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A ITÁLIA MEDITERRÂNEA

 

San Remo - Um casamento a bordo - Imperia - Portofino - Porto Venere - Lerici - Uma noite de ventos pesados

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 14, 1996

7:30 Estamos nos preparando para sair de Antibes, rumo a S. Remo, Itália.

Deixo Antibes e a França com tristeza. Queria ficar mais tempo, em mais portos, melhorar o meu francês. Mas há o problema do visto que vence agora, tentamos ir à prefeitura e à policia de fronteira, é impossível renova-lo aqui.

A noite ventou um pouco, e a previsão é de tempo bom, com ventos força 3 ou 4. Dá para ir, poderei ter problemas ao atracar pois vou sozinho.

A Milena vai levando o carro, me esperará lá.

15 graus, a mínima foi 14. 1011 Mb, 75% umidade, céu azul sem nuvens.

9:15 Saída de Antibes

9:30 Larguei o farol da barra a boreste.

10:15 Estamos em frente a Nice, com o Cap Ferrat à nossa proa.

Chegada em S. Remo estimada as 13:30, 14:00 no cais.

1340 Rpm, 44 lph no Floscan, 8.4 nós Log, 7.7 GPS, corrente contraria de 0.7 nós.

Ventos S.W. força 2, 19 graus.

Cruzo com o navio Limnat, Panamá, parece um cargueiro de cimento.

11:25 Milena chamou por radio de San Remo.

Confirmei minha chegada as 14:00

Estou bem em frente a Mônaco, dá para ver pelo binóculo o movimento para o inicio do grande prêmio, próximo domingo.

Retirei a bandeira de cortesia da França, vou colocar a Italiana.

Fico no Fly Bridge curtindo o belo dia e o mar claro. Há muitos barcos que dão alegria à cena.

11:30 Chegam os golfinhos. Sempre nos acompanham quando mudamos radicalmente de local. Estou entrando no 6° pais desde que saímos do Brasil. Assim foi na entrada da baia de Angra, em Gibraltar, no Golfo de Lion, e agora aqui. Dizem que dá sorte. Tem dado!

12:30 Vintemiglia, cruzamos a fronteira Italiana.

13:00 Bordiguera a bombordo.

13:10 Milena chama pelo VHF. Me espera no cais. Diz que ha vento e uma pessoa do lugar irá me ajudar a atracar.

É um pouco difícil localizar a entrada da Marina pois são muitos quebra ondas, uns em seguida aos outros. Mas logo vejo um pequeno farol.

A barra é fácil, a boreste estão os barcos de recreio.

Logo ao entrar um pequeno rebocador da marina vem nos ajudar. Que moleza!

14:00 Atracados na ponta do píer, um bom lugar.

O vento está muito forte, mas com a ajuda do rebocador e dos ormeggiatore (como os italianos chamam os marinheiros que arrumam os barcos no cais) foi fácil.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, May 16, 1996

13:00 Este é nosso segundo dia em S. Remo.

O local é agradável mas o barco fica distante, bem ao contrario de Antibes onde estávamos a dois passos do centro. É preciso sempre do carro para se ir à cidade.

Não temos bicicletas, estamos pensando em comprar mas nunca nos decidimos. Quanto menos coisas para carregar, melhor.

O tempo está melhorando, saiu o sol. Vou aproveitar para lavar o casco, que não faço desde Moraira, ainda no ano passado, quase 6 meses.

Ontem lavei o casario, faço-o uma vez por mês ou depois de grande viagem para tirar o sal.

É uma tarefa agradável, pois se está em contato com a água, mas só é bom com tempo quente.

San Remo é a capital da "riviera del poniente", pois tendo como Gênova o centro, a riviera Italiana divide-se em duas partes, levante e poniente, leste e oeste.

San Remo foi edificada entre duas cidades romanas, Force e Bussana.

Até o século 13, pertencia ao arcebispado de Gênova.

Durante um pequeno período no inicio do século 19, San Remo foi francesa.

A cidade velha, chamada de Pigna, é um lindo labirinto de ruas estreitas, sinuosas e muitas vezes cobertas por arcadas, proteção contra terremotos.

A Milena está curiosa de conhecer a antiga igreja ortodoxa russa, pois aqui vinham os russos importantes passar o inverno, há um microclima muito ameno.

San Remo é conhecida como a cidade das flores, pois devido ao clima sempre temperado, tornou-se um dos principais produtores de rosas.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 19, 1996

7:30 O dia amanhece nublado, a previsão é forte temporal.

A Marina está vazia, todos os barcos saíram para ir ver a corrida em Mônaco. O tempo vai atrapalhar! Estamos de viagem para San Marino, de carro.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 25, 1996

Voltamos hoje de San Marino, o país da Milena, que deu o nome à nosso barco.

É uma república (das que hoje existem, a mais antiga do mundo) onde a cada 6 meses dois novos regentes são eleitos. É um pequeno país de 64 quilômetros quadrados e 24 000 habitantes.

Uma grande rocha com três castelos medievais. Dentro de seus muros uma cidade romântica e bela. Fora destes muros, sete pequenas cidades uma delas em castelo, Montegiardino, onde está a casa que era da avó da Milena, agora hotel, Locanda del Artista, onde ficamos.

São 6 horas de carro daqui até lá.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 26, 1996

10:00 O tempo amanhece nublado, 1014 Mb, 20° C.

Vou usar o dia para consertar o motor de popa de 50 H.P. que fundiu.

Comprei um bloco reconstruído nos Estados Unidos, e vou monta-lo.

Falei com o Milton Rosenthal que chegará dia 2 de Abril em Nice. Iremos busca-lo e queremos curtir a presença deles que será curta.

Dia 5 vamos buscar o Maurício, amigo do Carlo em Milão, que virá para se casar a bordo e ficar uns dias conosco.

O Maurício é sempre simpático e estamos ansiosos por conhecer a Cristina, a noiva.

