, do barco Condessa Cristina, o Carlos Corrêa e a Fábia, do Iate Clube, e o Edson Carneiro (ex diretor do Iate Clube e campeão brasileiro de remo) e a Nete, sua mulher. O Edson trouxe camarão já cozido, delicioso, Guilherme um porquinho com farofa, de se comer ajoelhado. A festa rolou até altas horas. Lá se foi o estoque de Piton, a cerveja do Caribe que ainda sobrava, 2 litros do famoso Rum de Barbados, o Mount Gay, principalmente consumido na forma de T'Punch, como fazem da Martinica. Muito vinho, grappa, violão e musica. À meia noite comemoramos o aniversário do Edson, com champanhe. Relato a quantidade de álcool consumido para dar uma idéia da alegria que rolou esta noite.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 12, 2002 9:30 Veio o funcionário do Edson Carneiro com bombonas de plástico para recolher o óleo queimado de nossos motores, conforme ele nos prometeu ontem a noite. Passei a tarde trocando o óleo dos motores e instalando a nova bomba de troca de óleo que recebi no Caribe. Enquanto a Milena limpa os tapetes da casa de maquinas, dou uma boa limpada nos porões. LOG ENTRY FOR: Thursday, June 13, 2002 O Milton nos convidou para jantar no clube assembléia. É um belo clube com instalações magnificas. Quem nos levou foi o Ronaldo, locutor esportivo da radio local. LOG ENTRY FOR: Friday, June 14, 2002 O barco está preparado para ser deixado só. Tudo limpo e em ordem. 18:00 Estamos amarrados à nova poita. Por sorte entrou uma forte chuva com vento, 30 nós até agora, mais 2.5 nós de corrente, ambos no mesmo sentido. A poita agüentou firme, mesmo no primeiro dia, antes de enterrar. A poita está aprovada, vou viajar tranqüilo. LOG ENTRY FOR: Saturday, June 15, 2002 Telefona o Edson Carneiro: "estejam prontos passo aí de lancha para almoçarmos juntos". Logo em seguida ele chegou com sua bela Cobra, uma lancha de 30 pés com potente motor Volvo de nome "Da Nete". A bordo Milena e Nete, o Rocha, o Edson, eu. Costeando o Rio Guamá fomos até a Baia de Guajará, Estação das Docas, e de lá vimos Belém por mar (ou por rio) pela primeira vez, pois nossa entrada foi à noite. Atravessamos a Baia até a Ilha das Onças, onde entramos por um furo. Que paisagem magnifica, tudo intocado. As casas dos caboclos, muito distante umas das outras, sobre palafitas e sempre com várias canoas atracadas, meio de transporte de toda a família. Tudo muito limpo, muito em ordem, crianças brincando, nadando, os velhos sem nada a fazer, os adultos pescando, cozinhando, vivendo uma vida sem dinheiro mas invejável. Paramos para nadar num igarapé, de lá fomos a um restaurante que fica em outro furo, onde comemos muito, muito bem, tartaruga, peixe, açaí. Voltamos por outro caminho depois de um passeio inesquecível. A noite acabou em festa no San Marino, o Milton chegou com sua lancha, o Galatti encostou seu barco ao nosso e desembarcou com vários amigos. LOG ENTRY FOR: Sunday, June 16, 2002 Nosso ultimo dia a bordo, embarcaremos amanha para S.Paulo.
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