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LOG ENTRY FOR: Sunday, July 04, 1999

6:15 Deixamos a barra do porto de Zachintos.

Mar calmo, sem ventos

Estamos viajando a 8 nós, com corrente favorável de um nó. 1530 RPM, 50 litros por hora de consumo.

Nosso destino: "Roccella Ionica", Calábria, Itália.

Será uma travessia de 230 milhas, tempo previsto 30 horas.

É uma longa reta, não há terra ou ilhas no caminho.

Bom para matar saudades de navegações oceânicas, sem terra no horizonte.

Zachintos foi uma agradável surpresa, uma ilha esquecida pelos turistas, mas com toda aquela vida das ilhas Iônicas que encontramos quando chegamos, ha um ano, em Corfú.

É uma ilha meio grega, meio italiana, pois foi veneziana desde 1200 e esteve na mãos dos turcos só por 2 anos.

A intelectualidade de Creta, por exemplo, refugiou-se aqui para fugir da dominação turca.

Os Italianos a tiveram por muito tempo, e também os Ingleses.

Há uma grande praça, "loggias", muita coisa no estilo italiano, tudo reconstruído, pois a ilha foi devastada por um terremoto há uns 40 anos.

6:42 Como sempre vou à casa de maquinas ver se tudo anda bem.

Vou controlando também um pequeno vazamento de água, que entra pela gaxeta do eixo de boreste.

É preciso ajustar a folga do selo mecânico, apertar um pouco, mas decidi não faze-lo antes desta travessia.

É melhor entrar um pouco de água e esgota-la com a bomba que apertar demais o selo, que pode esquentar e danificar-se.

Fica para quando chegarmos à Itália, o ajuste desta peça.

8:11 Ponta sul da ilha de Zachintos.

Alteramos nosso rumo para 280, proa direto para Roccella Ionica, na Itália.

Piloto automático ligado, deveremos esta por lá amanhã ao meio dia, se a corrente continuar nos ajudando. Agora temos meio nó a favor.

É relaxar e gozar.

A ponta sul de Zachintos, última terra grega a ficar em nossas retinas, é mostra do que foi toda a Grécia.

Rochas abruptas despencando em um mar muito azul, vegetação rala e muita pedra.

Isto esquecendo a parte humana. Recebemos muito calor humano na Grécia, fizemos muitos amigos, valeu o ano que por aqui ficamos.

A viagem até a Itália deverá ser calma.

A previsão é de ventos força 5, de Noroeste.

Há mar longo formado, ondas de 1 metro vindas de NW.

Nosso rumo é WNW, portanto pegamos o mar com a bochecha de boreste, é confortável.

Estou viajando sentado na proa, com o vento e o respingo do mar na cara.

Um cardume de pequenos peixes voadores passa perto de mim, vibrando suas quase asas velozmente.

Um navio cruza nossa proa, rumo norte.

A manhã é clara e o sol imenso no horizonte.

12:30 Apesar do balanço a Milena foi para a cozinha preparar um macarrão. Afinal estamos chegando na Itália!

13:13 Saiu um magnifico "tortellini al burro e salvia".

De sobremesa amigdalotas gregas, as últimas.

17:40 Tudo calmo durante o dia.

Um bom chuveiro, roupas limpas, estou pronto para o turno da noite.

A Milena também vai se preparar, o sol vai se por dentro de meia hora, bem à nossa proa, vai ser um belo espetáculo.

Nós brasileiros estamos acostumados a ver o sol nascer no mar, mas lá ele sempre se põe na terra.

Talvez por isto me agrade tanto o "poniente" marítimo.

Estou matando a saudade da travessia do Atlântico.

Aqui onde estamos não há terra num raio de 200 quilômetros, é a solidão total.

(mesmo o fundo está a 3000 metros)

Não há navios ou outros iates, não é uma rota tradicional.

O único sinal de vida é o radio, mas posso desliga-lo.

Não devo porém, por questão de segurança.

Nesta época de pós guerra, o Adriático e o Ionio são muito bem patrulhados por naves americanas que continuamente solicitam o prefixo, nome, bandeira, origem e destino, dos barcos que passam.

Também a guarda costeira italiana, volta e meia chama, controlando o constante desembarque ilegal de Curdos, Albaneses e agora ciganos fugindo da Albânia, com medo da repressão dos habitantes, pois ajudaram os servos durante a guerra do Kosovo.

20:00 A Milena foi dormir. Vou desperta-la à meia noite, para trocarmos de turno.

Vou pegar meu violão, que me ajuda a matar o sono.

Desligo também o computador, pois a luz do display ofusca, mesmo quando deixada fraca.

21:05 O sol acaba de se por. Errei na conta. Me esqueci que estamos

navegando no sentido oeste, portando junto com o sol.

Assim os dias ficam mais longos. Preciso mudar os relógios, atrasar uma hora, para me adaptar ao horário legal da Itália.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 05, 1999

0:30 Chamei a Milena, vou dormir.

O mar está calmo, a noite muito escura, não há lua.

O céu entretanto está lindíssimo, como é sempre no mar, sem as luzes da terra, as estrelas aparecem em muito mais quantidade.

6:00 Estou novamente de guarda, a Milena volta a dormir.

Como sempre ela acaba me deixando dormir mais que o devido, ela dorme sempre menos.

Desta vez ela tentou me acordar às 4, como combinado, mas parece que respondi ainda dormindo: "estou cansadíssimo, não aguento", e ela me deixou dormir mais. Não me lembro de nada.

Começa a amanhecer.

Há neblina, a visibilidade é reduzida.

Há também muito sereno, tudo está molhado fora, garantia de um belo dia.

9:30 Começam a aparecer as redes de pesca e os barcos pesqueiros de vongole.

Os italianos limpam como ninguém o fundo do mar, não sobra nada.

O mar aqui é raso, de areia, eles raspam com uma rede de arrastão cada centímetro.

11:00 Estamos atracados de costado, uma dezena de marinheiros vieram nos ajudar.

Marinheiros reais, da marinha italiana, muito bem fardados.

Há também um carro dos "carabinieri" e um da "guarda di finanza".

Uma recepção oficial, à altura.

Creio que chegam poucos barcos com bandeira extra comunitária por aqui, não querem perder a oportunidade.

Mas todos muito gentis, e como sempre, alinhadíssimos.

23:00 Voltamos de um magnifico jantar no restaurante "Il Gatto e la Volpe".

Que saudades da comida Italiana, aqui na Calábria se come picante, como gostamos.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 06, 1999

Roccella Ionica é uma pequena vila onde foi construído um bem equipado porto, ainda não em funcionamento.