Ele me telefonou e disse: "Sérgio, vou me casar e gostaria de passar alguns dias da lua de mel aí com vocês". Respondi "Ótimo Maurício, mas se quiser como capitão posso casar também (disse de simples piada)". Resposta: "Ótimo, fica mais fácil, nos casamos aí".

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 27, 1996

10:00 1014 Mb, tempo nublado. Continuo consertando o motor de popa.

Estou agora trabalhando no Fly Bridge, montando o bloco no conjunto de transmissão.

 

Nosso Flying Bridge possui uma estação completa de comando. O piloto automático pode ser operado por controle remoto, que levo para lá.

Tenho um suporte para meu GPS portátil e um repetidor de todos os dados do Autohelm e GPS também no Fly.

É lá que guardo dentro de um armário bem ventilado, a gasolina de reserva para os infláveis. Deve-se evitar líquidos voláteis dentro de um barco, gasolina em especial.

O vapor de gasolina é mais pesado que o ar, acumulando-se no fundo do porão. À primeira centelha, causada por um interruptor que se fecha, uma escova de motor que faísca etc., sucede-se uma explosão.

No Fly também estão os botes infláveis, uma balsa de salvamento para 6 pessoas dentro de uma caixa de fibra que solta-se automaticamente em caso de naufrágio (a outra, em bolsa, também para 6 pessoas está bem na porta de entrada do Fly) .

Temos duas balsas uma em container de fibra (que deve sempre ser montada num ponto alto do barco) e outra em bolsa, pois a de container pode ser eventualmente varrida para o mar em caso de tempestade violentíssima.

Junto com a de bolsa, temos duas "bolsas de abandono". Dentro delas, tudo o que é necessário para uma longa sobrevivência no mar.

Esta é a relação do que levo em cada bolsa:

1 Sextante Plástico

1 Faca

1 Caneca Plástica

1 Apito

1 Bússola Silva c/ lente e escala

1 Bandeira Laranja

1 Casaco Angeviniere

1 Livro Captains Guide To Liferaft Survival

1 rolo duct tape

1 livro sobrevivência no mar

1 Dessalinizador

1 Fumigeno Flutuante

1 Sinal de Perigo Diurno/Noturno Britanite

1 Estrela Vermelha Britanite

2 Pára-quedas vermelho Pains Wessex MK3

3 Sinal fumigeno de mão Pains Wessex MK6

18 Ração sólida 10/94

25 Água 125 Ml 08/95

1 Lanterna , 4 pilhas, 1 lâmpada extra

1 espelho sinalização

1 estojo pesca

2 óculos de ver perto (sem óculos estou perdido)

1 Kit de reparo Avon

4 lápis

1 borracha grande

4 cobertores de emergência em poliester

1 Saco térmico de dormir

1 Arpão

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 28, 1996

9:15 Dia bonito por aqui, mas lá fora ha tempestade. A pressão baixou para 1010 Mb, 21° C, 75%.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 29, 1996

10:00 O dia amanhece com céu azul, sem nuvens. Barômetro subiu para 1020 Mb, o tempo ruim se foi sem ter chegado aqui.

22° C, mínima 18° C. O inverno se foi, não ligamos o aquecimento desde que chegamos de San Marino.

É interessante como as estações passam rápido por aqui. Estamos, no Brasil, acostumados à mudanças pequenas e incertas. Aqui são claras e rígidas. A primavera nos campos de Montefeltro, onde fica San Marino estava exuberante com cores brilhantes como só a Itália tem.

Não é para menos que tantos pintores para cá se mudaram, e tanta luz existe nos quadros pintados na Itália, ao contrario das nebulosas paisagens dos holandeses.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 31, 1996

11:00 O dia continua lindo. Saí para amaciar o Flexboat. O mar esta um pouco picado, mas o passeio foi bom. Fui até Hospitaletti, 4 milhas daqui.

O conserto ficou ótimo, nunca o motor esteve tão bom.

O Milton telefonou a noite confirmando o vôo para domingo.

O Flávio também vêm, para o casamento do Maurício.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 02, 1996

9:45 O dia continua lindo, 21° C 70%, 1016 Mb, barômetro caindo.

Vamos buscar o Milton e a Jeane em Nice as 14:00.

Saímos de Defender para busca-los mas não consegui passar a fronteira por falta de visto.

Bem hoje que o Fernando Henrique, Presidente do Brasil, está assinando com a França o fim desta exigência.

Fiquei aguardando na guarita da fronteira das 13 às 16 horas enquanto Milena ia ao aeroporto. (ela pode, pois é cidadã de San Marino, Europa)

Aguardei lendo e ao longe vi nosso jeep com o Milton à direção. Que alegria encontra-los depois de tanto tempo.

Voltamos, Milena fez um belo jantar e fomos passear em San Remo.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 03, 1996

9:00 Chamei o Milton pelo telefone interno. Acordou cansado. Também pudera, nos trouxe uns 30 quilos de bagagem.

O tempo piorou, leve garoa. Altocumulus cobrem todo o céu.

1014 Mb, a pressão não caiu muito, bom sinal, 69% umidade, 20 graus, mínima 16.

Resolvemos sair de carro e conhecer a região.

Acabamos em Cervo, uma cidade do século 18 onde almoçamos muito bem, a convite do Milton e da Jeane.

Pegamos muito transito na volta.

Milena e eu fomos dormir cedo, Milton e Jeane foram conhecer San Remo

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 04, 1996

7:00 Saímos muito cedo, com o Defender, rumo a Milão, para buscar nosso filho Flávio, que chega hoje do Brasil.

15:00 Estamos de volta no San Marino, logo em seguida chegam o Milton e a Jeane que estavam em San Remo, passeando e almoçando.

Alugaram um carro pois daqui eles vão para Roma, talvez no sábado.

Ganhamos deles um CD do festival de San Remo, que logo foi para o ar.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 05, 1996

8:15 1021 Mb, 45%, 26° C.

Hoje deve chegar o Maurício com a Cristina. Eles chegarão às 12:00.

Vem de carro alugado, de Milão, pois lá chegará seu vôo de Miami.

Pretendemos sair tão logo eles cheguem, rumo a Menton, na França.

