VIVA LA ESPAÑA!
De Land Rover pelos países Bascos - Pintando o Casco - Moraira - San Carles de la Rápita - Sitges - Chegou o Inverno
LOG ENTRY FOR: Tuesday, October 31, 1995
09:00 Tempo bom, 20° C.
Saímos do Varadero (local onde se encalham os barcos para reparos em espanhol) em nosso novo Land Rover Defender rumo à Madrid. A estrada é boa e o dia lindo.
14:00 Placa de sinalização indica estrada para Chinchon, onde estivemos ha alguns anos. Temos belas recordações. É uma cidade construída em torno de uma Plaza de Toros, com as casas de três ou quatro pisos feitas em circulo em volta da praça. Dos balcões assiste-se às touradas.
É de lá a famosa condessa de Chinchon, que trouxe o quinino do Perú para curar febre amarela.
É também a cidade do famoso Anis de Chinchon.
Mudamos de rumo (estamos a 50 km de Madrid) e fomos almoçar lá.
O Restaurante La Balconada é muito bom. Comemos o famoso Cochinillo, (porquinho assado) que estava delicioso.
Com tanta carne de porco não dá para seguir viajem. Pegamos quarto no Parador Nacional de Chinchon, e telefonamos para nossos amigos que nos esperavam para jantar em Madrid (Jesus e Maria) que viessem para cá. Bom disseram eles, pois só estivemos uma vez em Chinchon e sabemos que é muito bonita, alem de produzir excelente licor de anis (já tínhamos tomado alguns por essas horas).
Jantamos juntos à noite em outro restaurante em balcão, mas a comida não era tão boa quanto a do almoço.
Temos comido muito bem desde as Canárias.
Quando a Milena cozinha, são sempre novas receitas e se são as tradicionais vem enriquecidas pela qualidade dos produtos locais.
Ela procura escolher aquilo que é da estação, portanto melhor e mais barato.
Compra apenas a quantidade exata para nós dois.
Mesmo assim, comer em restaurante não custa muito mais.
Aprendemos a ir a restaurantes baratos onde se come bem, é uma das vantagens da Europa. Pode-se comer muito bem, principalmente se se pede o Menu do dia, garantia de que os produtos são frescos e bem feitos, porque também é o que eles comem, custa pouco e inclusive vem com vinho local, bem escolhido.
Pedimos sempre o vinho da casa. É uma possibilidade de se sentir novos sabores e enriquecer a viagem. E geralmente vai sempre muito bem com os pratos locais.
Estes restaurantes pequenos são operados só pelos proprietários, algumas vezes com os filhos.
Nunca mais fomos a restaurante de luxo com muitos garçons etc. e não estamos perdendo nada, ao contrario, creio que estamos comendo melhor.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, November 01, 1995
10:00 Tempo bom, 20° C.
Saímos de Chinchón com tristeza. Antes compramos uma garrafa do famoso Anis da Condessa de Chinchón.
18:00 Chegamos ao Parador de Hondarribia, já com uma forte impressão que a linda cidade onde agora estamos nos causou. Fomos jantar num pequeno restaurante perto do Hotel, razoável.
Estamos na fronteira com a França, no valente pais basco.
LOG ENTRY FOR: Thursday, November 02, 1995
10:00 Tempo bom, 20° C.
Saímos para conhecer San Sebastian (Donostia).
Fomos pela costa, por linda estrada com vista de montanha e mar.
Paramos primeiro em Pasai Donibane, cidade pesqueira próxima a San Sebastian. O Porto, uma garganta de mar muito bem protegida, abriga uma das cidades mais bonitas dos países bascos.
Victor Hugo morou lá. Caminhamos um bom tempo, sentindo a força da resistência basca pelos cartazes nos muros.
Em S. Sebastian caminhamos pelas ruas centrais, e comemos muitas "tapas" em um bar típico. Toda a população costuma a tarde ir aos bares comer tapas e beber vinho. Tapas são sanduíches abertos que são colocados sobre o balcão dos bares, e cada um pega o que quer.
Paga-se pela quantidade de palitos que sobraram, pois cada tapa tem um palito, se não tem há um paliteiro para ajudar na conta.
Voltamos à noite, cansados e felizes.
LOG ENTRY FOR: Friday, November 03, 1995
10:00 Tempo muito bom, 20° C.
Saímos pela manhã em direção à França. Passamos a fronteira onde o policial do lado francês olhou apenas a capa de nossos passaportes brasileiros. Nem se deu ao trabalho de olhar os vistos que tanto trabalho nos deu para tirar em Alicante.
Paramos em Saint-Jean-de-Luz, linda cidade logo após a fronteira. Um pequeno mas bem protegido porto, dentro de uma Bahia protegida por uma ilha fortificada. Local de muitas batalhas e muitos corsários.
De lá fomos até Biarritz e depois Bayonne, todas cidades lindas onde vale a pena ficar alguns dias.
Voltamos para almoçar as 17:00 em Sain-Jean-de-Luz, num excelente restaurante no porto, Txalupa , como chalupa em português. O basco contém muitas palavras similares ao português, ou vice versa.
Milena comeu uma linda Coquillage e eu um ótimo patê de canard e um peixe espada ao molho bernaise. Não podia deixar de pedir algo com este molho que tanto gosto, pois é desta região.
Depois da sobremesa bebemos o licor local, Izarra, do qual compramos uma garrafa. Encontra-se em dois tipos, o amarelo, mais doce, e o verde, mais seco. É feito de ervas com receita muito secreta.
Voltamos a noite para a Espanha, para o Parador de Hondarribia.
LOG ENTRY FOR: Saturday, November 04, 1995
10:00 - Dia limpo e claro, 20° C.
Decidimos hoje subir a costa, rumo Oeste. Uma pequena estrada nos leva junto ao mar com lindas vistas, rumo a Bilbao.
13:00 Primeiro Ondarroa, depois Lekeitio (em basco). A cidade é muito bonita. Almoçamos fantasticamente no restaurante Egaña recomendado pelo guia Fodors, e também pelo pessoal da cidade, pois perguntamos antes. O Bacalhau no azeite e alho que comemos nos pareceu o melhor de nossas vidas. Almoço perfeito.
A tarde estávamos em Gernika, a famosa cidade destruída por Franco com ajuda de Hitler, para quebrar a moral dos resistentes bascos.
LOG ENTRY FOR: Sunday, November 05, 1995
10:00 Tempo bom, 20° C.
Decidimos voltar à França. Desta vez o Policial quis ver nosso visto e carimbou o passaporte. Finalmente!
Fomos visitar a Marina que parece muito boa e razoável no preço.
US$ 600 por mês para nosso barco. Um dia chegaremos de barco aqui, para ficar mais tempo , pois gostamos muito da região.
Voltamos a passar por S.Jean de Luz, e fomos para o interior.
Almoçamos em Ascain, Restaurante le Chausseur, onde além do magnifico pato, bebemos um ótimo Saint Emilion.
Voltamos pelo interior, com lindas paisagens, e chegamos à noite.
LOG ENTRY FOR: Monday, November 06, 1995
09:00 Tempo bom, 20° C.
Saímos de Hondarribia, voltando para Torrevieja.
Passamos por Pamplona, que queríamos conhecer mais por Hemingway e pelos touros soltos. Como não estavam nenhum dos dois, apenas passamos pelo centro e fomos direto para Olite, em Navarra, Parador Nacional.
Usamos a tarde para passear pela cidade e conhecer o Castelo de Carlos III, um dos mais impressionantes castelos da idade média e mais bem reconstruídos que já vimos.
À noite, iniciamos pelo bar da torre, onde esquentamos com vinho e brandy (Lepanto, excelente) e acabamos jantando no Hotel Casa Zanito, muito bom, onde o excelente vinho tinto de Navarra (Casa Ochoa) foi consumido com muita alegria.
Olite é imperdivel, vale uma viagem!
LOG ENTRY FOR: Tuesday, November 07, 1995
10:00 Tempo bom, 20° C.
Saímos voltando para Madrid onde esperávamos retirar a bagagem desacompanhada que o Flavio nos remeteu do Brasil. Não a encontramos pois estava retida no Brasil, na Receita Federal.
Decidimos continuar viagem para Torrevieja
Dormimos em La Mancha, terra dos feitos de D. Quixote, no parador de Albacete.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, November 08, 1995
Chegamos de viagem as 13:00.
Fomos primeiro à Marina buscar todos os fax que chegaram durante nossa ausência. La estava o fax da empresa que faz letras em Vinil, com o nome San Marino a ser colado no casco, agora em preto.
Entramos em contato também com o despachante para liberarmos as peças que chegaram dos EEUU.
13:30 estamos no varadero. O casco já está branco. Impressão estranha. Parece que o barco perdeu personalidade. Vamos nos acostumar.
Ainda não pintaram com poliuretano. Está apenas na base. Temos que ir para um hotel.
15:00 Estamos no hotel Masa, a poucos quilômetros ao sul. Comemos muito bem no seu restaurante.
18:00 Voltamos ao varadero e subimos no barco para pegar algumas coisas inclusive o computador. Tudo em ordem por dentro.
Vamos dormir cedo, cansados
LOG ENTRY FOR: Thursday, November 09, 1995
10:00 Tempo bom, céu azul.
Milena foi ao cabeleireiro e eu ao barbeiro.
Abri uma conta na Caja de Ahorros de Murcia, pois necessitava reconhecer a firma de procuração para o despachante liberar nossas peças. Muito fácil abrir conta na Espanha. Não precisa de nada, apenas passaporte.
Lavei o defender num automático para lavar carros. Lavam muito mal, mas o preço é baixo: 450 pesetas, 4 dólares.
Voltamos ao Varadero. O casco está empapelado.
A pintura do fundo com tinta venenosa que eu tinha medo de ter sido mal feita esta O.K. Foi aplicada com pistola Airless.
13:00 Voltamos ao hotel, para arrumar todas as coisas que deixamos de fazer durante nossa viagem.
LOG ENTRY FOR: Saturday, November 11, 1995
10:00 Saímos hoje de Defender para conhecer o Mar Menor e Cartagena, com dia bonito como sempre.
Chegamos em Manga del Mar Menor na hora do almoço. Depois fomos a Cartagena e voltamos à noite. Nada de especial.
O contraste entre o norte da Espanha e o Sul, onde estamos é imenso.
Tudo aqui é artificial, salvo o deserto.
É feito para trazer turistas de nível baixo. Não há alma ou poesia, salvo nas lembranças das conquistas árabes.
LOG ENTRY FOR: Sunday, November 12, 1995
10:00 Tempo bom, 22° C.
