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NOS PASSOS DE HANS STADEN

 

A primeira navegada - Alguns problemas da construção - Bertioga - Ubatuba - Craca no Hélice - Picinguaba - Joatinga - Ano Novo em Angra - Tarituba - Parati - O inicio da grande viagem - Muitos Golfinhos - Porto Frade - As visitas dos amigos -

LOG ENTRY FOR: Saturday, December 25, 1993

Hoje abro este diário de bordo, que faço em computador, daí as vezes alguma coisa aparecer em inglês. É obrigatório anotar os acontecimentos principais no diário, e imprimo regularmente minhas anotações para cumprir esta exigência.

Sómente agora recebemos da Marinha Brasileira o certificado de vistoria, assim inicia-se hoje a vida do S. Marino como barco.

10:00 Prontos para a partida, primeiro dia a bordo.

Tempo bom, mar calmo, abastecemos com 4590 litros de combustível, enchendo apenas os tanques centrais. Nenhum vazamento.

Estamos no Porto Marina Asturias, onde acabamos a construção do San Marino, que veio em carreta, ainda dividido em casco e casario, de Osasco, São Paulo, onde foi feita a construção.

Batismo.jpg (18034 bytes)

Juntamos estas partes em um galpão à beira mar e lançamos o San Marino em Fevereiro de 93.

Lançado.gif (183455 bytes)

Ainda estamos realizando as últimas tarefas, colocando carpetes, abastecendo a despensa.

Cansados do trabalho final, aguardamos a ceia de natal, feita pela Milena, primeira refeição a bordo.

Estão a bordo o Flavio (meu filho) a Renata (sua mulher), o Guga e o Caio, (amigos do Flavio), além de Milena, (minha mulher, companheira inseparável) e eu, como capitão.

A ceia foi emocionante e muito saborosa. Comemos peru e tender, tomamos um bom vinho, e eu, preocupado com a performance do San Marino, imaginava até onde iríamos com este tão sonhado barco.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, December 26, 1993

8:00 Saída de Porto Asturias, Guaruja, destino Ilhabela.

Na barra de Santos , o leme parou de funcionar.

Verifiquei que o parafuso de acoplamento do braço do leme com o pistão hidráulico estava solto. Falha imperdoável, mas tudo no San Marino é em duplicata ou triplicata, assim liguei o leme de reserva que funcionou perfeitamente.

Feito o reparo, religamos o leme principal e piloto automático.

San Marino segue a 5 nós em 1600 RPM.

Não é a performance esperada. Estamos navegando muito devagar, deveríamos estar a 10 nós, qual será a causa?

Não pudemos testar o San Marino em navegação antes, pois não tínhamos autorização da Marinha e a saída de nossa marina é diretamente em frente a capitania. É a nossa primeira navegada, agora que temos autorizada uma "prova de mar".

Ondas de 3 metros na barra de Santos, fazem o San Marino rolar, ainda mais nesta baixa velocidade.

Os passageiros enjoam com exceção de Milena, Sergio e Flavio.

Farol-Ilha-da-Moela.jpg (17184 bytes)Saio por fora da velha conhecida, Ilha da Moela, (e seu belo Farol) rumo ao canal de S. Sebastão, a 45 milhas.

10:10 Decido alterar rumo para Bertioga, devido ao estado dos passageiros.

Se podemos parar, para que forçar a barra?

A boreste vejo o velho forte e o farol, que me lembram Hans Staden.

Este alemão narra em seu delicioso livro, as aventuras vividas por aqui quando chegou como artilheiro a serviço dos portugueses. Isto no século XVI.

Ele era encarregado de manter longe os índios, guardando a entrada do canal, e viveu neste forte.

Foi feito prisioneiro, bem no local à nossa frente, e levado como prêmio ao famoso cacique Cunhanbebe, que o manteve primeiro em Ubatuba, depois próximo a Paratí em regime de engorda, para poder comê-lo em época propícia.

Graças à sua astúcia, convenceu os índios que era francês, benquistos pelos nativos naquela época. O entregaram a um navio de corsários franceses, que não o receberam, quase condenando-o à morte. O proximo navio porém o acolheu, e ele pode voltar salvo à sua patria, Alemanha, onde narrou sua viagem em seu famoso livro.