O tempo está bom, mas sopra forte Norte ou Noroeste, aqui chamado Tramontana.

Vai dar para dormir numa baia, pois o vento sopra da costa.

13:00 Chegou o Maurício.

Fizemos grande almoço a bordo, com e saímos às 16:00 para Menton, onde chegamos as 18:15.

Íamos jogar ferro na baía mas acabamos parando na Marina.

Jantamos na cidade e fomos dormir

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 06, 1996

09:00 Levantei e encontrei o Milton já com mesa de café posta e pão comprado, um delicioso baguette e croissants ainda melhores.

Bom hospede!

Fizemos nosso café e saímos para ancorar na baia em frente a cidade.

O dia esta lindo.

Passamos o dia nadando, comemos ostras e saímos as 15:00 para Villefranche s. Mer, onde chegamos as 17:00.

Jogamos o ferro, a baía é lindíssima, vários iates imensos à nossa volta.

O Maurício avisa, tudo pronto para o casamento!

A noiva se prepara, o Capitão bota um blazer e gravata (a primeira depois de 2 anos!), as testemunhas se paramentam.

Assim celebrei o casamento do Maurício com a Cristina.

Casamento-a-Bordo.gif (163485 bytes)

É a seguinte a transcrição da certidão emitida:

Com base no artigo 141, Capitulo XIV, parágrafo XXI do Regulamento para o Trafego Marítimo, da Diretoria de Portos e Costas do Ministério da Marinha do Brasil, eu, Sérgio Carlos Castello Branco, capitão amador de longo curso, registrado no Ministério da Marinha sob numero 401-A22357-2 de 04/12/91, a bordo do MS San Marino, obedecendo à vontade expressa dos noivos e na presença das testemunhas abaixo arroladas, declaro casados Christina Lyons, nascida em New Jersey, USA em 10 de dezembro de 1959 e Maurício Fernado Defendi, nascido em Porto Alegre em 09 de novembro de 1961.

O presente ato está registrado no diário de bordo desta data.

06 de Junho de 1996

Christina Lyons, Maurício Fernado Defendi

Testemunhas: Jeane Dubin Rosenthal, Milena Bartolini Castello Branco

Milton Rosenthal, Flávio Bartolini Castello Branco 

Tudo feito com muita seriedade.

Grande festa não sem antes ter a policia da França nos abordado para checar documentos do barco, passaportes, etc..

Foi a primeira vez que fomos controlados em toda a viagem, bem na hora do casamento do Maurício!

Jantamos na cidade onde o Milton comprou para a diversão de todos uma calça louca de um senegalês, tendo batido grande papo com ele, não sei em que língua.

Ficamos cantando com violão até altas horas.

O Milton, grande advogado foi consultado sobre a validade ou não deste casamento.

Resposta: "Não vale".

Por que, perguntamos?

Por que todo mundo estava bêbado!

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 07, 1996

10:00 Fui de inflável comprar pão. Não estava tão bom como o de Menton mas sempre é melhor que o Italiano.

Tomamos um bom café, fomos nadar, passear de inflável, etc.

15:00 Levantamos ancora. O mar está incrivelmente calmo.

O Flávio está no comando.

Passamos novamente por Cap Ferrat, Mônaco, Menton, Bordiguera e entramos em San Remo as 18:00.

Ótima viagem.

Atracamos, com ajuda de todos, fica fácil, normalmente estou só ou com a Milena.

Fomos jantar a noite em Bordiguera, como despedida.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 08, 1996

8:00 Preparamos o café da manhã, última refeição a bordo.

O Milton e a Jeane partem para Roma, e nós junto com o Maurício e a Cristina para San Marino, onde deveremos chegar a noite.

Nos despedimos com tristeza, e com a esperança de encontra-los breve.

Incrível como todos os sete nos demos bem, o Milton e a Jeane são ótima companhia.

Chegamos as 9:00 em Montegiardino, onde jantamos com o Remo

 

LOG ENTRY FOR: Monday, June 10, 1996

23:00 Chegamos agora de Rimini, ou melhor, do aeroporto de Milão, onde deixamos com tristeza o Flávio, que volta ao Brasil.

Ele passou uma semana conosco, e foi muito bom tê-lo perto outra vez.

Saímos pela manhã de San Marino, onde nos despedimos do Maurício e da Cristina, agora casados.

A Cristina foi também ótima surpresa, e o Maurício, já conhecemos, é sempre uma alegria. Bela semana.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 11, 1996

10:00 Dia lindo, como sempre depois de uma viagem, lavo todo o barco por fora, e a Milena arruma por dentro.

Chegaram compras que fiz por correio nos USA, muito fácil, entregaram a bordo sem qualquer despesa ou formalidade.

No barco ao lado, o Vagabunda, tocou musica brasileira todo o tempo.

É uma tripulante brasileira. O barco é um lindo veleiro de 30 metros todo cheio de bronze mantido muito polido.

Entre eles e nós está o Maia IV, que já foi dos Rotschild e de Ava Gardner.

É uma escuna de uns 25 metros, muito sólida.

A nosso boreste o "True Austrian", um iate 70 pés, a motor

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 12, 1996

10:00 Fui a San Remo cortar cabelo. Ótimo barbeiro daqueles bem antigos com máquina manual e diversos frascos com bombas e seringas.

Igual aos de minha infância.

Cortei afinal o cabelo bem curto, como gosto, pois não incomoda quando nado, mas atualmente anda difícil pois em cabeleireiros Unisex não sabem cortar curto, deixando sempre a parte de cima um pouco longa para esconder a careca, o que não preciso, pois a calva aparece de qualquer maneira, melhor não disfarçar.

Hoje recoloquei o bimini top que retiramos em Natal para a travessia.

Durante todo o inverno ele não foi necessário.

Agora nesta época no Mediterrâneo é indispensável

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 13, 1996

10:00 Depois de dois anos, volto a fazer um pouco de marcenaria.

A cama onde fica apoiado o inflável Flexboat, precisa ser refeita.

