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Ibiza e a Costa da Espanha

A ilha de Ibiza – San Antonio – Morayra – A preguiça e a atualização do site – Cartagena – Almeria – O Bar Guanabara - Cabo Della Mona – Presos por Intenso Nevoeiro – Vôo cego

 

LOG ENTRY FOR: Monday, August 14, 2000

8:30 Decidimos partir para Ibiza. O tempo está ótimo, Maiorca já deu muito para nós. Ferro levantado, motores ligados.

8:55 Rumo 196 até a Punta de Cala Figuera. São 4,8 milhas. De lá até Ibiza, 50 milhas, bem ao norte da ilha. Quando chegarmos vamos decidir aonde ficar.

Estamos viajando a 8,3 nós, gastando 42 litros por hora a 1370 rpm. É o hélice econômico, mostrando todo o seu valor.

E também o fundo recém pintado.

A 1700 rpm estamos fazendo 9.7 nós com 75 lph.

Nosso top está a 1900 rpm no motor de bombordo e 1840 no de boreste, que não está abrindo todo o gás. É o cabo do comando um pouco desregulado, vou verificar mais tarde pois consome 43 litros e o outro 51. Navegamos assim a10.3 nós. Vou manter 1480 rpm a 8.6 nós, será nossa velocidade de cruzeiro hoje, 50 lph.

9:14 Rumo alterado, proa para Ibiza, que está a 46 milhas. Já apareceu no radar, navegar aqui é muito fácil.

O mar está liso, não ha ondas nem ventos. A Milena escolheu bem o dia. Nosso rumo é 248.

10:30 Inspeciono a casa de maquinas, tudo está perfeito depois de todo o trabalho feito em Palma e duas horas de navegação

14:10 Tudo calmo e tranqüilo, o mar está um pouquinho mexido com vento de sul força 4. Ibiza já esta à vista um contorno escuro e regular tomando uns 40 graus do horizonte bem a nossa proa. A parte norte está na verdade em nossa proa, pois vamos entrar pela face norte e ancorar em alguma baia protegida do vento sul.

O dia é magnifico, faz muito calor, estive até agora fora, na ponte portuguesa, curtindo o vento e o sol.

15:15 O farol da ponta de Moscarté está em nossa bochecha de bombordo, a uma milha. Estamos em Ibiza, vamos procurar a Cala Portinatx e ver se ha lugar para ancorar.

15:35 Estamos ancorados em Portinatx, a cala é pequena e ha muitos barcos, mas me enfiei em um lugar apertado. Estamos a 0.45 milhas da costa e a 0.30 milhas de um Grand Banks à nossa popa. Não testei para ver se o ferro pegou, pois aqui o fundo é ruim, de grama, a CQR precisa de tempo. Pelo pilot, é fundo de pega ruim. Vou ficar controlando. Se não der vamos procurar outra baia.

17:30 Ha barcos demais nesta pequena baia. Assim vou ter que dormir no pilot house. Vamos mudar para uma mais espaçosa.

A próxima é a Calla de Charraco. Vamos para lá.

Ha 8 barcos ancorados, todos vão passar a noite aqui.

Em terra quase nada. Uma pequena praia, ao fundo, poucas casas, um restaurante-bar.

Vamos ficar a bordo. A Milena prepara um bom Espaguete ao Pesto, temos ainda duas garrafas do famoso Turriga da Sardenha, faremos nossa noite aqui mesmo, com esta paisagem magnifica ao fundo

LOG ENTRY FOR: Tuesday, August 15, 2000

Dormimos tranqüilamente a baia é magnifica e ampla.

Aberta para ventos norte, mas previsão é sul por alguns dias.

A água é transparente, de um azul nunca visto.

Mergulhando descobri a causa de tanta beleza, e também vi uma das mais belas imagens de minha vida.

O fundo é de um areia branquíssima, muito plano e igual, com pequenas dunas como um pequeno Saara. Vai caindo lentamente de 10 metros onde estamos até 15 metros no meio da baia.

No meio de toda esta alvura, ilhas de vegetação sobre rocha, como oásis nos desertos.

E sobre estes oásis, milhares de peixes, escuros, prateados ou coloridos.

A água claríssima me permite ver alguns pequenos linguados se arrastando sobre a areia. Ha muito sol, a água está a 24 graus C.

Continuamos em trabalho de faxina. De minha parte estou lavando o Flybridge com esponja, escovão e detergente degradável. É trabalho que faço duas vezes por ano, aqui com prazer, pois de quando em quando mergulho lá de cima nesta piscina magnifica.

LOG ENTRY FOR: Wednesday, August 16, 2000

Continua o trabalho. Hoje é o casario, que precisa de uma esfregada, ainda não o fiz este ano, só joguei água doce uma vez ou outra.

