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PESCARA

Atravessando o Adriático - Split - Ancona - L'Aquila - Guardiagrelle - Parque Nacional dos Abruzzi - Sulmona - Lady Wandita - Um casamento Bávaro - Um pouco sozinho - No seco -

LOG ENTRY FOR: Saturday, January 10, 1998

Iniciaremos o procedimento de preparação do San Marino para viagem amanhã.

Há muito o que arrumar.

Milena tem que preparar todos os armários, ver se ha alguma coisa solta, preparar provisões, etc. A viagem é curta (14 horas) mas pode ter mar pesado e tudo precisa estar bem fixado.

Graças aos cuidados dela, jamais tivemos nada quebrado ou danificado, nem um copo ou pequeno enfeite.

De minha parte, tenho que preparar a casa de máquinas, porões, amarras.

São três meses parados, tudo ficou deixado como em uma casa, não um barco.

O dia está bonito, dá pena ficar trabalhando mas não há escolha.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, January 11, 1998

7:00 Estou no porto, em Split, esperando o Gigi, do Crisandra, que decidiu fazer a travessia do Adriático conosco

Ele vem pelo Ferry K. Mir, da SEM o qual já chegou e nada do Gigi. Vou tentar ir ao escritório da Jadrolinia, a companhia estatal Croata, mas o mesmo está fechado, só abre as 8.

Aberto o escritório, me informam não ter lista de passageiros. O ferry Dubrovnik, já chegou também e nada do Gigi.

Decido voltar ao carro, no caminho encontro o Gigi carregando uma pequena mala.

Ele trocou na ultima hora de ferry, pois achou o da SEM muito velho e mal cuidado. Veio pela Jadrolinia, pelo Dubrovnik, que disse ser melhor, mas também em péssimo estado.

Não é o que parece por fora, mas o Gigi acaba de chegar por ele, deve saber.

Pegamos nosso defender e fomos direto para Trogir.

Ao chegar, iniciamos o procedimento de partida. O tempo está bom, vamos aproveitar.

Teremos que ir primeiro à Split parar na Capitania, Policia e Alfândega, cumprirmos as formalidades de deixar o pais.

9:15 As amarras muito bem feitas pelo pessoal daqui foram soltas e substituídas por uma leve para facilitar nossa saída.

Desligamos a conexão elétrica, foi difícil, pois quando tivemos o problema do curto circuito devido a maré alta os contatos se queimaram e fundiram.

Também a mangueira de água estava imunda de cracas por ter ficado dentro d’água, o Gigi fez o trabalho sujo de limpa-las.

Todos os nossos amigos estão no píer para despedida.

O John e a Anna se despedem e prometem vir a Pescara encontrar-se conosco.

O pessoal da Marina, sempre muito gentil nos ajuda com as amarras.

12:45 Motores girando, saímos lentamente dando tempo para os cabos afundarem.

Até hoje não enroscamos nenhum cabo em nossos hélices, não será hoje.

Saímos em dia de céu todo azul, seguimos o canal de Trogir acenando para nossos amigos.

Que belo momento, admirando a incrível cidade (agora tombada pela UNESCO)

Nosso Defender fica na marina, iremos busca-lo depois.

13:00 Golfinhos a nosso bombordo. Lá estão eles a se despedir. Sempre tem nos trazido sorte.

O mar está calmo como prometido pela previsão.

Seguimos costeando a ilha de Ciovo, ao fim dela estará Split.

Poucos barcos no mar, apenas pescadores com seus pequenos barcos, alguns a remo.

Estamos agora frente a entrada do porto onde ha muito movimento de navios.

Pela carta encontramos a posição do píer da alfândega, vamos atracar lá.

14:30 Atracados em Split, nossa velha conhecida do ano passado, em um cais alto, próprio para navios.

Pego os documentos, desço à terra.

Na policia me informam que devo ir primeiro à capitania, depois à Policia e à alfândega, mas estes dois últimos só na hora de sair.

Volto ao barco, pego a bicicleta e lá vou pelo meio da cidade até a Capitania.

Como sempre o funcionário quer saber se atravessamos "mesmo" o Atlântico, que somos o primeiro barco brasileiro por aqui, etc. etc. etc.

Voltei para pegar o espaguete saindo da fervura, com molho de especiarias, muito bom.

Comemos muito, uma boa soneca de 1 hora para descansar, policia, alfândega, lá vamos nós para a Itália.

19:00 Motores ligados, saindo de Split

Já é escuro. No inverno os dias são curtos. Com 14 horas de viagem prevista, deveremos chegar à Pescara às 9 da manhã, já claro.

Há muito trafico de navios , barcos de pesca e ferryes.

Uma grande lua cheia ilumina o mar, a visibilidade é razoável.

Navegamos pelo piloto automático, ligado ao GPS, tudo controlado pelo radar. O Gigi presta atenção em tudo, é a primeira vez que ele navega eletronicamente, está acostumado a tomar posições com a alidade e tem medo de navegar a noite.

Está um pouco céptico pergunta o que acontecerá em caso de colisão, pois se vê apenas alguns metros a frente e o brilho da lua sobre nos esteira permite visualizar somente por onde já passamos.

Nosso primeiro waypoint é a 300 metros da ilha Ciovo, ha um traguetto ancorado, temos que sair um pouco de nossa rota.

O próximo waypoint, entre as ilhas Drvenik e Solta, está a 9.3 milhas, rumo 132.

19:00 O Gigi, continua preocupado. Diz que nossa rota entre estas duas ilhas não é a tradicional, e ele tem razão. Os ferryes vão entre a ilha Drvenik e a costa, ha um canal marcado por faróis, fáceis de ver.

Por onde vamos não ha faróis.

É que nosso calado é menor, podemos nos dar ao luxo de fazer uma rota não convencional.

Mas temos um bom radar, as cartas são excelentes, não ha com que se preocupar.

20:42 Estamos bem entre as duas ilhas, a uns 200 metros de Solta, a bombordo.

O Gigi começa a se convencer da segurança de nossa navegação.

Deixamos a carta Croata (escala 1:100 000) e pegamos a americana, de escala 1:713400, onde aparece todo o Adriático. Nosso rumo agora é 226, temos 36 milhas até nosso próximo waypoint entre as ilhas Jabuka e Svetac, que ainda não estão no radar.

Deixo o Gigi e a Milena no comando e vou dormir.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, January 12, 1998

0:17 A Milena me chama. Estamos em rota de colisão com um navio, vem um outro logo atrás. Logo em seguida o radar soa o alarme. Tudo normal, é assim mesmo, deixo o radar com uma zona de guarda de 1.5 milhas.

Estamos com Svetac a nosso bombordo, bem no través. Jabuka está no radar, em nossa bochecha de boreste, é um perigoso rochedo em forma de chifre com 100 metros de altura.

Os dois navios ao que parece estão empenhados numa corrida, o que está atrás é mais rápido e deve alcançar logo o outro. Mudo o rumo, passo a uns 100 metros da popa do primeiro e a uns 300 da proa do segundo. Muito emocionante, o Gigi não gosta muito, ele é preocupado.

A Milena já foi dormir, é a minha vez de ficar de guarda.

1:10 Passado a ilha Jabuka, mudamos de rumo, 242, Pescara à nossa proa a 64 milhas.

O GPS prevê nossa chegada às 9:45.

Estamos navegando a 8.2 nós, 1360 RPM consumindo 40 litros de diesel por hora.

O Gigi desceu para dormir mas logo voltou à ponte. Ele não para de falar, é bom para afastar o sono.

4:00 A Milena acorda e aparece na ponte. Aproveito para dormir. O mar está calmo, a lua se foi e o radar não mostra nada, só alguns pontos à proa que devem ser barcos de pesca.

5:10 Milena me chama. Barcos de pesca em boa quantidade bem no nosso rumo. É preciso alterar a rota. Eles estão em grande atividade.

Volto a dormir

7:00 Amanhece, mar calmo.

Milena volta para sala, vai dormir no sofá.

O Gigi continua acordado. Que incrível, o homem nunca dorme!

9:40 Contato por radio com a marina de Pescara. Eles vem nos receber na entrada da barra, de inflável, para mostrar o canal.

O fundo é baixo e eles nos guiam com perfeição.

Ha vento leve, 15 nós, atracamos de popa, sem dificuldade.

O Gigi pegou o corpo morto, e o Comandante Cicolini, que era da linea C, vem nos receber. Ele fala português, conhece muito bem o Brasil e é casado com uma Venezuelana.

10:00 Atracados em Pescara.

Um bom banho, roupas limpas, lá vamos nos para o restaurante Il Porto, comer um magnifico almoço a base de peixe. Vale a pena ir também lá.

Fica na margem sul do rio Pescara, perto de sua foz.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 13, 1998

9:00 Lá vamos nós de ônibus para a estação de Pescara levar o Gigi até o trem. Serão 6 horas de viagem para ele, até Vigo Vataro, onde ele tem uma casa nas montanhas.

Rimos muito ontem a noite, pois, depois de termos feito um belo almoço, a Milena perguntou se ele estava com fome. Muito tímido, disse que comeria alguma coisa. Nós quando fazemos um grande almoço, à noite quase não comemos.

A Milena ofereceu alguma coisa leve, quem sabe um bife? Boa idéia um belo bife. A Milena fez para ele dois grande os quais ele comeu com gosto.

Em seguida eu perguntei: "Gigi, ontem na viagem você não jantou? teve fome e não disse nada?"

"É, disse ele, quando não como à noite, não consigo dormir".

Por isto ele ficou de guarda acordado a noite toda!. Ótimo sistema para viajar com o Gigi. Basta não dar comida e ele fica de guarda, muito alerta.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, January 15, 1998

Hoje completo 57 anos de idade. Sinto-me jovem e contente apesar de carregar muitos quilos a mais que em minha juventude. Estou pesando 90 quilos distribuídos em meus 1.78 de altura.

Não sou de comemorar datas. Gosto de festas e se fosse só nas datas seriam poucas. Comemoramos sempre que dá vontade!

Como é preciso buscar o Defender na Croácia, parto à tarde para lá no ferry.

É uma viagem complicada.

Parti às 17:00, no ônibus urbano que me deixou na estação central de Pescara. De lá peguei o trem e às 19:30 estava na estação central de Ancona. Novamente ônibus urbano até o porto, comprei um bilhete no K.Mir da SCM (aquele que o Gigi não quis pegar) e embarquei às 21:00

A viagem foi tranqüila e agradável. O barco estava vazio e é muito bem mantido apesar de um pouco velho.

Jantei a bordo e apesar da chuva pude curtir a vista do mar na mesma travessia que tinha feito no San Marino.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, January 16, 1998

6:00 Acordei no ferry com despertador, tomei um pequeno café e desembarquei às 7:00 no porto de Split.

De ônibus local, cheguei a Trogir às 8:30

Fui direto para o mercado, fazer meu café da manhã no mesmo bar que costumava ir quando estávamos lá.

Comi um bom Burek (torta frita com queijo em massa folhada) para matar a saudade e fui a pé até a Marina.

Despedi-me de todos, peguei nosso Defender e voltei à Split.