Não entramos na barra. Jogamos ferro no fim da praia, ao norte.

Todos para a àgua! Não há melhor remédio para enjôo.

Colocado o Jet Ski (que o Flavio embarcou no Guarujá) na àgua, esquiamos, passeamos e tivemos um fim de dia agradável.

O Flavio, o Guga e o Caio resolveram dar uma de "boys" e entraram em alta velocidade na praia cheia de gente com o Jet, o qual logicamente parou de tranco e os três voaram uns sobre o outros. Risada geral de toda praia que ouvimos de longe

 

LOG ENTRY FOR: Monday, December 27, 1993

00:00 Saída de Bertioga para Ubatuba, está escuro mas dá para ver o contorno da ponta da baia.

Continuamos a 5 nós, o que estará nos segurando?

Mar calmo, noite linda de lua cheia.

Flavio e Sergio na Ponte. Os outros dormem.

06:00 Chegamos ao canal de S.Sebastião.

Que emocionante para mim, depois de 4 anos de construção, entrar neste lindo trecho de mar, com o sol nascendo de um lado e a lua se pondo, do outro. É a realização de um sonho, não parece verdade.

07:00 Saída do Canal de S. Sebastião para Saco da Ribeira, Ubatuba 5 nós, mar de ondas de 1 metro.

11:00 chegada ao Saco da Ribeira, lançado ferro.

Outros problemas aparecem. Vazamentos na linha de agua fria e esgoto.

Descemos para comer. Na volta,  violenta rajada de vento quebra a antena do SSB. É que tinhamos montado a bandeira brasileira nesta antena (o mastro ainda não está pronto) e uma rajada de vento, talvez força 8, a rompeu. Coisa de principiante.

Embarcamos Marco Aurélio, amigo do Flavio que mora em Ubatuba.

Cai chuva fortíssima com vento violento. Boa prova para nossas ancoras.

 

O San Marino leva 2 ancoras CQR de 50 kg cada, com 100 metros de corrente de 5/8", High Test, movimentadas por um cabrestante elétrico Maxwell de comando remoto. Foi tudo calculado para uma carga de 4000 quilos que corresponde a ventos de 60 nós.

Temos também no porão , desmontada, uma imensa ancora de alumínio Fortress FX-125, de 35 quilos e 1,70 m de comprimento, para tempestades.

Escolhemos as CQR, porque são amplamente provadas, e de boa pega em qualquer fundo, com exceção de lama profunda. Pode também girar e pegar novamente, o que com a Fortress é arriscado.

 

Estamos com 3100 litros de combustível. O consumo é alto e alarmante. Assim não poderemos atravessar nenhum oceano. O que será que acontece?

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, December 28, 1993

Acordamos cedo aqui em Ubatuba

A noite o Guga chegou de cara cheia e caiu na plataforma de popa.

Ouvimos grande barulho mas foi só o susto. Bêbado não se machuca!

Pela manhã coloquei o equipamento de mergulho e fui verificar o casco. Não tinha ainda feito isto porque a agua na Marina é muito suja (canal de Santos) e tive medo de pegar uma boa hepatite. A agua aqui é linda e agradável.

Descobri então a causa do baixo rendimento: muita craca no Hélice, pois a tinta anti vegetativa não foi suficiente para impedir o crescimento,

Contratamos um mergulhador para limpar, tive medo de me cortar e estragar a viagem logo no inicio. Bom serviço, US$ 40,00.

Saímos após almoço para Picinguaba. Tempo muito bom.

Agora sim, a velocidade aumentou em top para 11 nós, cruzeiro 9.8 kn a 1700 RPM.

 

O San Marino é um barco semi-deslocante, que viaja dentro do limite de velocidade de casco, para maior autonomia e economia. Sendo um casco semi-deslocante, rola pouco, pois possue cantos vivos, (hard chine) não necessitando estabilizadores, como a maioria dos "trawlers".

 

Chegamos em Picinguaba no final da tarde. Dormimos frente à cidade.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, December 29, 1993

Pela manhã, a entrada de uma frente fria, mudou nossos planos. Decidimos pernoitar.

O dia foi agradável, cheio de trabalho também, pois tivemos que lavar o porão e consertar os vazamentos de esgoto e agua.

Vamos à praia fazer um bom almoço!