A Milena arruma a parte interna, lava roupas, ha muita calma por aqui.

Em nossa volta há uma parede de pedra de uns 100 metros de altura, com muitas cavernas que a natureza escavou.

A noite está para chegar, há uma maravilhosa lua cheia, que apesar de diminuir o brilho das estrelas, traz uma coloração prateada a estas águas distantes.

Hoje são poucos os barcos, 4, pois acabou-se o ferragosto, o feriado que marca o fim do verão, os barcos retornam a seus portos.

Vamos continuar a bordo, é lindo demais sentar-se em nosso jardim de popa e deixar a tarde cair.

LOG ENTRY FOR: Thursday, August 17, 2000

Muito contra a vontade, vamos deixar esta linda baía e navegar para San Antonio, outra baía mais a oeste onde existem diversas calas e uma cidade importante, a segunda de Ibiza. Temos que fazer algumas compras, vamos voltar à civilização.

10:30 Ferro no ar, serão 15 milhas, duas horas de navegação.

O mediterrâneo está calmo e belo. O dia brilhante e o mar cheio de velas brancas.

Vamos costeando, entrando eventualmente nas calas mais bonitas.

Numa delas, na Cala Salada, cujas laterais são escarpadas em forma de escada, as margens estavam coalhadas de gente. A cor marrom da pedra nos fez lembrar as imagens do Rio Ganges, no famoso banho. Chegando mais perto, vimos que todo mundo estava nu, é um local de nudistas, frequentadíssimo!

14:00 Estamos ancorados no porto de San Antonio.

A cidade é feia vista de longe, são centenas de prédios de mau gosto, a maioria hotéis ou apartamentos para estrangeiros.

Em nosso bombordo um cutter americano e a boreste um trawler clássico de London.

Na baia estão ancorados mais de cem barcos diferentes, mas ha muito espaço.

19:00 De dinguie fomos à terra. Ha uma semana não botamos os pés em terra firme.

Demos uma volta pela cidade, que é simpática e mostra uma cara mais bonita quando se caminha por suas ruas estreitas, cheias de lojas para turistas. Estes pequenos negócios trazem vida, cores e alegria a qualquer cidade do mundo, apesar de incomodar muito os locais.

A freqüência não é das melhores, muitos hooligans ingleses que vem aqui para fazer arruaça e brigar.

Ibiza começou a ter fama mundial por ter sido um local escolhido pelos hyppies, transformando-se depois em uma lha "da moda".

O ano passado foi marcado pela presença incomoda de muitos hooligans, e agora parece que está se tornando um ponto de encontro para gays, muito mais civilizados, bonitos e educados que seus antecessores.

Jantamos bem no restaurante Bel Sito, bem, em frente o clube náutico.

LOG ENTRY FOR: Friday, August 18, 2000

Voltamos à cidade. A Milena foi ao cabeleireiro, o Nino, e eu aproveitei para cortar meu cabelo também.

Como acabei antes, fui para um bar tomar um gin tonic. Fiquei mais de uma hora por lá. A freqüência é ótima, as pessoas que passam pelas ruas de bom nível, que contraste com a população de ontem a noite.

A Milena em Palma, verificou o mesmo em seus passeios matinais (enquanto eu suava e trabalhava a bordo).

A explicação que ela dá e com a qual concordo é que os turistas de massa, que geralmente vem para passar uma semana em vôo charter, pela manhã vão à praia, e deixam a cidade livre para os habitués. A noite, invadem as pequenas cidades como as hordas de bárbaros invadiam a Itália antiga.

LOG ENTRY FOR: Saturday, August 19, 2000

8:15 Tudo pronto para partirmos.

Vamos deixar a ilha de Ibiza sem ter conhecido a cidade do mesmo nome.

É pena, mas o vento continua vindo do sul, o porto de lá é aberto para ventos deste quadrante, e não há lugar na marina.

Vamos para o continente. Por mais de dois anos estivemos só em ilhas. Serão 70 milhas de viagem até Morayra, um porto onde já estivemos em dezembro de 1995 e gostamos muito. Vai fechar um circulo que navegamos no mediterrâneo, como uma circunavegação deste velho mundo. Desde Morayra até Morayra foram 8.200 milhas. Até Gibraltar serão mais 500 milhas o que nos fará navegar quase 10.000 milhas neste mar fenício.

8:27 Saindo da barra do porto.

Testei novamente o máximo de rpm no motor de boreste após ajustar o comando cujo tope estava muito baixo. Chegou até 1870 rpm, ainda é baixo.

Estamos viajando a 1500 rpm, 50 lph, 8,7 nós.