Como o próximo ferry sai às 21:00, dormi e li a tarde toda em um pequeno hotel.

Embarcando às 20:00 no M/F Dubrovnik descobri que o Gigi é muito exigente. O navio é ótimo, em muito bom estado, penso que novo ou recentemente reformado.

Fiquei em uma cabina sozinho, com ducha e W.C., tudo muito em ordem

Antes de dormir fui ao bar ver o movimento, tomei 2 wiskies e dormi muito bem a noite toda.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, January 17, 1998

7:00 Desembarcado em Ancona, em 3 horas de viagem sob chuva pesada, retornei a Pescara.

Ancona está sempre em nosso caminho, cada vez que vamos à Rimini ou nas navegadas pelo Adriático.

Só uma vez visitamos a cidade, e vale a pena faze-lo.

É bela e cheia de monumentos, apesar de ter sido parcialmente destruída por um terremoto e incêndio.

Ancona é um porto importante, tanto comercial como pesqueiro.

Foi fundada em 390 AC por mercadores Gregos de Siracusa.

Depois virou uma colônia Romana, base naval importante durante a guerra Ilirica, em 178 AC.

Júlio César depois de ter cruzado o Rubicão em 49 d.C a capturou em sua marcha triunfal em direção à Roma.

Com a queda de Roma em 476 d.C, Ancona passou a fazer parte do império Bizantino, sendo tomada pelos Góticos em 493.

Em 752 foi tomada pelos Lombardos.

Em 848 foi destruída pelos Sarracenos.

Tornou-se parte do estado Papal em 1532.

Em 1797 foi capturada pelos Franceses e varias vezes recapturada pelos Austríacos que a devolviam ao papado.

Em 1860, sob Garibaldi, Ancona passou a fazer parte da Itália.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 21, 1998

Estamos na auto-estrada, de volta de Macerata onde fomos ver nossos amigos e onde passamos a noite.

O GSM toca: É o Gigi preocupado com a violenta tempestade que cai sobre Pescara. Nada sabemos, estamos a 2 horas de lá. Diz que há vento NE de 60 nós e ressaca muito forte. Ficamos preocupados, mas deixei o San Marino muito bem atracado, nada deve ter acontecido

23:00 Chegamos ao San Marino. Tudo em ordem, mas o mar está um lamaçal e ha muita ressaca.

A maré esta uns 50 cm acima do normal, sinal de mau tempo.

Os inseparáveis "gabbiani" estão todos em alvoroço, voando juntos em direções diversas. A luz do porto reflete em seus corpos brancos que brilham no céu. Belo espetáculo.

Desde que chegamos a buzina do porto repete três toques curtos a intervalos de 2 minutos. Em código morse é a letra "S" que significa "Mantenham-se longe da terra, muito perigoso aproximar-se". O porto está assim fechado, pois sua entrada está um inferno de espuma tão grande a arrebentação devido à pouca profundidade.

Só parou de tocar às 5 da manhã

 

LOG ENTRY FOR: Friday, January 23, 1998

A chuva continua, o mau tempo também.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, January 25, 1998

Frio e Chuva, 8 graus.

Chegaram o Domenico e a Pepina, de Osimo, (perto de Ancona) nosso amigos do Pippa II de Porto San Giorgio.

Fomos almoçar no Alcione, que tinha sido tão bom da primeira vez. Estava agora péssimo.

Mas valeu rememorar nosso dia juntos em Porto San Giorgio, eles nos contaram seu verão na Croácia, aonde foram e voltaram 5 vezes.

O barco deles é rápido, chega lá em 3 horas.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, January 27, 1998

Estamos curando nosso resfriado. É a gripe "Milanesa", que não é comida mas o vírus foi isolado em Milão. Febre alta, dor nas juntas, cabeça e vias respiratórias em estado de choque. Vai passar

O tempo esta feio, frio, 5 graus, chove.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, January 28, 1998

O dia amanhece afinal muito bonito.

A gripe está muito melhor.

Aproveitei para cortar cabelo. No barbeiro uma bela discussão sobre Ronaldo, o jogador brasileiro. No dialeto local queriam matar-se pois um dizia que o Juventus estava estragando Ronaldo e o outro que o Ronaldo estava estragando o Juventus.

Ao saberem que eu era brasileiro, pediram minha opinião e eu disse.:

"Estou muito satisfeito que isto esteja acontecendo, assim vocês terão menos medo do Ronaldo no próximo mundial e o deixarão livre para jogar e fazer gols."

Todos ficaram de acordo comigo e mudaram de discussão com o tema:

A Itália tem que encontrar um jeito de não deixar os estrangeiros voltarem para seus países e disputar a copa do mundo, ao contrario , eles agora devem jogar pela a Itália pois é aqui que vivem!

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, January 29, 1998

De bicicleta fui procurar um chaveiro para consertar o cilindro de uma das fechaduras externas que ficou corroído com o sal. São fechaduras especiais em Inox, norueguesas, o que há de melhor.

Mesmo assim, o sal entrou pelo orifício da chave e corroeu uma cupilha, que soltando-se fez com que os pinos caíssem. Não dá para consertar sozinho e há muito tento procurar um especialista.

Na "Casa della Serratura", minha esperança, dizem que não fazem. Hoje na Europa não se conserta mais nada, joga-se fora. Mas me deram um endereço, de um velhinho que poderá fazer o serviço.

Lá vou eu de bicicleta, girando toda a cidade. É um bom exercício

Na volta passo por uma loja para tentar fazer um teste de pressão das minhas garrafas de mergulho. Já passou muito do prazo do ultimo teste hidrostático,

Sou informado que na Itália será difícil. Ha um formulário que acompanha cada garrafa desde o fabricante, emitido pela marinha Italiana. Sem ele não se carrega ou revisa-se as garrafas.

Argumentei que só quero fazer um teste para minha própria segurança, não para efeitos legais. Nada feito.

Diz o Paolo, funcionário da loja que ficou meu amigo, que é impossível. Se você tem uma garrafa Italiana e perde o certificado, é melhor joga-la fora pois mesmo uma segunda via dá tanto trabalha e custa tanto que é melhor esquecer. Ele mesmo tem 11 garrafas neste estado, em sua loja.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, January 30, 1998

Estou levando o Defender para trocar pneus. Ainda estão bons, mas na lama ou neve os biscoitos são pequenos e se perde tração.

Como pretendemos viajar para lugares com muita neve, é melhor trocar agora.

Os originais duraram assim 75 000 km, o que já é muito!

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, January 31, 1998

O dia esta razoável apesar de frio. Vamos para Áquila, uma antiga cidade romana, depois sob o domínio de Nápoles, que nada mais era que um domínio espanhol. no século 16, Carlos V construiu um belíssimo forte que ainda se encontra em perfeitas condições. É um dos mais belos que já vimos.

A cidade também é bonita, com suas calmas praças e ruas típicas.

Na ida almoçamos no restaurante La Cabina, em Castelnuovo di S. Pio.

A Milena comeu Farro c/ Zaferano (trigo), eu Chitarre (massa cortada em um instrumento que parece uma guitarra) c/ tartufo, depois comí polpetas al zaferano e a Milena uma gostosa lingüiça do local.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 01, 1998

Decidimos subir a Maiella, uma das maiores montanhas dos Apeninos.

Fomos (de Defender) até 1700 metros, havia muita neve, poucos carros chegaram até lá. Estamos com pneus novos e nosso carro anda na neve como não fosse nada.

Fomos almoçar na volta no restaurante TAIPU, em Guardiagrele, incrível.

Guardiagrele é uma destas típicas cidadesinhas dos Abruzzi, pendurada numa montanha com suas pequenas e tortuosas ruas se adaptando à topografia.

As casas, todas coladas umas às outras, formam um labirinto tortuoso e cheio de aclives, declives, escadas e pequenos túneis.

Comemos Carpaccio de Cervo, Tagliatelle c/ molho de castanha e ragu de capriolo, Filetto de Chingueale com tartufo, - como se come bem neste restaurante pequeno e simpático -.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 02, 1998

8:30 Novamente na auto-estrada, rumo a Rimini. Temos reunião com o Aldo Grassi e a Milena quer passar por San Marino para refazer seu passaporte, pois vencerá em setembro. Tudo lá é fácil.

Ao subirmos a estrada para San Marino, vemos que tudo está branco. Nevou esta noite e San Marino está lindo, todo branco e gelado.

Fomos almoçar no Due Archi, apesar de estarmos fazendo o possível para reduzir a comida, senão o peso vai lá para cima!

Voltamos a Rimini, o Aldo nos apresentou a conta. É salgada, mas justa. Ele trabalhou muito, com muita dedicação.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, February 03, 1998

Muita chuva, tempo feio. Dediquei meu dia a imprimir o livro da Leda Baleche. Ela me deu em disquete que estava defeituoso e só tinha dado para imprimir as primeiras páginas. Fui deixando, deixando, pois estava realmente muito difícil de lê-lo. Utilizando os aplicativos Norton, consegui recuperar o disquette e iniciei a impressão. Como meu computador é dos velhos (já tem uns bons 8 anos) e tem pouca memória, sendo o livro da Leda bem grande, tive uma falha geral no computador.

Ao atravessar o oceano, o vazamento de água salgada que tínhamos no camarote de proa (que só consegui eliminar em Chioggia) molhou com água salgada todos os meus disquetes de programa e backup destruindo-os.

Fiz backup de tudo, mas não adiantou. Precisei reinstalar o Windows, e a cópia que tenho é diferente da que estava usando. Resultado: problema em todos os meus aplicativos.

Passei o dia tentando arrumar tudo, mas não consegui.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, February 04, 1998

Novamente pendurado no computador. Consegui consertar todos os programas menos o Quicken com o qual controlo nossas "finanças". Impossível. Tentei de tudo.

Aqui na Itália não existe. Fui numa loja especializada e descobri que entendo mais de DOS e Windows 3.1 que eles. São moços, minhas versões são muito velhas.

Única saída: telefonar pedindo socorro ao Flávio, meu filho. Ele prometeu comprar um novo Quicken no Brasil e me mandar por DHL.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 05, 1998

Levei o Defender para revisão. São já 80.000 km. Tudo em ordem, este carro não quebra mesmo.

O diretor de vendas da loja gentilmente ofereceu para me levar até o ponto de ônibus, pois a Marina é longe, em outra cidade.

No trajeto fomos conversando, contei de nossa viagem. Ele se empolgou e decidiu levar-me até a Marina. Disse que sempre sonhou em fazer o que estamos fazendo, falta coragem.

Respondi a ele que não é preciso coragem, só uma boa dose de irresponsabilidade.

Ele, muito surpreso, me disse "Aqui na Itália um "anciano" jamais diria isto a um jovem. Seria um péssimo exemplo.

Respondi que no Brasil é o contrário, um ótimo exemplo, pois a responsabilidade (muito importante na vida, sendo a diferença entre a coragem e a temeridade) é muitas vezes uma desculpa bem colocada para não fazermos aquilo que nosso desejo comanda.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 06, 1998

Novamente um belo dia de céu azul, vamos largar tudo e subir as montanhas. Eu deveria na verdade mergulhar para examinar o casco e decidir se tiramos o San Marino da água aqui ou deixamos para o próximo outono.