Entramos para o interior rumo a San Miguel de Salinas, Torremendo e Murcia. Ao pedir informações sobre onde era a Catedral, um senhor distinto fez questão de nos acompanhar até lá. No caminho nos mostrou o Cassino, linda obra em que diversos estilos diferentes se misturam em varias salas.
A entrada é moura e magnifica. As pessoas da cidade se reúnem lá para ler na biblioteca, jogar xadrez, snooker, conversar ou comer, tudo muito em ordem. Vale a pena a parada em Murcia para conhecer o Cassino e a Catedral, que pegamos em hora de missa com belo órgão e boa voz de tenor.
LOG ENTRY FOR: Monday, November 13, 1995
Tempo bom, 21° C.
Saímos hoje do Hotel, e voltamos para o Varadero.
Ainda estão pintando mas agora é a borda falsa e dá para ficar no barco.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, November 14, 1995
Tempo bom, 22° C.
Fomos ao aeroporto de Alicante, buscar as peças.
Não deu ainda para liberar, pois faltam as letras do nome do barco.
Voltaremos depois de amanhã.
LOG ENTRY FOR: Thursday, November 16, 1995
Voltamos para buscar as peças no Aeroporto de Alicante. Agora sim conseguimos.
Para se ter uma idéia da burocracia por aqui, estes foram os passos necessários para trazer algumas peças dos EEUU para o barco, livre de alfândega, pois o barco está fora da jurisdição espanhola.
O valor era pequeno, por volta de 300 dólares.
Assim, comprei para entrega por correio. Como o correio aqui não funciona pedi embarque por Federal Express, que para o Brasil vai em 2 dias.
A mercadoria demorou uma semana para chegar ao escritório da Federal Express em Madrid.
De lá passaram-me um fax, para que entrasse em contato com eles.
Telefonei e fiquei sabendo que precisaria de um despachante alfandegário.
Nos indicaram um em Alicante (Rafael Gomes).
Demoraram uma semana para mandar as peças para Alicante.
Quando lá chegaram, o despachante me pediu:
Tradução da fatura;
Copia de várias páginas de meu passaporte;
Procuração passada para o despachante, com firma reconhecida.
Firma reconhecida, só em bancos.
Tive que abrir uma conta em um banco, só para reconhecer esta firma.
Tudo feito, fomos retirar a mercadoria. Antes demos o número da placa do nosso carro pois a mercadoria seria transportada nele, para o barco.
Tivemos também que fazer um depósito de 20.000 pesetas (+- US$ 160)
como garantia de que ao chegar em Torrevieja, onde estamos, iríamos diretamente à alfândega, apresenta-la ao administrador.
Pegamos a mercadoria e fomos informados que teríamos um prazo de 2 horas para entrega-la ao administrador.
Quando chegamos, ele não estava, e não havia ninguém no lugar. Procuramos a Policia dos portos que disse que não podia fazer nada. Passada as duas horas, deixamos o carro em frente a Alfândega e fomos almoçar.
Quando voltei, encontrei um senhor bem vestido que me disse: "o senhor não pode estacionar aqui". Era o administrador da alfândega, o qual não podia receber a mercadoria naquela hora, que voltássemos as quatro da tarde.
Antes disso porem ele veio até nosso barco, junto com a policia e gentilmente nos entregou a mercadoria, e logo ficamos amigos, pois fomos tomar um whisky juntos, inclusive o policial, em plena hora de serviço.
LOG ENTRY FOR: Friday, November 17, 1995
9:00 Tempo bom, 21° C.
18:00 Voltou o administrador a nos visitar. Foi muito simpático, tomamos uma cerveja e ele ficou de voltar segunda feira, quando tiver uma resposta sobre se pagaremos ou não o IVA (imposto) na pintura efetuada no Varadero.
LOG ENTRY FOR: Saturday, November 18, 1995
Afinal o barco desce para a água. O travellift quase não tem força para andar mas afinal sai.
Ficamos na piscina do lift.
Passamos a tarde limpando e arrumando.
LOG ENTRY FOR: Sunday, November 19, 1995
Passo o dia lavando a parte externa que está imunda. É exatamente um dia de
trabalho o que se necessita para limpa-la. A Milena limpa o interior.
LOG ENTRY FOR: Monday, November 20, 1995
Retiramos o barco da piscina e o levamos para o cais do posto de gasolina.
A Bateria do motor bombordo está descarregada. Por que será? Nossas baterias espero, deverão durar 10 anos, já tem 4, foram instaladas em novembro de 92.
As baterias do San Marino, são todas do tipo GEL, onde o eletrólito em vez de ser liquido é em forma de gelatina. Isto dá rigidez às placas e elas podem ser utilizadas tanto para serviços gerais, descarga lenta, como para partida de motores, descarga rápida.
Cada motor tem sua bateria dedicada, (200 A) inclusive o gerador.
Na ponte de comando temos 400A de baterias, exclusivamente para instrumentos de navegação e rádios. É por segurança, pois estão em nível acima do convés, e em caso de sinistro, estarão acima dágua até o barco afundar totalmente, permitindo a utilização dos rádios, etc.
As baterias acima são carregadas pelos alternadores dos motores (48 Ah), através de ponte de diodos. Assim um só motor funcionando carrega a bateria do outro e também a da ponte de comando.
O Banco de serviço é composto de dois conjuntos de baterias com 1200A cada. Cada um é carregado por alternador dedicado, de 200Ah.
Todo o sistema elétrico de corrente continua do San Marino está ligado a estes bancos de baterias que permitem vida normal a bordo, via inversores, durante 24 horas, sem necessidade do uso do gerador ou motores. Todas as baterias são monitoradas da ponte de comando por um minicomputador Balmar que informa % de carga, voltagem, temperatura, Ampères restantes, Ampères de descarga ou carga.
Nunca se deve descarregar uma bateria a mais de 50% de sua capacidade. Baterias Gel são muito mais resistentes que as de eletrólito liquido, mas mesmo assim deve-se tomar cuidado.
Também a carga a 100% de uma bateria é difícil de se conseguir, portanto ao calcular uma bateria deve-se levar em conta que apenas 25% da capacidade pode ser utilizada.
Dou a partida fazendo uma chupeta com o motor de Boreste.
Hoje são iniciados os trabalhos de polimento das partes que ficaram expostas por engano ao spray da tinta.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, November 21, 1995
Continua o polimento.
Fomos a Alicante retirar nossa bagagem que afinal chegou. Lá estava o Rafael, despachante, que nos ajudou.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, November 22, 1995
Saímos pela manha para a Marina. Navegação de poucos metros. Voltamos à mesma vaga de antes, popa para o cais.
LOG ENTRY FOR: Thursday, November 23, 1995
09:00 Tempo bom, 19° C.
Pela manha, fiquei colando o piso de proa e Milena foi ao supermercado.
À noite vieram nossos amigos ingleses do Toison d'Or (da Ilha de Mann, cuja bandeira possui três pernas em triângulo) , o Sid Higgins e a namorada. Grande bebedeira, até as 4 da manha. Eles cantaram muito, eu ao piano.
O Sid morou 5 anos em Malta, vendeu o apartamento que tinha lá e comprou um barco a motor de 55 pés, em péssimo estado.
Sem saber navegar, e mal escrever (ele é dislexo) veio costeando a África e pegou mau tempo. Disse que foi uma desgraça e nunca mais quer navegar. Está morando no barco aqui ha muito tempo.
Eles são ótimos e muito engraçados. Valeu.
LOG ENTRY FOR: Friday, November 24, 1995
09:00 Tempo bom, 18° C.
Passamos o dia de cama, de ressaca. Ainda deu para lixar e retirar um piso de proa.
A noite, vieram nos visitar, do Barco Norddhind dois holandeses, mas estávamos desanimados.
Eles vieram pelo Reno, num veleiro de aço de 36 pés. Estão agora com vontade de viajar pelo oceano, mas tem medo que seu barco não agüente. Vão voltar para a Holanda e vender o barco lá, (barcos de aço holandeses são os mais conceituados no mundo) e depois comprar um em Fibra de Vidro, para realizar a viagem que querem.
É a velha discussão de sempre.
Quando decidi fazer o San Marino, minha primeira opção foi faze-lo em aço. Não necessita molde, e é muito resistente, principalmente em relação à colisões com rochas. O aço deforma-se e cede não deixando entrar água. Os reparos também são mais fáceis, qualquer estaleiro em qualquer lugar do mundo sabe faze-los. Tanques de óleo são fáceis de fazer e acabam tendo capacidade maior que nos barcos em Fibra. São também fáceis de se identificar no radar e oferecem excelente terra para transmissão radiofônica.
Como pontos negativos uma péssima isolação térmica, a velha ferrugem que atualmente é um problema menor devido à alta qualidade das tintas empregadas e a quantidade de estrutura interna, que cria inumeráveis cantinhos e diminui o espaço aproveitável.
O David Napier, nosso arquiteto, me recomendou fazer o casco em Fibra de Vidro, com o seguinte argumento:
Ao vender, o casco de aço terá um valor muito mais baixo, pois além do mercado pedir Fibra de Vidro, não é possivel fazer uma inspeção em todo um casco de aço, que poderá ter alguns pontos de corrosão cobertos por tinta ou massa. O comprador nunca estará seguro do que recebe.
Além do que, disse o David, vou fazer seu casco muito mais forte que um de aço. Basta aumentar a quantidade de camadas de fibra. O casco do San Marino até um metro acima da linha dágua tem a espessura de 75 a 100 mm e acima desta quota 25 mm.
Me agradam também os cascos de alumínio. São realmente mais leves. Possuem um problema de aderência da pintura, que se não muito bem feita pode soltar-se em escamas. São também barulhentos, mas um bom isolamento térmico resolve também este problema.
Necessitam muito cuidado na fixação de válvulas, ferragem etc., para não haver contato elétrico entre o alumínio e outros materiais, desenvolvendo uma reação corrosiva causada por diversidade eletrolitica.
Já que estou no assunto, me agrada muito como robustez e poesia os cascos de madeira. Mas este nobre material, ha milênios utilizado na fabricação de barcos não é mais viável, seja pela destruição de florestas, seja pela raridade de boa madeira e também bons artesãos.
A temperatura baixa, 14 graus à noite
LOG ENTRY FOR: Monday, November 27, 1995
8:30 Linda manhã.
Estamos com proa a 132° e o vento sopra pela popa, N.W., força 2.
Dia bom, 1012 Mb subindo, 65% umidade, 10° C.
Passei o dia lixando o convés para preparar o piso Vetus.
Veio a Conchita, limpar o barco. Logo de inicio disse que iria enjoar.