Ao entrar no Avon, a Renata vai direto para a agua. Logo ela, que era a mais assustada.

Comemos um belo camarão frito com caipirinha para animar e voltamos ao trabalho.

A noite foi difícil, o mar bateu muito, Picinguaba é aberto ao S.W., que entrou força 7.

Encontramos dois veleiros que também rumam para Angra e estão aqui abrigados.

Caio , Guga e Marco Aurélio, (que embarcou em Ubatuba), não voltam, dormindo em terra.

Parece que a farra foi grande e a bebedeira maior.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, December 30, 1993

06:00 Saída de Picinguaba rumo à Angra.

Usamos a buzina para chamar a tripulação que alcoolizada dorme em terra.

Despedidas da praia, mostram que a noite foi alegre.

Agora sim, a performance é perfeita, o restos de craca caíram com o movimento dos hélices:

 

RPM 1690, 9.8 Kn, 88 lph

RPM 1600, 9.4 Kn, 76 lph

RPM 1800, 10.7 Kn, 104 lph

Maximo 11.5 nós, 1950 RPM, os cálculos levavam a 12 nós, mas o San Marino ficou mais pesado (desloca 52 toneladas leve, e 65 toneladas maximo) 7 a mais do que o projeto mandava.

O excesso de peso se deve à maior quantidade de resina e fibra utilizada na laminação do casco. Na verdade, ficou mais forte que o projeto, e peso abaixo do centro de gravidade não prejudica. É uma carga de deveremos carregar para sempre, mas também uma proteção contra colisões.

 

Da Ponta Negra à Joatinga, pegamos mar desencontrado com ondas de 3 a 4 metros. É o resultado de 3 dias de sudoeste, agora mudado para leste, força 6.

Bom para sentir o casco projetado por meu amigo David Napier, da Bertram Yatchs, Florida.

Mar de proa, cavalga pouco, pois submerge a proa em ondas maiores. Mar de popa, nada se sente e o piloto automático corrige com perfeição, programado está para corrigir a cada três graus.

Mar pelas bochechas, é o ideal e muito confortável.

Mar de través, é desconfortável, pois rola até 25 graus, e devemos evita-lo fazendo zig-zags.

Enfim o casco é tudo aquilo que prevíamos, talvez um pouco "duro" (volta muito rápido) devido às 6 toneladas de lastro que carregamos em nossa quilha, mas por isto mesmo muito estável.

Chegada em Angra, dormimos em frente ao Bar do Luiz Rosa, nosso velho amigo e filósofo.

Mar calmo, tempo bom.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, December 31, 1993

Saímos a tarde rumo ao Hotel Aquarius, onde os jovens querem passar o Reveillon.

Milena e eu queremos ficar a bordo, é muito mais interessante, depois de tantos sonhos.

A Milena foi nestes anos de construção muito corajosa e paciente. Sempre teve medo de mar alto, e nunca escondeu isto, apesar de sempre termos tido barcos, desde meus doze anos de idade. Mas ela nunca saiu fora da barra, sempre evitando mar aberto.

Desta fez ela enfrentou, mostrou mais coragem que os outros e nunca enjoa. É marinheira nata!

O Hotel está à toda, cheio de barcos e muita gente. De longe escutamos a música e os fogos de artificio.

A noite foi de chuvas leves, boa visibilidade, como sempre em Angra.

Flavio e Renata voltam antes da meia noite para passa-la conosco. Viva 1994!

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, January 01, 1994

10:00 Saída para a Procissão que observamos de longe.

Todos os anos em Angra dos Reis, vem barcos de muitos lugares para um desfile do bar do Luiz Rosa até o Clube Aquidabã.

É muita festa e carnaval.

O barco que foi construído ao lado do nosso, um 75 pés de Alumínio, o Fandango do Nestor Bergamo, está também aqui e nos cumprimenta.

O dia está bonito, mar calmo.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, January 02, 1994

Fui até Angra comprar cartas do Baia. Na volta, chamando da praia para que viessem me buscar, estranhei a demora. Quando o Flavio chegou com o dinguie,  soube que o Guga tinha batido a cabeça no batente da porta de popa e saia muito sangue.

Fizemos um bom curativo e queríamos leva-lo ao hospital mas ele se recusou dizendo: No hospital certamente rasparão parte de meu cabelo que certamente não nascerá mais. Guga é vaidoso e cuida de sua calva com muito cuidado.