Mas pudemos atracar, estamos bem protegidos, e não se paga nada.

Fica na sola da bota italiana, perto do calcanhar.

A cidade se desenvolveu em torno de uma alta rocha onde existem as ruínas de um velho castelo fortificado, medieval.

Ele domina toda a região, e nos oferece uma magnifica vista.

A praia, extensa e de areias brancas, é a mesma de todo o Adriático, só que aqui a água é muito limpa.

A pequena cidade possui uma praça com coreto, e tivemos a sorte de chegar no momento que uma procissão passava por lá.

Toda a população paramentada, uma banda muito afinada tocando marchas, e os não crentes bebendo nos bares vizinhos.

Fui ao barbeiro. Meu cabelo agora está muito fácil de cortar pois resolvi deixa-los muito curto, tudo com máquina.

É muito prático, não precisa pentear e não faz calor.

Poderia corta-lo a bordo, mas gosto de ir aos barbeiros antigos e bater um papo com os locais.

Desta vez o Enio, dono da barbearia "New York", ficou grande amigo.

Nos recomendou um restaurante para jantarmos, "Kennedy", que é de um amigo. (tudo muito americano por aqui).

Como fica longe, deixamos a moto na praça e o Enio nos levou em seu carro.

A volta, ele garantiu, o dono do restaurante se encarrega.

Nos convidou para um aperitivo, e sugeriu Campari.

Aceitei, ele disse "um pouco de Gim?" eu também aceitei.

No Campari soda, eles colocaram uma bela dose de Gim, e ele logo virou tudo.

Agora entendi, todos estes italianos tomando Campari o tempo todo. Eles estão mesmo é bebendo Gim disfarçado!

O jantar foi muito bom, e o cozinheiro nos levou de volta, largando a cozinha por um tempo.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, July 07, 1999

A previsão do tempo não nos deixa viajar amanhã como previsto.

Estamos com 1015 mb, 70% de umidade, 32 graus de temperatura.

Que calor!

Contrario do que costumamos fazer, passamos o dia com o ar condicionado ligado.

É que precisamos do gerador o dia inteiro, para fazer água doce (aqui no porto não há água nem luz) e carregar as baterias. A Milena está lavando roupa, cada operação da lavadora demora umas duas horas.

Aproveito para fazer pequenos consertos, colar remendos no infláveis que tem vazamento, ajustar o selo mecânico do motor de boreste que está vazando, reapertar os coxins dos motores.

A Milena está também recalculando nossa rota rumo a Gibraltar. Vamos passar entre a Corsica e a Sicília, pelo canal de Bonifácio.LOG ENTRY FOR: Thursday, July 08, 1999Estamos nos preparando para continuar a viagem amanhã.

Pretendemos sair às 4 da manhã, para atravessar o canal de Messina (entre a Itália e a Sicília) com luz e mar calmo.

Há muito movimento de ferries por lá, navios e muitos barcos de pesca muito loucos, que correm a toda velocidade atrás dos peixe espada para arpoa-los.

Quando eles vêem um peixe, vão atras, quem estiver por perto saia do caminho.

Os peixe espada fazem esta rota, se afunilam no estreito, e os pescadores aproveitam.

Eu também aproveito o dia para revisar nossas bolsas "abandona barco " com material necessário para sobrevivencia no mar.

Substiuí a ração de sobrevivencia brasileira já vencida, por nova da Turquia.

Estou agora comendo deliciosas balas de goma em continuação, pois é esta a ração que se usa no Brasil.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, July 08, 1999

Estamos nos preparando para continuar a viagem amanhã.

Pretendemos sair às 4 da manhã, para atravessar o canal de Messina (entre a Itália e a Sicília) com luz e mar calmo.

Há muito movimento de ferries por lá, navios e barcos de pesca muito loucos, que correm a toda velocidade atrás dos peixe espada para arpoa-los.

Quando eles vêem um peixe, vão atrás, quem estiver por perto saia do caminho.

Os peixe espada fazem esta rota, se afunilam no estreito, e os pescadores aproveitam.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, July 09, 1999

7:30 Não deu para sair esta noite.

A previsão é vento NW, que mexe com o Tirreno, na saída do canal de Messina.

Estamos bem aqui, vamos esperar o tempo melhorar mais.

10:50 Voltamos do supermercado, grande festa poder comprar os gêneros italianos, sempre da melhor qualidade.

Amanhã vamos sair com certeza.

Aproveitei o dia chuvoso para rearrumar os capítulos do diário de bordo.

A Milena me perguntou; "mas por que você tem tanto trabalho em fazer este diário?"

Foi uma boa pergunta.

Em primeiro lugar, (alem da obrigatoriedade legal) respondi, porque será a melhor maneira de dentro de uns anos recordar-me de tudo aquilo que estamos passando.

Uma fotografia rememora um instante, talvez um período nebuloso que circunda um momento. O mesmo com um vídeo, que tem o defeito de não permitir uma reflexão demorada, pois é ele que impõe o ritmo da lembrança.

Com o diário, posso ler e reler cada passagem, relembrar meu estado de alma naquele momento, curtir como se estivesse revivendo o instante.

Em segundo lugar, porque tenho muito desejo de conhecer melhor meus pais, com os quais convivi sempre com grande diferença de idades, como é natural.

Caso meus filhos venham a ter este desejo, ao chegar à minha idade atual, se este diário cair nas mãos deles, terão o mesmo estado de espírito para entender, diferentemente de hoje, como seu pai via o mundo.

Não que isto seja importante para mim, já estarei morto e nada deste mundo certamente me interessará, mas poderá ser importante para eles se conhecerem melhor, pois conhecendo parte de onde se veio, fica mais fácil saber quem se é.

Ninguém pode ser feliz sem se conhecer, pois somente conhecendo nosso defeitos é que podemos corrigi-los, vivendo assim livre dos problemas que eles nos causariam, caso não os notássemos.

Em terceiro lugar, é um meio de informar a meus amigos e à minha mãe em particular, de tudo aquilo que estamos fazendo.

Já me perguntei se não é a vaidade escondida que me leva a esta terceira colocação. Talvez seja, mas creio que a intenção é de tranquliza-los, de mostrar que estamos bem, felizes e pensando com saudades nos que deixamos.

Quanto a viajar, muitos me perguntam se estou cansado.

Não, não estou. Viajo, não com a intenção de conhecer mais, de ver novas paisagens ou enfrentar novos desafios.