Logo que a Milena saiu, deu um ataque de nervos na Conchita, que queria
ir embora. Só repetia aos berros: "Estoy fatal, estoy fatal!". Tive que leva-la para a Marina onde sentou-se e melhorou.
A noite, vieram nos visitar a Katy e o Tibor Schopper , dois húngaros simpáticos que vivem num veleiro, o Faun.
Eles vieram pelos rios, subindo o Danúbio, depois França, canal do Rhone, e aqui chegaram. Bonita viagem. Demoraram 17 anos construindo o barco em sua casa, sem saber se um dia poderiam deixar a Hungria, pois era proibido. Saíram à dois anos. Vivem muito apertados.
Foram roubados no mercado em Torrevieja, e perderam os passaportes.
Estão com problemas pois não estão mais deixando os barcos ancorarem no porto em Torrevieja, eles querem ir embora, mas não podem devido aos passaportes.
Depois de amanhã vamos ao barco deles comer "palatsinka".
Para mim a comida húngara é uma das melhores do mundo.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, November 28, 1995
9:00 Dia bonito, a temperatura continua caindo, 9 graus às 8:00
Pressão subindo 1012 Mb 67%. Ventos N.W., 5 nós.
16:00 Acabei de lixar a base do piso.
Iremos depois de amanhã para o Varadero novamente, acabar a pintura da proa.
O Grêmio é campeão mundial de futebol. Vimos pela TV. Deve estar uma festa em Porto Alegre.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, November 29, 1995
09:00 Dia nublado, mas o sol aparece.
Temperatura 12° C, 1012 Mb estável, 74%, ventos N.W., força 1.
Colei finalmente todos os pisos.
O vento mudou às 14:00 - SE, força 3
18:00 Fomos jantar no barco FAUN, do Tibor e da Katy.
Comemos maravilhosamente. Goulash com feijão, palatsinka (panquecas) com chocolate, com baunilha e com geleia. Uma delicia.
Telefonamos para a Maria em Madri, para ver se ela pode ajuda-los, na questão do passaporte perdido.
LOG ENTRY FOR: Thursday, November 30, 1995
08:00 Dia bonito.
Barômetro caiu para 1010 Mb, hum 72%, temperatura 13° C. Ventos N.W., força 1.
Vamos levar o barco para o varadero, terminar a pintura da proa.
9:00 Encostamos no varadero.
A bateria do motor de bombordo está O.K. Era só falta de carga.
Encontramos, também chegando o norueguês e sua mulher, do barco Peik, um lindo motorsailer de 35 pés, feito por ele em madeira.
Ele esta fazendo testes de estabilidade para receber a bandeira espanhola, a fim de poder ficar na Europa por mais tempo.
Fomos ao supermercado, e na volta o Tibor e a Katy vieram ao nosso barco para usar a oficina e fazer umas peças de Inox. Ele é um bom mecânico, muito rápido e inteligente, e não mede nada. Faz tudo no "olho". Interessante.
LOG ENTRY FOR: Friday, December 01, 1995
10:00 Dezembro se inicia com dia claro depois da primeira chuva em 5 meses.
Aqui é realmente seco!
O barômetro subiu rapidamente para 1018 Mb, umidade 74%, 16° C, ventos N.W. força 1
Passei o dia limpando a casa de maquinas.
A Milena foi fazer compras para o jantar. Virão a Katy e o Tibor.
O jantar foi excelente. Comemos como loucos. 600g de espaguete a Matriciana, especialidade da região da Milena, com 4 garrafas de bom vinho Penedés.
Muito bom.
LOG ENTRY FOR: Saturday, December 02, 1995
9:00 12° C, volta a baixar a temperatura. O barômetro sobe ainda mais, para 1024 Mb. Umidade 80%, ventos N.W., força 1.
É a frente fria que passou. Teríamos bom tempo para a viagem que estávamos para fazer amanhã, mas teremos que adiar pois a pintura da proa só ficará pronta na segunda feira.
Vamos dormir cedo.
LOG ENTRY FOR: Sunday, December 03, 1995
10:00 Temperatura 14° C, barômetro caiu um pouco para 1021 Mb.
Umidade 70%. Ventos N.W., força 3.
Aproveitei o inicio da manhã para testar o aquecimento no barco todo.
O camarote de bombordo está com pouca saída de ar. Deve ser entupimento durante a construção. Vou verificar.
Pela primeira vez o barco está totalmente aquecido É o sistema elétrico que funciona bem. O sistema com queimador de diesel ainda não está instalado.
Continuamos nos preparando para a viagem e para o inverno.
Arrumei o Avon, cujo motor pegou de primeira. Estava parado desde Cabo Verde.
Refiz o estropo que tinha sido roubado lá.
Para subir e baixar os infláveis que estão no Flybridge, a 5 metros do nível da água, temos dois guindastes, um a bombordo e outro a boreste, um para cada bote. São elétricos com capacidade de 400 kg cada, e funcionam à perfeição.
Na proa temos um terceiro guindaste, com capacidade para 700 quilos, que serve para carregar e descarregar a despensa de proa no anteparo de colisão e também o porão de proa. Lá estão leme, pé de galinha, hélices, motor de popa, ancora de tempestade, corrente extra, tudo de reserva e que posso, com este guindaste, manejar sozinho.
Os estropos que fiz inicialmente para levantar os botes eram a principio em cabo de aço inoxidável. São difíceis de fazer, difíceis de manejar, e soltam fiapos que podem cortar as mãos. Agora refiz com corrente. É muito melhor e facílimo de ajustar.
LOG ENTRY FOR: Monday, December 04, 1995
08:00 Barômetro caindo 1016 Mb umidade 70%, temperatura 14° C, vento S.W., força 2;
12:00 Barômetro caindo 1015 Mb, vento N.W., força 2.
A previsão é de ventos fortes à noite, assim não vamos sair nem hoje nem amanhã, para isto não somos veleiros.
Foi muito difícil decidir se faríamos um veleiro ou não. A favor estavam a beleza de uma navegada a vela, a autonomia ilimitada, a saúde de se viver ainda mais em contato com o mar.
Contra: Muito menos espaço a bordo, toda uma mastreação para se conservar e manter mesmo se parados em uma marina e a maior dificuldade em um reparo em alto mar.
Poderíamos ter um meio termo, um motor sailer, mas o custo de um mastreamento seria maior que um segundo motor e o problema de seu desgaste (no mínimo a cada 10 anos precisa ser refeito) é o mesmo de um veleiro.
Decidimos pelo motor ao considerar que 10% do tempo estaremos navegando, o resto em ancora ou marina.
Ganhamos com a decisão por poder escolher sempre dias calmos e sem ventos e assim navegar com tranqüilidade.
Para velejar nas horas vagas, nada melhor que um bom "Lazer".
17:00 Barômetro a 1010 Mb, umidade 60%, chove um pouco.
Encontramos o casal de húngaros. O cônsul telefonou à eles e resolveu o problema do passaporte. Graças à Maria Jesus, nossa amiga de Madrid.
À noite veio um americano louco de Massachussets, que viaja com a mulher e um casal de papagaios. Eles não podem deixar o barco nunca pois os pássaros não podem ficar sozinhos. Conhecem assim só as cidades da costa, onde param.
18:00 O barômetro chegou a 1014 Mb e começa agora a subir.
Durante o dia fiz a manutenção dos infláveis e coloquei bússola e GPS no Flexboat.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, December 05, 1995
09:00 Amanhece frio, 11 graus. Barômetro continua caindo 1007 Mb. Umidade 68%, ventos força 1, N.W.
A previsão do Meteofrance furou, pois o tempo está bom. Diz que será hoje a tarde, o inicio de tempestade. Veremos.
De todos os modos o Varadero ainda não terminou nosso serviço, pois choveu ontem.
Não houve nenhuma tempestade, o tempo melhorou, abriu.
Vieram à noite os húngaros e fizemos um passeio a pé pela cidade.
Combinamos de amanhã ir a Lorca, e convidar os americanos.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, December 06, 1995
09:00 Temperatura 10.5° C, volta a esfriar.
O barômetro sobe, 1009 Mb, umidade 62%. Ventos fracos N.W.
O tempo deve melhorar. Talvez possamos sair amanhã à tarde.
Saímos em passeio de Defender junto com os húngaros e os americanos que agora sei o nome, Michael e Susan Comparone, do veleiro Trilogy, 44 pés. Eles vieram de uma pequena cidade, 40 milhas ao norte de Boston.
Ele anda de calção e camiseta cavada, quando todos, inclusive os alemães estão de casacão.
Fomos para Lorca, depois a Múrcia.
Eles foram ótima companhia, e voltamos as 18:00 para a Katy fazer uma
palatsinka em nosso barco onde ficamos bebendo e comendo até as 24:00.
LOG ENTRY FOR: Thursday, December 07, 1995
09:00 Temperatura 11° C, barômetro estável a 1009 Mb, umidade 72%.
Ventos N.W., força 1.
Vieram a bordo o Sid e sua mulher, e o Michael que nos trouxe duas penas de seus papagaios (Moluccan Cockatoos) brancos, Buddy & Kukla.
Vieram se despedir, pois pretendemos partir amanhã.
Acabo de descobrir, ao trocar o rotor da bomba dágua de um dos motores que as peças de reposição que tenho a bordo não servem. Bem sabia que devia ter experimentado todas antes da viagem, mas o tempo foi curto. Vou ver se consigo troca-las por aqui.
Enquanto estive fora o Sid voltou com dois pedaços de bacalhau fresco que deu de presente para a Milena. Simpático!
Encontrei 4 peças e consegui trocar 2 das antigas.
O motor de boreste está O.K., mas a chuva continua. Vamos ver amanhã cedo.
LOG ENTRY FOR: Friday, December 08, 1995
8:30 1010 Mb, 80% hum, 10C, sem ventos.
O tempo parece bom, vamos afinal sair.
10:00 A Katy vem nos avisar do tempo (ela tem mania de meteorologia), que o tempo estará bom como todas as previsões.
10:10 Soltamos amarras, rumo a Moraira.
10:48 Estamos fora da barra de Torrevieja, testando a performance do San Marino com tanques cheios e casco recém pintado.
11:00 Estamos em velocidade de cruzeiro, 9.5 nós por LOG e GPS, 28 lph cada motor, mar calmo.
12:00 1012 Mb, 77%, 14.5C ventos W, força 2, Farol do Cabo de S.ta Pola em nosso través de bombordo.
13:20 Alicante no través de bombordo.
14:00 O vento roda para SE, força 4. O mar piora.
15:00 Benidorm em nossa bochecha de bombordo.
Chuva no radar través de BE a 3 milhas.
Mar moderado.
15:30 Benidorm, Ponta de la Escaleta, bonita e rude.