Passei a manhã ajustando o suporte de proa, e amanhã pretendo fazer o mesmo com o de popa, se o tempo permitir.

Aproveitei para fixar um anel para a "jackline".

Temos no Fly Bridge, nos passadiços e na proa, pontos para amarrar uma "jackline" que é um cabo que corre por toda a extensão do barco.

Nos coletes salva-vidas da tripulação há um olhal onde se prende mosquete com um cabo de uns dois metros que corre sobre o "jackline".

Assim, podemos nos movimentar no convés e no Fly sem risco de cair na água.

Este é um equipamento comum em veleiros e é discutível sua validade num barco a motor, pois ser arrastado na água a grande velocidade pode ser pior que ficar à deriva. Mas em nosso caso, o San Marino é lento, e os jacklines são colocados em modo ao tripulante não ficar totalmente imerso n’água, podendo assim retornar usando o próprio cabo.

Temos obviamente salva-vidas aprovados pela Marinha Brasileira para 10 adultos e 4 crianças e se encontram na saída do Fly Bridge.

Mas os que realmente usamos, são infláveis e ocupam pouco espaço.

Dentro de cada camarote há um par, que contem uma luz estroboscópica, um apito e inflam automaticamente.

Para os tripulantes 4 com olhal, e o meu e da Milena incluem um pequeno canivete para cortar cabos, uma lanterna e uma luz estroboscópica.

A tarde veio a bordo o Ângelo (Angel) um alemão estranho que mora a dez anos em San Remo e se dedica a reconstruir barcos de época.

Ele esta refazendo o Maia IV, todo em pinho de Riga envernizado.

Ele já deu a volta ao mundo em veleiro, em regata Withbread, chegando em segundo, em 1978.

Morou em diversas partes do mundo, mas perdeu um irmão que atravessava o atlântico em solitário, e nunca mais voltou.

Dedica-se agora as coisas da terra, mora em um sitio e cuida do jardim.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 14, 1996

10:00 Amanhece chovendo, céu encoberto. É uma frente fria que entrou muito fraca. 1019 Mb, 80%, 23° C, mostram a fraca intensidade.

No inverno as frentes entravam com pressão de menos de 1000 Mb, o que ocasionava os fortes ventos.

Vesti por acaso a camiseta que ganhei de meu amigo Geraldo Luiz Miranda de Barros, Comandante Miranda da Marinha Brasileira, que muito me ensinou sobre navegação celestial e meteorologia.

Assim, relembrei algumas de suas lições.

No Brasil, jamais se encontram pressões tão diferentes, mas aqui, no inverno é comum. É a diferença de pressão atmosférica entre as regiões que dá origem aos ventos. Quanto maior a diferença, e quanto mais próximos os centros de baixa e alta, maiores os ventos.

Normalmente devido à diferença de temperatura, forma-se sempre um centro de alta pressão nos pólos e um centro de baixa pressão no equador.

Assim, dois sistemas de ventos originários dos pólos sopram dos pólos para o equador (alísios) onde se encontram formando a zona de convergência intertropical ou zona de calmarias (doldrums).

Foi por onde passamos ao vir do Brasil, e pegamos mar tão calmo.

Entre os paralelos 30 e 60, onde estamos, forma-se um sistema complexo, onde o fluxo de ar é modificado pela formação de zonas em deslocamento, de ciclones e anticiclones (alta e baixa pressão).

Em geral o ar se desloca para os pólos, mas devido a rotação da terra ele se desvia para leste, gerando ventos de predominância Oeste, S.W. no sul, N.W. no norte.

No Brasil, tudo corre com normalidade, com ventos quase constantes de predominância oeste, mas no hemisfério norte, devido a grande massa de terra da Europa, Ásia e América do Norte, estas regras são consideravelmente modificadas e o tempo torna-se mais difícil de prever.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 15, 1996

11:00 Volta o céu azul sem nuvens, 70% umidade, 26° C, a frente fria já se foi. Muito pouca chuva, mas ontem não fiz nada no barco, porque estou trabalhando com verniz exterior, e fomos almoçar na França, em Menton.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 16, 1996

19:30 Foi um domingo de dia bom. Pela manhã acordamos com a Rai 1, a principal rede de televisão italiana fazendo uma reportagem sobre os barcos mantidos pelo Ângelo. Diretores e câmaras e artistas por todo o lado.

Por isto ele ontem mudou os barcos de posição colocando o Blanche, um lindo veleiro de madeira de 60 pés bem ao nosso lado.

Acabei o verniz das peças de madeira que ficam fora e felizmente são poucas.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 21, 1996

10:00 A frente fria parece que passou esta noite. Como sempre de fraca

intensidade. 24° C, 84%, 1009 Mb.

Nos últimos dias poucas novidades. Estamos nos preparando para o cruzeiro pelas ilhas de Elba, Córsega, Sardenha e Ischia.

É preciso arrumar o San Marino para uma longa permanência longe de portos e Marinas.

Sei que poucos barcos de nosso tamanho são tão auto-suficientes.

Como temos grande depósito de Diesel, podemos ficar anos sem tocar a terra.

Nosso gerador trabalha apenas algumas horas por dia, quando lavamos e secamos roupa, fazemos água doce, utilizamos o forno e carregamos nossas baterias, as quais são capazes de manter todo o barco funcionando pelo menos por 24 horas, inclusive com toda a parte elétrica de 110 ou 220 volts, menos o ar condicionado, que não gosto de usar, prefiro um ventilador em dias muito quentes.

Nosso telex garante comunicação e previsão de tempo.

O VHF e o SSB (rádios) proporcionam comunicação por voz.

O lixo vai sendo compactado e ocupa muito pouco espaço.

Os freezers mantém comida por longo tempo

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 22, 1996

9:00 Ventou sul forte a noite toda. Este é o vento que vira o mar por aqui.

É bom, assim na terça da próxima semana, quando pretendemos sair, o tempo estará bom.

A pressão caiu para 1002 Mb, baixa para esta época, pois existe uma alta de 1020 Mb no centro do mediterrâneo, razão do vento Sul.