Sinto-me como um caixeiro viajante, que passa a vida de cidade em cidade, conhecendo muitas pessoas, mas sem participar da vida de nenhum local.

Sinto-me bem ao ver o mundo como espectador, estar fora do cinismo obrigatório àqueles que vivem juntos, dependentes ou quase da vontade dos dirigentes incapazes ou gananciosos, ávidos em comandar aqueles menos potentes como forma de auto afirmação.

Sinto-me bem ao estar um pouco menos obrigado a seguir as regras por eles criadas, (pois elas variam de país para país) com boa ou má intenção, que se traduzem em leis, dogmas ou costumes.

Posso me rotular de marginal, me agrada estar à margem do mundo, assistir à comédia humana participando o menos possível dela.

Pode ser por covardia ou timidez, mas me cai bem e sou extraordinariamente feliz.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 10, 1999

3:00 Despertador berrando, vamos nos preparar para cruzar Messina.

3:25 Largamos nossas amarras, está muito escuro mas a saída do porto é bem balizada.

Vou me afastar da praia até atingir a profundidade de 50 metros, daí tomo o rumo 211° , para o cabo Spartivento.

04:47 Acabei de ajustar o selo mecânico.

Como esperava, logo após sairmos da barra do porto, fui controlar a temperatura do selo.

Estava esquentando. Coloquei os motores em neutro, enfiei a cara no fundo do porão e em 10 minutos reajustei a folga soltando um pouco.

A cada 5 minutos estou controlando a temperatura que agora está normal e não ha vazamento de água.

O ajuste deste selo é difícil porque feito o ajuste inicial a frio, quando o motor começa e a esquentar, o eixo que é longo dilata-se e muda o ajuste, apertando mais o selo.

De outro lado, com o aumento das rotações do motor o hélice exerce uma pressão imensa sobre os coxins do motor, movimentando-o um pouco para a frente, afastando o selo de sua base.

É preciso achar o ponto justo. Uma vez ajustado, funciona magnificamente por muito tempo.

O ultimo ajuste que fiz foi entre Angra e Vitória, no Brasil, depois não toquei mais no sistema.

5:41 Estamos a 19 milhas do cabo Spartivento, a ponta mais ao sul de toda a Itália.

Mar calmo, ventos de NW força 5.

Já amanheceu, uma manhã brumosa e úmida.

O farol do cabo, que lampejava a cada 8 segundos, nosso guia noturno, já foi desligado.

Mas os contornos escuros do cabo, baixo mas nítido, confirmam nossa rota.

6:49 O mar continua calmo, e deve ficar assim até o estreito de Messina.

A previsão é de mar agitado na saída do estreito e em todo nosso percurso ao subir o Tirreno, na costa oeste da Itália.

Viajamos a 1510 RPM, 8 nós, corrente favorável de 1 nó a nos ajudar.

O estreito de Messina, que deveremos atravessar em poucas horas, é conhecido pela turbulência de suas águas.

Fui buscar na Odisséia o trecho em que Ulisses entrou no estreito, (logo depois de ter escapado das sereias) tendo Scilla, um monstro de 12 pés e 6 longos pescoços em forma de serpente, vivendo em uma caverna a bombordo (que lhe comeu 6 homens da tripulação) e Charybdis, um imenso monstro que suga três vezes ao dia tudo que há na superfície do mar, talvez um rodamoinho que sugava os navios, a boreste, do qual ele passou longe temendo-o mais que à Scilla.

Hoje temos a Camorra a boreste e a Máfia a Bombordo, monstros de mais cabeças e mais força de sucção.

Ulisses descreve o mar como um caldeirão no fogo fervendo, como sopa

borbulhando numa caçarola, em grandes altos e baixos.

Há na verdade fortes correntes que dependem da diferença de altura entre o Tirreno e o Ionio, e também da diferença de densidade entre estes dois mares porque o Tirreno é mais quente e menos salgado.

O Pilot Book do almirantado inglês, descreve o canal como perigoso, devido aos rodamoinhos fortes que se formam.

Entretanto, parece que as condições climáticas atuais modificaram um pouco a natureza do canal, pois nos últimos anos não há menção de grandes rodamoinhos.

Nem creio que eles nos afetariam, pois o San Marino pesa 65 toneladas e os motores e nossa longa quilha nos levam em linha sempre reta, como sobre trilhos.

Talvez um pequeno veleiro com pouco motor sinta alguma coisa.

Em nossa passagem ha 3 anos atrás o estreito estava calmo e tranqüilo.

07:42 Começam os navios. O Romeo Primo, de Nápoles, passa a uns 200 metros a nosso bombordo. Um outro cargueiro vem em nossa esteira, nos alcançando.

O Cabo Spartivento está a boreste, todos os navios fazem um angulo de 90 graus neste ponto, para entrar ou deixar o Ionio, rumo ao Adriático.

7:54 Um grande peixe escuro na nossa proa. Pensei ser um golfinho, mas ao ir fora para ver melhor, era um grande peixe espada. Ele saltou e sumiu.

Eles se afunilam no canal, para a alegria dos pescadores.

Deu vontade de jogar uma linha, mas para que, para matar o ferir o belo animal?

Posso comprar minha comida em um supermercado, não é preciso agredir tanta vitalidade e beleza.

Mudamos de rumo, 270, estamos com a proa para Porto Salvo, na entrada do canal, a corrente é contraria, meio nó.

12:15 3.5 nós de corrente contraria. Aumentamos a velocidade, 1650 rpm.

12:46 Estamos no ponto mais estreito do canal.

Scilla em nossa bochecha de boreste.

Já passamos a rota dos ferries, felizmente não ha pescadores provavelmente devido ao mar agitado.

O mar borbulha e ferve como disse Homero, mas nada alem de um pouco mais de trabalho para o piloto automático que corrige a rota a cada minuto.

13:34 O vento agora é de W, força 5. O mar vem de través, ondas de um metro, rolamos bastante, uns 10 graus.

15:40 O mar apertou muito, ondas de 2 a 3 metros vindas de W, sou obrigado a fazer um zig-zag.

Aumento um pouco a velocidade para compensar o atraso. 1650 RPM, 9 nós.

O mar ficou pior do que esperávamos.

Há uma cadeia de montanhas a leste, bem rente à costa, o vento afunila e aumenta o mar.

19:00 Atracados na marina do Carmelo, nosso velho amigo.

Grande recepção. Está o Franco, seu filho, o Gundolf e a Jasmin do MY Sonia, que conhecemos da outra vez que estivemos aqui.

Há mais umas 5 pessoas, que não reconheço mas acenam como se fossemos amigos.