Nosso próximo Way Point, 50, fica ao norte da ilha Conejera, que está agora em nossa proa a 2,2. milhas.

Dizem que lá nasceu Aníbal, o grande conquistador que quase tomou Roma. Certamente seus escaladores de montanha, que tanto trabalho deram aos romanos nos Alpes foram provenientes desta escarpada ilha quase deserta.

Ha um belo farol antigo em seu topo.

A partir deste ponto, vamos navegar com a carta Esat Spain Pilot, da Imray Laurie, a mesma que usamos em 1996, quando viajávamos em direção oposta. Toda anotada com nossos rumos, WPs e detalhes da viagem. Por isto tenho tanto prazer em navegar com cartas de papel. Não temos plotter a bordo, apesar de saber de sua conveniência e facilidade.

10:00 Morayra já está no radar a 42 milhas daqui. Nosso ETA é 15:30

14:45 Cabo de La Nau em nosso través de boreste.

15:30 Atracamos na mesma vaga que estivemos da outra vez. Vento de través, força 4, entramos fácil numa vaga justa. peguei eu mesmo o corpo morto, pois com vento de lado posso abandonar o pilot e trabalhar nos cabos. Ha trifásico, 62 ampères, vou ligar até o ar condicionado. Está 40 graus!

Para matar a saudade, um belo giro pela cidade, um bom jantar e um sono cheio de sonhos.

LOG ENTRY FOR: Sunday, August 20, 2000

Domingo, todos vem passear na marina. Nosso barco é sempre uma atração, bandeira brasileira, Santos como porto, muitos curiosos.

Estamos agora quase sem obrigações, tudo está em ordem, mesmo assim aproveito para dar uma esguichada de água em todo o casco, mais para aproveitar a água doce disponível e também para tomar uns borrifos no corpo, neste calor infernal.

13:00 Vamos à cidade para comer umas tapas. Encontramos um lugar incrível, as melhores tapas de toda a viagem.

20:00 Decidimos jantar no Bahia de Ouro, um restaurante chinês que curtimos muito da outra vez e onde fizemos amizade com o pianista, o Mike.

Desta vez não havia piano, mas o restaurante continua ótimo, e como sempre nos restaurantes chineses, a comunicação com os garçons é engraçadíssima. Você pede as coisas, eles sorriem muito e trazem o que querem.

LOG ENTRY FOR: Monday, August 21, 2000

Tivemos que mudar de vaga. O pessoal da marina veio logo pela manhã e pediu que ficássemos a bordo esperando que uma vaga nova se abrisse. É que o proprietário da que estamos volta hoje e quer seu lugar.

12:30 Já estamos em nova vaga, com alguns problemas com o corpo morto, que vou resolver à tarde. Ele está muito próximo à nossa proa, o mesmo problema que tivemos em L'Estartit a 5 anos atrás e nos custou uma raspada do casco no cais. Mas desenvolvi um sistema depois daquele problema, e amarro os cabos de proa nos nosso cunhos de quase meia nau. O barco joga um pouco de proa, mas a segurança é maior.

19:00 Voltamos ao restaurante das tapas, para repetir a dose. É mesmo muito bom.

Descobrimos que eles fazem uma boa Zarzuela, vamos voltar lá amanhã.

LOG ENTRY FOR: Tuesday, August 22, 2000

Abro o E-Mail de hoje e encontro um protesto de meu filho Flávio, reclamando pela mudança que fiz no Web site, desde 15 de julho, quando voltamos de uma breve e enriquecedora viagem ao Brasil.

Deixei de colocar semanalmente nosso diário de bordo nas páginas da Internet, (o diário continuo escrevendo todos os dias como sempre fiz) estou apenas eventualmente e sem prazos, colocando alguma fotografia na primeira página. Não foi só ele que protestou, é verdade, mas o protesto dele sem dúvida tem mais peso.

Porque parei? Egoísmo? Preguiça?

É certo que eu sabia que algumas pessoas sonhavam junto conosco em cada nova página com os fatos da semana;

É certo também que eu precisava de ao menos um meio dia para juntar todos os fatos da semana em uma página, dar uma forma gráfica decente e conectar-me ao servidor.

É claro que o primeiro fato acima me deixava no mínimo com uma pitada de orgulho e o segundo com uma obrigação a mais.

O verdadeiro motivo entretanto, foi que me dei conta que estava começando a viver, não só para mim mesmo (ou para mim e minha companheira) mas também para outras pessoas, desconhecidas, e começava, lentamente, a transformar minha vida por isto.

Explico melhor, quando saía para fazer um passeio, pensava: "será que esta rota vai trazer novidades para a página? Será que terá belas possibilidades de fotografias? Será que este prato que estou comendo agradará alguns leitores?"