21° C, 68% de umidade.

Consegui consertar ontem afinal o radar auxiliar. Desde a Espanha ele estava

com problemas, pois desligava subitamente após funcionar bem por algumas horas. Consegui isolar o problema, chamei um técnico local por sinal muito bom que confirmou que o motor da antena é de pouca duração e deveria estar

com o coletor gasto. Ele desmontou o motor, coisa que eu não teria coragem de fazer, e confirmou o problema. A peça chegou ontem, foi colocada e tudo está normal.

Este radar será muito importante neste cruzeiro pois deixo-o ligado a noite quando ancorado, com zona de alarme ligada. Tenho um repetidor do beep em minha cama. Assim , caso algo se aproxime, ou o ferro corra e o barco chegue perto de alguma coisa o alarme toca e eu acordo.

Usa-se também o GPS ou o Ecobatimetro (profundimetro) com esta finalidade, mas nunca com a mesma eficiência do radar.

Choveu um pouco e um casal se refugiou dentro de um recesso que há no dique. Ficamos com pena e convidamos para entrar.

Ficaram contentes e se apresentaram. Eles possuem um veleiro que está

aqui na Marina e estavam esperando melhor tempo para sair para Antibes.

Nos deram informações sobre a Córsega e nos convidaram para um aperitivo

em seu barco, um lindo veleiro de 23 metros, em madeira.

Gente simpática.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 23, 1996

11:00 Estou ha já dois dias fazendo meu pão para o café da manhã a bordo.

Volto aos tempos de bom pão, como em Antibes. É que existe para vender no supermercado, um pão feito na França, meio cosido, basta colocar por oito minutos no forno a 220 graus, e fica perfeito. Aos poucos vou apreendendo (e engordando).

Céu azul sem nuvens, pressão subiu para 1012 Mb, 50% de umidade, semana de tempo bom com certeza.

Fizemos umas encomendas na West Marine, nos EUA que deverão chegar terça feira. Uma vez na mão, abastecemos e saímos. Os preços nos EUA são 50% mais baixos que na Europa. Não sei por quanto tempo a comunidade européia agüenta esta situação, talvez fechando-se cada vez mais.

Estou ansioso para voltar à vida no mar, longe destas marinas, cômodas mas que nos afastam da natureza.

A noite fomos jantar em S. Remo. O dono do restaurante era muito divertido e rimos muito. O prato que pedimos já tinha acabado, mas para nos servir, pois dissemos que tínhamos ido lá só para comer um frito misto ele tirou um pouco do que ia servir na mesa ao lado onde tinha um grupo de alemães e nos deu. Como fomos os últimos a sair assistimos a uma cena interessante que normalmente deve ser feita às escondidas em muitos restaurantes.

Com um funil, ele ia reenchendo garrafas de água mineral com o resto de cada garrafa deixada pelos clientes.

Muito animador , enquanto eu bebia os últimos goles d’água!.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 25, 1996

10:15 O tempo continua instável, nossa previsão é sair na quinta feira cedo.

Abasteceremos na quarta tarde, dormimos no cais do posto de gasolina e ao amanhecer inicio a viagem.

1018 Mb, estável, 65%, 20° C.

Continua a baixa pressão sobre a Córsega. Temos que esperar subir para sair.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, June 26, 1996

9:00 Ate agora, o tempo está indo para melhor, mas vamos esperar a previsão

das 11:00 para confirmar nossa saída amanhã.

A pressão continua estável, 1018 Mb, 65%, 21%

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, June 27, 1996

10:00 O tempo não permitiu que saíssemos ontem. Não que a previsão fosse ruim para hoje, mas o mar tende a piorar até sábado, e como vamos ficar navegando por muito tempo, temos que nos valer de um prognostico mais longo. A pressão começa a subir, 1020 Mb, 68% umidade , 25° C, todos sinais de tempo melhorando, mas o tempo no mediterrâneo é difícil de prever e prefiro acreditar nas previsões locais, que são pessimistas.

Vamos aproveitar o dia para deixar o carro na oficina, pois a quarta marcha está difícil de entrar.

Iremos para a Córsega sem o carro, que é mais fácil.

21:00 voltamos de trem, 250 km de viagem, saímos as 16:00 chegamos as

21:00, contando com a conexão em Gênova. Nada Mal

 

LOG ENTRY FOR: Friday, June 28, 1996

10:15 - Estamos nos preparando para abastecer. É um trabalho grande pois são 8 tanques de Diesel a completar, controlando cada um.

Felizmente é quase um trabalho anual, pois nossas reservar são muito grandes. Um total de 12500 litros distribuído em 8 tanques para que caso um deles esteja poluído (com sujeira, algas, bactérias ou água) possamos salvar os outros.

Aqui em S. Remo é tax free, portanto vamos pagar US.30 por litro, o que é um bom preço.

Ainda temos 3500 litros, mas a vantagem de ter muita capacidade é poder abastecer onde o preço é bom.

Gastamos uns 1000 litros por ano com gerador e aquecimento. O resto é consumo de viagem, que varia.

12:00 tudo pronto para soltar amarras e navegar até o posto de Diesel.

Serão 5 minutos de navegação!

17:30 Abastecidos, durou duas horas só desta vez pois o sistema é bom, estamos prontos para sair. Decidimos sair mesmo com tempo piorando, antes que piore mais.

20:00 Saímos da barra do porto. Balança um pouco.

21:00 Decidimos parar em Imperia, para evitar uma viagem noturna com mar batido.

Rumo Magnético 50° , 8 nós, 1420 Rpm, o barco está pesado com 12 toneladas de óleo. 43° 48’23"N, 7° 54’48"E, vento S.W., força 1.

21:45 Entramos com facilidade na barra do porto de Impéria.

É um longo dique, e navios tanque pequenos entram para carregar óleo de Oliva, conhecido como dos melhores.

Nos guiando pelo radar e pelos faróis, pois está escuro, chegamos ao dique Medaglia d'Óro, onde segundo o pilot book haveria cais de espera.