16:11 Cruzamos o Meridiano de Greenwich. Estamos no Leste, 000° 008"E.
17:15 Contato por VHF, canal 9 com porto de Moraira.
17:30 Entramos com vento força 6. Graças ao auxilio dos marinheiros de terra, atracamos sem problemas, mas o vento está forte.
Manejamos, Milena e eu, sozinhos o San Marino. É um barco de 20 metros (65 pés) e 65 toneladas de deslocamento. Não há problemas para navegar, ancorar, atracar de costado ou mesmo de popa se podemos lançar a âncora, pois o cabrestante é elétrico com controle remoto.
Mas para atracar de popa pegando corpo morto, só com pouco vento, com força 6 não dá.
Ao nosso lado, 4 espanhóis num Benetteau 45 pés pedem ajuda para checar a ligação elétrica de terra. Ligaram em 380 volts e queimaram todos os aparelhos elétricos de bordo.
20:00 fomos jantar num restaurante chinês onde ficamos amigos do Mike o pianista, um inglês que toca muito bem, de ouvido. Virá nos visitar.
Comemos ótimo pato a peking e nos divertimos com um Buda sorridente
muito kitsch, e com a mesma cara do garçom chinês.
LOG ENTRY FOR: Saturday, December 09, 1995
8:30 Barômetro subindo , 1015 Mb. Umidade 79%, temperatura 12° C, ventos N.W., força 2. Choveu bastante a noite toda e ainda continua.
Estamos atracados popa contra o cais, proa 37 graus, posição 38° 4115" N, 0° 0807"E.
9:30 vamos ao escritório da Marina registrar nossa chegada e buscar o Defender em Torrevieja
Saímos em taxi para pegar depois um ônibus, mas são três a trocar até chegar a Torrevieja. Decidimos seguir no taxi para não perder a festa Moros e Cristianos que será hoje, em Moraira.
13:00 Chegamos a Torrevieja depois de um longo papo com o motorista.
Sempre é engraçado conversar com motoristas de taxi. São normalmente conservadores e reacionários.
Despedimos dos amigos e voltamos para Moraira,. onde ao chegar a Milena, de cansada, dormiu. Não importa, veremos domingo o que sobrou da festa.
LOG ENTRY FOR: Sunday, December 10, 1995
10:30 16° C, 1021 Mb, 79% umidade, ventos N.W. força 2.
O dia amanhece claro e bonito depois de uma noite de temporais com muita água, lembrando as fortes chuvas do Brasil.
Aproveito para lavar todo o barco, e também o carro.
Está frio mas dá bem para ficar molhado.
16:00 Saímos para conhecer a região, a pé.
A baia é lindíssima, a vila (três ruas) muito charmosa.
Fomos comer mariscos e paella à beira da praia, que no frio não tem turistas e está deserta. Local encantador, um dos mais belos que encontramos até agora.
LOG ENTRY FOR: Monday, December 11, 1995
9:00 - 15° C, 1020 Mb estável, 77%, ventos fracos rondando.
Troquei o rotor da bomba dágua do motor e procurei as duas goteiras que a chuva fortíssima mostrou. Espero ter localizado-as.
Jantamos na pizzaria Roma, boa e comemos umas ótimas tortas em uma doceira, cafeteria Liz-Mar, antes de dormir.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, December 12, 1995
09:00 Temperatura 14° C 1018 Mb, baixando, 80% hum, Ventos fracos.
13:00 Saí para dar um passeio. Na volta, encontrei o Mike (o pianista) que procurava nosso barco. Passamos a tarde juntos, e ele tocou bastante em nosso teclado de bordo. (Não que eu pedisse, mas ele queria experimentar). Foi agradável.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, December 13, 1995
09:00 11° C, barômetro caindo 1013 Mb, umidade 75%, ventos N.W., força 2.
À noite fez 7 graus. Foi a mais fria até agora. A máxima do dia foi 19° C.
Passamos o dia passeando até Javea, Altea (linda cidade antiga) onde tomamos uma caipirinha autentica com Velho Barreiro. Saudades do Luis Rosa.
Almoçamos em um restaurante Indonésio.
LOG ENTRY FOR: Thursday, December 14, 1995
1010 Mb, 14° C, a mínima foi de 10° C. Umidade 90%, chove.
Ventos força 4 N.W. Temperatura máxima do dia 14° C.
Passamos o dia arrumando diversas coisas. A Milena acabou a faxina geral e eu reformei o evaporador do ar condicionado de proa que estava com ferrugem pois tinha levado água salgada na travessia do atlântico.
LOG ENTRY FOR: Friday, December 15, 1995
08:30 11° C, também a mínima da madrugada. 1005 Mb, barômetro caindo.
Umidade 80% Ventos N.W., força 2. Máxima do dia 17° C.
Choveu a noite toda, continua chovendo.
Ao levantarmos, todos os dias, ligamos o aquecimento de nossa cabine, depois o da lavanderia (que aquece toda a proa no casco), o da Ponte de Comando e o da Sala. Em 10 minutos, a temperatura interna sobe de 13° /14° C para 22° C. Muito eficiente até agora o aquecimento elétrico.
Estou instalando o aquecimento a óleo diesel, que consiste num queimador de óleo, que aquece água, a qual impulsada por uma pequena bomba, circula por todos os radiadores dos evaporadores do ar condicionado. As turbinas de ar do ar condicionado (individuais em cada ambiente) ligam e desligam controladas por um termostato, mantendo assim a temperatura estável. O sistema foi projetado para temperaturas árticas. Vamos ver se funcionará bem. Aquecendo com óleo, gastamos menos energia elétrica e temos aquecimento sem gerador ligado, só com as baterias.
Jantamos no chinês e encontramos o Mike. Ele tocou belas musicas para nós.
LOG ENTRY FOR: Saturday, December 16, 1995
11:00 16° C, 1008 Mb, umidade não confiável pois liguei o aquecimento à 3 horas, Ventos N.W. força 2, mínima 11° C. Máxima 27° C.
Acabei de consertar o ar quente da cabine de proa.
Milena acabou a grande faxina que tinha iniciado.
O San Marino está melhor que quando novo.
LOG ENTRY FOR: Sunday, December 17, 1995
09:00 Dia lindo novamente. Não é normal nesta região tanta chuva.
O Mike que mora aqui a 3 anos disse que só pegou 10 dias de chuva.
Mas agora parece que acabou.
O barômetro subiu muito, agora 1016 Mb, Temperatura 15° C, umidade 75% ventos força 1, NE. A mínima da noite foi 10° C.
Máxima do dia 28° C.
A marina aqui é quase perfeita. Temos apenas um problema com os cabos que prendem nossa popa ao cais, que rangem toda a noite. Como nosso camarote fica à popa, atrapalha o sono. Os cabos são de nylon, portanto elásticos, e ao se estenderem roçam em si mesmos, nas voltas que damos no cunho. Vou ser se acho uma solução.
Na Europa, atraca-se popa ao cais, eventualmente barcos maiores, como o San Marino, são atracados de costado, que é mais fácil.
Também é ruim estar de popa ao cais porque a ventilação e a vista pelas vigias fica fechada pelo barco ao lado. Mas o sistema poupa espaço que por aqui é pouco. Aqui onde estamos (Moraira) cobra-se pela boca do barco e não pelo comprimento.
O sistema é interessante pois existe um cabo longo que liga o cais ate o cabo de proa, que por sua vez está ligado numa poita ou corrente pesada.
A chegar pega-se o "morto", que é este cabo e levantando-o chega-se à poita. O Cabo vem sujo e cheio de cracas, portando é bom usar uma luva.
Compramos uma para isto, mas nunca usamos, devido a correria na atracagem.
Quando há vaga livre ao lado, pegamos também o morto dela, ainda melhor se na direção de onde vem o vento. Assim ficamos com duas poitas à proa.
A popa, como não ha maré por aqui, fica sempre com muita tensão nos cabos. O pessoal usa umas molas para amortecer o tranco. Estou querendo entender bem como funcionam para poder utiliza-las.
13:00 Saímos com o Defender para Denia, onde meu ex cunhado Sepp tinha uma casa. Ficamos uma vez lá hospedados por mais de um mês à 20 anos atras.
Não conseguimos encontrar a casa, mas almoçamos esplendidamente no restaurante galego (La Barra) e depois passeamos por Javea e Teulada.
São duas pequenas cidades muito românticas, que vale a viagem para conhece-las. A igreja de Javea é uma incrível obra em pedra, muito austera e bem proporcionada. Não é comum na Espanha encontrar austeridade.
LOG ENTRY FOR: Monday, December 18, 1995
12:00 Min 10° C, atual 20° C, barômetro subindo 1020 Mb.
Umidade 50% mas dentro, com ar quente desde a manhã, não vale.
Máxima do dia 21° C.
Acordamos tarde, ficamos na cama conversando. Boa preguiça.
Acabei o projeto da calefação por óleo e fomos a Javea comprar as peças.
Encontrei tudo menos as mangueiras de borracha. Já dá para começar o serviço.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, December 19, 1995
10:00 12° C, mínima 9° , barômetro caindo, 1005 Mb, umidade 70%.
Ventos força 2 N.W., Máxima do dia 24° C.
Continuo trabalhando na calefação e Milena passa óleo nas madeiras do verdugo e do guarda mancebo.
Almoçamos às 15:00 e depois fomos à vila sacar dinheiro, pagar a Marina e telefonar para o Carlão que está querendo falar comigo.
Ele não estava.
19:00 voltamos para telefonar para o Carlão que ainda não tinha chegado.
Fomos ao bar do Clube Náutico tomar um drinque. Ficamos logo amigos de um casal de alemães, o Ingo e a Gisela, que como sempre ficam muito surpresos de encontrar estrangeiros que falam alemão.
Eles estão acostumados a viver só entre eles, devido ao problema da língua e talvez também por alguma segregação típica européia.
Conosco é diferente e eles gostam.
Acabamos jantando juntos, um arroz com peixe, e bebemos bastante.
Acabamos a noite bem cedo (21:30) o que para eles estava tardissimo, em nosso barco.
É que eles são de uma cidade perto de Hannover, portando conservadora, mas eles não parecem sê-lo. Estão aqui para comprar uma casa, pois a Gisela sofre de um tipo duro de reumatismo que o calor pode mitigar.
Vamos nos encontrar novamente amanhã.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, December 20, 1995
08:30 Manhã bonita de céu azul sem nuvens. Temperatura 11.4° C, umidade 75%
Barômetro estável , 1004 Mb, mínima da noite 11° C, ventos N.W. força 2.
Máxima dia 31° C, que inverno!
Passamos o dia com o Avon no mar, passeamos e passamos óleo de linhaça nas madeiras.