Fomos ao distribuidor de combustível e abastecemos 5000 litros, temos agora 8170 litros. 6 tanques cheios, nenhum vazamento.

 

Temos 8 tanques a bordo, num total de 12500 litros, que foram convenientemente testados com coluna dágua de 5 metros e ar comprimido a 4 PSI. São de aluminio de 6 mm e me sinto seguro com sua construção soldada .

Aluminio me parece ser o melhor material para tanques de diesel. O aço inoxidavel é sempre de paredes finas e faz barulho. O aço é sujeito a ferrugem, necessitando tratamento interno. Fibra vai bem, se bem feita e curada com perfeição. Nossos tanques possuem tampas de inspeção grandes, sufucientes para enfiar a cabeça e olhar por dentro.

 

Continuam problemas de vazamentos na linha de agua fria e esgoto.

Saímos já noite para a Enseada do Sitio do Forte, na Ilha Grande.

Estava muito escuro sem lua ou estrelas e navegamos apenas com radar e GPS. Entramos na enseada e lançamos ferro sem ver um palmo à frente.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, January 03, 1994

Angra-dos-Reis.gif (223269 bytes)

Que belo dia se abriu. Agora sabemos onde estamos, bem no local planejado, graças aos instrumentos eletronicos e também ao nosso conhecimento do local, pois durante os últimos 20 anos estivemos sempre navegando em Angra.

Aproveitamos o dia nesta ilha fantástica, e no fim da tarde rumamos para Tarituba, onde jogamos ferro em fundo de lama, 2 metros. Nosso calado é 1.80, e como a maré esta baixa, estamos seguros.

Tarituba é uma pequena vila, encantadora e ainda intocada.

Uma  ilha redonda esconde Tarituba de quem passa por mar, mas entrando na rasa enseada a cidade se revela como por encanto.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 04, 1994

Rumo a Parati. Fundeamos perto do cais, 3 metros, lama.

Chegamos na hora marcada (13:00) quando encontramos o Machado (motorista) no cais, que trouxe o carro da Renata.

Parati é nossa velha conhecida, nos sentimos em casa. Mas não poderíamos deixar de dar uma boa caminhada por suas ruas românticas.

A noite fomos jantar na cidade, no restaurante do Hiltinho, onde sempre comemos bem, ha anos.

Tempo bom, mar calmo.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 5, 1994

Rumo a Parati Mirim, onde dormimos.

Encontramos o mesmo pessoal que estava no Luiz Rosa quando chegamos.

Fundeamos perto de uma praia para nadar.

Entrou vento, a ancora garrou, mas tivemos tempo de sair sem problemas.

Mar calmo, tempo bom

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, January 6, 1994

Voltamos a Parati, onde dormimos sob linda noite estrelada.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, January 07, 1994

8:50 Saída de Parati rumo Ubatuba

Flavio, Guga e Sergio a bordo

Milena e Renata foram de carro

Horário previsto de chegada 15:45

Mar calmo.

Temperatura 28° C, humidade 68%, barômetro 1004 mb.

Viajamos a 8.8 nós, 33 litros por hora, de consumo.

09:45 Vento leste 3 nós, saimos da Joatinga.

O dia está bonito, a bela baia de Ubatumirim com suas ilhas redondas é sempre um prazer de se ver.

10:20 Vento Leste 3 nós - Chegada prevista 15:30

12:00 Mar de popa, 2.5m, vento leste 4 nós.

16:40 Ferro lançado em Ubatuba, baia da Ribeira, 30 metros de corrente, 6.2 m de profundidade fundo de lama.

Saimos para jantar no Restaurante Malibu, antigo Patachou onde se come magnifico Chateubriand com molhos diversos.

O pessoal reclamou que o restaurante balançava muito!

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, January 08, 1994

Ubatuba - Santos

10:00 Saída com Guga, Flavio, Sergio

Rumo ilhabela, chegada prevista em Santos, 20:00

11:30, a 4.95 milhas náuticas de Ilhabela. Mar picado, vento oeste, 11 nós.

12:30 passagem pelo canal de S. Sebatião, pelo binóculo procuramos vida na casa de minhã irmã, mas parece deserta. Seguimos viagem.