Nada, tudo cheio.

Com o radio VHF chamamos o canal 9, utilizado pelas marinas e nenhuma resposta. No pilot book dizia "turno continuo".

Decidi então ancorar na baia, fora, mas antes tentei chamar pelo canal 16. Respondeu a guarda costeira, que nos solicitou encostar no cais ao lado da Capitania, que é o utilizado pelos navios, com a advertência que não poderíamos deixar o barco sozinho.

Quando lá chegamos estava toda a guarnição, uns oito soldados, que nos ajudaram muito solícitos e gentis.

Após atracados, solicitaram documentos do barco, certificado de seguro, e em seguida nos indicaram um portão da alfândega, que deixariam aberto para podermos sair e entrar, contanto que levássemos o radio portátil para podermos ser chamados se necessário.

Saímos, comemos um sorvete daqueles que só se sabe fazer na Itália, e voltamos cansados para dormir.

Foi uma bela experiência este contato com a marinha Italiana.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, June 29, 1996

14:00 Pela manhã, saímos do porto comercial e atracamos na marina Imperia Mare, Porto Maurizio.

Não havia vento, tudo foi muito fácil.

Estamos no fim do píer, no melhor lugar. A bombordo temos uma vista da cidade, na proa o porto comercial e a boreste o mar e o longo dique que protege a entrada do porto.

Dá vontade de ficar para sempre por aqui.

Ao nosso lado, um veleiro de 45 pés, o Otto III, de um casal de alemães, que logo ficaram nossos amigos

Aproveitei o sol para lavar o barco por fora.

Foi agradável, e das 11 as 15, dormi um pouco na rede, que agora achei um bom lugar para coloca-la, no Fly Bridge.

17:00 o Michel e a Inge, nossos vizinhos nos convidaram para um drinque.

Tomamos champanhe, nos demos bem, e fomos jantar juntos em Oneglia, num restaurante que eles conhecem.

Fomos de ônibus, o primeiro que tomamos na Itália, pois estávamos sempre de carro. Compra-se o bilhete nos bares. Quando estávamos comprando, chegou o ônibus e só tem um a cada hora.

Grande correria, mas conseguimos alcança-lo

Jantamos muito bem, e acabamos a noite bebendo brandy em nosso barco.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, June 30, 1996

10:45 Céu de altocumulus, 25° C, 1012 Mb caindo, 70%, tudo sinal de mal tempo.

É a frente fria que entrou, sempre fraca por aqui.

Tiramos o dia para ler e relaxar.

18:00 saímos a pé com o Michel e a Inge, para conhecer Impéria.

A cidade é alta, tem uma incrível escadaria que subi acompanhando os outros três que são andarilhos profissionais, a Milena com seu treino constante, os outros são alemães, não precisa dizer mais nada.

Na verdade, o Michel é belga, mas mora ha muito na Alemanha e vive como eles, andando o pais.

Impéria é uma cidade relativamente nova, resultante da união de Porto Maurizio e Oneglia. Dizem eles que produzem a melhor "pasta" da Itália, a famosa massa Agnese.

A parte de porto Maurizio, é encantadora, e a parte nova, feita na época de Mussolini, é pesada e bruta, mas tem seus encantos.

Jantamos no alto, num pequeno restaurante, e voltamos pelas ruas antigas e muito bem cuidadas, imaginando as cenas que nos últimos séculos devem ter se desenvolvido por aqui.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 01, 1996

13:00 O dia continua nublado, outra frente fria se aproxima. Creio que ficaremos por aqui até quinta feira.

1012 Mb, 70%, 26° C.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 02, 1996

10:30 O dia continua nublado, a pressão caiu ainda mais, 1010 Mb, 75%, 23° C.

É a segunda frente fria bem sobre nós.

Hoje é aniversário da Milena. Comemoramos ontem, hoje saímos e comemos

uma excelente pizza. Vários amigos nos telefonaram e também Carlo, Flávio, minha mãe Zelina, Leniza e Mauro, nossos irmãos e cunhados.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, July 03, 1996

b07:00 Dia bonito, céu de cumulus, 1010 Mb, 20° C, 72%, apesar da pressão ainda estar baixa, o tempo começa a melhorar.

Vamos sair agora, para o golfo de La Spezia.

Estou iniciando o procedimento de viagem para sair às 8:00.

São 80 milhas náuticas, umas 10 horas de viagem mais o tempo de largar e atracar.

8:00 Largamos as amarras.

O pessoal do barco suíço ao nosso lado vem se despedir. São de Zurique.

8:25 Fora da barra, em velocidade de cruzeiro, 8 nós a 1400 Rpm, 50 litros de consumo por hora.

Destino Porto Venere, La Spezia.

Hora prevista de chegada 19:00.

Rumo 81° RM

Mar de popa com vagas de 2 metros, está confortável.

9:50 Começou a ventar NE como previsto, força 4.

Assim deverá se formar um mar vindo da costa, portanto será mais confortável navegar perto dela. Estou mudando o rumo para 045° . A viagem ficará mais longa, vamos chegar mais tarde, 3 horas mais ou menos, mas com mais conforto e menos stress para o San Marino.

11:00 O novo mar que agora se forma é de proa, com alguns carneirinhos. Até agora estávamos cruzando a 1400 rpm, 7.8 nós, 6,6 lpm (litros por milha). Aumentei para 1480 rpm, 8.1 nós, 7.62 lpm.

12:57 Rumo para S.ta Margarita Ligure, 072° .

O mar baixou, está slight, vento força 1 N.W., barômetro subindo 1014 Mb 13:30 Gênova em nosso través de bombordo.

Cidade de grande tradição marítima, daqui partiram grandes navegadores para o oriente e a costa da África.

Ha 6 anos atras estivemos em Gênova, na feira náutica, logo que iniciamos a construção do S. Marino. Ficamos em um pequeno hotel em Portofino, onde vendo os barcos lá ancorados, eu sonhava em se um dia poderia conseguir construir um barco e aqui chegar navegando.