Todos no Píer para nos receber.

Todos se lembram de nós quando estivemos aqui 3 anos atras, em Vibo Valentia Marina.

20:00 Fomos para o barco do Gundolf, lá estavam um italiano velejador, um casal da Toscana que fala alemão e inglês, o Stefan e a Petra que estão no barco do Gundolf.

A festa foi longe, muita cerveja e amargo da Calábria, a Milena foi para a cozinha e ajudou a fazer um gnocchi com pesto, que saiu ótimo.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 11, 1999

Alugamos um carro e saímos para conhecer a região, rumo sul, para Scilla.

Almoçamos lá, a cidade é encantadora, vale sair da auto-estrada.(para quem estiver viajando de carro de Roma para a Sicília.)

Há um castelo medieval construído sobre a escarpada rocha de Scilla, que pertence à princesa da Calábria, hoje rainha da Bélgica, a qual passa suas ferias de outono sempre lá.

Há uma caverna que a lenda diz ser a morada do monstro que com seus longos pescoços roubou seis homens de Ulisses.

As casas dos pescadores são construídas bem à beira mar, sendo a entrada por uma rua alta, interna.

As casas em geral possuem 3 ou 4 pavimentos, e no inferior, á beira d’água, eles amarram seus barcos.

A cidade é linda e intocada e sem muitos turistas.

Almoçamos muito bem no restaurante Glauco

Retornamos via Tropea, outra cidade que vale a viagem, alta, suas ruas oferecem de quando em quando uma escarpada vista de praias brancas e águas transparentes e azuis.

Pequenas ruas tortuosas, muito charmosas, trazem um tom aconchegante.

Infelizmente haviam muitos turistas pelas ruas, a maioria da Calábria mesmo.

Voltamos tarde, tínhamos combinado um jantar com o Gundolf, mas fica para amanhã, pois estamos muito cansados.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 12, 1999

Vamos abastecer por aqui, há possibilidade de comprar o Diesel Tax Free.Ainda temos 4000 litros, mas o preço está excelente, 21 centavos de dólar por litro.

Fizemos as formalidades, atracamos no cais dos pescadores, embarcamos 7000 litros e retornamos.

Temos agora combustível suficiente para chegar à Gibraltar.

20:00 Vieram o Gundolf, a Jasmin, a Petra e o Stefan, para despedidas.

Foi na base da cerveja e do vodka, pois a Jasmin é filha de pai Iraniano e mãe Alemã.

Tínhamos uma latinha de caviar iraniano que compramos na Turquia (lá custa muito pouco, pois vem de contrabando pela fronteira) e um vodka muito frio que estava no nosso freezer.

Ficamos conversando até tarde, contando histórias.

O Gundolf é muito louco, tem mania de reformar as coisas.

O barco que eles estão tinha afundado e dado com perdido pela companhia de seguros.

Pertence a um amigo dele.

Ele se propôs reformar o barco com suas próprias mãos e usa-lo.

O amigo concordou, lá está o Gundolf no MY Sonia.

Na casa dele, há uma porção de automóveis antigos que ele reforma, tem até um helicóptero da Luftwaffe alemã no jardim, que ele comprou velho, em leilão da aeronáutica.Para evitar que os vizinhos reclamassem (e reclamaram) ele solicitou ao ministério da aeronáutica autorização para ter um campo de pouso de helicópteros em sua casa.

Assim ninguém pode reclamar, pois lugar de helicóptero é no campo de pouso.

Mas é um helicóptero velho, que nunca poderá voar, só serve para as crianças brincarem.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 13, 1999

05:56 Inicio do procedimento de partida. estamos ligados à terra com água e eletricidade, dá um pouco de trabalho.6:40 Fora da barra, rumo 325° .

Mar calmo, ventos força 2 de SE

8:55 Estamos agora no rumo 347° .

Nossa próxima escala, Maratea, no golfo de Policastro.

14:30 A viagem é calma e monótona.

O mar está um espelho, o rumo é uma reta só, e acompanhamos a costa da Calábria (agora já estamos em Basilicata) que é um conjunto montanhoso que cai sobre o mar, de altura regular, uns 500 metros, e se separa da água por intermináveis praias de areia branca.

As pequenas cidades se sucedem em distancias quase idênticas.

Viajamos a uma milha e meia da costa, com o binóculo pode-se acompanhar a vida na terra.

Alguns barcos de pesca, mas até agora, de recreio, só um veleiro.

29 graus, 1014 Mb, 65% de umidade, ventos fracos variáveis.

16:30 Estamos em Maratea.

A entrada do porto é difícil de achar, de longe se vê somente o imenso quebra ondas.

O porto é pequeno mas bem protegido.

Um "ormeggiatore" nos acena de longe.

Atracamos de popa para o cais, ao lado do MS Petrarca, um lindo iate antigo a motor, muito bem reformado.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, July 14, 1999

Maratea é um antigo porto de pescadores, incrustado no maciço de rocha que ladeia o mediterrâneo, na costa norte da Calábria, Basilicata.

É fácil localiza-la por mar.

Uma cópia de nosso Cristo Redentor, com os braços abertos mas um pouco mais levantados que os do nosso, olha a cidade de cima da montanha mais alta.

Certamente ele é espectador de menos pecados que o nosso, mas também é bem menor.

A cidade possui umas 50 casas que estão construídas como escadas, coladas à rocha.

Um imenso quebra mar artificial foi construído, onde há uma boa marina de águas muito claras onde tenho nadado freqüentemente.

Há uma caverna sob a rocha, ( uns 50 metros de diâmetro) que posso atingir nadando.

Na pequena vila há uma agencia dos correios, dois bares, três restaurantes.

Tudo é muito limpo e arrumado, posso dizer muito exclusivo.

É um local extraordinariamente romântico, ideal para uma lua de mel.

É um pouco difícil de se atingir por terra, mas as estradas na Itália são boas.

Vale qualquer esforço para chegar aqui.

Existem pequenos e luxuosos hotéis, todos com vista incrível sobre o porto.

Jantamos no Zà Mariuccia, um dos melhores restaurantes que já estivemos na Itália.

A Milena pediu como "primo" um extraordinário espaguetti alle vongole, feito como gostamos, sem tomate e com muito óleo e alho, com "vongole veraci" grandes, na concha.

Para mim, ravioli com recheio doce de nozes e molho de carne de carneiro, uma especialidade da região.

Depois, "coda de Rospo", frita na manteiga, de modo perfeito.