No San Marino, não temos madeiras externas com verniz. Sem dúvida é mais bonito, mas o verniz esterno, no mar, dura muito pouco, e se não é refeito constantemente, precisa ser completamente raspado antes de se dar novas demãos. Assim decidimos usar madeira resistente ao tempo (Ipê) que não precisa nenhum tratamento. Com o tempo ele vai ficando claro, mas sempre resistente. Para melhorar a aparência, aplica-se óleo de linhaça misturado com meia parte de água raz (terebentina).
Internamente temos todas as madeiras (mogno) envernizadas com verniz poliuretano com filtro solar. São já três anos e tudo está perfeito. Para ter uma aparência sempre nova, pode-se as vezes passar uma leve camada de cera liquida.
LOG ENTRY FOR: Thursday, December 21, 1995
09:45 17° C, 1017 Mb, 75%, sem ventos. Dia limpo e claro com altos cirrus.
Mínima da noite 11° C - Máxima do dia 22° C.
12:00 Saímos no Defender para conhecer Alcoy.
Paramos em Benissa para comprar uma mangueira para instalar o aquecedor de água e encontramos uma loja de ferragens incrível, (Belaire) com tudo que existe.
De lá fomos até Altea La Vieja, pequeno povoado antigo, depois para Guadaleste. Não se deve perder. As montanhas são fantásticas e parece que todos os habitantes se dedicam à miniaturização.
Existem museus das coisas pequenas, lindos presépios mecanizados, maquetes de castelos, casas, etc. Foi interessante o museu de Antonio Marco, onde tudo foi feito com matérias naturais.
De lá falamos por telefone com o Carlão. Soubemos com entusiasmo que ele foi buscar seu barco, o Santa Maria nos Açores e o levou até o arquipélago de Madeira. Deverá no Carnaval leva-lo para Canárias, talvez até o Brasil.
Voltamos via Alcoy.
Alcoy é uma cidade de porte médio, muito bonita e cheia de alegria.
Transmite uma impressão de calma e organização.
É o norte que está se aproximando. Ainda estamos em Alicante mas o espirito da Catalunha se aproxima.
Voltamos pela mesma estrada, à noite.
Jantamos chocos com alho, feitos pela Milena. Estavam deliciosos.
Chocos são Lulas grandes como uma bola de tênis. Muito saborosos.
LOG ENTRY FOR: Friday, December 22, 1995
09:30 Mínima da noite 12° C, atual 16° C, umidade 75%, 1005 Mb caindo ligeiramente.
Ventos S, força 2. Céu nublado, altostratus, indicadores de mau tempo no mar.
Vamos ver.
Máxima do dia 17° C.
Estou iniciando meu aprendizado de meteorologia, usando o livro de meu amigo , Capitão de Mar e Guerra Geraldo Luiz Miranda de Barros, o Miranda. (Meteorologia para Navegantes).
Entre os diversos livros de meteorologia que possuo, parece-me o mais fácil e claro, assim como o é o famoso Navegar é Fácil, do mesmo autor, e também o seu Navegação Celestial, com o qual apreendi a navegar pelas estrelas.
LOG ENTRY FOR: Saturday, December 23, 1995
10:30 Mínima da noite 15° C, atual 18.4° . Barômetro caindo ligeiramente, 1010 Mb, umidade 75%, ventos S força 2. Máxima do dia 19° C.
Passamos o dia no barco, eu instalando a aquecimento, a Milena arrumando e limpando.
Almoçamos Canocchi, eram muito magros, porem bons.
LOG ENTRY FOR: Sunday, December 24, 1995
09:00 Mínima da noite 15° C Temperatura 19° C, umidade 78%, Ventos S, força 2, barômetro caindo 1011 Mb.
Céu coberto, altostratus, deverá continuar o mau tempo no mar.
12:00 Abre-se um céu azul com Stratocumulus e Altocumulus. Máxima do dia 21° C.
17:00 saímos para conhecer Benidorm. É véspera de natal.
A cidade está elétrica, muito animada, o ambiente é ótimo.
Fizemos nossa ceia de natal as 18:00 no MacDonalds. Muito engraçado.
Benidorm também é uma cidade feita para turistas sobre a base de uma velha vila mas não sei porque, sentimos lá um ambiente melhor.
Pode ser a época, ou porque estamos mais ao norte.
Voltamos passando por Altea La Vella.
Falamos por telefone com o Flávio. Morreu o Astor, nosso Cão Rotweiller que deixamos no Brasil.
Falamos também com o Carlos, que estava de saída para passar o Natal no norte dos EEUU com os parentes de sua mulher a Lori.
Todos bem.
LOG ENTRY FOR: Monday, December 25, 1995
10:00 Mínima da noite 14° C 1010 Mb, 75%, atual 18° C, ventos S força 3, máxima 21° C.
Céu caótico
Passei o dia de cama, com febre, talvez por intoxicação alimentar.
Milena usou pela primeira vez a maquina de fazer pão. Funciona maravilhosamente. Fez um pão delicioso, em 4 horas, mas como pode ser programada, poderemos ter pão fresco diariamente pela manhã em qualquer lugar do mundo. O pão aqui na Espanha não é bom, assim como na Itália também não o é. A máquina é uma boa saída.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, December 26, 1995
11:30 Continuamos levantando tarde. É o inverno, a preguiça e o fato de estarmos aprendendo a viver no barco. Somos livres e podemos fazer o que queremos sem dar satisfação a ninguém.
Que diferença faz levantar cedo ou tarde. O importante é como se vai vivendo, em paz com aquilo que a gente faz.
Mínimo da noite 17° C. Agora está 19° C, 1005 Mb, continua caindo, 75% umidade, ventos S.W., força 2.
Máxima do dia 28° C.
Ventou muito a noite, força 5 aqui na Marina, imagine lá fora.
16:00 Saímos com o Defender, fomos novamente a Guadaleste. Chegamos lá à noite, pensamos que era mais perto. Passeamos um pouco, tomamos um chocolate quente e voltamos. O vento estava demais, talvez força 10 lá em cima. Por isto venta pouco aqui na Marina, as montanhas do complexo do pico de Aitana (1550m) protegem a costa dos fortes ventos de oeste.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, December 27, 1995
09:00 13° C, umidade 65%, 1008 Mb, céu nublado, Stratocumulus.
Mínima da noite 12° C, máxima do dia 16° C.
À noite veio um casal de dinamarqueses que vieram pelos rios da França com sua filha de 7 meses. Na Dinamarca, ao se ter um filho, entra-se em férias por um ano, junto com o marido e com pagamento do governo.
Assim, resolveram ficar viajando este período.
O Mike e Marie, do SY Skibreunen jantaram conosco e bebemos bastante.
LOG ENTRY FOR: Thursday, December 28, 1995
9:45 - 14.5° C, 70%, 1008 Mb, estável. Sem ventos.
Céu de cirruscumulus, sinal de bom tempo.
Mínima da noite 13° C.
Decidimos sair amanhã cedo e ir para Seles.
É o ponto mais distante que posso atingir, navegando sozinho.
A Companhia de seguros (LLoyds de Londres) só permite que eu navegue sozinho de dia, com tempo bom, e no máximo 80 milhas.
Como a Milena vai levar o Defender, estamos limitados.
19:00 aparecem o Mike e a Mulher para se despedir.
Acabam entusiasmados decidindo ir junto conosco, ela de carro com o neném e a Milena.
Ótimo, assim posso aumentar o trecho!
10:00 vamos dormir um pouco para sair a 01:00 de amanhã.
LOG ENTRY FOR: Friday, December 29, 1995
00:00 Acordei com despertador para sairmos rumo a Vinaroz.
O tempo é duvidoso, mas a possibilidade de ser razoável até lá é boa.
A viagem demorará 15 horas, serão 120 milhas.
Iremos costeando pois o vento é S.W. e a costa nos protegerá.
Temperatura 15° C, 1015 Mb, 65% de umidade relativa, tempo bom céu de estrelas sem nuvens.
01:00 O Mike aparece, antes de eu ligar os motores. Ajuda com os cabos e saímos a 01:20.
A noite é bonita, estrelas e lua.
A Milena vai de Defender, junto com a mulher do Mike e o neném.
Antes vai dormir um pouco, até amanhecer, no barco deles.
Creio que será uma viagem muito mais difícil que a nossa.
2:00 pergunto ao Mike "Quer alguma coisa?"
Sim diz ele, um café.
Fiz um péssimo café com Nescafé, nunca tinha feito. Saiu horrível.
Porem quando depois eu perguntava "Mike quer alguma coisa?" a resposta era rápida "Não obrigado" Pode ser uma boa tática, a do café.
04:09 Estamos na altura de Denia, o mar está calmo e os ventos de S.W., força 5.
5:48 Cabo Culera a 280 graus, o mar piora e bate de través.
O San Marino rola um pouco
7:17 Começa a clarear, mas o sol só vai nascer às 8:34.
Valência em nosso través a bombordo. O mar está mais pesado e rolamos muito. Mudo o rumo para chegar mais perto da costa.
8:41 Estamos perto de Farnals, a tática deu certo, o mar está calmo.
Retomamos nosso rumo para Vinaroz, agora com mar de popa.
A viagem está calma e agradável.
Preparo sanduíches e chocolate quente, o Mike perde um pouco o medo de minhas habilidades culinárias.
12:00 Estamos na altura de Castellon. O Mike dorme na sala.
À noite dormimos cada um pouco, algumas poucas horas.
Agora ele está descontando, depois vou eu.
14:45 Altura de Puerto de las Fuentes.
15:08 Peñiscola, com seu lindo castelo. Passamos perto, desviando constantemente das bóias das redes de pesca.
16:00 Chegamos pontualmente em Vinaroz.
A Milena ainda não chegou. Vamos ao Iate clube, mas nos informam que não podemos lá ficar devido a nosso tamanho. Nos dirigimos ao porto comercial onde paramos. Enquanto atracamos a Milena chama pelo rádio e logo em seguida chega.
Há varias pessoas no cais que nos aconselham ir para San Carles de la Rápita. Dizem que é um porto maior e haverá lugar para nós.
Decidimos não ficar, e ir para lá, a mulher do Mike e o neném estão agora a bordo.
Estamos novamente navegando, o trecho é curto, uma hora.
O Mike pede à Marie que faça uma café, ele precisa! Feito o café, vem junto ao primeiro gole um novo grito. "SALT", ela tinha posto sal no café. Não era o dia do café do Mike.
18:00 Entramos na barra de Saint Carles e atracamos junto ao posto de gasolina. Pela primeira vez estou usando minha escada de portaló, no costado.
Quase cai ao para o mar ao coloca-la.