Chegada prevista a Santos 18:30

13:12 Contato por radio c/ Porto Marina Asturias, Delta 21 (Iate Clube de

Santos fez ponte), informamos chegada as 19:00

15:30 Embarcação Vilage Chamou procurando contato com embarcação Mar

de Capri.

Tentamos auxiliar mas não foi posssivel.

Entramos no Porto Asturias no horário previsto.

Mar muito calmo, sem vagas, bela viagem.

 

O San Marino passará agora por uma grande revisão e acabaremos sua construção. Os defeitos que se apresentaram foram mínimos, basicamente vazamentos na tubulação de agua e esgoto, graças a um tipo de conexão rosca-mangueira fabricada pela Cipla, que estourava uma a uma. Substituiremos todas por bronze, e esperamos dentro de 6 meses, iniciar nossa sonhada viagem rumo aos rios da Rússia, via mar Negro.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 02, 1994

Hoje inicia-se realmente nossa viagem.

Ontem fizemos grande despedida de todos da Marina Porto Asturias, onde estivemos por mais de um ano. Vieram o Jurimar e o Amorim com flores e desejos de boa viagem.

Estavam no cais o João, o Paraná, o Bahia e muitos que trabalharam na construção e nos auxiliaram quando lá estivemos.

Nossa intenção é ficar ainda um bom tempo em Angra dos Reis, parte das melhores de toda a viagem, não queremos perder.

Soltamos as amarras, pela primeira vez embarcando tudo que era nosso, inclusive as tomadas elétricas fixas a torre elétrica.

08:00 Saída de Marina Porto Asturias com Milena e Jaime Esper

O dia está muito bom e o mar gentil, o que não impede o Jaime de fazer uma cara um pouco desanimada, devido ao balanço.

Viagem muito agradável, comemos alguns sanduíches e chegamos ao Saco da Ribeira, Ubatuba, 18:00, onde pernoitamos.

Como sempre foi incrível atravessar o canal de S. Sebastião, Ilhabela a boreste, continente a bombordo.

Mar com ondas de 1.5 metros, ventos S.W. força 2.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 03, 1994

07:00 Saída Saco da Ribeira

Mar calmo, vagas de até 2.5 metros na Joatinga e Ponta Negra

Ventos S.W. força 2/3.

A viagem continua tranqüila e bela.

Ao entrar na barra da Joatinga um grande cardume de golfinhos nos acompanha por 15 minutos.

É uma festa ver tanta alegria entre os peixes que saltam e cruzam nossa esteira e nossa proa.

São mais de 20. Uns nadam ao nosso lado, outros mergulham sob a quilha, outros brincam com a esteira de popa, outros se divertem na proa.

Que espetáculo, quanta alegria.

Viramos crianças e nos divertimos a valer.

Gravamos tudo em vídeo, foi uma bela recepção e inicio de viagem. Dizem que dá sorte, vamos ver!

13:00 Chegamos à casa de meu amigo Arthur Russi Jr, que nos esperava em sua ponte particular. De dinguie fomos até lá, e fomos muito bem recebidos por toda a família, como sempre.

A Loli, mulher do Jaime nos esperava ali, pois estava gripada e não pode vir conosco.

O Russi tem sido um grande incentivador de nossa viagem e também nosso conselheiro principal. Com sua imensa experiência e sabedoria nos apoiando, nos sentimos seguros para iniciar este sonho tão ousado com tranqüilidade.

Ao lado de sua casa, um pequeno veleiro fora d’água é motivo de uma história, que ele tão bem sabe contar. Pertence a um casal, que saiu em viagem pelo mundo mas encontrando mar pesado no Cabo São Tomé (por onde vamos passar logo) perdeu seu mastro e capotou , fazendo que seus proprietários desistissem logo alí de seu intento.

Belo exemplo,  bem quando pretendemos iniciar o mesmo tipo de aventura, porem o San Marino é muitas vezes maior e certamente mais estável.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 04, 1994

Aproveitamos o belo dia para fazer um passeio com Loli e Jaime pela baia da Ilha Grande.

Da Casa do Russi fomos ao bar do Luiz Rosa, depois à Praia Escondida e depois ao Hotel Porto Aquarius.