Bem agora, estamos de proa para Porto Fino, a 2 horas de lá.

Hoje também comemoramos um ano da chegada às Canárias. Nossa travessia oceânica completou-se lá, pois já estamos em território espanhol, a menos de 100 milhas da costa da África.

Assim é a vida, nunca sabemos como ela será, mas podemos sonhar, pois alguns de nossos sonhos se realizam, trazendo assim aos outros, uma possibilidade de realização.

Sonhos não são criados para se realizarem, mas é bom quando algum acontece.

É triste que muitas pessoas ao envelhecerem vão deixando gradualmente de sonhar por achar que a idade impede que os sonhos se realizem.

Não é necessário existir a possibilidade de realização para se sonhar.

Posso sonhar que estou indo à lua, e sei que jamais poderei ir lá.

Deve-se cultivar os sonhos como um jardim bem tratado.

Faz-nos viver varias vidas em uma só.

15:15 A ponta de Portofino, um dos portos mais belos da Europa está em nossa proa a 4 milhas. Vamos entrar na baia e ancorar ou em Porto Fino ou em S.ta Margarida Ligure, depende de onde estiver mais vazio.

16:00 Continuam a telefonar as amigas da Milena. Estamos entrando em Portofino, fundeamos.

Saímos para jantar, não comemos bem, mas o dono do restaurante observou: "Este é o segundo barco de bandeira Brasileira que aqui chega, o primeiro foi o do Nelson Piquet"

Voltamos com o dinguie e fomos dormir.

Portofino dizem, é uma cidade que qualquer um que visite, quer por lá ficar, porem poucos podem.

É um lugar para os ricos e pessoas do jet-set.

É linda elegante e sofisticada.

Na entrada, o Castelo Brown, depois que o Cônsul Geral da Inglaterra o renovou e lá morou no fim do século passado.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, July 04, 1996

9:30 levantamos ancora, rumo a Porto Venere.

10:00 Rumo 137° , 8,2 nós, 1420 rpm, 55 lph.

1018 Mb, 64%, 23° C.

Dia fechado, com cara de chuva.

11:47 Rumo 117° , direto a Porto Venere.

Mar de ondas de 1.5m, vindo do sul.

Vento força 2, SE.

Alguns aguaceiros no radar, mas nenhum em cima de nós.

Lembram os Pirajás, na Bahia.

1:45 Ilha Palmaria, entrada da baia de La Specia, a 3 milhas.

O tempo parece melhorar, aparece o sol.

Entramos, a barra é indescritível. Muito estreita, com um castelo de um lado e uma ilha escarpada de outro. Logo em seguida a baia, calma e com a cidade medieval logo na entrada.

2:30 Com muita dificuldade pois existem muitos barcos atracados, conseguimos um lugar, que logo em seguida tivemos que mudar, pois chegou um iate de 35 metros.

Porto Venere é uma cidade pitoresca, que parece em branco e preto. As casas são pintadas em tom pastel e as duas igrejas são de mármore branco e preto.

Porto-Venere.gif (216248 bytes)

Byron gostava de nadar entre Porto Venere e Lerici, diziam, para conquistar as mulheres do lugar.

Existe uma gruta com seu nome.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, July 05, 1996

11:00 O dia está bonito, vamos continuar navegando, talvez pelo golfo de La Spezia, para ver se encontramos algum lugar bonito.

A marina é boa, mas muito cara, não dá para ficar.

13:00 jogamos ferro em Lerici, 44° 04’28"N, 9° 54’43"E, 10 metros.

Vento SE, força 2.

Hoje é aniversario de minha irmã, Leniza, que não vejo ha mais de um ano.

Como não dá para telefonar, passamos um telex.

Ela é casada com o Mauro, irmão da Milena, que coincidência.

Nos vemos pouco mas nos damos bem.

20:00 Passamos o dia em Lerici, mas como o sudeste continua forte, vamos levantar ferro procurando lugar mais protegido.

Lerici é uma pequena e deliciosa vila, toda construída em rampas na montanha.

Era uma cidade pertencente a Pisa, até que os genoveses a tomaram em 1256.

O castelo foi construído pelos conquistadores de Pisa, mas reconstruído pelos genoveses no século 16. Ele controla a entrada do golfo de La Spezia.

Dante, Lorde Byron, Shelley, viveram aqui.

Foi daqui que Shelley largou em um veleiro, para a trágica viagem que acabou em sua morte.

"I still inhabit this divine bay, reading Spanish dramas, sailing, and listening to the most enchanting music. My only regret is that the summer must ever pass", está escrito no frontispício da casa onde morou Shelley, um dos maiores poetas ingleses.

21:30 Jogamos ferro na Baia de Grazie, a Sudoeste do golfo de La Spezia.

Estamos assim bem protegidos dos ventos de sul.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 06, 1996

10:00 O tempo continua bom, mas os ventos fortes e o mar agitado.

Vamos esperar por aqui.

Aproveito para testar e ligar o ar condicionado, que funciona bem.

Não gosto de usa-lo mas quero mante-lo em ordem para quando amigos vierem.

Nosso sistema de ar condicionado possui uma central de refrigeração de água de 100 000 BTUs, e nove evaporadores, um em cada ambiente.

Circulando água gelada, os ventiladores dos evaporadores ligam e desligam controlando a temperatura. O sistema é trifásico pois consome muita energia.

Muitos barcos necessitam de ar condicionado, pois com o calor e muitas vezes fechados devido ao spray do mar, ficam internamente insuportáveis.

Não deveria ser assim, pois estamos junto à água, cuja temperatura é sempre regular, mas o sol batendo esquenta muito, principalmente se o convés for de madeira. Uma boa isolação térmica, como a que temos (10 cm de poliuretano) resolve o problema e o ar condicionado pode ficar sempre desligado.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 07, 1996

11:00 Estamos esperando a entrada do vento forte previsto, talvez hoje a tarde. Estamos bem protegidos nesta baia.

O sol está forte, em céu de altocumulus, sinal de mal tempo.