Para atracar de popa temos uma passarela que é removível. Ela possui degraus e é muito segura, ninguém escorrega.
Para atracar de costado, como estamos agora, sempre a altura do cais tem sido próxima à de nosso casco. Aqui entretanto o cais é muito baixo, a 50 cm da água. Nossa escada se adapta ao portaló e sobe ou desce comandada por um cabo em roldanas.
20:00 saímos para jantar juntos na cidade que está bem vazia. Lugar agradável.
LOG ENTRY FOR: Saturday, December 30, 1995
08:45 Estamos em Saint Carles de la Ràpita, 40° 366"N, 0° 364" E, já na Catalunha.
Proa 127° , profundidade 2.9 metros.
Temperatura mínima da noite 12° C, atual 14° C, máxima do dia 17° C
Barômetro caiu muito, 1001 Mb, umidade 78%, ventos força 3, N.W.
Tomamos café da manha juntos e fomos leva-los para Moraira outra vez.
A viagem foi longa e voltamos às 11 da noite.
No caminho paramos em Sagunto, antiga cidade romana onde o teatro foi reconstruído de forma estranha mas satisfatória.
É uma cidade de ruas estreitas e tortuosas.
LOG ENTRY FOR: Sunday, December 31, 1995
10:00 Fim de 1995. Chegamos no fim do ano com temperaturas altas para estas épocas e latitudes.
18° C, mínima da noite 13° , barômetro estável a 1000 Mb, baixo, umidade 65%, ventos força 2 S.W. Cirrostratus com 30% de buracos azuis.
Máxima do dia 19° C.
Depois da viagem é preciso lavar o barco por fora. Está cheio de sal, pois o vento e o spray eram fortes. Lavei todo o casario e proa em 4 horas.
Estou aprendendo. Milena deu uma ordem na bagunça feita pelos dinamarqueses e limpou o barco por dentro.
O dia foi lindo e o por do sol (18:00) esta incrível.
O porto de S. Carles é muito romântico, pois é quase todo tomado pela frota pesqueira local que é muito grande. Ha um clube náutico , mas estamos atracados junto ao posto de gasolina pois nosso barco é muito grande para usar as instalações do clube.
Como estamos de costado, a vista é muito boa e temos privacidade.
É o porto ideal. O único problema aqui é que a tomada de eletricidade esta limitada a 15 ampères. Temos assim que ligar o gerador sempre que precisamos de mais corrente elétrica.
Mas nosso gerador é silencioso e não incomoda nem a nós nem a nossos vizinhos.
O fim da noite foi interessante. Muitos fogos e barulheira na cidade. Assistimos tudo de longe, me encanta escutar festas à distância, imaginar o que se passa. Talvez sejam recordações de minha infância, festas dadas por meus pais, quando eu ia dormir cedo.
LOG ENTRY FOR: Monday, January 01, 1996
11:00 16° C, céu aberto de cumulus, bom tempo.
Barômetro continua em 1000 Mb, umidade baixa, 62%.
Mínima da noite 12° C, Máxima do dia 21° C.
Saímos as 12:00 e fomos ao mirante onde fica a Ràpita (torre de observação) Lá conhecemos um casal mais uma amiga, que nos indicou almoçar no restaurante Miami.
Seguiu-se leve discussão entre as amigas devido a pronuncia de Miami.
Uma dizia Mi-a-Mi com acento no ultimo Mi, a outra dizia com acento no a, ambas porem insistindo no mi invés de mai.
Fomos almoçar lá e comemos magnificamente.
Depois saímos no carro para conhecer St Jaime, passeamos pelo delta do Ebro, atravessamos o rio de carro (em balsa) e voltamos para o barco.
À noite assistimos pela televisão o fechamento do ano em Viena, com valsas de Strauss. Foi bonito.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 02, 1996
09:45 16° C, 1010 Mb subindo, 48% umidade, ventos N.W. força 2.
À noite tivemos ventos fortes (força 6/7) por todo o período.
O céu está limpo, sem nuvens, o dia lindo, mas o mar lá fora deve estar grosso.
Mínima da noite 15° C, Máxima do dia 18° C.
Passei o dia acabando a instalação da caldeira de aquecimento.
Ao liga-la uma mangueira de água quente saiu de seu suporte e estourou.
Levei um susto danado com a explosão e vapor de água por todos os lados. Vou mudar o local da válvula de proteção que deveria ter saltado.
À noite fomos à cidade comer tapas e tomar vinho numa bodega.
Muito agradável.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 03, 1996
09:45 11° C, 1016 Mb subindo. 62%, ventos força 2 N.W.
Mínima da noite 10° C, máxima do dia 14C
11:00 saímos para procurar uma válvula de segurança para o sistema de calefação. Não quero mais explosões!
Fomos primeiro a Amposta, uma pequena cidade com uma ponte tipo Disneyland sobre o Ebro. Não encontramos.
Fomos então para Tortosa, uma cidade medieval à beira do Ebro.
Lá achamos tudo. Visitamos também seu centro histórico, vale a pena.
De lá resolvemos conhecer o Port de Tortosa, que para surpresa dos ignorantes fica nas montanhas. Subimos então em direção ao Monte Caro, (600m). A estrada é lindíssima com vistas e formações rochosas muito interessantes. O verde vai aumentado à medida que se sobe.
Almoçamos no restaurante Pous de la Neu, onde comemos muito bem.
Chegamos de volta a Saint Carles as 17:00 e fomos direto para a Lonja (mercado de peixe) que estava atarefadíssimo, com uma grande quantidade de peixe fresco e marisco. A Milena comprou um marisco tipo escargot do mar e comeu em seguida quando voltamos ao barco.
LOG ENTRY FOR: Thursday, January 04, 1996
10:00 12° C, mínima da noite 9° C, barômetro 1014 Mb, umidade 70%.
Nova frente esta entrando. Altostratus, indicando provável queda do barômetro e portanto mau tempo. Máxima do dia 15° C.
Acabei de instalar a calefação, que funciona bem. Falta apenas prender os cabos e mangueiras em seu lugar, como acabamento final.
17:00 saímos rumo a Amposta, para comprar plugs de conexão à terra.
A marina aqui é ótima, tendo como único defeito pouca capacidade nas tomadas elétricas. Estamos plugados a uma tomada de 15 ampères, o que é muito pouco para nós.
Quando no mar ou ancorados, somos totalmente auto-suficientes como ficamos desde Vitória até Canárias, sem nenhum contato físico com terra, fazendo nossa água e energia.
Nenhum problema, nosso gerador produz 60 KW, que em 220, 50 ciclos, volts são 270 ampères. Podemos ligar todos nossos equipamentos elétricos juntos.
Quando ligados à terra, um sistema composto de dois cabos de alimentação nos permite receber 110, 220 e 380 volts, monofásico ou trifásico, de uma ou duas tomadas.
Ligar à terra é sempre um problema difícil, pois em cada lugar do mundo a eletricidade disponível é diferente, inclusive variando a ciclagem, 50 ou 60 ciclos.
Também a potência disponível varia muito.
Nas Canárias, nos Gigantes, havia uma tomada de 20 ampères, que com freqüência desarmava o disjuntor devido a nosso consumo.
Em Mogan, a eletricidade era perfeita, tomada trifásica 380/220 volts, 60 ampères por fase, 180 Ampères,
Em Lanzarote, também havia trifásico, 32 ampères, que é suficiente, mas 240 volts chegavam ate nós, o que esquenta demais a secadora de roupas que é brasileira, portanto 220 volts, 60 ciclos, e por isto deveria em 50 ciclos ser alimentada com menos de 200 volts.
Gibraltar, Benalmádena, Torrevieja e Moraira, tomadas de 32 ampères, monofásico, sempre com 240 volts.
Aqui, sendo o pior lugar, (6 ampères), temos que comprar plugs para ligar nossa segunda entrada de corrente. Desde o projeto temos duas entradas justamente para estes casos.
Temos já uma grande coleção de plugs, em duplicata muitas vezes, pois se a entrada é fraca, podemos pegar duas simultaneamente.
Com o jogo de plugs que agora dispomos, poderemos "enchufar" como dizem os espanhóis em qualquer ponto da Europa.
O problema foi solucionado no San Marino da seguinte maneira:
Temos cinco redes elétricas independentes. Uma para 110 volts, 60 ciclos, onde estão ligados o forno de microondas, o computador o sistema de som e diversas tomadas. Esta rede na falta de energia elétrica é automaticamente alimentada por um inversor 12 volts / 110 volts / 2600 watts, utilizando nossas baterias.
Uma para 220 volts, 60 ciclos, onde estão ligados o fogão, máquina de lavar pratos, compactador de lixo, triturador e diversas tomadas. Esta rede na falta de energia elétrica é automaticamente alimentada por dois inversores 12 volts / 110 volts / 2600 watts cada, ligados em paralelo, também utilizando nossas baterias.
Todos estes equipamentos elétricos podem assim funcionar via bateria que são grandes (2400 ampères só para o serviço) e agüentam a vida a bordo com 8 pessoas por 24 horas. Como temos dois alternadores gigantes de 200 ampères em cada motor, quando estamos navegando não precisamos de gerador.
As outras três redes são parte do sistema trifásico, mas também podem ser alimentadas em monofásico. Neste caso tudo funciona menos o ar condicionado.
Quando estamos desligados da terra, só necessitamos do gerador para fazer água doce, ar condicionado, máquinas de lavar e secar e forno. O resto as baterias suprem.
Quando estamos ligados à terra, a conexão perfeita é 380 volts trifásico. Tudo funciona sem problemas.
Se entretanto somente temos 220 ou 110 monofásicos, todos os equipamentos da rede trifásica são ligados, e dependendo da ciclagem utilizamos os inversores de 60 ou 50 ciclos para os equipamentos sensíveis.
No caso de potência muito pequena (6 ampères, por exemplo), ligamos apenas os carregadores de bateria e vivemos dela.
Ao mesmo tempo, com o aquecimento a Diesel (que também esquenta nossa água), nosso consumo diminui.
Tudo funciona muito bem e automaticamente. A preferencia é sempre do Gerador, que ao ser ligado desliga todos os outros circuitos. Em seguida a preferencia é da tomada de terra e por último as baterias.
Não temos Gás a bordo, preferimos não correr o risco, e além disto é sempre uma amolação em cada pais encontrar bujões próprios e leva-los no braço.
Como temos muito óleo diesel a bordo, a solução elétrica foi a melhor.
Toda a iluminação, guinchos, instrumentos é em 12 volts.
Optamos por 12 e não 24, pela facilidade maior de se encontrar equipamentos nesta voltagem. Para compensar a perda, utilizamos cabos elétricos muito pesados, todos calculados para uma perda máxima de 3%.