Comecei assim a escravizar-me a uma simples página de Internet. Era só um começo, mas o ideal na vida é matar a peste quando ela está ainda pequena.

Sei que outras pessoas, mais filósofas e sábias que eu, não se importariam, fariam sua vida como se nada fosse, mas não tenho esta capacidade e comecei a me sentir vigiado.

Se fosse só para mandar o texto para meu filho e alguns poucos amigos, seria diferente. Estaria sentindo sua presença em tudo que eu fazia, o que me traria ainda mais alegria e liberdade.

Mas muita gente junto transforma as coisas, num restaurante dá para colocar numa mesa até 6 pessoas, depois vira bagunça.

Senti também que a Milena começava a desenvolver uma pitada de ciúme, por ter nossas vidas escancaradas. Isto para mim nunca importou, não me faz diferença viver em uma casa de vidro ou fechada. Mas creio que para ela era diferente. Não sei, nunca perguntei a ela, é apenas uma opinião.

Claro que continuo com o diário, e que vou, quando acabar este trecho de viagem corrigir todo meu português ruim e colocar tudo num capítulo e numa página do site. Mas faze-lo para apenas poucos, que quem sabe irão lê-lo dentro de quem sabe quantos anos, muda tudo.

Hoje vamos nos preparar para viajar amanhã (se o tempo permitir) para Cartagena, mais uma perna em nosso trajeto para Gibraltar.

LOG ENTRY FOR: Wednesday, August 23, 2000

7:10 Amarras soltas, saímos facilmente da vaga rumo à Cartagena.

Estamos um pouco atrasados, serão 12 horas de viagem, o plano era sair as 6.

Mas vou aumentar um pouco a velocidade para compensar.

1600 rpm, 9.4 nós, 60 lph

Peñon de Ifach em nossa bochecha de boreste. É uma rocha impressionante. Estamos no rumo para o cabo de Palos, a 76 milhas daqui, Cartagena fica 20 milhas depois. Deveremos dobrar o Cabo de Palos às 15:30, isto se o mar estiver bom, senão vamos ter que navegar costeando e o tempo de viagem vai aumentar. Estaremos no ponto mais distante a 39 milhas da costa.

7:30 amanhece. A visibilidade não é muito boa, ha uma névoa úmida, nuvens negras no céu, é uma frente fria que se aproxima.

8:40 Longitude 0 graus, 0 minutos, 0 segundos. Estamos cruzando o meridiano de Greenwich, saindo do leste, entrando no oeste.

10:30 Estamos a 13 milhas da costa, altura do Cabo de Las Huertas. Temos tido corrente de 0.8 nós contraria durante todo o tempo, nosso ETA vai se alterar, 16 horas em Palos.

Não ha ventos, agora força 1 de E, mar de vagas de 1 metro vindo de SW, muito confortável.

15:40 Cabo de Palos. Altero a rota para 240, vamos começar a aproximação de Cartagena que esta a 20 milhas daqui.

Ha muitos navios na região, pelo menos uns 20, é a proximidade do estreito de Gibraltar

O mar vem apertando aos poucos. Agora são ondas de 1.5 metros, de SW.

A Baia de Cartagena é ampla mas aberta para os ventos do quadrante sul, que agora estão soprando.

Bem ao fundo da baia, ha uma Cala protegida de todos os ventos, e por isto Cartagena se tornou um dos mais conhecidos portos da Antigüidade. Mas hoje esta parte é reservada à Marinha. Nós vamos para o Club Nautico, protegido por diques artificiais de grande tamanho.

A entrada da baia para quem vem do norte, como nós, pode ser feita entre a pequena ilha de Escombreras (que nome tenebroso) e a ponta de los Aguilhones. É um estreito canal de uns 100 metros de largura e no meio ha 2,6 metros de profundidade. Vou entrar por lá, é protegido do mar de SW que está entrando cada vez mais forte.

17:35 Enfiei a proa no meio do canal da Ilha Escombrera. Um veleiro que vinha na mesma direção nossa, mudou de rumo e decidiu seguir-nos. Confia em nossa navegação, ou confiará depois de passarmos.

O mar subitamente se acalma, é a sombra que faz a ilha.

A Baia se descortina de uma só pancada. É bela e cheia de fortificações antigas.

O telefone celular volta a funcionar, e a Milena chama a marina para avisar que estaremos entrando em meia hora. É sempre mais fácil que usar o rádio, se se pode.