Mas como disse ontem, muita responsabilidade atrapalha. Deixemos a obrigação para depois, e vamos ao prazer que ninguém é de ferro!

Passei no caminho na loja do Paolo. Ele revisou, limpou e ajustou os respiradores de meu equipamento de mergulho, e não quis cobrar nada.

De lá fomos direto a Gioia Vecchio, no Parque Nacional dos Abruzzi, pequena vila que não consta do mapa, onde almoçamos.

Neve fora, uma lareira dentro, onde o Paolo Batista cozinha carnes, queijos e salsichas.

Tudo começa de novo.

Papardelle al ragu di cervo, salsinha e queijo local frito, de antipasto crostini (pão torrado) com óleo, sal grosso e alho, uma delicia.

Um vinho local muito leve, tipo clarete, nos obrigou a beber uma grappa na saída.

O restaurante estava vazio, ficamos conversando com o Paolo.

Ele é pequeno, consistente e atarracado, como a maioria dos locais. Cabelo negro e cerrado, bigode.

Apesar de ter uma cara comum, descobrimos que teve uma vida interessante. Tem hoje 45 anos.

Já viajou o mundo todo, pois trabalhava de cozinheiro em navios de turismo. Nos 30 dias livres que tinha após cada cruzeiro, ao invés de retornar à Itália (para isto arrumou um conveniente divórcio) ia a algum lugar do mundo.

É um dos poucos que conhecemos que fez a transiberiana (8500 km de trem, atravessando toda a Sibéria até Vladivostok) um sonho que sempre tive.

Conhece bem todo o oriente, e adora o Vietnã.

Aprendemos muito com ele.

Ele quer ir para o Brasil, que já conhece mas mal.

A Milena falou de nosso projeto de fazermos um restaurante ao voltarmos, talvez em 2 anos, e ele com alegria disse que gostaria de ser o cozinheiro. Quem sabe?

Em seguida fomos a Pescaserolla, Barrea, Alfedena, e paramos em Rocarasso, estação de esqui muito movimentada a 1300 metros de altitude.

De lá Sulmona (antiga e belíssima cidade, citada por Tito Livio em sua antiga historia de Roma) e retornamos a Pescara.

Belo dia de passeios e comidas!

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 07, 1998

Foi um belo giro, o de hoje.

Pescara, Spoltore, Penne, Farindola (onde entramos no parque reserva natural Gran Sasso de Itália) , Castel de Monte (1500 metros de altitude, tudo branco) , Campo Imperatore, que paisagens incríveis, das mais bonitas em montanhas nevadas que já vimos, pois são altiplanos longos e cheios de neve.

Almoçamos em St Stefano di Sessan, numa tratoria chamada "Del Lago" onde a velhinha que nos servia (deve ter uns 80 anos) muito encarquilhada e falante preparou ( com o auxilio de sua filha e chefiada por sua mãe que deve ter uns 100 anos) raviolis recheados de queijo, sopa de lentilhas como nunca tomamos igual, uma bisteca (que não era grande coisa) e nos serviu presunto cru local, incrivelmente bom.

Tudo isto demorou umas duas horas, pois ouvimos o barulho da panela de pressão cozinhando as lentilhas, vimos a massa dos raviolis ser preparada e cortada, tudo feito na hora, fresquissimo, pois até as lentilhas vieram da horta delas.

Demos muitas risadas, pois elas são engraçadissimas.

Voltamos por Barisciano, Popoli, e auto-estrada para Pescara.

É um passeio imperdivel para quem estiver por estas bandas, de carro.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 08, 1998

11:19 Continuam os belos dias. Hoje, armado de coragem, vou mergulhar para ver o casco como está.

A temperatura mínima foi 4 graus, agora está 10. A água está a 8 graus.

Comprei meias de 3mm em neoprene, encontrei um velho capuz para mergulho.

Creio que poderei enfrentar o frio sem problemas, mesmo sendo minha roupa de neoprene muito fina para estas temperaturas.

13:00 O mergulho foi um fracasso. O capuz que encontrei é apertadíssimo para mim. Consegui agüentar até estar na água, mas depois comecei a me sentir sufocado, e estava mesmo, pois ao sair e retirar o capuz (com a ajuda providencial da Milena), meu rosto estava roxo.

A água também estava muito suja.

Não deu nem para sentir os 8 graus da água. Foi entrar, dar uma olhada no casco e sair.

A pintura venenosa está ainda boa, mas está na hora de trocar os zincos.

Depois de sair da água gelada, foi um prazer lavar todo o equipamento com água doce, de calção e sem camisa. Está 10 graus aqui fora! É a teoria da relatividade.

Depois de sair de uma água tão fria os 10 graus ao ar livre são uma delicia!

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 09, 1998

12:00 Decidimos dar uma volta de bicicleta e comer um frito misto de peixe e calamares, que por aqui é uma delicia. Fazemos exercício e regime ao mesmo tempo.

Logo de sadia, ao subir um obstáculo com a bicicleta, quebrou-se um dos raios da roda traseira. A Milena insiste que sou louco e quero sempre fazer coisas que não devo. Eu acho que são meus 90 quilos. Talvez as duas coisas juntas.

A um tempo atras fui esquiar com o Flávio em Ibiuna, com seu barco potentissimo.

Ao tentar me tirar da água com um esqui slalon, quebrou-se a corda.

Eu que saia com um pé só puxado por motor de popa de 30 HP!

É que com o peso maior, deve-se ter mais cuidado ao fazer-se o mesmo que antes!

Voltamos e fomos de carro, acabou-se o exercício!

No restaurante a Milena pediu Brodetto, entrada vinho e sobremesa.

De lá fomos direto para a doceira, acabou-se a dieta.

Chama-se Camplone esta doceira, a melhor que já fomos em nossas vidas.

Fica na Piazza Maggio, bem no centro de Pescara.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, February 11, 1998

10:00 Belo dia, 1030 mb, 60% umidade, 20 C. Vou criar coragem e lavar o San Marino por fora.

Desde nossa chegada a Pescara ele não viu água doce, a não ser de chuva, mesmo assim lavei muito rapidamente.

13:00 Estava imundo, só deu para lavar o Flybridge.

Aproveitei para revisar os dinguies, colocar a lona de proteção. A do Flexboat estava rasgada, costurei com agulha e linha de costurar velas, ficou muito forte.

Levei também a roda da bicicleta para trocar o raio. O tipo da loja é muito simpático. Chama-se Cirilo.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 12, 1998

9:30 O dia continua bonito, 1030 mb, 50% de umidade, 18° C.

Hoje vou lavar a parte inferior do San Marino e também acabar o serviço de pintar revisar e reajustar o equipamento de mergulho.

São já 5 anos sem faze-lo, deve-se revisar no mínimo a cada dois anos.

Chegou a Stella, a moça que ajuda a Milena na limpeza.

Ela é venezuelana, casada com um italiano que tem uma loja aqui na Marina e oferece também serviço de limpeza nos barcos.

Ela sabe de tudo, é muito inteligente.

14:00 Acabei o serviço e estou morto de cansaço. Estava muito mais sujo que eu pensava e apesar de usar a máquina de pressão, deu muito trabalho.

17:00 Acabei da pintar as garrafas de mergulho, recoloquei a malha de proteção e carreguei com 3000 PSI. Tudo em ordem para o próximo verão.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 13, 1998

10:00 Rumo sul, com o Defender, vamos conhecer Vieste.

Fica na península de Gargano, a espora da bota Italiana.

Está a 200 km ao sul daqui, mas a autopista é boa.

19:00 Já de volta, a viagem foi boa mas não é nada de mais. Vieste é uma bela cidade e a natureza da península é bonita, mas mós já vimos tantas cidades belas e tantas costas marítimas, que esta não nos impressiona.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 14, 1998

Dia de supermercado, perde-se meio dia no mínimo.

A Milena conhece como ninguém a ciência de fazer compras em grande quantidade sem exageros ou faltas.

Enchemos 3 carrinhos, os europeus ficam boquiabertos.

Mas dá gosto, tantos são os produtos, e tão boa a qualidade.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 15, 1998

Temos novo amigo, um grego, o Constantino, do Hooker, um fischerman de 32 pés.

Ele passou a manhã conosco, nos dando dicas para nossa próxima viagem à Grécia.

Ele possui uma farmácia aqui em Pescara, e formou-se pela universidade de Urbino, portanto conhece Macerata Feltria, para onde vamos amanhã.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 16, 1998

6:00 Já estamos de saída, acordamos às 5, pois são 3.5 horas de viagem até Macerata Feltria

22:00 De volta, o tempo foi belo, pois a pressão continua a 1030 mb, deve cair amanhã, esperamos uma frente fria.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 19, 1998

Os dias continuam lindos como nunca.

A frente fria que deveria entrar ha 2 dias passou raspando, por cima dos Balcãs.

A pressão está 1034, nunca vi tão alta.

Desde o dia 5 de fevereiro o inverno virou primavera.

A temperatura alcança 20 ou 22 graus e o céu é sempre azul.

Já começam a nascer as flores no campo. Infelizmente elas morrerão cedo, pois o inverno retornará, inexoravelmente.

Hoje tomei meu café da manhã fora, como ha muito não o faço. É que não há vento, portanto é confortável no sol.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 20, 1998

8:00 estamos saindo cedo para Sulmona, uma pequena cidade onde já estivemos mas estamos voltando pois é encantadora.

Esta no interior, no centro dos Abruzzi, a 400 metros do nível do mar, num buraco entre as montanhas.

É uma cidade Romana, onde nasceu Ovídio.

A praça Garibaldi, ampla e bela, está como que situada no centro das montanhas que circundam a cidade, todas cobertas de neve. Um belo espetáculo.

A cidade é conhecida como produtoras dos melhores "confetti" da Itália, aquelas amêndoas inteiras cobertas de branco açúcar com baunilha.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 21, 1998

Ataquei hoje um serviço que deveria ter feito na construção do barco.

O ralo de nossa pia dava uma vazão muito lenta. Duas bombas de diafragma cada uma, com controle automático.

A primeira bomba é a que está sempre em uso, a segunda só é ativada se o nível de água subir muito, normalmente em caso de defeito da primeira.

Temos grandes filtros antes de cada bomba, que limpo uma vez por ano. O sistema funciona muito bem.

Tive que desmontar toda a caixa de sabão, e substituir um dos tubos de inox que levam a água usada da pia até esta caixa.

Todos os esgotos dos banheiros (pia, chuveiros) que estão abaixo da linha d’água tem que ser esgotados por uma bomba, obviamente.

No San Marino temos duas caixas para água com sabão, uma à proa e outra à popa.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, February 22, 1998

22:00 Chegamos somente agora de Urbino, esta cidade maravilhosa, onde fomos almoçar na casa do primo da Milena, o Duccio Alexandre e sua intrigante mulher Barti.

Foi uma conversa interessantíssima, sobre os mais diversos assuntos.

Eles são Yogas e possuem uma pequena academia onde ensinam esta filosofia a moradores locais.