Rospo (angel fish) é um peixe muito feio (em italiano Rospo quer dizer sapo, monstro ou coisa parecida) que não conheço similar no Brasil, do qual se come só a cauda (coda).Mas é delicioso, uma carne branca e macia, sem espinhas, e de sabor próximo ao linguado porém mais sólido.

O vinho branco local é excelente e barato.

É incrível como este local, tão perfeito, é quase desconhecido também na Itália.

Sendo no sul , os turistas (com medo da máfia), quase não vem.

Grande engano, pois ha muita segurança e na nossa opinião bate Portofino como charme e beleza.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, July 15, 1999

Com um pequeno ônibus, subimos até a cidade histórica, Maratea.

São 7 quilômetros de estrada sinuosa.

Passa-se por muitos hotéis, alguns muito luxuosos, a até um de propriedade do famoso Hassler, de Trinitá dei Monti em Roma.

A pequena cidade é muito interessante, encaracolada, de ruelas estreitas, e muita vida.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, July 16, 1999

8:05 Largamos o corpo morto, estamos soltos, saindo do porto.

O rumo é 270° , para o Cabo Palinuro, que esteve uma fera nestes últimos dias.

O mar está hoje calmo, com ondas longas de um metro, como no oceano.

É agradável navegar assim, o balanço é lento e ritmado.

O mar curto do mediterrâneo é desconfortável .

10:30 Cabo Palinuro em nossa bochecha de boreste.

Mar com ondas de 2 metros, longo.

Foi aqui que caiu ao mar o piloto de Ulisses, cansado de sua luta contra Scilla.

11:03 Cabo Palinuro em nosso través, rumo 300 para a Ponta di Licosa, entrada do golfo de Salerno.

14:03 Ponta di Licosa a boreste, alteramos rumo para 025, entrando no golfo de Salerno.

Estamos nos dirigindo para Agropoli, onde há um bom porto e as ruínas gregas em melhor estado na Itália.

Dizem que é também um cidade muito bela e agradável. Será nossa escala antes de Amalfi.

14:43 Chamamos pelo rádio o porto de Amalfi.

A Milena já tinha falado por telefone e disseram que era preciso reservar com antecedência.

Resolvemos entretanto pelo rádio nos identificar como bandeira brasileira, quem sabe um barco de tão longe consegue lugar.

No diálogo, nos disseram para ir hoje, se não houver lugar, nos colocam no cais dos navios grandes.

Alteramos rumo, agora é 322, deixamos Agropoli e suas ruínas para outra vez, deveremos estar na boca do tão famoso porto de Amalfi às 18:00.

16:20 As altas montanhas da costa Amalfitana, brutas e irregulares, mostram suas negras silhuetas.

Esta é conhecida como a mais bela costa da Itália, com penhascos e despenhadeiros despencado-se sobre um mar muito azul.

16:58 Um cardume de golfinhos cruzou a nossa proa, a uns 100 metros.

Mas apenas um se aproximou e nadou um pouco à nosso lado.

A festa durou pouco.

17:18 A aterragem é magnifica. Uma grande nuvem negra está à frente do sol, os raios espalham-se pelo céu azul e fazem os "paesi " brilharem em seus nichos nas encostas das montanhas.

Amalfi, ao nível do mar, é um aglomerado de prédios antigos, numa concha que acaba no mar, no porto onde vamos entrar.

18:30 Estamos ancorados, fora do porto.

O controle nos pediu para aguardar até às 19:30, quando poderíamos entrar, mas estamos tão bem por aqui, na ancora, que pedimos autorização para pernoitar aqui, e nos concederam.

Assim economizamos um bom dinheiro, pois este porto é caro.

Estamos protegidos dos ventos de Oeste até Nordeste, sentido crescente.

O vento previsto é Noroeste, estamos tranqüilos.

19:10 Há muitos barcos transitando, fazem muita marola.

Chamamos novamente por rádio, nos arrumaram um lugar para passar a noite no posto de gasolina.

Atracamos de popa, ao lado de 3 mega iates . O San Marino ficou pequenino, pequenino.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 17, 1999

5:25 Estou trabalhando as amarras para largar.

A noite foi muito mal dormida, o porto mexe muito, os cabos rangem.

5:55 fora da barra

6:05 Toca o alarme de nível de água no porão da casa de máquinas.

Fui verificar, é novamente o selo mecânico.

Desmontei duas vezes, ajustei, agora parece bom outra vez.

Mas descobri a causa do problema.

Ele está correndo no eixo, saindo do ajuste. Reapertei bem, vou colocar, quando puder, um anel retentor a mais

7:27 Ilhas Li Gali em nosso través de boreste

8:06 Passamos muito próximo à ponta Campanela, limite entre o golfo de Salerno e o Golfo de Nápoles.

Em nosso bombordo, também muito perto, Capri, talvez a mais famosa ilha da Itália.

Quando viajávamos em sentido inverso, passamos por fora, agora fazemos o canal entre Capri e o continente.

Não paramos nenhuma das vezes em Capri. Deixamos em nossas lembranças, Capri de 30 anos atrás, que certamente hoje já não é a mesma, tantos os turistas.

O canal, chamado Bocca Piccola, é largo e profundo, mas cheio de barcos de recreio, desde pequenos "gommoni" até imensos Mega Iates.

Muita gente pelada viajando neles. Deu sopa os italianos tiram a roupa,

8:22 Rumo 299, Ischia em nossa proa, vamos passar entre ela e Procida, o canal é mais fácil que perto do continente.

Passamos belos dias em Ischia, na vinda.

10:20 Canal de Ischia

12:25 Um tubarão nada em volta de uma bóia de isopor. Sua nadadeira vertical corta velozmente a água em círculos. Está a uns 20 metros de nós.

13:55 O mar continua calmo e liso. Não faz muito calor, ha sol, um belo dia.

15:30 O monte Circe está bem visível em nossa proa.

Era a casa de Circe, onde Ulisses ficou um ano em sua viagem.

Ela recebeu os homens de Ulisses dando-lhes casa, muita carne de carneiro, vinho e ainda por cima suas belas moças.

Tudo porque Ulisses seguiu à risca as instruções de Hermes, que lhe disse para atacar Circe com sua espada em punho.

Ela ficando aterrorizada, o convidará para sua cama. Aceite os favores da Deusa e ela o ajudará.

É uma montanha de uns 500 metros de altura.

18:00 Estamos atracados.

A marina é uma bagunça, mas os marinheiros nos ajudaram a atracar, fizeram todo o serviço, muito eficientes.