Vou seguindo o caminho bem indicado pelas bóias, deixo o Dique de Navidade por bombordo e a seguir o dique de la Curra a boreste. Paramos alguns minutos para a Milena preparar as defensas e cabos para o atraque, cada um de nós pega nosso pequeno radio de comunicação interna, e estamos prontos.

Logo à entrada do dique da marina, já está um marinheiro nos indicando o lugar.

Fica bem no fim da marina, cujas "ruas" são muito estreitas.

Vamos parar de costado, é uma vaga para pequena estadia.

Para deixar o escapamento do gerador virado para o mar e não contra o cais, decido entrar de ré. Giro o San Marino num canto onde nosso tamanho permite. Quase não dá, é tudo muito justo.

De popa, vou me dirigindo ao local, ha um iate novíssimo, o Andiamo, de Puerto Banus já atracado. Nos sobra uma vaga muito pouco maior que o San Marino.

Alinhando-me ao lado da vaga, giro a proa e entro de frente na vaga até quase tocar o cais.

O vento não está ajudando, preciso trabalhar com cabos.

A Milena joga um cabo que o marinheiro ata a um cunho próximo ao Andiamo, ela em seguida o ata em nosso cunho da bochecha, bem firme, e dando ré retesando este cabo, o San Marino gira lentamente e docemente entra na vaga e se apoia nas defensas. Sobrou um metro afrente e outro atrás.

Varias pessoa que estão no cais nos cumprimentam e elogiam. Depois de bem amarrados, fui ao clube fazer a papelada e a noite comemos deliciosas tapas no El Marisconero, na calle Major, imperdível.

LOG ENTRY FOR: Thursday, August 24, 2000

Cartagena é uma cidade em obras. Estão reformando toda a área portuária, vai ficar muito bonito. Mas as obras principais, as velhas fortalezas, a prefeitura, os prédios dos séculos passados, estão como sempre foram. Magníficos.

Cartagena está bem no final do antigo império aragonês, por onde temos viajado os últimos 2 anos. Todo o sul da Itália, abaixo de Roma, a Sardenha as Baleares e a costa espanhola até aqui foram propriedade desta família famosa.

Agora já não se fala o catalão, estamos em Murcia.

Cartagena é um grande porto comercial, naval e pesqueiro onde muitas áreas são proibidas a iates particulares.

A cidade foi colonizada pelo irmão de Aníbal em 223 AC, Asdrubal. Foi daqui que Aníbal iniciou sua famosa marcha rumo à Itália.

Era chamada de Nova Cartago. Os Romanos a transformaram em próspera colônia.

Os árabes entretanto, preferiram Almeria (para onde iremos amanhã) e os cristão a esvaziaram ainda mais mudando sua sede de bispado para Múrcia.

Somente sob Felipe II e Carlos III que a cidade voltou a seu esplendor inicial.

Almeria entretanto (já na Andaluzia) é mais Árabe, desde o nome ( Al Meriya), o espelho do mar em árabe.

LOG ENTRY FOR: Friday, August 25, 2000

4:30 Tudo pronto para partir. Destino Almeria, porto de Almerimar, pois em Almeria não aceitam barcos maiores que 15 metros.

Soltamos primeiro o cabo de proa. O vento lentamente a afastou do cais. Em seguida a Milena soltou o cabo de popa, hélices girando, saímos lentamente.

A marina é bem iluminada, é como dirigir a noite numa rua cheia de luzes com os faróis apagados.

O primeiro farol de entrada do porto devo deixa-lo a bombordo. A noite está muito escura, ha um pesqueiro saindo, vou deixa-lo passar. Estamos a 4 nós, velocidade para dentro dos portos, mas o pesqueiro vem a 8. Entro atrás dele quase roçado o farol. Logo em seguida vem um outro atras de nós, e ainda mais um.

Me lembra a saída de St Carles de la Rapita, a Milena foi de carro e eu sozinho, saí as 4 da manhã, quantos pesqueiros saíram juntos!

O segundo farol devo deixar a boreste.

5:22 Já longe do porto, a noite está escura, me guio pelo farol do cabo Tiñoso, que lampeja 3 vezes. Os pesqueiros já se foram, estamos sós com as estrelas. Um grande e lindo céu estrelado, com um fiapo de lua à popa.

O mar está razoável, ondas de 1.5 metros de SW, ainda resultado dos ventos dos últimos dias.

7:10 Só agora clareou. O dia chega lento nestas latitudes, e tarde também. Estamos sobre o meridiano de Greenwich, a hora local deveria ser a UTC mas a Espanha usa o horário europeu, uma hora a mais. Junta-se o horário de verão, e a hora geográfica que deveria ser 5 na realidade por convenções humanas é 7.

7:30 Dia claro, a previsão do tempo pela radio Cartagena não é das melhores. Mar forte no Cabo de la Gata e também depois, devido a ventos mais fortes de W.