Parece que por aqui se atém mais aos assuntos corpóreos que da alma, e segundo o Duccio, seus alunos tem que ser induzidos, sem perceber, a meditar e deste modo receber um pouco do muito que o Yoga pode dar.

Foi um almoço vegetariano, hindu, que caiu muito bem como variação ao monótono cardápio Italiano.

O vinho local, de camponeses, era excelente.

O Duccio morou muito tempo na África do Sul, onde conheceu a Barti, que é de família Hindu. Ele é também um excelente musico, virtuoso em Guitarra Clássica, e tivemos belos momentos musicais.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, February 23, 1998

08:41 Hoje deve ser o último dos dias bonitos, pois desde sexta feira a carta sinóptica de previsão mostra uma frente fria entrando esta noite.

Isto significa dia quente e belo hoje.

Levantamos às pressas com um barulho no casco. Era o barco ao lado, um Marchi 50, o San Giovanni, destas lancha rápidas que muitas vezes causam confusão.

De fato, enroscaram o hélice no corpo morto, ficaram sem motor e vieram em cima de nós. O Flexboat está na água e serviu de defensa. Nenhum problema.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, February 24, 1998

Saímos à procura do mercado central. O daqui é belíssimo. Tudo muito fresco, em quiosques, lembrando o mercado central de São Paulo.

Encontrei abacaxi, vindo de San Domingos por avião. Razoável, pois há muito que não comia pois os que se encontram por aqui são sempre péssimos, colhidos muito verde para embarcarem em navio.

A Itália, sempre vidrada em comida, não admite alimentos que não sejam frescos.

Raras são as pessoas que aceitam alimentos congelados.

Frutas, só comem da estação, e mesmo assim aquelas da região.

Como o cultivo é feito em pequenas propriedades, é sempre bastante natural.

Comer abacaxi por aqui é portanto um prêmio.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, February 25, 1998

08:40 A frente fria entrou fraca. 1025 mb, só baixou até 1020. Está nublado mas choveu pouco.

Que inverno magnifico! Não é certamente o que estão dizendo nos EUA, com todos os furacões que estão devastando pontos da Flórida

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, February 26, 1998

Comprei afinal uma antena parabólica de 60 cm, pois a minha não pega por aqui (40 cm). Comprei na fábrica só a chaparia, o resto usei da nossa antiga. Agora podemos pegar os satélites daqui do barco.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, February 27, 1998

12:09 Fui ao bar da Marina fazer o café da manhã. Eles estavam instalando a antena parabólica. Pensei "boa hora para me informar dos satélites e das freqüências que pego aqui". Na verdade eles estavam tentando instalar a deles, fazendo tudo errado. Ajudei na instalação, no fim queriam me pagar alguma coisa.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, February 28, 1998

09:47 Acabo de voltar de meu "giro" de bicicleta. O dia está lindo, 1028 mb, deve começar a baixar pois uma frente fria se aproxima.

Estive no estaleiro local, onde pedi há algum tempo orçamento para tirar o San Marino d'água e refazer a venenosa do fundo. O orçamento estará pronto na segunda feira, vamos ver os preços.

A Milena está preparando um belo almoço. Devem chegar, às 15:00 o Aldo Grassi e a família.

14:00 Chegaram até adiantado. Italiano só é pontual (pontualissimo) quando se trata de comida. Às 13:00 em ponto, pára toda a Itália, hora de almoçar.

O almoço transcorre sempre com calma, sem pressa, bem ao contrario do que sucede com esta gente irrequieta durante todo o dia.

O agradável ritual que estamos acostumados ao receber pessoas para almoçar (conversa inicial, aperitivos, etc.) aqui na Itália irrita os convidados. Deve-se ir rapidamente para a mesa, todos querem comer! Uma vez colocada a massa no prato, o ambiente se descontrai, e todos ficam contentes.

Come-se então com voracidade, e uma vez terminada a refeição, ficam todos à mesa, conversando. Italiano adora continuar à mesa depois das refeições, talvez por ser o lugar mais desejado de se estar ao longo do dia.

É obvio que findo todo este processo já eram 18:00 e as crianças já estavam com fome outra vez, e a Milena teve que improvisar um jantar. É um moto continuo, não tem fim.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 01, 1998

Depois de um "breakfast" muito completo, (esperança é a última que morre, talvez possamos saltar o almoço) lá fomos nós para as montanhas. Bom que no Defender podemos "acomodar" até 9 pessoas, assim, fomos os 6 rumo a campo Imperatore, no Gran Sasso, para as crianças brincarem com a neve.

Por sorte a Rosalba tinha preparado sanduíche para as crianças e lá nas montanhas também encontramos um pequeno bar onde pudemos (eles) comer frios queijos e pães, para enganar a fome.

Já eram 12:30 e o Aldo tinha que voltar às pressas, para um batizado.

Assim nos despedimos, e tenho certeza, eles foram direto para um restaurante, reclamando "como se passa fome neste barco".

Bom apetite!

Nós não queríamos mais ver comida por perto tão cedo.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, March 02, 1998

07:23 O sol está nascendo hoje às 6:46 e se pondo às 17:58. Mas a mudança da noite para o dia, (e vice versa) procede-se lentamente, pois estamos a meio caminho entre o equador e o polo.

Assim, às 6:00 já estava clareando, e levantei-me cedo para descarregar no mar a caixa de esgotos dos camarotes de proa, pois tivemos visitas.

Misturo uns 200 cc de enzimas, e a descarga, triturada e absolutamente sem cheiro e não poluente, vai para o mar, ao acionarmos uma tecla. Mesmo assim, procuro fazer em horas que o vento e a maré levam tudo para fora.

Muitas vezes fazemos isto de dia, (uma vez por semana é necessário descarregar o tanque), mas quando temos vizinhos, procuramos fazer às noite, ou quando eles não estão.

Muitos podem não compreender que é um processo limpo e higiênico.

Ante ontem, chegou um barco novíssimo, ainda com matricula de teste, o MS Lady Wandita, que está atracado a nosso boreste, a uns 10 metros.

É um Mochi 22.5 metros (fabricado em Pesaro) e seus proprietários na manhã seguinte nos cumprimentaram "Bom Dia".

Ele é alemão, mas mora em Portugal e é casado com a Wanda (Wandita) portuguesa.

Acabaram de receber o barco, e vão ficar algum tempo por aqui.

Tão logo chegaram, retiraram a placa de prova e substituíram a bandeira italiana por uma de Gibraltar, e escreveram na popa "Gibraltar".

É difícil para europeus manterem a bandeira de seu pais, tão alto são os impostos sobre barcos, devido ao socialismo cínico e exigências estúpidas das marinhas e guarda costeiras.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, March 05, 1998

Lá vamos nós novamente para San Marino, em nosso barulhento Defender.

Temos reunião com o prefeito e almoço na casa do Baffi Scoppa.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 06, 1998

10:05 Afinal, munido de muita coragem, vou levar o Defender para um bom banho. Desde a Croácia, antes de irmos para o Brasil, que ele está cada vez mais sujo.

O lavarápido pertence a um Venezuelano, que morre de saudades de sua terra, mas fica por aqui por que ganha bastante dinheiro com este trabalho.

Ele reclama que os italianos não querem trabalhar, mas ao mesmo tempo gosta, pois tem pouca concorrência.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, March 07, 1998

Comecei o dia trabalhando no convés, colando as placas que estavam soltando-se na proa.

Todo o piso antiderrapante está soltando-se apesar de termos utilizado a cola recomendada pelo fabricante.

O estaleiro daqui fez um orçamento para troca-lo, mas são quase 10.000 dólares.

Assim, faço eu o serviço comprando apenas algumas placas e recolando cuidadosamente as outras. Depois, pinto todo os espaços livres no convés com poliuretano branco, e temos piso novo outra vez.

Creio que vou precisar de uns 15 dias para fazer este trabalho.

18:00 Chegam o Duccio e a Barthi, nossos amigos Yogas de Urbino.

Eles vêm para jantar e depois passam a noite a bordo.

O Duccio é ótimo musico, muito bom violonista, passamos uma noite agradável com muita musica.

Ele ficou entusiasmado com os autores brasileiros, principalmente com Ernesto Nazareth e Pixinguinha.

A Barthi é cantora lírica, e nos presenteou com um belo "Summertime" trazendo-me saudades de Gershwin.

Estamos felizes em receber um casal que não come muito, (são vegetarianos) poderemos ficar livre desta tortura italiana.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 08, 1998

Com o Duccio e a Barthi, depois de um completo café da manhã, demos um longo passeio a pé, depois um restaurante de peixe, doceira, despedidas.

Não adianta, até vegetarianos na Itália comem como doidos.

Eles são boa companhia, inteligentes, conversam qualquer assunto. Conversamos normalmente em inglês, pois a Barthi está aprendendo italiano. 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 10, 1998

08:57 A manhã veio salvadora, trazendo um céu encoberto "com furos", na linguagem dos pilotos aéreos.

Para avaliar a nebulosidade, eles usam uma escala de vai de 1/8 a 8/8 de nuvens, sendo 8/8 céu totalmente encoberto. 7/8 corresponde a céu encoberto "com furos", que é o que temos hoje.

O inverno retornou forte e furioso. O calor típico do dia que antecede a entrada de uma frente fria abrilhantou nosso domingo com o Duccio, mas pagamos o preço esta noite.

O vento entrou fortíssimo, força 8 aqui na marina, e foi a noite toda um carnaval de ruídos e movimentos.

Os barcos dançavam presos em suas amarras, como cavalos fogosos sendo domados.

A buzina do porto começou a tocar letra "S", às 17:00 e as adriças dos veleiros batem nos mastros de alumínio, fazendo grande barulho, como gigantescos "pica-paus".

O vento entrou de NW, mudando a seguir para NE, o famoso Bora, que sopra da Sibéria, trazendo frio.

Nossas amarras são boas, e temos confiança na única corrente a que estamos amarrados na proa, que segundo o pessoal da Marina, é nova.

Mas ao nosso lado está o "Lady Wandita" um barco a motor rápido de 22.5 metros, que deve pesar umas 50 toneladas.

Os donos se foram deixando-o atracado com cabos de 18 mm.

Falei com o Werner, o proprietário, por telefone (ele está em Portugal) e sugeri com muito tato reforçar a amarração. Ele concordou com alegria, agradecendo, e confirmando que também estava preocupado com isto, pois o barco é novo e as amarras são aquelas que se utilizam para atraques rápidos.

Assim, junto com o pessoal da Marina, dobramos os cabos, pois eles só possuem cabos de 18.

Ficou razoável, durante toda a noite mantive um olho aberto para ele.

Por sugestão da Milena, colocamos as defensas no nosso costado de boreste, a pancada seria menor.

Como o vento é de proa, ele nos joga sobre o píer, e também faz o mesmo com o "Lady Wandita" que toca as vezes o cais, porem uma defensa bem colocada pelo Weber, impede qualquer dano.

Vamos ver quanto tempo vai durar esta ventania. Para hoje a previsão espera ventos de 70 nós, isto é força 12, o mais forte da escala Beaufort, designado em termos marítimos "Furacão".