1009 Mb, 66%, 27° C.

13:00 Fomos almoçar na cidade, voltamos às 7 e fomos dormir.

Muitos barcos na baia, protegendo-se do mau tempo que vai entrar.

A previsão da televisão Rai 2, diz que teremos grande tormenta, inclusive com neve acima de 2000 metros. Estamos em pleno verão!

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 08, 1996

8:00 Vento força 9, SE, 20° C, 1000 Mb.

A noite foi uma pauleira.

Às 3:00 acordei com o alarme do radar tocando em minha cabine.

Quando estou ancorado, deixo o alarme do radar auxiliar ligado, com zona de guarda pequena. Caso o barco garre ou outro barco se aproxima, toca o alarme, acordo e vou verificar.

Esta noite o sistema pagou o seu preço.

Quando cheguei encima, na ponte de comando, um Grand Banks 42, o Douce France estava perto de nós.

O vento estava força 6 e sua ancora tinha garrado.

Ia colocar um farol forte sobre ele para acorda-lo, ou tocar minha buzina, mas um inflável chegou e o chamou.

Rapidamente a tripulação atendeu e os dois franceses, um no timão e o outro no cabrestante, levantaram o ferro, e mudaram de lugar.

Esperei um pouco para confirmar que nosso ferro estava firme, e voltei para dormir.

Às 04:15, novo alarme, subo, e o outro Grand Banks 42 , o El Quernec, também estava próximo de nós, garrando.

Eles já estavam manobrando e Milena subiu.

Ficamos analisando a previsão do tempo e voltamos a dormir. O vento estava mais forte, força 7.

De meu camarote posso controlar através de um repetidor, todas as leituras de meus instrumentos eletrónicos (velocidade e direção do vento, profundidade, etc.)

5:20, novamente o alarme.

Outra vez o Douce France estava ao nosso lado, correu o ferro.

Outros barcos também tinham garrado, estava uma loucura, todo mundo com luzes acesas, levantando e baixando ancoras, mudando de posição. O vento estava força 9, quase 100 km/h com rajadas, que levantavam um spray de água salgada, como se uma mangueira forte varresse o mar.

Nós também tínhamos garrado um pouco, mas ainda estávamos em boa posição.

Éramos o único que ainda não tinha levantado ancora e mudado de posição.

Resolvi ficar na ponte, observando nossa deriva que era pequena e recolhendo um pouco de corrente cada vez que nos aproximávamos dos barcos em poita.

A Benetti 20 metros, TRE C, que estava ao nosso lado, com dois marinheiros, resolveu atracar no cais, o que conseguiu apesar de ter abalroado um veleiro que lá estava, e pareceu de longe, avariado.

O veleiro de 54 pés o Isolaria 3, também mudou de lugar, pois estava indo sobre o cais.

8:20 Liguei os motores e passei a segurar o San Marino, contra o vento, com os motores, pois o vento continuava força 9.

Pouco a pouco fui recolhendo o ferro com o cabrestante elétrico, mas subitamente, um cabo pesado veio junto com a corrente.

Pedi para a Milena ficar nos motores, fui à proa e cortei o cabo que estava enroscado.

Em seguida subi o ferro, que veio enroscado em um bolo de cabos grossos.

Por isto estava garrando, pois os cabos enrolados impediam a CQR de afundar na lama e pegar em fundo duro, onde ela mais é eficiente.

Ferro levantado, rumei para a um ponto mais para fora, pois estamos esperando o vendo rodar para N.W. que no levará de novo para dentro.

Vamos esperar.

10:10 Mudamos de lugar.

Fomos para a boca da baia, onde ha mais espaço para correr e podemos dar mais corrente. Temos 100 metros em cada ancora, e a profundidade é só 10 metros.

15:00 Todos os barcos que estavam na baia, saíram. Ficou apenas o veleiro Isolaria 3, que está bem no meio da baia agora, depois de duas mudanças.

Vamos mudar novamente, agora para um local protegido do N.W. e com espaço para correr a S.W., pois a previsão chegou indicando nova tempestade esta noite, agora com Mistral, N.W., força 8 ou 9.

Os Grand Banks estão atracados no píer da cidade, a Benetti se foi, somos só dois ancorados na baia, tudo será mais fácil.

Resolvi montar minha ancora de tempestade, e deixa-la no convés pronta para uso caso o vento seja tão forte quanto o de hoje.

22:00 nada de tempestade até agora. Vou dormir e deixar o alarme do radar ligado.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 09, 1996

9:00 Que dia maravilhoso depois de tantos de tempestade.

Uma das coisas que mais aprecio no barco, é acordar junto à água, num belo

dia como este.

23C, 1018 Mb, 55%, Cumulus, tudo sinal de bom tempo.

A previsão é de Mistral, vento forte de N.W. aqui nesta região, pois em outras vem de outra direção, mas o mar deve acalmar, talvez poderemos sair amanhã.

A noite foi tranqüila, dormimos bem, apesar das previsões de tempestade com ventos força 8. Nada sucedeu, foi uma grande calma, ventos força 4.

Calma depois do que passamos na noite anterior.

Vou ter que desmontar minha ancora de tempestade e guarda-la no porão. Melhor assim

Temos uma Fortess 125, ancora de alumínio, muito grande, 1,8 metros, que sendo de alumínio não pesa muito.

É também desmontável, e fácil de guardar.

Nunca precisei usar esta ancora, pois as CQR pegam muito bem.

Montei a fortress com regulagem para fundo de lama mole , que é o caso

daqui.

Quando comprei esta ancora, nos EUA, o Patton, meu amigo que a comprou para mim, antes de despacha-la, pediu-me para usa-la em seu veleiro, pois o furacão Andrews se aproximava e ele desejava ancorar seu veleiro no meio da baia, com ela. Funcionou muito bem e seu veleiro sobreviveu ao furacão sem um risco.

17:00 fomos até a cidade com o pequeno dinguie, Milena remando.

O vento forte contra tornou a missão difícil mas ela agüentou até o fim.

Voltamos para aguardar a meteorologia e decidir se saímos amanhã ou não.