Por excesso de confiança, que é a causa de muitos problemas, entrei errado na barra do porto, sem desculpas, pois ha um banco de areia marcado no pilot book, felizmente com a mínima de 1.6 metros, que não nos faria mal, só toca a quilha.

Ainda bem que o radio estava ligado no canal da marina, e escutei eles conversando entre eles dizendo "ele está indo em cima do banco de areia".

Imediatamente dei reversão, e quando o bote de apoio que mandaram chegou apavorado para me avisar, berrando "mister, mister", já estávamos livres.

Mas a ecosonda chegou a marcar 1.7 metros, isto é, tocamos o fundo com a quilha, mas é de areia, sem perigo.

O San Marino é muito pesado, depois de reverter anda ainda um bom pedaço.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, July 18, 1999

7:55 Novamente navegando, fora da barra, agora pelo canal certo.

Nosso rumo, Santa Marinella, Marina de Odescalchi, próxima ao castelo que pertence ao príncipe de mesmo nome.

Fica nas imediações de Civitavecchia, porto de Roma, cuja construção foi terminada por Michelangelo.

Vamos parar de navegar por uma semana, alugar um carro e visitar nossos amigos na Itália.

8:42 Estamos no rumo 297, mar calmo, sem ventos, dia bonito, 1017 mb, 25 graus.

Deveremos chegar às 18 horas de hoje.

16:06 Temos Fiumicino em nossa aleta de boreste.

A navegação é calma, tranqüila, o mar é bom, ventos fracos.

Há muitos barcos de recreio, veleiros, muita vida de pequenos peixes no mar.

17:50 Atracados, com a ajuda do bote de apoio.

O porto é pequeno mas belo, aberto aos ventos de E, estamos bem na porta da barra.

Um veleiro à nosso lado nos ajuda a passar os cabos, é o Axel, um belo sloop de 17 metros, todo em madeira, como não se constrói mais hoje.

O dono é o Michele, que veio tomar uma cerveja conosco e logo ficamos amigos.

Imediatamente telefonou para sua mulher, e nos convidou para jantar.

Jantamos magnificamente, temos idéias semelhantes e mesmos gostos.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 19, 1999

Hoje fomos nós que convidamos o Michele e a Ada para jantar.

Fomos para Civitavecchia, no La Scaletta, bem no porto.

Vale a pena ir lá. É magnifico.

Um bom branco seco da Sicília (aos pés do vulcão Etna existe uma uva especial para brancos encorpados) acompanhou nosso jantar.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 20, 1999

Estamos preparando o San Marino para deixa-lo só uma semana.Vamos alugar um carro e amanhã cedo saímos para atravessar a Itália, indo até Rimini, no Adriático.

Vamos visitar amigos.

Vamos dormir cedo, nada de jantares hoje.

18:00 Aparecem o Michele e a Ada com uma linda pizza, para comermos como despedida, aqui no San Marino.

não dá para recusar, e é deliciosa.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, July 26, 1999

Estamos de volta. O giro pela Itália foi como sempre muito belo, mas também como sempre voltamos com uns quilos a mais.

O Michele nos esperava, deu uma boa olhado no San Marino, reforçou as amarras pois entrou vento forte, e marcou um jantar amanhã em sua casa, só de ostras.

Como já imaginávamos, passei numa enoteca em San Marino que tem tudo, comprei diversos brancos, um Gavi (Piemonte), um Graves (Bordeaux), um Regaleari (Sicília) e um Tocai Friulano (Friuli), além de um excelente moscato que compramos num restaurante na viagem.

Assim sugeri, ao invés de fazermos um jantar com antipasto, primo, segundo etc., fazemos com diversos vinhos (sempre seguindo a regra de começar com o pior, senão os outros perdem todo o valor)

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, July 27, 1999

Lavar o San Marino outra vez. Está cheio de terra , pois o vento veio do sul, traz areia do Saara.A Milena arrumou por dentro.

À noite jantamos as famosas ostras, que o louco do Michele mandou buscar na França de avião, chegaram hoje pela manhã, lindas, em caixas lacradas de madeira.

Ele abriu todas, se cortou, teve um trabalhão.

Eram 60, para nós 4 mas a babá da filha deles.

Mas antes ele serviu uma peça de salmão defumado e de sobremesa melão com sorvete de melão.

Que jantar, e que bebedeira, foram-se as 5 garrafas de vinho.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, July 28, 1999

Nada de importante hoje, dei uma geral no computador que estava com alguns vícios, barco pronto para partir para a Sardenha, é só esperar tempo bom.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, July 30, 1999

Estamos deixando a Itália, rumo à Córsega

Como sempre, no ultimo dia há coisas para fazer.

Fui comprar umas peças de reposição para o aquecedor de água que é italiano.

Para isto colocamos a moto em terra, não sem incidentes.

Como estávamos longe do alcance de nosso turco, improvisei um sistema de cabos e polias que combinados com nosso guindaste poderia baixar a moto sem problemas.

Mas a polia se quebrou, a moto foi para a água, felizmente só molhou as rodas pois o turco agüentou firme.

Com um pouco de trabalho (e ajuda do Michele que acabou de chegar) a colocamos em terra.

O louco comprou mais 60 ostras francesas, hoje a noite vamos come-las em seu barco.

Ele entregou as ostras para a Milena que as lavou externamente e colocou em nossa geladeira.

20:00 O Michele abre as ostras, eu faço um dry martini bem seco. Comemos tudo com muito vinho, quando percebemos era já meia noite.

Como pretendemos partir às 3 da manhã para atravessar o Tirreno, decidimos não dormir e sair agora mesmo.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, July 31, 1999

01:00 Partimos direto, depois de uma grande noitada.

Rumo 258° , Porto Vecchio.

O Michele e a Ada nos ajudam com as amarras, a Dileta (filhinha do casal) olha satisfeita

A noite é clara, há uma bela lua cheia, o mar de NE, com ondas de 1.5 metros.

Saímos paralelo à costa, que é rasa e merece atenção.

2:43 Estamos já a 10 milhas da costa, Porto Vecchio, Córsega, na nossa proa.

Deveremos chegar às 4 da tarde.

O mar engrossou um pouco, mas nada de especial.

Ha muitos trafico de navios, barcos de pesca.

Um belo veleiro cruza nossa esteira com as velas cheias, iluminadas pela sua luz de mastro.

O vento força 5 deixa-o deitado, pois navega de bolina.

Estamos nos revezando no turno de hora em hora, pois estamos muito cansados, viramos a noite sem dormir.

5:50 Amanhece, a lua continua em nossa proa, o sol nasce na popa.

O mar está desencontrado mas o principal vem pela aleta de popa.