Bom que estamos numa marina bem protegida, pois no mar costuma formar ondas de 15 metros ou mais, com este vento, onde todos os veleiros "capeiam" e nenhuma vela resiste aos esforços terríveis.

São ventos de 120 km por hora. Experimente colocar a mão para fora em um carro que se desloque nesta velocidade.

Dá para dar uma idéia da força do vento.

19:00 Estamos voltando de um passeio pela cidade, que acabou virando em grande alegria e depois cinema.

Mas o vento continua forte, vai bater a noite toda.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, March 11, 1998

10:29 Desde cedo estou às voltas com as amarras. Com o vento muito forte que continua soprando, as amarras de popa ficam muito tesas e começam a ranger.

Nosso camarote é bem à popa, portanto o barulho incomoda.

Não ha jeito, será necessário comprar mais uns 15 metros de cabo de 22 milímetros e fazer uma nova. Cabos velhos de nylon rangem muito, pois são elásticos e suas fibras deslizam umas sobre as outras.

Já me disseram para lava-las com amaciante de roupas, mas nunca experimentei.

Decidimos ir amanhã para os Alpes, perto de Bolzano. Vamos visitar o Gigi e a Miranda, do Crisandra, que sempre nos convidam, e nós nunca vamos.

Aproveitaremos para curtir um pouco a neve que nestes dias está caindo à vontade por lá, pois uma grande massa de ar frio está sobre a Itália.

O dia, passei enfiado num buraco no porão, retirando o filtro de água salgada do gerador, cuja mangueira de alimentação apresentava uma pequena dobra.

Depois de tudo removido vi que a mangueira estava em ordem mas o cabo de terra estava solto. Assim, vou aproveitar para reaterrar todas as válvulas de casco, que são de bronze, e no San Marino são todas aterradas em um ponto único de massa (motor de boreste).

(em um barco de fiberglass o aterramento de todos os metais submersos é importante para evitar corrosão eletrolitica nos mesmos)

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, March 12, 1998

09:45 O vento cessou, mas está frio e nublado. Mesmo assim vamos para os Alpes, onde nossos amigos nos esperam.

Bolzano fica quase na divisa com a Áustria, serão umas 6 horas de viagem, graças às magnificas auto-estradas italianas. 

 

LOG ENTRY FOR: Monday, March 16, 1998

16:25 Ontem chegamos às 22:00 de nossa pequena viagem que incluiu Vibo Vattaro, com nossos amigos Gigi e Miranda (do Crisandra), Rimini, com o Aldo Grassi e Macerata Feltria, com o Carlo Baffi Scoppa.

Rearrumar tudo toma tempo e só agora começo a me movimentar. 

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 17, 1998

09:16 De volta à rotina de bordo 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, March 19, 1998

A previsão é de uma entrada de nova frente fria à noite.

As amarras estão bem, o Lady Wandita também.

Tanto eles como nós, somos marinheiros de oceano. Costumamos deixas as amarras folgadas, devido às altas marés.

Como conseqüência os barcos dançam muito, mas não se tocam.

Aqui pelo mediterrâneo não há maré, os barcos são atracados com os cabos muito esticados. Deve ser o certo por aqui, mas não gosto de ver as amarras sempre em condição de stress.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 20, 1998

08:49 Ontem entrou novamente uma frente fria, porem de fraca intensidade.

Algumas rajadas de ventos de 40 nós, alguns pingos de chuva, e foi só.

Hoje está nublado, 1028 mb e 60 % de umidade.

A tarde chegaram o Weber e a Wandita, com toda a família, os proprietários do "Lady Wandita" que está a nosso lado.

Trouxeram para nós uma bela garrafa de "brandy" português, excelente.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, March 21, 1998

08:25 A frente deixa como sempre seu rastro de frio e umidade.

O céu está escuro de nimbostratus, aquele céu com cara de chuva.

Fomos convidados para um drinque no Wandita, estava toda a família, visitamos o barco, novíssimo, muito bem acabado, com 2 caterpillars de 1600 H.P. cada.

Bebem provavelmente uns 400 litros por hora em cruzeiro. Como eles tem 8000 litros, a autonomia deve ser de 13 horas que a 20 nós leva a 400 milhas.

Nós com nossos pequenos Detroits de 200 H.P. cada um, consumimos em cruzeiro de 8 nós 40 litros por hora, e nosso tanque (que normalmente dura um ano) de 12500 litros nos dão 300 horas ou 2400 milhas marítimas.

Porém vamos sempre muito devagar.

Talvez se eles viajarem com um só motor, em baixa rotação, possam ter uma autonomia de umas 2000 milhas a 7 ou 8 nós de velocidade.

Mas os motores sofrem trabalhando em baixa, pois se queimam os bicos dos injetores.

O remédio é a cada hora, acelerar até o máximo por uns 5 minutos, mas aí se queima muito combustível.

Ou trocar os injetores especialmente para uma travessia, ou mesmo substituir o hélice por um de passo mais curto.

Valem os números para se constatar que mesmo com um barco rápido, pode-se cruzar oceanos.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 22, 1998

10:52 Tempo melhor, com cumulus no céu, prevendo bom tempo.

A visibilidade é excelente, como sempre em dias de Bora, o NE que sopra hoje força 3.

Saímos para almoçar nas montanhas, no fantástico La Bilancia, em Loreto Apruntino

 

LOG ENTRY FOR: Monday, March 23, 1998

O Jan Weber e a Wandita nos convidaram para jantar. Foi uma ótima noite no restaurante Guerino, muito bom. Não sei quantos pratos de peixe foram servidos, mas garrafas de vinho foram 5, fora a grapa.

A noite acabou no San Marino, com muita musica.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, March 25, 1998

7:30 Acordamos com o barulho dos motores do "Lady Wandita".

Ontem nos despedimos, eles estão indo para a Croácia, Trogir, por nossa recomendação.

Vão abastecer "Tax Free" e sair lá pelas 10 da manhã.

Irei até o píer me despedir deles.

10:00 de bicicleta, lá fui eu para o posto de gasolina, despedir-me dos amigos portugueses.

O mar está pesado, durante estes últimos três dias soprou um fortíssimo NE.

Não é o mar que mais mexe o Adriático, mas a costa italiana fica furiosa pois é muito rasa.

Encontrei-os quando esperavam o posto abrir.

Comentei do tempo: "Porque vocês não esperam 2 dias?. Hoje vai estar terrível, mesmo com seu barco que é grande". Aproveitarei para convida-los para jantar no Don Fernando, onde se come carne ótima.

Depois de alguma hesitação aceitaram minha sugestão (creio que já estavam com esta idéia em mente, bastava um empurrão).

Vão ficar mais dois dias por aqui.

A previsão é de ventos menores, o mar vai acalmar.

20:00 saímos para jantar com o Weber, a Wandita, e os dois marinheiros que eles carregam. Me convenceram a aceitar novo convite, pois queriam fazer uma festa com toda a tripulação.

O Michel, marinheiro, é francês basco, cuida também da mecânica e eletrônica do barco.

O Ângelo é português muito gentil e delicado.

Todos juntos, depois de muito vinho, tivemos uma noitada interessantíssima.

Acostumados que estamos a falar sempre uma língua estrangeira, foi estranho falar sem preocupações com erros e principalmente sem levar em conta se os outros estão ou não entendendo aquilo que queremos dizer.

A realidade porém é outra.

A Milena passou um bom tempo a conversar com a Wandita sobre viagens e no fim perguntou : "mas que tipo de viagem é esta que ela prefere, de comboio?" (A Milena falava em viajar de trem).

Não compreendeu que comboio é o nosso "trem", que capturamos do inglês, "train", portanto errados estamos nós.

A conversa foi ótima, muito engraçada. O vinho estava bom e ajudou a descontrair.

A Wandita é muito louca. Apesar de termos combinado a principio, que a conta seria paga por eles, fui às escondidas à cozinha, e paguei a conta.

Quando ela soube, amarrou a cara, disse que a amizade estava acabada pois eu não era homem de palavra, e apesar de todas as tentativas de explicação, perdeu toda a alegria que conservava sempre.

Só quando o Weber me deu, em sua frente, em dinheiro, o valor da conta, voltou a sorrir e a se divertir.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, March 27, 1998

10:00 estou no píer acenando para o Weber que sai pela barra com o "Lady Wandita".

O dia está bonito, o vento acalmou e o mar está baixando.

Ele (que agora está confiando nas minhas previsões - certamente mais do que eu mesmo - ) pediu-me um prognóstico.

Este é fácil e infalível.

Como o Bora deve continuar fraco, e atravessa perpendicularmente o Adriático vindo da Croácia previ: Ao sair, mar pesado na barra, depois mar duro até 10 milhas da costa, mar de ondas de 1 metro até as ilhas Croatas e depois mar liso até Split.

15:00 Chama o telefone, é o Weber.

Sergio, estamos já na Croácia, entre as ilhas Solta e Brac, o mar esteve exatamente como você disse!

Nenhum segredo, na costa italiana o mar é raso, perto do porto 4 ou 5 metros, até 5 milhas 20 metros. A 10 milhas da costa aprofunda-se para mais de 100 metros, por isto disse a ele que as ondas iriam diminuir. (As ondas sempre aumentam quando a profundidade diminui, veja o exemplo das praias.)

Perto da Croácia, como o vento sopra de lá, eles estariam na "sombra" das ilhas e do continente, por isto iria o mar estar mais calmo.

Ele está assim talvez pensando que sou grande "previsor de tempo", quando na verdade esta situação se repete sempre.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, March 28, 1998

Estou trabalhando no Freezer que nunca atingiu os 10 graus negativos.

A comida não fica assim muito bem conservada por muito tempo, sempre foi um problema de nosso sistema de refrigeração, que entretanto é ótimo, pois funciona com baterias mantendo o frio por até 15 dias.

Mas com paciência e um termômetro, fui testando item por item e mudando a carga de gás até atingir a pressão ideal.

Consegui -27C no evaporador. Corri e comprei um novo termostato. Pronto, nosso freezer se mantém agora a 18 negativos. É a temperatura exigida dos freezers comerciais. Mantém os alimentos com segurança no mínimo 6 meses. Afinal solucionei o problema.

Aproveitei para recarregar de gás um dos compressores do ar condicionado. Pedi a um técnico (de terra, não especialista em barcos porque cobram no mínimo o dobro) para fazer a carga, pois não tenho o gás R22 que vai no ar condicionado, só o R12 que uso nas geladeiras.

 

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, March 29, 1998

18:00 Telefonou o Lady Wandita. Tudo bem por lá, estão atracados na mesma vaga que tínhamos em Trogir.

Foram ao restaurante Alka e comeram filet tartar e scampi com alho, acompanhado de vinho branco e tinto das ilhas croatas.

Depois foram ao Barba e comeram ostras, mariscos e peixe.

Gostaram de tudo, parece que temos gostos parecidos.

Deixam o barco lá por um mês, vão a Portugal de avião, e depois retornam para a Itália.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, March 30, 1998

09:35 Dia bonito, trabalho fora.