 

Nossos motores tem-se comportado magnificamente. São 2 Detroits (General Motors) 6-71-N, talvez o motor a explosão mais repetidamente fabricado na história. Foram inicialmente utilizados pela marinha e exercito americanos na segunda guerra, e assim disseminados por todo o mundo. De lá até hoje, poucas modificações foram feitas neste modelo. Com os injetores que possuimos (N70), desenvolve 230 Hp a 2300 RPM.

São motores muito simples (2 tempos) de aspiração natural e fácil manutenção. Não necessitam sangramento, a bomba de combustivel é de engrenagem e não possue bomba injetora. (Os bicos injetores fazem este papel) Em todo o mundo, inclusive na área soviética encontra-se peças e assistência técnica. Uma cópia exata deste motor é fabricada na união soviética.

 

17:00 Entra uma frente fria - Ventos S.W. forca 4/5.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 05, 1994

Estamos amarrados ao cais da Marina Porto Frade, onde pretendemos ficar alguns meses.

Fomos muito bem recebidos pelo Marcello Quintella, Gerente, e por todo o pessoal.

Temos a vantagem de contar com o apoio do Hotel do Frade, e pensamos passar 15 dias aqui, 15 dias em S. Paulo, para pouco a pouco irmos nos desligando das amarras da vida de cidade grande.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 11, 1994

Estamos convidando amigos de S. Paulo para nos visitarem, pois é a última oportunidade, daqui vamos para longe, quem sabe para onde.

Hoje vieram a Gilda e o Roberto, com os filhos.

A Gilda é amiga da Milena ha muito, e o Roberto, sempre é um papo agradável.

Fomos à enseada das Palmas onde dormimos.

O tempo está excelente.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 12, 1994

Voltamos à marina do Frade. Atracamos no fim da tarde e voltamos para S. Paulo. Gilda e Roberto voltam para Lorena, onde moram os pais dela.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 18, 1994

Vieram hoje nos visitar o Sergio e a Edna, amigos de inicio de vida. Dormimos aqui mesmo na marina, vamos sair amanhã para um giro pela Baia da Ilha Grande.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 19, 1994

Demos uma grande volta e paramos na Ilha dos Porcos para almoçar mas acabamos só comendo as iguarias que a Edna trouxe, tantas e tão boas eram.

Voltamos no fim da tarde, atracamos, Sergio me ajudou a preparar o barco para deixa-lo sozinho.

 

Tenho preparado 4 tipos de formulários com lista de tarefas a serem feitas ao deixar o San Marino só, ao voltar, ao iniciar viagem e ao retornar de viagem.

São itens a serem checados que são marcados com um v num pequeno quadro ao lado de cada item.

Assim, ao deixar o San Marino por mais de dois dias só, verifico todos as entradas de agua no casco e as deixo fechadas, desligo o sistema elétrico deixando ligadas apenas as bombas de porão, o sistema de ventilação forçada e as geladeiras, anoto as horas de gerador, dessalinizador e motores, anoto os niveis de diesel e agua, a posição e proa do barco, tensão e porcentagem de carga das baterias, verifico vigias e portas, verifico amarras e flybridge, abaixo as antenas para diminuir perigo de raios, tranco com cadeado os armários externos, fecho a linha de combustível dos motores, tiro a pressão do sistema de agua doce e saio despreocupado, certo de não ter esquecido nada.

Se devo ficar longe mais que 15 dias também preparo os dessalinizadores com liquido anti-fungos, desligo e esvazio freezers e geladeiras.

É muito importante ter um check list, pois não o tendo se viaja preocupado de ter-se esquecido de alguma coisa.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 10, 1994

11:00 Saída do Frade com Schuler, Dori, Helena (mulher do Carlão), e Milena rumo bar do Luiz.

O Schuler e a Dori acompanharam muito de perto a construção do San Marino. Aqui estão para o primeiro passeio.

A Helena e o Carlão, são navegadores experientes, possum um belo veleiro, o Porthos e são donos de uma loja de artigos nauticos de S. Paulo, de mesmo nome.

Eles estão aqui para dar aulas de navegação por radar a um de seus alunos, e a Helena aproveitou para ficar umas horas conosco.

Foi com o Carlão que tirei minha primeira licensa como Mestre Amador, e foi ele que me indicou livros e professores para minha patente de Capitão Amador.