Nunca tivemos problemas elétricos a bordo.
LOG ENTRY FOR: Friday, January 05, 1996
11:00 15° C, 1003 Mb caindo, 70% de umidade, ventos força 2 N.W.
Céu encoberto , Altostratus.
Mínima da noite 10° C, máxima do dia 14° C.
Hoje é dia de Reis. Milena foi a cidade e comprou uma bela camisa para mim.
Ela ficou sem presente. Não sou de dar importância para datas e os outros acabam pagando por isto. Não me lembro de aniversários e datas, inclusive do meu. Penso que todo dia é dia de festa e assim tem sido a minha vida.
De todos os modos o calendário é uma invenção humana, com o inicio do ano sendo uma data escolhida ao acaso. Várias foram as mudanças nos calendários e mesmo a data de nascimento de Cristo (que só vale para 1/4 da humanidade) certamente não foi no dia que pensamos.
Teria alguma validade comemorar-se dias de base astrologica, como os solstícios (quando a terra atinge sua inclinação máxima, hoje em 21 de dezembro e 21 de junho) . Algumas datas religiosas, como a páscoa e o carnaval são baseadas em calendários lunares, por isto variam de ano para ano. Tem para mim mais lógica.
LOG ENTRY FOR: Saturday, January 06, 1996
09:30 Levantamos cedo hoje, as 08:00. O dia esta ainda bonito apesar da frente fria que está chegando.
O barômetro caiu para 1002 Mb e a umidade está baixa, 48% sinais de frente próxima.
O céu está claro com esparsos altocumulus.
Mínima da noite 10° C, Máxima 17° C.
Saímos para conhecer Peñiscola.
Passamos pelo caminho em Alcanar e Benicarló.
Peñiscola é uma pequena península onde existe um castelo fortificado.
Foi o refugio do papa Benedito XIII, o Papa Luna, aragonês, que foi eleito após a morte de Clemente II em 1394, na época em que o papado estava em Avignon, a qual não conseguiu se manter como centro da igreja católica que voltou a Roma.
O Papa Luna porém não renunciou e se refugiou aqui até sua morte aos 90 anos .
O castelo em si, muito bem conservado, foi construído pelos cavaleiros templários no século 13 e logo reformado pelo Cardeal Pedro de Luna, homem muito culto e fundador de uma universidade na Escócia.
Na volta, paramos em Benicarló no restaurante Itxaso (mar em basco) onde comemos magnificamente. O proprietário (Gregório) bateu longo papo conosco, principalmente sobre o pais basco, que tanto apreciamos.
No final 2 carajillos de anis, que ele fez "queimados", com fogo dentro antes de colocar o café. Muito bom.
LOG ENTRY FOR: Sunday, January 07, 1996
11:30 Mínima 11° , atual 15° , 1001 Mb estável, 73% de umidade, sem ventos.
Céu bonito, cirrus Máxima do dia 18° C.
O Flexboat está apresentando problemas. O motor pega e para.
Fui investigar e o motor travou. Parece coisa seria no interior do bloco.
Recoloquei o bote em seu lugar no Flybridge para investigar outra hora.
É inverno e não precisamos dele agora.
Troquei o óleo do Defender. Abasteci novamente com o Diesel do barco.
Estamos sempre abastecendo assim, pois fica muito mais barato.
O Diesel que comprei em Gibraltar custou US$ 0.26 o litro e aqui custa
US$ 0.80. Boa diferença!
LOG ENTRY FOR: Monday, January 08, 1996
10:30 Lindo dia, céu azul com cirrocumulus que são cristais de gelo, geralmente associados a bom tempo.
A mínima da noite foi 9 graus, a temperatura mais baixa até agora.
Belo inverno este, quase sem frio.
O barômetro subiu para 1014 Mb, Umidade 50%, sem ventos.
Máxima do dia 18° C.
Fomos a tarde à cidade, comer tapas
Acabei cortando o cabelo num barbeiro incrivelmente antigo, até com televisão preto e branco, porém muito bom.
Jantamos bem, comi um arroz negro que é feito com a tinta da sépia, no restaurante do Ramon.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 09, 1996
10:30 16° C, mínima da noite 12° C, 1103 Mb , 75% de umidade.
Chuva o dia todo, máxima do dia 16° C.
Saímos para o supermercado.
A cada 15 dias Milena faz compras no supermercado.
É sempre muito interessante e vou junto para empurrar o carrinho.
Cada supermercado de cada lugar é diferente com coisas novas e não se encontra mais aquilo que se gostava no anterior.
É como ir a uma nova "delicatessen" pois queremos provar tudo que é novo, desde as comidas até ao material de limpeza.
Também a visita ao mercado local, as peixarias e as frutarias sempre traz coisa interessante mas a Milena normalmente vai sozinha. Não ha carrinhos para empurrar.
Os preços tem se mostrados estáveis até aqui, mas temos estado sempre na Espanha, exceto Gibraltar.
O melhor supermercado que fomos ate agora foi o Safeway em Gibraltar onde tinha de tudo, com muita qualidade.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 10, 1996
9:30 Temperatura 17° C, umidade 70%, barômetro estável a 1002 Mb.
Mínima da noite 12° C. Stratocumulus predominam no céu.
Saímos para fazer um telex para nós mesmos. É que a Milena não se sente segura com nosso Inmarsat C.
Temos a bordo um equipamento Inmarsat C que tem acesso a rede de telex mundial via 4 satélites sempre a nosso alcance em qualquer parte do mundo. Podemos passar e receber Telex.
Como telex é um tipo de comunicação em desuso, é difícil quem tenha um para se comunicar conosco, somente nos correios, onde fomos.
Podemos utilizando um serviço das estações terrenas enviar fax para qualquer aparelho no mundo, mas não podemos recebe-los.
O sistema é muito útil pois nos traz a todo o momento todas as transmissões Navtex (informações sobre navegação) e previsões do tempo duas vezes por dia.
Temos um GPS conectado ao sistema que ao simples apertar de uma tecla envia uma mensagem de socorro com nossa posição.
Também durante uma travessia, informa em períodos programados (usamos 4 horas) nossa posição, rumo e velocidade automaticamente.
Tenho transmitido estes dados a meu amigo Russi, na ABS Rio.
LOG ENTRY FOR: Thursday, January 11, 1996
9:30 Mínima da noite 9° C, atual 14° C.
Barômetro subindo , 1010 Mb, umidade 60%.
Céu azul sem nuvens, dia muito bom
Máxima do dia 18° C.
LOG ENTRY FOR: Friday, January 12, 1996
10:20 Mínima da noite 11° C, atual 14° , barômetro estável 1002 Mb, 65% de umidade.
Ventos N.W. força 3, máxima 16° C.
Céu azul com cirrus, sinal de bom tempo. Vamos ver.
Milena continua de cama, com febre.
Passo o dia fazendo pequenos reparos e manutenções
LOG ENTRY FOR: Saturday, January 13, 1996
08:30 65% de umidade relativa, 12° C, 1010 Mb subindo, cirrocumulus, continuará o bom tempo. A frente fria que se aproxima já está na costa do atlântico.
É a mesma que provocou tempestades dos USA, vamos ver como chega aqui. Mínima da noite 11° C. Máxima do dia 16° C
Ainda não dá para seguir viagem pois o mar está pesado.
LOG ENTRY FOR: Sunday, January 14, 1996
09:00 1014 Mb, 68% de umidade, 12° C, altocumulus que nos encorajam a sair amanhã.
Mínima da noite 10° , Máxima 16° .
Milena melhorou, vamos esperar a previsão das 23 horas e ver se dá para ir. O barco está pronto, tudo O.K.
Vou navegar sozinho, Milena irá de carro seguindo pelas estradas costeiras.
Poderemos falar por radio nos pontos mais próximos.
LOG ENTRY FOR: Monday, January 15, 1996
07:00 Preparando saída para Vilanova ou Sitges, mínima 14° C, atual 14° C, 1019 Mb, 78% de umidade.
Máxima do dia 21° C.
Saída da barra as 07.45, ainda é noite, viajo só.
8:10 chego ao canal do Porto de Alcanar, uma fábrica de cimento.
Mudo o rumo para 156° magnético e sigo entre as bóias, bem sinalizado.
Amanhece, céu de altocumulus prevendo um bom dia.
O sol acaba de mostrar seu limbo superior no horizonte, é uma linda manhã Sigo a 1580 RPM, 9.2 nós.
Pego a videocamera para fazer umas imagens do sol nascendo.
Sigo para o WP 11 onde deverei chegar as 09:00. Estou pontual.
Dou uma volta em torno do San Marino, pelo passadiço para ver se está tudo em ordem, cabos, defensas etc. Tudo O.k.
Muitas bóias de redes de pescadores. É preciso muita atenção.
Pelo radar vou controlando os barcos pesqueiros que são muitos.
Tenho programado uma zona de guarda de 1 milha, isto é qualquer objeto que o radar detecte neste raio é assinalado com um beep.
No oceano navego com uma zona de guarda de 4 milhas, que nos dá uns 10 minutos de tempo para uma manobra.
Aqui não dá pois o trafego é muito grande.
Não ha ventos, ótimo, a previsão é de ventos força 4 ou 5, de levante.
Estou pegando mar de proa, confortável no San Marino, mas isto me mostra que ao entrar no rumo, o mar deverá estar de través.
Talvez não, pois estamos em um cabo, próximo a foz do rio Ebro, um dos mais importantes da Espanha, e nestes locais o mar é desencontrado, mudando de direção.
9:40, chego ao WP 11, 10 minutos adiantado, não ha correntes, vamos aproveitar.
Rumo 050° , 17.2 Nm até o próximo WP 12, onde deveremos chegar as 11:00, tenho corrente contraria de 1.5 nós.
WP 12 é o Cabo Tortosa, na foz do Ebro.
Ondas de 1m vindo pela bochecha de boreste.
Preparo um Sandwich de patê de canard com manteiga, muito bom.
A Milena comprou no supermercado.
10:00 Tomo a posição do farol do cabo Tortosa e comprovo que nossa rota está correta.
Desci à casa de maquinas como faço regularmente cada hora.
Tudo está em ordem
1580 RMP, 9.5 nós no LOG , 9.3 no GPS, a corrente contraria diminuiu.
Ventos força 4 NE, de onde vem o mar.
Eliminei da rota o WP 13, Cambrils. O mar vem de bochecha de proa e é melhor continuar assim e viajar longe da costa.
10:51 Chegamos a Cabo Tortosa WP 12
Próximo WP 14, Cunit, as 16:00.