Estou arrancando o piso do deck antigo, um composto de cortiça e borracha antiderrapante para colocar o novo. Decidimos substituir tudo. É um trabalho duro, ontem precisei de 5 horas para arrancar 5 placas. O total é de 45 peças, serão muitos dias de trabalho. Felizmente comprei um formão elétrico Bosch que ajuda muito.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, March 31, 1998

Veio hoje o Constantino,, do Hooker, um Welcraft 28 que está perto de nós.

Ele é pescador, e bateu o recorde mundial de pesca de atum com linha para 30 libras (15 quilos), pescando um atum de 90 quilos.

Foi uma luta de 8 horas, em que venceu a paciência.

O Atum pesca-se com linha de fundo, e quando fisga, corre para o fundo. Deve-se dar mais linha e movimentar ao mesmo tempo o barco, de ré, para não forçar a linha.

Ele nos trouxe um belo livro da Grécia, um vinho tinto, cartas piloto incrivelmente boas e depois mandou 5 litros de excelente azeite grego.

Como retribuição, fiz para ele uma cópia do "Guarany", esta linda ópera de Carlos Gomes, pois ele é amante de óperas.

O Cd que tenho, presente de minha mãe, tem o Plácido Domingos no papel de Pery. E uma memorável gravação.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 01, 1998

Hoje a Milena concluiu que devemos ter um rato a bordo.

No armário da cozinha ele deixou rastros e mordidas em um pacote de farinha.

Hoje a noite, vamos deixar um pedaço de queijo para ver se ele pega. se morder, amanhã compro uma ratoeira.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 02, 1998

O rato mordeu o queijo. Saio para procurar uma ratoeira, compro 3, de diversos tamanhos.

Sei que ratos são desconfiados, vamos ver o que sucede.

A Milena fez uma limpeza geral de todos os armários, arrumação geral do barco, nenhum sinal de rato, apenas naquele único armário da cozinha.

Ele deve estar a pouco tempo a bordo.

Pegamos todos os livros de pessoas que vivem em barcos, todos já tiveram ratos a bordo, nenhum conseguiu pega-lo com facilidade.

As vezes demora meses.

Teve um que chegou a fechar totalmente o barco enchendo-o com uma fumaça venenosa por dois dias e o rato continuou vivo e lá.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, April 03, 1998

Colocada a ratoeira, o rato sumiu. Nada de mordidas no queijo, que hoje foi um legitimo emmental

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 04, 1998

O rato não aparece mais. Acho que se assustou com a limpeza geral.

Continuo a colocar a ratoeira, mudando de tipos de queijo.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 05, 1998

Hoje foi dia do Flexboat. Deixei-o pronto para o próximo verão. Troquei toda a fiação elétrica do painel.

Fios elétricos em um barco devem ser de primeira qualidade, trançados, com terminais soldados (se o fio não for estanhado) ou crimpados, caso o fio seja previamente estanhado.

Aproveitei para instalar um ecobatimetro no Flexboat. Assim, quando navegarmos por locais rasos e mal mapeados, um vai a frente com o Flexboat verificando as profundidades.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, April 06, 1998

Parece que o rato andou rondando a ratoeira. Deixou "rastros" em volta dela mas não tocou no queijo, pois a ratoeira é muito sensível e não disparou.

Ao menos temos certeza que é um só, e pequeno, um lindo e gentil camundongo que nós implacavelmente tentamos trucidar.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, April 07, 1998

Estamos nos preparando para ficar fora uma semana. Vamos a Alemanha para o casamento da Nina.

Esperamos muita neve por lá, uma frente fria deverá estar em Munique esta noite.

Ainda bem que temos um carro próprio para neve.

O Oscar, nosso amigo da loja l'Altroporto, marido da Stella que cuida da limpeza de nosso barco, ficou de botar um veneno especial que dando ao rato uma impressão de sufocamento o faz procurar ar puro antes de morrer.

Assim, nossa macabra estratégia de capturar o pobre ratinho está se tornando um curso de especialização em tortura.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 08, 1998

Saímos cedo, são 1000 km até Schliersee. Na altura de Rimini, o motor do Defender parou quando estávamos a 140 kph.

Encostei e tentando dar partida, o motor arrancou novamente.

Mais uns 2 km e o defeito se repetiu.

Novamente após parados o motor volta a funcionar regularmente.

Troquei o filtro de combustível, verifiquei o funcionamento da bomba de combustível , tudo OK.

Saio novamente, o motor para, encosto e não pega mais.

Chamo o socorro mecânico, na cabina SOS da estrada, que demora uma hora para chegar.

Carregamos assim o Defender em um caminhão reboque, e somos deixados na oficina.

16:00 Estamos novamente na estrada, o defeito foi difícil de encontrar.

Era a mangueira de alimentação de ar do turbo, que quando era muito exigida em vácuo, fechava e cortava a alimentação de ar do motor.

Ao desliga-lo ela reabria.

23:00 Estamos em Schliersee, recebidos com festa e champanhe pelos Poeplau, donos do hotel Seeblick.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 09, 1998

15:00 Está casando a Nina, filha de nossa amiga Helga.

Estamos no Rathaus (tipo prefeitura) de Schliersee, onde a juíza, vestida a caráter como bela bávara, em cerimonia simples e de bom gosto, faz um discurso selando a união da Nina e do Bruce.

Ele é canadense e sua mãe está presente.

Estão também o tio da Nina, o Christian Berlit e sua mulher vietnamita a Thanh, o Walter e sua mulher (de Friedrichshafen) tios do Bruce, e muitos amigos de ambos.

Finda a cerimonia, um cortejo de 6 carros, todos enfeitados com uma renda branca, dirige-se para o local da festa, a beira do Tegernsee, num elegante restaurante.

Em nossa mesa (para 8 pessoas) todos falavam inglês.

Éramos 5 alemães, uma san marinense (Milena), uma vietnamita (Thanh) um americano (Christian) e eu, brasileiro.

A moça a meu lado, tinha um cachorro, que se desentendeu com o Speedy (o mal humorado cachorro da Helga).

Se pegaram a dentadas e tive que me meter na briga para separa-los pois nessa hora todo mundo só assiste, inclusive os donos.

Sobrou uma mordida no meu braço.

Acabada a festa, muitas horas depois, passei pelo hospital para que me dessem um antibiótico.

Mordidas de animais trazem junto bactérias que podem se desenvolver e inflamar.

Nunca tinha sido mordido por cachorros, apesar de sempre me meter em brigas e acariciar animais desconhecidos e rosnantes.

No ano passado, no Brasil, fui acariciar o Whisky, do Henrique, e recebi de volta uma mordida, talvez ele tenha se assustado.

Daquela vez, no hospital (pois aquela foi feia) pedi que me aplicassem uma antitetânica, assim estou protegido por bom tempo.

Parece que virei prato preferido de pequenos cães.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, April 10, 1998

Com nossos novos amigos, giramos por Tegernsee e Schliersee, depois de um belo "brunch" a convite da Nina e do Bruce.

O Christian é cientista famoso, da Nasa, especialista em radares e meios de orientação, responsável pelo lançamento de quase todos os foguetes da base texana de el Paso.

Conversamos muito, com muitos assuntos, pois temos as mesma idéias sobre a vida, as possíveis vidas futuras e passadas, as estrelas, o tempo e a alma humana.

Amanhã vamos leva-los para conhecer Salzburg.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 11, 1998

Salzburg brilha em dia de sol. Suas inúmeras igrejas possuem cúpulas onde o cobre e o ouro resplandecem, suas esculturas e pinturas ao ar livre possuem brilhos que sem o sol desaparecem.

Foi boa escolha de traze-los aqui.

Somos 8 no Defender, a Helga, o Walter e a mulher, a mãe do Bruce, o Christian e a Thanh, Milena e eu.

Na volta aconteceu uma cena interessante na casa da Helga.

Para nos despedir fomos lá tomar um copo de vinho.

Ela, em Salzburg tinha comprado queijos diversos para nos servir.

Ao mesmo tempo comprou queijo para cachorro (para o Speedy), restos, cascas, pedaços mofados, tudo cortado em pedaços miúdos.

Indo para a cozinha, encarregou a Milena e a Thanh de servir os queijos comprados em Salzburg.

Elas sem perceber, serviram os do pacote do Speedy, em diverso pratinhos.

Fomos todos comendo estes restos e conversando, pois o gosto até que era bom e variado, e no escuro não se via a forma e o mofo.

Só percebemos quando acabamos tudo e a Helga foi buscar mais, encontrando os verdadeiros queijos intocados.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 12, 1998

8:30 Nos despedimos de nossos amigos Poeplau, rumo à Pescara.

O Brenner estava cheio de neve, a auto-estrada escorregadia. Pela primeira vez ultrapassávamos todos os carros que viajavam, inclusive Porches e Ferraris.

Sempre vamos devagar pois o Defender é desajeitado, mas com neve somos os mais equilibrados e afinal tivemos nossa revanche.

17:00 Estamos em Porto San Giorgio, viemos visitar de passagem o Lothar e a Gisela, do LoGis que estão por aqui.

23:00 De volta ao San Marino, nosso amigo camundongo parece que foi embora, pois não tocou no veneno que deixamos. 

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 15, 1998

10:32 À espera de uma frente fria que ainda não entrou, aproveito o dia para iniciar a raspagem da tinta que está se soltando do anteparo de alumínio que temos a cada lado, sob os guarda-mancebos.

É a única peça de alumínio que temos no casco, e em alguns pontos temos problemas com destacamento da pintura, apesar de termos tido muito cuidado na preparação do fundo.

São já 5 anos, desde a pintura em Guarujá, e vê-se claramente os problemas que teríamos se nosso barco fosse todo em alumínio.

Decidimos também trocar todo o piso de deck. Será um grande trabalho, mas vai resolver de vez o problema.

O piso que temos, da Vetus, mancha com facilidade e descorou com o sol.

Vamos substitui-lo pelo original Threadmaster, que todos recomendam.

Vou cola-lo com poliuretano, já fiz um teste, fica ótimo.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 19, 1998

Saímos para um almoço de despedida no Stella D'Oro, onde se come peixe magnificamente bem.

2 garrafas de vinho mostram como foi quente a despedida.

A Milena decidiu ir ao Brasil, saudades dos filhos. Passará por Nova York por uns dias, saudades da vida que levávamos, sempre viajando de avião para lugares elétricos.

Eu continuo preferindo a pacata vida de viajantes contínuos, de porto em porto, muitas vezes permanecendo meses naqueles que mais gostamos.

Quanto aos filhos, dá para agüentar a ausência, que é plenamente recompensada dor um longo período juntos, quando vêm nos visitar.

Nossos filhos carregam também consigo nosso destino de ciganos, e estão sempre a viajar.

Ao retornarmos ao San Marino, estava o Constantino, nosso amigo Grego com um outro iatista do local a nos esperar. "Quero um pouco daquele drink brasileiro!"

Lá fui eu preparar uma batida de abacaxi, com a última de nossas cachaças.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 22, 1998

19:19 Acabo de ligar o forno a 250 graus para preparar uma pizza congelada, muito boa. Subi neste instante as escadas de proa, vindo da lavanderia onde coloquei as toalhas na maquina de lavar roupas e retirei os lençóis, já lavados, colocando-os na secadora.