Vamos esperar um pouco para decidir.

9:45 O mar baixou um pouco, mas está muito desencontrado, vem de todos os lados. Estamos bem no meio da baia de Veras, a 12 milhas da costa.

13:32 Cabo de la Gata a boreste. Mudamos o rumo para 295, rumo à Marina de Agua Dulce.

Decidimos substituir Almerimar por Agua Dulce. Fica muito mais perto, a 20 quilômetros ao sul de Almeria. Ha boas estradas e ônibus para conhecermos Almeria.

15:15 Almeria a boreste, o mar está calmo, contrariando as previsões

17:20 Estamos atracados de costado no cais de recepção do Club Nautico de Agua Dulce.

Como vamos ficar alguns dias por aqui (a Milena quer conhecer Almeria, antiga e importante cidade árabe) aproveitei que estamos de costado e baixei a moto com o guindaste. A Milena foi tratar dos papéis.

No meio tempo chegou um casal, ela espanhola e ele brasileiro, chamados pela bandeira brasileira. Eles tem um bar aqui perto, se chama Guanabara, depois vamos para lá tomar uma prometida caipirinha.

19:00 Atracados de popa em nossa vaga definitiva, ao lado do MV Puffin um daqueles barcos típicos ingleses (iates antigos, casco de madeira, linhas longas e bem cuidadas) com um daqueles típicos ingleses a bordo (calmo, sempre sentado em sua cadeira, gentil e com roupas estendidas nos estais). Fomos direto buscar a moto, é um longo caminho pois estamos do outro lado da marina, na ponta do dique de contenção.

No caminho paramos no Guanabara. A Ana (espanhola da Cantabrida) e o Maurício (brasileiro do Rio) logo se mostraram ótima companhia. Boa conversa, inteligentes e simpáticos.

Nos convidaram para jantar. Feijoada.

Às 10 da noite estávamos lá. Lá estava também o Jan, um holandês que mora em um barco, amigo deles, mas não quis comer a feijoada. Acho que ficou com medo. realmente a feijoada não é dos pratos mais bonitos, assusta os desavisados, até que colocam um pedaço na boca.

LOG ENTRY FOR: Saturday, August 26, 2000

Ontem a Ana e o Maurício nos ofereceram seu carro para irmos à Almeria. Mas acordamos tarde, nem pegamos o carro e estamos com a chave.

E há sempre muito o que fazer a bordo.

Depois, de moto fomos conhecer a região. Fomos até Roquetas Del Mar, uns 20 quilômetros a oeste, pelas praias. Muita buraqueira e areia, mas o passeio foi agradável. As praias são belas e limpas apesar da areia ser de pequenas pedrinhas.

A noite voltamos ao Guanabara, para devolver a chave do carro. O Samba rolava solto, e o Jan mandava suas costumeiras vodcas.

LOG ENTRY FOR: Sunday, August 27, 2000

Durante o dia, alguns passeios de moto pela região.

A noite, fomos novamente ao Guanabara. Eles nos ofereceram uns frios e nós a bebida. O Jan como sempre mandou 5 vodcas. Conversando sobre cervejas (que o Maurício bebia) ele disse: Não bebo cerveja.

Retruquei; "também não gosto muito de cerveja"

Resposta do Jan. "Não, eu gosto, mas não bebo à noite, só durante o dia!

LOG ENTRY FOR: Monday, August 28, 2000

Lá fomos nós com o carro da Ana (Um pequeníssimo Fiat 500) para conhecer Almeria.

A Alcazaba (fortificação luxuosa árabe) e a catedral são impressionantes.

Procurando um bom restaurante, acabamos entrando no Mac Donalds e matando a saudade de um bom hambúrguer.

Ao sair a pé, encontramos na Rua a Ana e o Maurício que tinham ido fazer compras. Que coincidência!

LOG ENTRY FOR: Tuesday, August 29, 2000

Depois de um dia de muita preguiça, deu vontade de fazer um bom almoço. Lá fomos nós para Roquetas Del Mar, na Meson de los Abuelos, que tem um viveiro de lagostas.

Pedimos um Bogavante, aquela lagosta com duas pinças, estava ótima. Antes o famoso jamon ibérico, fritura de pequenos peixes, almejas, tudo regado a um bom vinho branco de Almeria. Foram duas garrafas de tão bom estava.

Na volta, de moto pelas praias, acabamos entrando na água de roupa e tudo. Fazia muito calor.