 

Estou ajustando os instrumentos eletrónicos a cada saída. O Autohelm tridata informa profundidade, velocidade e temperatura da agua. A profundidade foi ajustada levando-se em conta a distancia ente o sensor e a linha d’água. Todas minhas referencias de profundidade são da linha d’água. A Velocidade foi corrigida com fator 1.25 .

O trip log marca 7 NM

O trip log marca a distancia percorrida nesta viagem (7 mn) e o Log marca a distancia percorrida até hoje.

 

Contato com Carlão por VHF, que nos espera na ponte.

Na volta, ao atracar, tentei sozinho manobrar e recolher o cabo da bóia que prende nossa proa, (estamos atracados tipo "Mediterrâneo), popa para o cais. Havia um pouco de vento e avaliei mau o movimento do casco. Resultado: Colisão ligeira com Criscar (um belo yatch a motor de 85 pés) ao atracar, sem danos.

Chegada as 14:45

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 16, 1994

Vieram o Carlão e a Helena passar o fim de semana conosco.

Saímos testando o Piloto Automático e a bússola fluxgate eletrónica parou de funcionar. É defeito de fabricação temos que trocar.

 

Os equipamentos Furuno, de excelente qualidade, utilizavam fluxgate KHL e agora estão produzindo a própria bússola eletrónica para conectar a seus radares e pilotos automáticos.

Em nossa ponte, temos um Radar Furuno serie 8300 com antena de 1.80 metros e alcance de 72 milhas. Como reserva um radar Furuno Serie 1830 com antena coberta, aquela usada por veleiros, para evitar enroscar as velas.

O primeiro radar, excelente, está ligado ao fluxgate portanto posso efetuar tomadas de posição com perfeição e rapidez, e manter a tela com rumo ou norte acima.

O radar é para mim o mais útil instrumento de navegação e este que temos é muito preciso, dando imagens muito detalhadas graças a sua antena de grande tamanho.

O radar auxiliar, é um backup e também o uso a noite quando ancorado, com a zona de guarda programada para meia milha. Tenho em meu camarote um repetidor do beep de alarme, assim se alguém se aproxima ou se o San Marino garra, o alarme toca e me desperto para ver o que sucede. Durmo assim tranqüilo.

Passamos o dia na enseada da praia do forte onde dormimos.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 17, 1994

Carlão e Helena partem, não sem antes o Carlão ter mergulhado e limpado o fundo do San Marino, obrigado!

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 24, 1994

Hoje veio o Russi, não só como amigo, mas como diretor da ABS, fazer uma inspeção rotineira.

 

A ABS (American Bureau of Shipping) é a empresa que escolhemos para fiscalizar a construção, aprovar o projeto e classificar o San Marino.

Estamos classificados como "lotus" 

A sede da ABS é nos Estados Unidos e as classificadores similares mais conhecidas são O Lloyds (GB), o Bureau Veritas (NL), a RINA (I) etc .

Nos dá segurança viajar num barco assim controlado, pois além do projeto inicial do David Napier o projeto do casco foi submetido a testes de computador, foi recalculado pela ABS que sugeriu diversas modificações, foi apresentado à Marinha Brasileira pela Solido Engenharia (Gerson Machado) que calculou todas as curvas hidrostáticas e foi novamente testado quando pronto pela ABS.

Além da segurança significa maior valor de revenda e premios menores nas apólices de seguro.

Anualmente fazemos uma inspeção, em qualquer lugar do mundo, para mantermos válida a classificação.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, September 24, 1994

11:00 Saída do frade com destino Ilha Grande, Praia do Forte com Henrique e Valéria, Milena e Sergio.

Henrique e Valéria são amigos de muitos anos, grandes companheiros de noitadas, quando a noite em São Paulo era ainda romântica e seletiva.

Ventos sudoeste com rajadas de 25 kn

Barômetro em queda, 1010 mb, temperatura 28° C, hum 70%

Velocidade 8.6kn, port 33lph, stb 36lph (hélice com craca)

Viajamos rebocando o flexboat, que vai bem.

Chegada as 13:00

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, September 25, 1994

14:15 Saída da enseada do sitio do forte para bar do Luiz Rosa, Praia das Flechas, Ilha da Gipoia.