11:20 Pan Pan da Radio Ibiza avisando que existe uma balsa salva-vidas com
3 pessoas que abandonaram um barco de 20 metros em rota entre Ibiza e Cabo de Palos. É fora de nossa rota.
Para passar o tempo estou tocando violão desde as 11:00.
Fazia muito tempo que não tirava o violão de sua capa e ele está com cheiro de mofo.
12:30 estou agora escutando velhas musicas brasileiras:
Silvio Caldas, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, lembranças do tempo de boêmio.
É do que mais sinto falta do Brasil , das músicas.
Plotei a posição na carta, 40° 5126"N, 001° 1147"E, tudo O.K.
Porto de Hospitalet em nosso través.
O vento caiu para força 2, NE, mar de proa ondas de 1m, bela navegada.
13:00 abri uma lata de goulash de carne e almocei. Bem ruim, mas matou a fome.
13:15 Vento força 1, mar de ondas de 0.5 m.
A Metarea França anuncia ventos de E, força 6 ou 7, vamos esperar.
14:20 Porto de Tarragona no través. Tarragona é uma cidade cartaginesa que já visitei 20 anos atras. Quero voltar, agora com mais tempo.
É também um bom porto como abrigo em caso de mau tempo
15:00 Milena me chamou por rádio.
Ela já está em Sitges, me esperando.
Esteve em Vilanova y la Gertru, mas não gostou da marina. assim vamos mesmo para Sitges. Devo chegar as 17:00.
A corrente está a 2.3 nós, indo para S.W., muito forte.
16:30 Falei novamente com a Milena que esta no carro, no dique. Chegarei dentro de 20 minutos.
17:00 Atracado, sem dificuldades.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 16, 1996
9:00 1022 Mb, 80% de umidade, 15° C, mínima da noite 13° C, Máxima 16° .
Estamos em Sitges, 41° 1396"N, 001° 4961"E.
Sitges é uma cidade Romana, onde viveram Utrillo e Rusiñol, pintores famosos.
Também é a cidade de veraneio das famílias ricas de Barcelona.
É conhecida como um local de ampla liberdade de costumes, aqui vive uma grande comunidade gay.
É encantadora, com ruas estreitas e amplos sobrados com balcões de ferro.
A marina é boa, e no verão deve ter muita vida.
Foi difícil para a Milena conseguir lugar, pois vai haver uma regata na próxima semana e está tudo ocupado.
Passei o dia lavando o casario. Depois de uma viagem o barco se enche de sal. Não que seja prejudicial, os materiais externos são feitos para isto, mas o sal é desagradável pois não se pode encostar nas paredes.
Amanhã vou lavar o casco, que é ainda menos necessário, mas a última vez que o fiz foi em Moraira.
Em lugar de ir a uma academia de ginástica, fazemos estas tarefas que não são desagradáveis, ao contrario, me dão prazer.
Primeiro passo Quita-Oxi ou qualquer removedor de ferrugem nos pontos que eventualmente começam a aparecer manchas. Em seguida uso uma vassoura de pêlos curtos, uma esponja e um balde com água misturada com shampoo de lavar carros. Os industriais usados nas máquinas de lavar carros são os melhores e mais baratos.
Nos vidros passo um pequeno rodo.
Para lavar o casco, uma esponja, balde com shampoo e duas garras de sucção para que de dentro do bote inflável, eu tenha aonde me segurar. No inverno uso roupa "foul weather" para não me molhar.
As Madeiras externas recebem uma demão de óleo de 2 partes de óleo de linhaça misturado com uma parte de água raz, mas normalmente é a Milena que faz este serviço.
Mesmo sendo um barco de 20 metros, o San Marino está sempre muito em ordem, sem tripulação e com pouco trabalho.
São os materiais externos (fibra de vidro, ipê, aço inox 316 e pintura Awgrip) que nos ajudam.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 17, 1996
8:45 1024 Mb estável, umidade a 70%, 14° C, Ventos NE força 2, é o levante que continua soprando. Começou no dia de nossa viagem.
Céu todo fechado, altocumulus.
Mínima da noite 13° C, Máxima do dia 15° C.
Conforme programado ontem, lavei o casco e Milena com a ajuda de uma moça daqui, a Eva, acabou de limpar o interior. Livres!
Dormimos cedo, cansados.
LOG ENTRY FOR: Thursday, January 18, 1996
10:30 Mínima 13° C, atual 14° C, máxima 15° C.
O Barômetro cai um pouco, 1020 Mb, mas continua alto.
A frente fria que deveria ter entrado a alguns dias, dissipou-se sobre Portugal, que sofreu grandes enchentes.
Continua soprando vento de leste, força 3. A umidade é 65%
Céu de altocumulus.
Saímos com o Defender as 12:00 rumo ao Monasterio de Santa Maria de Poblet, que queremos conhecer pois sabemos ser o mais bem conservado e o mais importante em todo o mundo cistercense.
No caminho paramos em um restaurante 5 quilômetros antes de Montblanch onde a Milena comeu uma Calçonade, cebola cosida no fogo com um molho estranho, que se come com as mãos. Faz grande sujeira.
Eu para não ficar atrás resolvi beber vinho direto do "porrón" (um saco de couro de onde sai um jato de vinho) como aprendi em minha juventude e acabei sujando de vinho minha camisa.
Fomos em seguida conhecer Montblanch, cidade autentica e muito bem conservada, que vale a visita.
De lá fomos a Poblet, o monastério é impressionante, um dos monumentos mais incríveis que já vi tanto por sua beleza como pela imponência.
Era uma das etapas favoritas da corte dos reis de Aragón quando eles viajavam de Zaragosa a Barcelona.
Chegamos de volta à noite.
A ressaca mexe muito o barco, e os cabos rangem. Ainda não consegui solucionar este problema. Dorme-se mal...
LOG ENTRY FOR: Friday, January 19, 1996
8:30 12° C, 73%, 1015 Mb baixando, sem ventos, mínima 10° C.
Stratocumulus.
12:00 Saímos de Defender para Barcelona, para escolher nossa próxima Marina.
No caminho passamos pelo Puerto de Vallcarca, apenas um porto de uma fábrica de cimento, servindo apenas como abrigo em uma emergência.
Depois Puerto de Garraf, muito pequeno para nós.
O próximo, port Ginesta, é uma bela Marina. Pedimos preços que são razoáveis. Apenas a eletricidade é escassa, 8 ampères, mas pode-se arranjar.
Seguimos em seguida para Barcelona, a maior cidade do Mediterrâneo.
Encontramos a Marina Port Vell, no fim do antigo porto, novíssima e muito bem equipada. Ficamos bem impressionados e vamos mudar para lá dentro de pouco tempo.
Estamos com vontade de viver um pouco da vida de Cidade Grande, e conhecer bem Barcelona, que nos encantou a primeira vista.
Milena já tinha estado aqui, quando de sua viagem de navio para o Brasil, e eu só de passagem 20 anos atras.
LOG ENTRY FOR: Saturday, January 20, 1996
09:30 Começa a esfriar, esta noite fez 9 graus. Agora a umidade é de 74%, e o barômetro caiu para 1008 Mb. Está 10° C. Máxima do dia 19° C.
Continuam os altocumulus com alguns buracos azuis.
11:00 Saímos para Tarragona, temos que retornar 80 quilômetros em carro mas não queremos perde-la. Depois, de Barcelona, estará mais longe.
Tive que abastecer o Defender. Faz muito tempo que não o faço, pois uso o Diesel do barco. Mas me esqueci, e tenho que pagar 4000 pesetas pelo que me custaria 1000.
Tarragona, como Barcelona, segue a historia dos Fenícios, Cartagineses, Romanos Mouros e Franceses.
Muito ficou em suas fortalezas Igrejas e Castelos. Vale a viagem.
Almoçamos e fomos para Aiguamurcia, conhecer o Monasterio de Saint Creus, não tão impressionante quanto o de Poblet, mas igualmente bonito e bem conservado. Um dos dois há que se ver.
Voltando, à noite, encontramos a Marina cheia e movimentada pela regata de amanhã.
LOG ENTRY FOR: Sunday, January 21, 1996
12:30 Levantamos tarde. Saiu uma regata as 11:00 bem daqui, ficamos observando.
O dia é bonito, com cirroscumulus. Continuará o bom tempo.
Temperatura atual 16° , mínima da noite 12° C, 1009 Mb, 70%, Máxima 17° C.
Milena está doente, sente-se mal e está com gripe.
Ficamos a bordo. Aproveito para botar minha correspondência em dia.
LOG ENTRY FOR: Monday, January 22, 1996
8:15 15° C, 78%, 1004 Mb caindo, chove fraco.
Ventos NE, força 4-5 durante toda a noite, persistindo.
Mínima 14° C, Máxima 17° C.
Saímos durante o dia para a pé, conhecer Sitges. Foi uma longa caminhada.
Na volta paramos em um banco de jardim para descansar, olhando o mar que batia forte.
LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 23, 1996
10:00 80% umidade, 1000 Mb baixando, 14° C, ventos S, força 2.
À noite força 5 até as 4 da manhã. Mínima 13° C, Máxima 20° .
Tomei meu café da manhã, como todos os dias.
A principio a Milena fazia grandes "breakfasts" mas foi cada vez ficando mais claro que o melhor é o "casual breakfast", ou em bom português, cada um por si.
Hoje comi um sandwich de "jamon serrano", o maravilhoso presunto cru espanhol, um copo de chocolate quente dois de suco de frutas. Comi também uns biscoitos chamados "Marilyn" que compramos em Poblet .
O Microondas ajuda muito. A qualidade dos produtos também pois a manteiga é ou dinamarquesa ou holandesa ou alemã, o pão não é grande coisa por aqui, usamos pão de hambúrguer, que é bom. Às vezes fazemos nosso próprio pão, na máquina Panasonic ou torramos as fatias no torrador elétrico.
Muitas vezes faço ovo quente, numa pequena máquina elétrica.
Tudo muito fácil, o queijo é ótimo e o leite também. A Milena costuma tomar chá, musli, torradas, suco e fica por aí. Por isto ela é magra.
LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 24, 1996
9:30 Mínima da noite 13° C, Máxima 23° C umidade 80%, 15.5° C, 998 Mb, caiu 4 Mb.
Céu de altocumulus em pedaços, 6/8.
Dia de limpeza interna, veio a Eva, que ajuda a Milena.
Estudamos também nossa rota futura, talvez vamos para Tunis via Sardegna e depois Creta e Mar Negro
LOG ENTRY FOR: Thursday, January 25, 1996
8:30 998 Mb estável, 80%, 8° C, a manhã mais fria até agora.
O vento esta rondando o céu limpo.
Creio que amanhã poderemos continuar viagem.