11:00 28 graus, 1012 Mb, dia belo, céu azul.

O mar acalmou, rolamos um pouco, nada demais.

Estamos a 45 milhas da Córsega, o rádio mudou de italiano para francês, mas ainda se escuta a rádio de Cagliari e a de Roma.

12:33 Um grande cardume de golfinhos passa a uns 50 metros de nós, mas não se aproxima para brincar como de costume.

Também às 8 da manhã, quando eu dormia, a Milena viu a mesma coisa.

Parecem pequeninos, filhotes ainda.

4:05 Afinal na Córsega.

Ancorados na baia de Stagnolo, perto de Porto Vecchio.

O local é belo, fundo de boa pega, 3 metros de profundidade, estamos seguros e protegidos de qualquer vento, entre dois veleiros um suíço um francês.

 

LOG ENTRY FOR: Sunday, August 01, 1999

Porto Vecchio é uma cidade encantadora e pouco destruída pelos turistas.

Estamos maravilhados com a Córsega e com esta baía.Mudamos assim nossos planos.

Ao invés de prosseguir para Gibraltar este ano, vamos invernar na Córsega.

Durante agosto vamos girar por aqui, pelo norte da Sardenha, curtir este mar doce e transparente, suas gentes e suas comidas.

Estamos também cansados de navegar.

Desde Creta, foram 31 portos, mais de 2700 milhas de navegação.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, August 02, 1999Continuamos ancorados, vivendo a vida do mar, indo eventualmente à terra no Flexboat, confraternizando com os vizinhos, que hoje são uma lancha a motor de 36 pés italiana à nossa popa, o Nina, um veleiro alemão de 57 pés a nosso boreste, um pequeno veleiro francês a bombordo que fundeou agora, e um outro, 35 pés em nossa proa. Tudo isto com o vento Leste que sopra agora. Mudando o vento, todo mundo gira, mas há uma boa distancia.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, August 04, 1999

Decidimos mudar de baia, estamos muito longe da cidade, quando o mar bate fica difícil ir de inflável, principalmente à noite.

Mudamos mais para o sul, perto da cidade, ao sul da ilha Ziglione.

Há muitos barcos por aqui, mais de 50, mas há também muito espaço.

Vamos dormir esta noite por aqui, se gostarmos continuamos.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, August 06, 1999

Porto Vecchio é mesmo encantadora.

O porto, com uma série de pequenos e exclusivos restaurantes e bares, é ligado à vila por uma estrada íngreme.

Há um pequeno trem sobre pneus que a cada 15 minutos faz o trajeto, mas normalmente subimos a pé.

Porto Vecchio fica no fundo da baia do mesmo nome, é a terceira cidade da Córsega.

A cidade foi fundada em 1539 pela companhia genovesa Saint Georges, que colonizava a Córsega nessa época.

As fortificações genovesas estão bastante bem conservadas, e da porta Genovesa se tem uma bela vista do golfo.

Na vila, bares, restaurantes, pequenas lojas, tudo de muito bom gosto sem sofisticações exageradas.

A vida na cidade é calma e agradável e nós, sem cerimonia, nos integramos nela.

Tomo meu café no bar Beaux Arts, a Milena compra os jornais da região na banca atras da igreja, vamos ao correio, à "boulangerie", e o San Marino nos espera ancorado, na baia.

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, August 10, 1999

09:00 Belo dia, vamos passa-lo no barco, arrumando nossas coisas pessoais.

11:00 Fomos visitados pela alfândega, que chegaram de inflável, de bermudas.

Dois rapazes e uma moça.

Examinaram todos os documentos, tudo em ordem, foram embora, não sem antes perguntarem detalhes de nossa viagem.

17:00 Entra de repente uma forte rajada de NW.

Estávamos esperando ventos fortes de NW desde ontem, mas a previsão era força 5.

Entrou força 7, e se manteve por 4 horas seguidas, com rajadas fortes.

Quase todos os barcos que estavam ancorados aqui, garraram com suas ancoras.

Eram mais que 50. Somente três ficaram onde estavam, nós entre eles, felizmente.

Dois foram para na terra, encalhados, mas foram prontamente socorridos por lanchas e voltaram a ancorar.

Um pequeno barco a motor afundou.

Do outro lado da baia, um catamaran ficou totalmente fora d’água, na praia.

De resto, foi uma confusão geral, muita gente berrando, todos com o motor ligado por precaução ou para procurar jogar novamente o ferro, de modo mais seguro.

O que acontece nesta baia (que é muito rasa, aqui é 3.5 metros) é que o fundo é de lama mole, coberto por uma camada espessa de vegetação entrelaçada.

Quando cheguei, joguei primeiro a ancora CQR, que penetra na vegetação e atinge a terra com facilidade.

Dei ré nos motores e a CQR correu. É que a CQR não é boa em fundo de lama mole.

Recolhi e joguei a Fortress, que tem dificuldade em penetrar a vegetação.

Mas como ela é grande, suas pontas afiadas chegaram à lama, onde ela trabalha melhor que qualquer outra.

Assim, estamos firmes, apesar do fundo difícil.

Com os outros, que ancoraram para ficar uma noite, e certamente não se deram ao trabalho de verificar se o ferro pegou bem, o ferro só tinha unhado na vegetação, que com o vento forte se rompeu e todo mundo garrou.

22:00 Subi com o guindaste, mesmo no escuro e com forte vento, o Flexboat que estava na água ha uma semana.

Ele nos tira a mobilidade se for necessário rapidamente sair daqui.

É que a previsão promete temporal força 9 para esta noite.

Vou dormir no pilot house, pronto para ligar os motores se necessário.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, August 11, 1999

7:00 A noite foi calma. A previsão erra e erra.

11:00 Volta o vento, força 5 agora. A previsão é de tempestades nos próximos 3 dias. Espero que eles continuem errando.

Nossa dúvida é: saímos daqui, voltamos para a baia onde estávamos (protegida do NW) ou continuamos onde nossa ancora já provou que pegou bem.

13:30 O dia está lindo, facilitou acompanhar o eclipse, que aqui não é total, mas quase.

Usei o sextante ( que depois do GPS virou peça de museu, mas mantenho a bordo para uma emergência) para acompanhar o fenômeno raro, pois possui filtros próprios para se observar o sol.,

Diz um amigo que entende da coisa, que basta uma explosão nuclear na atmosfera (que até o Paquistão pode fazer) para haver um bloqueio total das ondas que emitem os satélites controladores do sistema GPS.

Valeu, foi um espetáculo inesquecível.