Falo muito do Bar do Luiz, mas é que além da simpatia do dono é seguramente o local onde melhor se come em Angra dos Reis, e a caipirinha é incrível!

RPM 1600, 34 lph bombordo e boreste, 8.9 nós pelo log, 8.9 nós pelo gps.

17:10 Saída do Luiz após almoço, rumo Frade

Chegada 18:00

Havia muito vento, dormimos ao largo para evitar outra colisão.

Henrique e Valéria voltaram para S. Paulo, belos dias passamos juntos.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, September 26, 1994

8:30 Está sem vento, Milena e eu vamos atracar. Tudo O.k. Temos que praticar todo tipo de atracaçãom sósinhos, pois assim vai ser nossa viagem daqui para frente.

O San Marino, apesar de seus 20 metros e 65 toneladas, possui cabrestantes de ancora elétricos e cabrestantes na popa para ajudar o manejo dos cabos. Está feito para ser operado apenas por duas pessoas.

Vento leve de sudoeste, que não nos atrapalha.

Esperamos a entrada de uma frente fria pela madrugada.

 

Posição dos contadores de horas

Bombordo: 137.2 hs

Boreste 137.7 hs

Os contadores de hora marcam o tempo de uso de cada motor.

O eletrónico faz parte do sistema Flo-Scan que também controla o consumo de combustível. O Elétrico, fica no Pilot House junto com todos os instrumentos VDO (RPM, Pressão de óleo, pressão de óleo do reversor, Temperatura da agua e Voltagem da bateria) e o Mecânico na sala de máquinas, onde temos todos as funções acima mais amperagem de carga ligados diretamente ao motor, portanto funcionando mesmo sem bateria.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, October 15, 1994

07:45 Preparação para saída para a Praia do Dentista

A bordo Flavio, Renata, Marcelo e Joice (amigos do Flavio)

Temp 25C, 1015 mB, 85%

~

Posição dos niveis dos tanques de combustivel: 

tanque 9 - 300 mm (Gerador)

tanque 8 - 760 mm (motores)

tanque 4 - 950 mm

Temos 12 tanques numerados:

0 e 1 : Óleo lubrificante novo e queimado, 400 litro cada;

2,3,4,5 : Óleo Diesel, 1000 litro cada;

6,7: Óleo Diesel, 1700 litro cada;

8 e 9: Óleo Diesel (day tanks), 2200 litros cada.

Usando gravidade transfiro combustível entre os tanques 2,3,4 e 5 e todos os outros. Com bomba transfiro entre todos os tanques.

O sistema de medir o nível, conforme acima descrito é pneumático e mostra o nível em milímetros.

Os 4 tanques de agua doce (600 litros cada) também usam o mesmo sistema.

09:15 Saída rumo Praia do Dentista

12:00 Rumo ao Bar do Luiz

17:00 Saída do Bar do Luiz para Enseada do Forte

Testo consumo e velocidade com apenas um motor:

1 motor, 1600 rpm, 39 lph, 6.7 nós GPS, 6.9 nós log

1 motor, 1720 rpm, 50.5 lph, 7.4 nós GPS

2 motores, 1730 rpm, 88 lph, 9.3 nós GPS, 9.2 nós log

Efetivamente podemos viajar com um só motor, sem perder velocidade ou autonomia. Viva o David Napier !

 

Nossos reversores são hidraulicos, Twin Disk 2.58:1. Não é recomendável deixar livre o eixo caso por mais de oito horas (segundo o fabricante) caso se utilize um só motor. Temos um sistema simples e eficiente de bloqueio. Um grande grifo que se prende ao eixo!

Reversores hidraulicos são muito robustos e aceitam sem reclamar cambio de sentido sem trancos ou rumores. Mas os velhos mecânicos tipo Hurt, podem rodar livres por periodo indeterminado.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, October 16, 1994

Passamos um belo dia esquiando, nadando e mergulhando.

É bom ter a convivência dos filhos e seus amigos prediletos.

O Marcelo revelou-se uma bela amizade, e com sua bonita mulher foi ótima companhia

17:10 Saída da enseada do sitio do forte para Frade

19:00 chegada ao Frade

Continuamos indo e vindo de S. Paulo, estamos de saída.

É cansativo, espero começar realmente a viver no barco no próximo mês.

O San Marino está pronto, testado, e queremos subir a costa do Brasil