LOG ENTRY FOR: Wednesday, August 30, 2000

7:55 Estamos prontos para partir. A viagem será até Cabo Della Mona, a primeira pernada é só de alguns metros. Da vaga onde estamos até o cais de recepção onde está nossa moto e nos esperam a Ana e o Maurício que vão viajar conosco

8:25 Motores novamente a bordo, moto embarcada, vamos partir

O mar está um espelho, ha muitos barcos de pesca, vamos desviando. A maioria são pequenos e belos.

Serão 65 milhas de viagem, umas 7 horas e meia.

É a penúltima perna até Gibraltar. De Porto Della Mona até Gibraltar serão apenas 90 milhas.

Em nossa bochecha de boreste, Roquetas de Mar, um pequeno porto onde almoçamos magnificamente ontem

9:30 Delfins. Saímos todos para vê-los e fomos premiados com um peixe espada saltando -deu para fotografar-.

12:15 Hora dos aperitivos. Chove perto de nós, dá para ver pelo radar, mas o bloco de nuvens segue em outra direção.

O mar continua calmo, ventos variáveis.

A Ana e o Maurício são acostumados a barcos, estão a vontade, tomando sol do flybridge

14:02 Ponta de Motril, com seu vistoso farol em nosso través de boreste. Alteramos rumo para 281, proa para o Cabo de La Mona, a 12 milhas daqui

15:30 Estamos muito próximos à boca de entrada da marina. Foi difícil localiza-la, está misturada entre algumas rochas e suas coordenadas estão erradas no pilot book.

Decidimos dar uma olhada na baia ao lado, a baia da Herradura.

16:40 Estamos ancorados na parte oeste da baia da Herradura, decidimos dormir aqui. É protegida dos ventos do quadrante norte, oeste e leste, totalmente aberta ao sul, mas hoje ele não virá com certeza.

Nadar um pouco (a água está novamente ficando fria) ficamos conversando no jardim de popa até as 8 da noite.

Levei-os de inflável para a praia, eles vão dormir em um hotel qualquer e retornar amanhã cedo para Agua Dulce.

Gostaríamos que passassem a noite conosco, mas temos que sair amanhã bem cedo.

21:00 Vou dormir no pilot house, não só por necessidade de vigiar a ancora, mas como forma de me despedir talvez da ultima noite em ancora neste verão que está se acabando.

LOG ENTRY FOR: Thursday, August 31, 2000

6:00 Está muito escuro, ha muito nevoeiro, não se vê nada em torno, nem as luzes da cidade que está muito próxima.

Ainda bem que decidimos dormir aqui e não navegamos à noite. É belo e agradável navegar à noite, mas com nevoeiro forte é muita tensão. Fica tudo em cima do radar, qualquer erro é fatal, sem contar os outros barcos que nunca se sabe o que estarão fazendo. Acrescente-se a isto o enorme trafico de navios aqui nas bocas de Gibraltar e o fato de que as luzes de navegação dos outros barcos e as nossas ficam sem efeito. Com nevoeiro não dá prazer navegar.

7:45 Ha muita nevoeiro, mas vamos sair assim mesmo. Parece que está começando a dissipar, creio que longe da costa deverá estar aberto.

Vou ligar os motores, subir a ancora.

Vamos navegando devagar, o apito tocando cada 3 minutos, luzes de navegação acesas e muita atenção.

8:30 Saímos até fora da barra mas o nevoeiro continua o mesmo. Melhor não ir, para que arriscar!

Voltamos ao ponto onde estávamos e baixamos o ferro outra vez. Vamos esperar para ver se melhora. De todos os modos 8 da manha era nosso horário limite para sair para Gibraltar. Saindo mais tarde teremos que parar em alguma outra marina se não quisermos navegar à noite.

8;30 Estamos ancorados de novo, no mesmo local. Saímos barra afora, a nevoeiro não sumiu como esperávamos, ao contrario, aumentou. Passamos uma milha da barra, giramos 180 graus e voltamos em vôo cego para nossa baia.

Ao entrar ela também estava coberta pelo intenso nevoeiro. Ancoramos com a ajuda do radar e do ecobatímetro.

11:00 Abriu um belo sol, acho que vai dissipar o nevoeiro, já dá para ver daqui as montanhas. Saímos de novo, em navegação visual. Na saída da barra, nova capa de nevoeiro. Vamos continuar, quem sabe abre.

11:35 Estamos já a 5 milhas da costa, o nevoeiro piorou, não se vê nada. Chamamos a rádio Malaga para perguntar o tempo por lá, está a umas 20 milhas para o oeste, na nossa rota. O operador disse "nevoeiro" em seguida leu a previsão do tempo, que prevê bancos de nevoeiro nesta costa. Voltamos. de novo 180 graus.

12:00 Entramos na nossa velha baia com visibilidade de uns 50 metros. Mas ha sol no caminho para a Marina dela Mona. Vamos para lá.