16:00 Resolvemos mudar de baia, vamos para Stagnolu novamente, procurar um local mais protegido dos fortes ventos previstos.

22:00 Vou passar a noite no Pilot House, há muito vento, é preciso atenção.

Se o ferro correr preciso rapidamente ligar os motores para evitar encalhar na praia.

 

LOG ENTRY FOR: Thursday, August 12, 1999

Deixamos novamente a baia de Stagnolu, vamos ancorar perto da cidade , agora bem ao sul, pois esperamos ventos muito fortes de sul, sudoeste ou oeste esta tarde e esta noite.

Ao subir o ferro, fiz uma experiência mal sucedida.

Li em uma revista, que uma vez o ferro bem firme, pode-se reduzir a quantidade de corrente, pois o mesmo não se solta mais.

Como as ancoragens andam cheias isto é uma boa coisa, pois reduz a possibilidade de colisão. Recolhi 20 meros de corrente, ficando só com 10 em fundo de 4 metros.

Dei ré com força nos motores, para ver se o ferro garrava.

Não garrou, mas o cabrestante girou livre em reverso devido ao tranco, e parou de funcionar.

Deixei o barco onde estava, aparentemente bem preso, e fui consertar o defeito.

Enquanto trabalhava nos cabrestantes, a Milena correu a me avisar que estávamos quase na praia.

O ferro depois do teste soltou, e quase encalhamos.

Liguei os motores, voltei para fora e joguei nossa outra ancora que pegou firme.

Consertei o defeito, substituindo o motor elétrico, que ficou totalmente destruído na área das escovas, devido ao excesso de rotação.

13:00 Estamos já ancorados perto do porto, em fundo de 5 metros, lama, boa pega.

Há muitos barcos em torno, um deles o Elefteria, de Cincinatti, USA.

São nossos amigos Alex e Sally, que conhecemos em Chioggia, e estão também como nós há 4 anos no mediterrâneo.

Pulei nágua e fui nadando até lá.

Grande festa, eles vieram a nosso barco para um aperitivo e à noite jantamos juntos.

O Alex é escritor, com um best seller sobre finanças no Canadá e Estados Unidos, a Sally é psicóloga e está também escrevendo um livro.

Eles viajam num lindo Hans Christian de 40 pés.

 

LOG ENTRY FOR: Friday, August 13, 1999

9:00 Hoje chegam a Loli e a Leda, duas amigas brasileiras que estão viajando pela Europa e vem nos visitar.

Pegamos a Sally no Eleftería e fomos para a cidade fazer compras.

Voltamos com vento forte, água espirrando nas duas no inflável, cheio de pacotes.

Voltaremos mais tarde para pegar a Loli e a Leda, que devem chegar às 4 da tarde.

19:00 O vôo atrasou, elas só chegaram agora.

Mas fizeram boa viagem, que é o importante.

Estão muito cansadas, vamos cancelar o jantar que tínhamos programado junto com o Alex e a Sally, no La Marine, onde comemos um excelente magret de canard.

Muitas saudades, muitas historias para ouvir e contar, como a vida é boa nos reencontros.

 

LOG ENTRY FOR: Saturday, August 14, 1999

Descanso o dia todo para as viajantes, que ninguém é de ferro.

A noite jantamos com a Sally e o Alex, mais a Loli e a Leda no La Marine, para comer o famoso pato.

Estava como sempre ótimo, e a noite acabou no barco do Alex, que nos ofereceu Pastis, e musica interessante, Cole Porter cantado por ele mesmo.

 

LOG ENTRY FOR: Monday, August 16, 1999

15:00 A Milena voltou da cidade com a decisão de mudarmos de baia.

Vamos preparar tudo correndo e partir para o Golfo de Sta Amanza, a 18 milhas daqui.

15:30 Estamos navegando, rebocando o flexboat. O ferro subiu com muita lama e vegetação, estava bem firme.

16:43 Ha muitos barcos no mar, está um pouco picado e viajamos devagar, a 6 nós porque o flexboat vai rebocado.

Espero ancorar às 7 da noite.

Ilha Forana a nosso bombordo.

18:00 O mar bate pesado de través, rolamos muito há mais de uma hora.

Estou nas boca da baia, mas não posso entrar ainda pelo estado do mar. Daqui a uns 15 minutos vou girar 90 graus e entrar

18:16 Rumo 255, mar pela aleta de popa de bombordo, estamos no rumo para o fundo da baia onde vamos ancorar.

O San Marino navega bem com mar de popa, o flexboat está também mais aliviado.

19:00 Foi difícil ancorar, o ferro Fortress não pegou por duas vezes, grama com areia em baixo.

O CRQ pegou bem em seguida.

O vento está forte , agora é norte, está girando, a previsão é SW durante a noite, força 5, mais uma noite a ser dormida no Pilot House

 

LOG ENTRY FOR: Tuesday, August 17, 1999

9:00 Todo mundo de pé, vamos voltar para Porto Vecchio, pois o vento atrapalha nossos planos não dá para ir hoje para Bonifácio.

9:15 motores ligados.

Foi difícil subir o ferro.

O barco que ancorou a nosso lado, (muito perto como sempre por aqui) estava em cima de nosso ferro.

Pedi que ligasse os motores e se deslocasse um pouco e não nos atendeu.

Então decidi sair assim mesmo (o direito em ancorar está com quem ancorou antes), se bater bateu.

Temos um grande e forte verdugo de madeira, a nos nada sucede, eles são um belo e novíssimo brinquedo de plástico de 20 metros, reluzente, vamos ver quem sofre.

Quando cheguei perto os marinheiros se assustaram e correram para pegar as defensas , foi muito divertido.

Um pouco mais de trabalho e o ferro subiu.

9:48 estamos no rumo, voltando para Porto Velho

11:45 Estamos ancorados, em Stanoglu, o pessoal quer nadar.

17:45 Ancorados outra vez perto do porto, vamos pernoitar por aqui.

 

LOG ENTRY FOR: Wednesday, August 18, 1999

Entramos na marina de porto Vecchio pela manhã.

Havia um pouco de vento, a vaga era menor que nós, mas entramos bem, forçando com nossas 65 toneladas os barcos ao lado para aumentar nossa vaga.

A marina está repleta.

Um bote nos ajudou com a amarra de proa, que está fixa em uma poita, cuja anel onde nosso cabo está amarrado, para mim é duvidoso, mas a marina garante.

A Leda e a Loli se despedem, um taxi vem busca-las, elas voltam à Barcelona, cidade que tantas lembranças boas nos trás.