É, estou sozinho ha 2 dias, a Milena embarcou para New York, na segunda feira às 15:00.

Na volta do aeroporto de Roma, vinha pensando em tudo que tinha que fazer.

É a primeira vez que fico sozinho desde que iniciamos nossa viagem nas Canárias, e desta vez terei que cozinhar.

Aproveitei para decidir fazer um regime, o primeiro em minha vida. Assim fica mais fácil aceitar o péssimo paladar de minhas futuras aventuras culinárias.

Não pude sequer tocar neste diário nos últimos dois dias.

Estou atarefadíssimo fazendo o serviço de pintor e dona de casa, preparando a superfície que é o mais trabalhoso, e no meio tempo saí para comprar material para este serviço.

Ontem, o primeiro dia sozinho, depois de todo o trabalho saí às 17:00 e voltei quase às 21. Supermercado no final, e um bife mal feito. Despenquei na cama em seguida, não sem antes ter falado com a Milena que telefonou de NY. Tudo bem.

Serão uns 20 dias de trabalho pesado, comendo mal, certamente vou emagrecer. Estou precisando, com meus 90 quilos em 1.78 de altura. 

 

LOG ENTRY FOR: Friday, April 24, 1998

08:56 - Voltam os dias bonitos. Céu aberto, sol forte já a esta hora.

Vou ver se consigo aplicar a primeira mão de pintura hoje, pois preciso de no mínimo 18° C para boa catalisação da tinta.

Ontem falei com a Milena, ela já está no Brasil, na casa do Flávio. Tudo bem por lá, isto é que é importante.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, April 25, 1998

09:02 Céu totalmente azul, 18° C, 1020 mb de pressão e 65% de umidade.

Não poderia ser melhor.

É a primavera com toda sua força rejuvenecedora chegando.

Estou novamente entrando na rotina, aprendi a fazer as coisas rotineiras da casa de modo fácil, tudo corre bem.

A marina começa a mostrar sinais de grande agitação. Hoje é sábado e feriado, (dia da liberação da Itália do regime Fascista) .Toda a população vem ver os barcos e curtir a marina.

Tenho que ter cuidado ao trabalhar, não devo fazer muito barulho ou poeira, pode irritar alguém.

Vou deixar o serviço externo para segunda feira, (muito contra vontade pois não gosto de começar um serviço e passar para um outro) hoje vou trabalhar na casa de máquinas, talvez colocar o novo tapete, todo branco, que vai cobrir o piso.

Ha anos que tento encontrar um forro para o piso da casa de máquinas que é de madeira sem acabamento, portanto de má aparência.

Entretanto é muito cômodo, não escorrega, não mantém água ou óleo em sua superfície (absorve), é isolante acústico e elétrico.

Esta última qualidade é que me decidiu por este tipo de piso, pois os de alumínio trazem sempre junto um risco de choque elétrico devido à sua condutividade.

São também muito escorregadios e barulhentos, porem bonitos.

O tapete que vou colocar, da 3M (feito no Brasil) foi testado por mim com manchas de óleo queimado e até com tinta spray. Esta última precisou de thinner para ser removida, mas saiu tudo. Escolhi a cor "branca". Obriga a manter absoluta limpeza.

12:00 Fui convidado pelo dono do bar da marina, o Pasquale Ruffa, para um aperitivo. Lá estavam toda a sua família, mulher (Laura), filhos, sogra e mãe da sogra, todos muito simpáticos e gentis. Estavam também diversos amigos e a conversa muito animada. Como sempre acontece na Itália, às 13:00 em ponto todos saíram às pressas. É a hora do almoço. Prometeram à tarde, fazer uma visita ao San Marino.

16:00 Chegou o pessoal. Como sempre querendo saber tudo da viagem, e elogiando muito o San Marino. Tomamos um brandy espanhol e o Marcelo e a Rossella convidaram-me para almoçar na casa da mãe do Marcelo, amanhã.

Vieram visitar-nos também umas dez pessoas dos barcos ao lado. Parece que estando sozinho, as pessoas tem menos receio de se aproximar, o que, diga-se de passagem, nunca foi nosso problema.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, April 26, 1998

12:00 Estou novamente no bar do Pasquale , o L'Approdo, na marina.

Outros amigos chegaram, além do Marcello que veio me buscar para o almoço.

É um pessoal de Roma, que possui um veleiro e uma lancha a motor, e estão loucos para conhecer o San Marino.

Lá fomos de volta visitar tudo, estes entendem de barco, sabem o que perguntam. No meio da visita, batem à porta, é o pai da Laura, que também é velejador e quer conhecer o San Marino.

Depois de muita conversa voltamos ao bar e seguimos para almoçar na casa da mãe do Marcelo, uma senhora bela e muito fina, onde comemos um magnifico "capretto".

De volta ao San Marino, encontrei o Constantino, nosso amigo Grego, que me disse "O San Marino está ficando importante".

Porque?, perguntei.

Porque o Prefeito de Pescara o esteve visitando.

Eu não sabia, mas o pai da Laura é o atual prefeito de Pescara, uma das mais importantes cidades da Itália.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, April 29, 1998

08:18 Ontem choveu o dia todo. Foi uma frente fria que entrou como se deve.

Ainda vamos ter o rabo dela hoje, mas a previsão é de dois dias bons até a chegada da próxima prevista para sexta feira.

1008 mb de pressão, 70% de umidade, 16 graus.

Vai dar para trabalhar fora hoje novamente.

A Milena telefonou ontem, está voltando, deverá chegar amanhã.

Sempre apressadinha.

Não deu tempo de terminar o serviço, tenho ainda uma semana de trabalho. Gostaria que ela o encontrasse pronto.

Ao menos a casa de máquinas, com seu novo carpete branquíssimo, será uma surpresa agradável para ela.

Virou um verdadeiro hospital, agora precisa ser mantida ainda mais limpo. É bom para a qualidade da manutenção.

Chegou ontem um veleiro de charter austríaco, vindo de Dubrovnick.

Seis pessoas a bordo, indiquei o restaurante, mas estava fechado.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, April 30, 1998

8:15 já estou na estrada, a caminho de Roma. A Milena chega pela Continental, de NY às 11:45.

Vou com calma, fazendo um balanço destes 12 dias que ela esteve longe.

A Milena é rápida. A viagem que deveria demorar um mês, ficou reduzida a um terço.

É obvio que não consegui meus intentos.

O trabalho de pintura e substituição dos pisos está ainda no "primer", tenho que massear, lixar, pintar e colar os pisos.

Meu regime para emagrecer um pouco foi bem. De 90 (quando ela saiu) estou com 85.

A limpeza interna do barco, feita ontem pela Mirella, mostrou muito pó (devido ao trabalho de lixa), mas ela fez um bom serviço.

Me dei bem com a cozinha e a lavanderia, que me deram pouco trabalho. Também, reduzi tudo ao mínimo.

É desagradável para a Milena ficar a bordo quando estou trabalhando. Ela fica aflita e sem o que fazer. É natural.

Entretanto os próximos dias vão ter que seguir assim.

Espero que a distração da viagem ao Brasil, a mantenha feliz.

12:30 Estamos já no Defender, retornando.

A viagem da Milena foi boa, são boas as noticias do Brasil, nossos filhos estão bem, minha mãe continua disposta e bela, nossos amigos levando a vida bem, como sempre.

Paramos para almoçar numa pequena taverna, comemos um magnifico gnocchi (a Milena estava com saudades das massas) e retornamos.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 01, 1998

Acordamos tarde, pois a Milena ainda carrega o horário do Brasil.

Hoje é primeiro de Maio, a marina está cheia de gente, não posso continuar o serviço de jatear com areia as partes de alumínio, faz muita poeira.

Fui ao bar do Pasquale, que imediatamente nos convidou para o aperitivo, meus amigos novos querem conhecer a Milena.

Mas a Milena está muito cansada, deixamos para amanhã. 

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 02, 1998

13:00 Estamos novamente no L'Approdo, o bar do Pasquale.

É aniversario de sua mulher, a Laura, lá estão todos os amigos e parentes.

Acabamos sendo convidados para o almoço, e passamos a tarde com eles.

São pessoas gentis e inteligentes.

Corri a bordo para pegar um dos livros do Brecheret que carregamos conosco, para oferecer como presente de aniversário.

19:00 Telefona o Gigi. Eles estão no SY Crisandra, em San Benedetto e vem nos visitar amanhã. Ficam para o almoço.

É o terceiro dia que não poderei mais trabalhar. Também o tempo não está lá destas coisas para se trabalhar ao relento.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 03, 1998

12:00 Chegaram o Gigi e a Miranda. Fizemos um belo almoço e saímos para passear a pé.

Na volta, uma parada no L'Approdo para um café, e despedidas.

Ao chegar de volta ao San Marino, lá estavam nossos amigos, o Marcello, a Rosella, e mais alguns que não conhecíamos. Drinques, conversas, acabamos a noite na casa de um deles, a uma da manhã, comendo pizza e bebendo bom vinho.

Se não cuidarmos o pessoal não nos deixa sozinho.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 06, 1998

Conforme tínhamos combinado, fomos a Macerata Feltria com o Gigi e a Miranda.

O Gigi cismou que lá se pode cultivar uva Müller Thurgau e depois fazer um vinho espumante que poderemos vender a alto preço.

Vamos ver, não entendo nada de fazer vinhos, só de beber!

O dia está lindo, é primavera em toda sua força. Os campos estão verdes e o cheiro de polem no ar é muito agradável.

O sol que muitas vezes no Brasil nos parece um inimigo, aqui é recebido com tanta festa, depois deste longo inverno.

A Anna e o Carlo Baffi Scoppa foram almoçar conosco na Silvana, em Carpegna, mas desta vez não comemos bem. É que não pedimos as receitas com tartufo, a especialidade da casa.

Na volta, paramos um pouco em San Benedetto, onde encontramos amigos da época que estivemos lá. 

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, May 07, 1998

Os belos dias voltaram, a temperatura subiu, estou trabalhando fora, na pintura dos guarda mancebos de alumínio, em camiseta.

O trabalho continua difícil, mais do que eu esperava. Se conseguir colar todo o piso até o fim de maio, estarei feliz.

Decidimos subir o San Marino para refazer a pintura de tinta venenosa do casco no dia 18. Deverá ficar uns 4 dias fora d'água. Por isto meu trabalho ficará ainda mais atrasado.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 08, 1998

O Marcello e o Pasquale nos convidaram para jantar em um restaurante de peixe.

Lá estavam também um casal, ele juiz, o qual foi aposentado precocemente como se faz por aqui com os juizes que incomodam. Agora é tabelião.

Muito interessante sua teoria (provavelmente baseada em fatos que ele conhece bem):

"Na Itália, você pode cometer qualquer crime, até assassinato."

Esta a sua teoria:

Uma vez preso, demonstra-se sua demência com poucos atos de insanidade de efeitos teatrais.

Em seguida, ao ser condenado a uma reclusão em manicômio judiciário, pede-se a transferencia para outra instituição, muito distante daquela.