12:45 Nevoeiro forte na ponta de la Concepcion. Voltamos para nossa baia.

13:00 Ancorados outra vez.

15:55 É a nossa Quarta tentativa de sair hoje. Vamos tentar de novo, agora algum porto mais a oeste. Ha ainda uma bruma no mar, vamos ver quanto é intensa. Desta vez vamos sair costeando.

É corrida contra o tempo, i. é, contra o nevoeiro. Vamos assim mais depressa que o normal, 10.2 nós, a 1760 rpm e 80 lph de consumo.

A previsão para amanhã (acabamos de ouvir a radio Tarifa) é do mesmo tipo de tempo. Mar bom, ventos variáveis e nevoeiro. Vamos viajando quando dá.

17:15 Não ha nevoeiro apesar da visibilidade ser baixa. Decidimos ir para Benalmádena, está a 24 milhas daqui, a 10 nós chegaremos lá pelas 8 da noite, já escurecendo.

Mas é bem sinalizado o porto, com boas luzes na barra, apesar de haver uma laje a 300 metros da boca do porto. Já estivemos lá, ha 5 anos, foi nosso primeiro porto em costas espanholas.

18:34 Malaga em nossa bochecha de boreste, Benalmadena a 10 milhas a nossa proa.

19:15 Um cardume de delfins dança a nossa volta. São imensos, os maiores que já vimos. Deu para fotografar, mas eles se foram rapidamente.

19:25 Fecha tudo outra vez, volta o intenso nevoeiro. Falamos com Benalmadena pelo rádio. Não ha lugar. Como insisti dizendo que não podemos navegar com o nevoeiro que nos fecha totalmente a visão, eles nos autorizaram a passar a noite atracados ao posto de gasolina com o compromisso de sair amanhã cedo.

Vamos ver como vamos entrar, o radar vai ajudar, pois a visibilidade é quase nula.

20:30 É vôo (ou navegação) cego. Estamos a 1 milha da boca da marina guiados até agora pelo GPS. Mas no momento já apareceu na tela do radar, com detalhes, a barragem e o canal de entrada, bem como a laje perigosa que fica a 300 metros ao sul.

O apito continua tocando a cada 3 minutos, e sentimos também um outro apito, de outro barco, que vem à nossa popa.

A decisão é entrar hoje sem qualquer visibilidade, ou esperar ancorado aqui fora até amanhã, se o tempo abrir.

Decidimos entrar. Não creio que seja arriscado. Nosso radar é muito bom e está sempre ajustado com precisão. Conheço-o bem, me sinto confortável navegando só por sua tela.

A Milena está fora, na proa, com a esperança de ver alguma coisa.

Vou devagar, a 3 nós, e controlo neste vídeo game real a aproximação do imenso quebra ondas.

20:50 Estamos entre a laje e o quebra ondas, que está a nosso boreste, a 50 metros. Nada se vê.

O barco que vem atrás de nós se aproxima, ele navega mais rápido, deve conhecer o local.

Navego mais uns 30 metros e giro 90 graus para boreste. É que a entrada da marina é um canal paralelo ao quebra ondas, com uns 50 metros de largura. Estamos entrando mas não se vê nada.

A Milena que está na proa,(e que eu quase não consigo ver) também não vê nada, mas escuta vozes nos chamando. Responde, diz que estamos entrando, mas só por minha informação, pois está completamente perdida.

21:10 Continuo a lenta aproximação. De repente a Milena avista o píer do posto de gasolina, a uns 4 ou 5 metros de distancia. Giro 180 graus, a proa se aproxima do cais e ela joga o cabo. Estamos atracados!

Foi mesmo difícil desta vez. Foi a entrada em porto mais difícil de toda minha vida.

22:10 Entrou a lancha da guarda costeira espanhola seguida por uma pequena lancha de pesca. Eram eles que vinham atrás de nós.

22:30 Estamos de costado no cais de espera.

Para comemorar fomos jantar em um pequeno restaurante belga, com maravilhosos escargots e mariscos cozidos na cerveja, tudo acompanhado de um tinto espanhol da estremadura, Marques de Badajos

Gibraltar está quase ao alcance da mão.

LOG ENTRY FOR: Friday, September 01, 2000

A previsão é nevoeiro. Telefonamos para a marina de Gibraltar, tudo fechado por lá, até nas ruas da cidade, não somos loucos, vamos tentar amanhã.

O pessoal da marina compreende e nos deixa ficar mais uma noite no posto de abastecimento. Afinal não há mesmo nenhum movimento.

Amanhã saímos para Gibraltar, estamos certos que o tempo vai melhorar.