A transferencia só pode ser feita em trechos curtos, devido à segurança, portanto até chegar ao manicômio de destino, o preso vai passando por uma dezena de instituições diferentes, onde fica por um bom tempo.

Em alguma destas instituições, mediante suborno, consegue-se uma declaração de que o preso é são, e não porta nenhum problema psíquico, isto é, está curado.

Neste momento, é então libertado, não restando qualquer mácula em sua ficha!

Ele garante que funciona, como já funcionou em muitíssimos casos.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 10, 1998

O dia está belo e quente. Chegam às 12 o Carlo Baffi Scoppa e sua mulher Anna, nossos amigos de Macerata.

Já sabemos o programa: comer, comer, comer.

A Milena preparo um almoço a base de carne e arroz, que eles gostam muito.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 11, 1998

O Carlo se despediu às 18:00, entre muitas risadas. É que fomos almoçar num restaurante de peixe, comemos como loucos e bebemos muito vinho. Depois limoncello e whisky. Foi divertidissimo, o gerente do restaurante é um marroquino, irmão do chefe de policia de Casablanca, que nos prometeu livre acesso a todo o Marrocos em nossa volta ao Brasil.

Na volta, encontramos o Pasquale em seu bar, que nos ofereceu um Calvados.

Ao perguntar onde tínhamos ido, a Milena respondeu: fomos almoçar no La Zattera.

Comentário do Pasquale: "Parece que vocês beberam mais do que comeram".

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 15, 1998

Nosso amigo Aldo Grassi, advogado da questão da herança, chegou com toda a família, filhos e ainda o Enrico, amigo das crianças.

Estamos com o jantar pronto, a Milena preparou um fondue de carne, que crianças em geral adoram, mais devido à festa que à comida.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 16, 1998

A Milena saiu com o pessoal para um longo passeio a pé. Fiquei a bordo com o Aldo. Estou começando a colar o piso novo do deck, e ele está me ajudando.

23:00 Estamos de volta de Guardiagrele onde fomos jantar no restaurante Ta Fu, que é para nós o melhor de toda a região.

Comemos magnificamente bem, acompanhados por um excelente Montepulciano Abruzzese, vinho tinto robusto e cheio.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 17, 1998

20:00 Lá se vão o Aldo e toda a família. Trouxeram movimento e alegria ao San Marino por três dias.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 18, 1998

09:42 Tudo pronto para subir o San Marino à terra. Estamos combinados com o estaleiro de Pescara, à tarde, se o tempo estiver ajudando, o travel lift (para 80 toneladas) deverá levantar nossas 65 toneladas e apoia-las gentilmente (espero) em algum ponto seco do estaleiro.

Ainda não sabemos se ficaremos a bordo ou não. Podemos viver confortavelmente mesmo em terra, mas não sabemos se nos permitirão, ou ainda se será confortável para nós.

Vamos repintar o fundo com tinta venenosa (são já 2 anos e meio desde a ultima pintura na Espanha), será no mínimo preciso trocar os zincos.

Vou aproveitar para trocar o hélice, colocar a reserva que é de passo menor porém possui as pás mais cheias e mais robustas.

É especial para trabalho pesado (Michigan Workhorse) e aceita pancadas e enroscos com menos risco.

Vamos ver como será a performance, provavelmente gastaremos um pouco mais de combustível mas em compensação o motor deverá atingir seu regime de rotações mais alto, isto é, mais eficiente.

14:00 Não será hoje. O vento está muito forte e constante, o estaleiro tem medo de manobrar o travel lift com este tempo ruim.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 20, 1998

9:00 Parece que hoje poderemos subir. O vento acalmou, estamos marcados para atracar na piscina do travel lift às 11:00.

10:00 Ligo os motores, para soltar as amarras. De repente o motor de bombordo para. O que será? É a primeira vez que temos problema nos motores.

Corro para verificar. É o diesel que acabou.

Estamos operando com os últimos litros e o pescador do tanque do motor de bombordo é propositadamente mais curto que o de boreste.

Assim, em falta de combustível, não param os dois motores ao mesmo tempo.

Vou usar o resto de combustível que está no tanque que utilizamos para o aquecimento (consumimos três mil litros só para aquecer o San Marino neste inverno).

Combustível transferido, o motor pega com facilidade.

11:30 Estamos no seco, bem calçados e apoiados sobre nossa firme quilha.

O casco está inacreditavelmente limpo, os zincos (4) consumidos por igual, ainda bons para uns outros 6 meses.

Sinal que nosso sistema de prevenção de corrosão galvânica é ótimo, pois foi calculado para 2 anos.

Hoje a tarde, lava-se o casco com água doce sob pressão e amanhã começamos o serviço.

A Mirella veio conosco e nos convidou para jantar em sua casa

23:00 De volta da casa da Mirella onde comemos muitíssimo bem um belo espaguete com molho de ostras frescas e um peixe espada frito com óleo, alho e prezemolo.

Boa gente o Tommy e a Mirella

Estamos hospedados no Hotel Califórnia, que a Milena encontrou. É novo, portanto limpo e arejado, e custa muito pouco.

Parece entretanto que estamos na Zona, pois a impressão é que os hospedes são meninas que trabalham neste lucrativo ramo.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, May 22, 1998

8:00 Hoje iniciamos a aplicação da tinta vermelha no casco.

Vamos ver se conseguimos aplicar as três demãos recomendadas, num total de 40 litros de tinta.

A rapaziada é esperta e pode ser que se consiga. Caso contrario, aplicamos a ultima demão amanhã.

Voltamos às 18:00 para nosso alegre hotel, sempre florido por moças pouco vestidas e desinibidas.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, May 23, 1998

10:06 Estamos a bordo, no seco. Nossa proa aponta para a Maiella, a grande montanha ainda coberta de neve, onde tantos belos dias passamos e onde tão bem comemos.

O estaleiro está mais calmo hoje. Ontem foi sexta feira, dia que todos vem retirar seus barcos para o sábado e domingo. Foi grande o movimento dos travel lifts que são dois por aqui (40 e 100 toneladas).

O travel lift foi um bela invenção. É uma grua móvel sobre pneus, que encaixa-se sobre o barco e com duas ou mais correias passadas sob o casco. O barco é levantado como se levantaria um cavalo por sua sela. O conjunto todo move-se para onde se deseja.

É um dos meios mais seguros de se levar uma barco ao seco. Melhor mesmo só o dique seco, que afunda, entra-se com o barco encima, e depois bombas d’água o esvaziam. Ao flutuar traz o barco para o seco. Utilizamos isto na Velrome, em Angra, é como se faz com os grandes navios.

A carreira, que em plano inclinado traz o barco para cima, pode ser com plataforma móvel ou com a quilha do barco diretamente no chão, sistema mais perigoso.

Ainda de encontram muitas no mundo, o barco é puxado por guinchos.

O San Marino está bem no meio das duas piscinas (local onde o travel lift opera para colocar e tirar os barcos d’água) e daqui acompanhamos todo o movimento do estaleiro Danimar, onde estamos.

Faremos hoje pela manhã a última mão de anti-vegetativa. Deveremos esperar 5 horas e depois o barco pode ir para a água.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, May 24, 1998

Continuamos no seco. Não deu tempo para trocar os zincos, a pintura está completa.

Vamos para água amanhã, pois hoje é domingo.

Aqui estão o Lothar e a Gisela, do Lo-Gis, que está em Porto San Giorgio. Vieram nos visitar, no almoço comem apenas uma fatia de torta e um café.

Que alivio, afinal alguém que come como nós.

A tarde passeamos, e decidimos comer uma pizza à noite, com muito vinho.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, May 25, 1998

8:00 O chefe do estaleiro vem verificar o serviço a ser feito. Devemos ainda trocar os zincos, o que ele faz pessoalmente e com muito cuidado.

Verificamos todas as conexões elétricas dos zincos, que devem sempre ser perfeitas, pois trata-se de corrente elétrica de baixíssima amperagem, os contatos tem que ser muito limpos e corretos, caso contrario os zincos não tem nenhum valor.

Nossos zincos anteriores, depois de 2 1/2 anos na água, estão corroídos como esperado, nem pouco nem muito. Agüentariam ainda uns 6 meses, mas quando estão já corroído tem menor ação.

13:30 O travel lift nos levanta como um brinquedo e nos coloca gentilmente na água.

Nos despedimos e agradecemos ao pessoal que foi tão amável e nos dirigimos para nosso lugar de atraque, no píer mais central da marina.

Tinha deixado os cabos em terra, e nos de proa eu tinha feito uma marcação para facilitar o reamarre. Foi tudo fácil e rápido.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, May 26, 1998

9:00 Volto a meu trabalho de construção do novo piso.

Vou hoje recortar todas as placas, pois não posso pintar as superfícies restantes, pois ameaça chuva. O tempo está bom mas muito instável.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, May 27, 1998

8:30 Volto ao trabalho de recortar o piso que deverá acabar hoje.

A Milena, junto com a Mirella, estão desmontando tudo que está no Fly Bridge. É uma limpeza incrível, que ela começou ha uma semana.

Não há local que fique impune. Tudo é examinado e limpo minuciosamente.

Assim, só com ela, o San Marino matem-se imaculadamente novo.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, June 16, 1998

09:52 Meu último registro neste diário de bordo foi em 27 de Maio passado.

Deixei por 20 dias de fazer qualquer registro.

É que comecei a trabalhar pesado na pintura e na colagem do novo piso. Não pude perder tempo com nada.

Assim, mudei minha rotina de vida, pois perco ao menos uma hora neste teclado diariamente.

É o diário de bordo, o controle das manutenções, o controle de estoque, a contabilidade.

Também não foi muito o que fizemos fora deste serviço.

No fim de Maio estivemos por três dias em viagem por Rimini e San Marino, onde a Milena foi votar.

São 14000 votantes em todo o pais, faz diferença um eleitor!

Ao longo destes 20 dias saímos pouco, algumas vezes para um bom almoço, algumas vezes um bom jantar, ou encontros no bar da marina com nossos amigos locais.

Em San Marino compramos uma moto pequena, Honda de 50 cc, para levarmos à bordo, e termos condução nas ilhas Gregas.

O Lothar (do Lo-Gis) esteve também nos visitando (por duas vezes).

Hoje acabei o trabalho de colagem do piso.

A Milena chegou com uma garrafa de champanhe para a comemoração.

Foi um serviço duro mas valeu.

O orçamento do estaleiro para fazer este mesmo serviço era de 10 000 dólares, só de mão de obra. Foi este foi meu pagamento e acho que fiz muito melhor.

Ainda por cima, no estaleiro teríamos que nos instalar num hotel por um mês, o que custaria também muito.

O San Marino está perfeito, desde novo nunca esteve tão bem acabado.

À noite vamos assistir ao jogo Brasil - Marrocos, o Flávio já fez seus comentários pelo Internet, pois inauguramos hoje o serviço - poderemos receber E-Mail usando nosso terminal Inmarsat C, graças ao serviço da Comsat-C, uma empresa americana, que recebe as mensagens, decodifica-as e retransmite-as a nosso terminal.

Estamos também convidados para um jantar de despedida no bar do Pasquale, onde estarão todos os seus e nossos amigos.